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Entre a História e a “Conserva”: o Cristianismo Evangélico e Seu Impacto no Mundo (6)

10. Dignidade humana, casamento e família

            Como temos visto em forma de um pálido esboço, o Protestantismo  não apenas reformulou aspectos teológicos da fé cristã, mas também exerceu influência decisiva sobre a organização social e cultural especialmente do Ocidente.

A doutrina bíblica de que o ser humano foi criado à imagem de Deus (Gn 1.27) elevou o conceito de dignidade humana, estabelecendo limites éticos e promovendo respeito à vida. Essa visão repercutiu diretamente na valorização do casamento, da família, da mulher e da criança, moldando costumes e legislações.

A análise histórica da Escola dos Annales, ao estudar as transformações da família, permite compreender como tais ideias se consolidaram socialmente e se tornaram pilares da cultura ocidental. Pesquisadores como Philippe Ariès (1914-1984), Georges Duby (1919-1996), Michelle Perrot e Emmanuel Le Roy Ladurie (1929-2023) mostraram que a família, a infância e o papel da mulher são construções históricas que refletem valores religiosos e culturais

            A. O casamento como instituição sagrada

                        Os reformadores protestantes reafirmaram o matrimônio como instituição sagrada, monogâmica e indissolúvel. João Calvino denunciou a proibição do casamento aos pregadores da Palavra como obra diabólica, afirmando que negar o matrimônio era “blasfêmia infernal”.[1]  Para ele, o matrimônio é um vínculo sagrado, repudiando a poligamia como “vil e detestável”.[2] Cristo, ao honrar uma festa de núpcias com sua presença e realizar ali seu primeiro milagre, referendou de forma contundente o casamento.[3]

Essa perspectiva reformada não apenas resgatou o valor bíblico do matrimônio, mas também estabeleceu um paradigma social que influenciaria profundamente a cultura ocidental, moldando leis, costumes e práticas familiares.

Essa compreensão consolidou o casamento como reflexo da união entre Cristo e a Igreja (Ef 5.25-32), conferindo-lhe caráter espiritual e social.  Georges Duby, em O Cavaleiro, a Mulher e o Padre,[4] analisou como a Igreja medieval moldou o casamento como sacramento e instrumento de controle social. Ao mesmo tempo, mostrou que a mulher ocupava papel ambíguo: mediadora de alianças e transmissora de heranças, mas também alvo de discursos que buscavam subordiná-la. Essa tensão revela como o matrimônio foi central na organização da sociedade medieval, confirmando que o casamento sempre esteve no coração da vida comunitária e religiosa.

O Protestantismo, ao recuperar a visão bíblica, deu nova dignidade ao matrimônio e à mulher, em contraste com visões que ora a exaltavam, ora a subordinavam.

            B. A família como guardiã da fé e da cultura

                        No pensamento protestante, a família é mais que um núcleo social: é o espaço central da transmissão da fé e da preservação dos valores cristãos. Kuyper (1837-1920) lembrava que, mesmo após a Queda, casamento e família manteriam sua existência, pois já estavam presentes no paraíso.[5]  

            Desde a tradição judaica, a família sempre desempenhou papel fundamental na educação e na transmissão da fé. Os pais eram os primeiros responsáveis pela instrução dos filhos, ensinando-lhes os grandes feitos de Deus na história (Pv 22.6; Sl 34.11). Essa educação preventiva e orientadora era constante, e mesmo quando amas ou tutores eram introduzidos, a família permanecia como núcleo essencial da formação.

O Antigo Testamento mostra exemplos como Noemi, que cuidou de Obede, avô de Davi (Rt 4.16-17), ou a ama de Mefibosete (2Sm 4.4). O apóstolo Paulo, em suas cartas, reforça essa visão ao chamar a Igreja de “família de Deus” (Ef 2.19).

Hendriksen (1900-1982) corrobora essa ideia ao afirmar que nenhuma instituição é tão sagrada e básica quanto a família, pois dela depende a saúde da igreja, da nação e da sociedade.[6] Assim, a família torna-se a primeira escola de valores, e sua fragilidade repercute inevitavelmente na desintegração social.

