Entre a História e a “Conserva”: O Cristianismo Evangélico e Seu Impacto no Mundo (1)
Introdução
Desde os seus primórdios, o Cristianismo exerceu influência decisiva na formação cultural, social e política do Ocidente. A Reforma Protestante, no século XVI, reafirmou a centralidade da Escritura, a justificação pela graça mediante a fé e a responsabilidade comunitária − valores que transbordaram do âmbito religioso para a saúde, a educação, a ciência, a liberdade civil e a justiça social, deixando marcas profundas na história da humanidade.
Na cultura popular brasileira, especialmente no período carnavalesco, com seu espírito jocoso e irreverente, não é raro que os evangélicos se tornem alvo de sátiras. Em tempos idos, até cães no Rio de Janeiro recebiam nomes de missionários presbiterianos − zombaria que revela tanto o engenho quanto a malícia da imaginação popular.
Mais recentemente, a metáfora das “latas de conserva” passou a ser usada, de modo depreciativo, para retratar uma fé rígida ou ultrapassada. Trata-se de uma ironia involuntariamente financiada pelos impostos de milhões de protestantes e evangélicos, destinada a ridicularizar a preservação de valores espirituais em meio a uma sociedade marcada pela fluidez e pelo relativismo − relativismo que, diga-se de passagem, chega a se expressar até no uso parcimonioso de tecido em certas vestimentas festivas.
Todavia, a própria Escritura ensina que conservar não é estagnar, mas permanecer fiel. Paulo exorta Timóteo: “Guarda o bom depósito, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1.14). Judas, por sua vez, conclama os crentes a “lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). A metáfora bíblica da conservação aponta para a responsabilidade de manter intacto o evangelho recebido, protegendo-o de corrupções e distorções.
Assim, aquilo que a sátira carnavalesca ironiza como “conserva” encontra respaldo teológico profundo: conservar a fé é preservar o tesouro da revelação divina, mantendo viva a tradição apostólica e transmitindo-a às futuras gerações.
O cristão é chamado a ser guardião da verdade, não por medo do novo nem por mero apego ao passado, mas por compromisso com o eterno. Nesse sentido, a ironia cultural pode ser ressignificada: se somos “latas de conserva”, é porque guardamos o que é precioso, incorruptível e essencial para a vida. Como afirma Pedro, “a palavra do Senhor permanece para sempre” (1Pe 1.25).
Esta série de reflexões − apenas chuleadas, como uma barra de calça jeans deixada por fazer, inacabada e um tanto assistemática − que inicialmente pretendia ser um simples artigo, acabou se expandindo. Por isso, decidi dividi-la em partes, considerando também a necessidade de uma pausa por motivos médicos já previstos.
O texto foi elaborado à luz de acontecimentos recentes que, de diferentes formas, têm buscado omitir ou descaracterizar a fé cristã − sobretudo a evangélica − tradição da qual faço parte como protestante. A intenção não é polemizar, mas oferecer uma meditação que reconheça a relevância histórica e teológica do protestantismo, bem como sua contribuição contínua para a vida intelectual, cultural e espiritual.
Como já adverti, não se trata de um tratado acadêmico exaustivo, mas de uma meditação que nasce da memória e, por vezes, recorre a dados e referências para maior precisão.
Escrevo não como um cronista imparcial que pretende abarcar todas as vertentes, mas como alguém que fala a partir de dentro, da vivência e da pertença. Afinal, toda história é, em alguma medida, autobiográfica: mesmo quando se busca objetividade, o olhar carrega consigo a marca indelével da própria trajetória.
O que aqui se apresenta não é uma síntese universal, mas o testemunho de uma memória que se entrelaça com a tradição protestante e que, ao narrar, inevitavelmente revela o sujeito que narra.
A imparcialidade absoluta, tão almejada pelo discurso acadêmico, talvez seja uma ilusão necessária; mas a honestidade intelectual exige reconhecer que cada reflexão nasce de um lugar, de uma experiência e de uma fé que moldam tanto o conteúdo quanto o tom da escrita.
Maringá, 18 de fevereiro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Excelente artigo.
Parabéns Rev. Hermisten, mestre por quem tenho profunda admiração.