Pesquisadores da Escola dos Annales demonstraram que a família é instrumento essencial de socialização primária.[7]  Essa percepção encontra respaldo em estudos contemporâneos: pesquisas do Pew Research Center, AEI-Brookings e Institute for Family Studies[8] mostram de forma consistente que crianças oriundas de lares estáveis apresentam melhor desempenho escolar, maior equilíbrio emocional, menor vulnerabilidade socioeconômica e menor propensão à criminalidade.

Esses achados oferecem respaldo empírico atual à intuição reformada apresentada no capítulo: a família, como guardiã da fé e da cultura, permanece fundamental para o desenvolvimento integral das crianças − tanto em termos educacionais quanto emocionais e sociais.

Ariès, em História Social da Criança e da Família,[9] mostrou que a família moderna se transformou em espaço de intimidade e afetividade, confirmando que a transmissão de valores e fé sempre esteve ligada ao lar. Ladurie, em Montaillou,[10] analisou como a vida comunitária e familiar era o núcleo da religiosidade e da cultura popular medieval.

Graham (1918-2018) observou que o vazio existencial do homem só pode ser preenchido pela comunhão com Deus.[11] Esse vazio, quando não preenchido, repercute na desintegração da vida familiar e social. Por isso, a família cristã é chamada a ser espaço de plenitude espiritual, onde o amor, a disciplina e a fé moldam gerações.

Lewis (1898-1963) reforçou que não existem “pessoas comuns”: cada ser humano é imortal e, portanto, a família é o primeiro lugar onde essa dignidade deve ser reconhecida e cultivada.[12]

            C. A mulher e sua dignidade

                        O Protestantismo, ao afirmar que homens e mulheres foram igualmente criados à imagem de Deus, reforçou a dignidade da mulher.  Packer (1926-2020) lembra que Deus une corações no casamento,[13]  e Lloyd-Jones (1899-1981) acrescenta que apenas casais cheios do Espírito podem experimentar a verdadeira paz e unidade conjugal.[14]
Henry (1662-1714) expressa essa visão de forma poética: a mulher não foi criada da cabeça do homem para dominá-lo, nem de seus pés para ser subjugada, mas de seu lado para ser igual, debaixo de seu braço para ser protegida e junto ao coração para ser amada.[15]

A criação da mulher como “auxiliadora idônea” (Gn 2.18) revela a ideia de complemento. O rabino Cassuto (1883-1951) descreveu poeticamente: “Assim como a costela se encontra no lado do homem e lhe é anexa, da mesma forma a boa esposa, a costela de seu esposo, fica a seu lado para ser sua auxiliadora-contraparte, e sua alma está ligada a dele”.[16]

O termo hebraico ‘ezer (“auxiliadora”) não diminui a mulher, mas a eleva, pois é usado para descrever o próprio Deus como socorro do homem (Sl 121.1-2). A palavra neged (“idônea”) indica correspondência e complementaridade. Assim, homem e mulher são iguais em dignidade, ambos criados à imagem de Deus (Gn 1.27), chamados a viver em comunhão e a refletir juntos a glória divina.

A historiografia moderna também confirma a centralidade da mulher e da família na cultura ocidental. A coleção História das Mulheres no Ocidente, organizada por Georges Duby e Michelle Perrot  em cinco volumes,[17] mostrou como a mulher foi historicamente invisibilizada, mas também como desempenhou papel central na vida privada e familiar. Essa obra, fruto da tradição dos Annales, reforça que a dignidade e o papel da mulher não podem ser compreendidos fora do contexto da família e da transmissão cultural.

Essa análise dialoga com a visão bíblica de que a mulher é igual em dignidade, criada à imagem de Deus, chamada a viver em comunhão e complementaridade com o homem. Assim como a historiografia revela a importância da mulher na vida privada e comunitária, a teologia protestante reafirma que sua missão é inseparável da preservação da fé e da cultura, sendo companheira idônea e corresponsável na formação de gerações e na sustentação da sociedade.

            D. Dignidade humana e imagem de Deus

                        A doutrina da imago Dei ocupa lugar central na ética protestante. Bavinck (1854-1921) lembra que, embora todas as criaturas revelem traços de Deus, apenas o ser humano foi criado como sua imagem.[18] Spurgeon (1834-1892) acrescenta que, ao ser confrontado pelo Espírito Santo, o homem percebe quão distante está dessa semelhança.[19]

Pascal descreveu poeticamente o homem como “um caniço pensante”: frágil diante do universo, mas consciente de sua condição.[20] Essa tensão entre grandeza e miséria encontra solução na regeneração em Cristo, que restaura a imagem divina perdida na Queda.


Schaeffer (1912-1984) reforça que, ao contrário do existencialismo, o Cristianismo vê o homem não como um “zero à esquerda”, mas como criação maravilhosa de Deus ainda que rebelada contra Ele.[21] Essa visão fundamenta práticas de solidariedade, perdão e amor ao próximo, essenciais para a vida familiar e comunitária.

 Le Goff (1924-2014), em A Civilização do Ocidente Medieval,[22] mostrou como a infância e a educação eram moldadas por valores religiosos, reforçando que a dignidade humana sempre esteve ligada à fé e à cultura.

            E. A família como fundamento da sociedade

                        A preservação da sociedade depende da preservação da família, pois é nela que se formam os valores que sustentam a vida comunitária.

Como afirmou Lloyd-Jones, o homem é “o auge da grande obra da criação de Deus”,[23] e a família é o espaço onde essa dignidade é reconhecida e transmitida.

Sem famílias fortes, a sociedade se fragmenta. A família cristã, ao cultivar fé, disciplina e amor,[24] torna-se fiel depositária da cultura e da ética, preservando a dignidade humana e garantindo a continuidade dos valores que sustentam a vida comunitária.

Lebrun (1923-2013), em La vie conjugale sous l’Ancien Régime,[25] mostrou como o casamento e a vida conjugal eram centrais para a organização social e religiosa da França pré-revolucionária. Pierre Goubert (1915-2012), em Familles et fortunes,[26] analisou como famílias camponesas e burguesas moldavam a vida econômica e cultural.

A integralidade do homem como ser criado por Deus encontra sua expressão mais plena na família. Como observou Kline, “o ser total do homem encontra o significado e a realização de sua própria existência em seu mais alto grau da comunhão com outros”.[27] A família, portanto, é o lugar onde o homem se realiza como ser relacional, refletindo a imagem de Deus em sua sociabilidade e comunhão.[28]

Considerações pontuais

O Protestantismo reafirmou o casamento como instituição sagrada e promoveu uma visão integral da dignidade humana, fundamentada na criação à imagem de Deus. Essa teologia influenciou a valorização da família, da mulher e da criança, moldando práticas sociais e culturais que perduram até hoje.

A fé reformada não apenas renovou a espiritualidade, mas também humanizou a cultura ao fundamentar a ética comunitária na dignidade e no respeito. A família, guardiã da fé e dos valores cristãos, permanece como alicerce da sociedade, transmitindo herança espiritual e moldando gerações. Assim, o Protestantismo oferece uma antropologia que une transcendência e história, eternidade e temporalidade, dignidade e fragilidade, moldando uma visão que continua relevante para os desafios contemporâneos.

Maringá, 08 de Março de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] João Calvino, Sermões em Tito, Brasília, DF.: Monergismo, 2022, p. 64  (Edição do Kindle).

[2] João Calvino, Sermões em Tito, Brasília, DF.: Monergismo, 2022, p. 63  (Edição do Kindle).

[3]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 2.11),  p. 94-95.

[4]Georges Duby, O Cavaleiro, a Mulher e o Padre, São Paulo: Fundação Editora Unesp., 2022.

[5] Abraham Kuyper,  Sabedoria & Prodígios: Graça comum na ciência e na arte,  Brasília, DF.: Monergismo, 2018, p. 34

[6]William Hendriksen, Exposição de Efésios, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef 5.22), p. 308.

[7] A socialização pode ser entendida como “o processo pelo qual uma pessoa internaliza as normas do grupo em que vive, de modo que surja um ‘eu’ distinto, único para um dado indivíduo” (Paul B. Horton; Chester L. Hunt, Sociologia, São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1980, p. 77). De forma mais específica, a socialização primária corresponde à primeira experiência do indivíduo na infância, enquanto a socialização secundária diz respeito a processos posteriores que o introduzem em novos setores da realidade social (P. Berger; T. Luckmann, A Construção Social da Realidade, 5. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1983, p. 128).

Toda sociedade possui um código moral, e para que haja regularidade na vida comunitária é necessário que os indivíduos se conformem a esse código (Cf. Melville J. Herskovits, Man and His Works: The Science of Cultural Anthropology, New York: Alfred A. Knopf, 1948, p. 77).

[8]Veja-se também: Institute for Family Studies, “Children First: Why Family Structure and Stability Matter for Children”, disponível em: https://ifstudies.org/blog/children-first-why-family-structure-and-stability-matter-for-children (acessado em 08.03.2026).

[9]O que temos em português é uma tradução da edição abreviada em francês (1975). A obra completa foi publicada originalmente em 1960 (Philippe Ariès, L’Enfant et la Vie familiale sous l’Ancien Régime, Paris: Plon, 1960). A que disponho é: História Social da Criança e da Família, 2. ed. Rio de Janeiro: LTC., 2006).

[10]Emmanuel Le Roy Ladurie, Montaillou, povoado Occitânio, 1294-1324,  São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

[11] Billy Graham, Em Paz com Deus, Rio de Janeiro: Record, © 1984, p. 19.

[12]C.S. Lewis, Peso de Glória, 2. ed.  São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 23.

[13]J.I. Packer,  O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus,  2005, p. 105.

[14]D.M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito: No Casamento, no Lar e no Trabalho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 21.

[15]Matthew Henry, Commentary on The Whole Bible, v. 1, Albany, OR: Ages Software, 2000 (CD-ROM), p. 58-59 (Gn 2.21–25).

[16] U. Cassuto,  A Commentary on the Book of Genesis. Part 1: From Adam to Noah.  Jerusalem: The Magnes Press, 1961, (Gn 2.21), p. 164.

[17]Georges Duby; Michelle Perrot (orgs.), Histoire des femmes en Occident, Paris: Plon, 1991-1992, 5v. [Tradução portuguesa publicada nos anos 1990 por Afrontamento (Portugal) e Ibrasa (Brasil); obra rara, com exemplares completos em sebos especializados a partir de US$ 350].

[18]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, v. 2,  São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 564.

[19]Cf. C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo, Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 40-41.

[20]Blaise Pascal, Pensamentos, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 16), 1973, VI.347. p. 127-128.

[21]Francis Schaeffer, A Obra Consumada de Cristo, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 73–74; idem, Morte na Cidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 60-61. 

[22]Jacques Le Goff,  A Civilização do Ocidente Medieval. Bauru, SP.: EDUSC., 2005.

[23]D.M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo, Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 72.

[24] Fuchs (1932–2023) inicia seu artigo afirmando: “A ideia de qualificar as relações interpessoais pelo amor é manifestamente uma invenção cristã” (Érich Fuchs, Amor Familiar e Conjugalidade, in: Monique Canto-Sperber, org., Dicionário de Ética e Filosofia Moral, São Leopoldo, RS: Editora Unisinos, 2003, v. 1, [p. 81-84],  p. 81). Para um aprofundamento de suas ideias − nas quais sustenta que o amor cristão não se restringe à esfera privada do casal, mas possui implicações sociais e comunitárias, e que a ternura, vivida no matrimônio, torna-se testemunho público da dignidade humana e da fidelidade de Deus − veja-se: Érich Fuchs, Désir et tendresse: sources et histoire d’une éthique chrétienne de la sexualité et du mariage, Genebra: Labor et Fides, 1979.

[25]François Lebrun, La vie conjugale sous l’Ancien Régime, Paris: Armand Colin, 1975.

[26]Pierre Goubert, Familles et fortunes. Paris et ses campagnes au XVIIe siècle,Paris: Plon, 1962.

[27]Frank J. Kline, Família: In: Carl F. H. Henry, org. Dicionário de Ética Cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 297.

[28] Plantinga escreve de forma sensível: “Se elas (famílias] funcionam bem, tornam-se um microcosmo do reino de Deus, predispondo-nos à fé, à esperança e ao amor; e nos ensinando a paciência, suprindo a nossa memória com lembranças boas o suficiente para nos confortar numa noite solitária” (Cornelius Plantinga Jr., O Crente no Mundo de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 115).

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