A Pessoa e Obra do Espírito Santo (80)

B) Firma os nossos passos

 Firma os meus passos na tua palavra”, ora o salmista (Sl 119.133).

    Um dos valores fundamentais do ser humano, é a sua segurança. Neste sentido, ele revela o senso de preservação da vida. O homem preza extremamente a sua segurança pessoal. Embora, muitas vezes, paradoxalmente, neguemos este princípio com práticas que põem em risco a nossa segurança e a de nossos familiares. Todavia, o senso de preservação é inerente ao ser humano. Os nossos reflexos apontam nesta direção.

    Analisando um outro aspecto da palavra segurança, podemos observar que, quando estamos inseguros em relação a uma decisão que temos que tomar, ou mesmo em realizar determinadas tarefas, tudo se torna mais difícil…  A insegurança e o medo criam fantasmas em nossas mentes, fazendo-nos olhar com lentes de aumento os problemas e, ao mesmo tempo, a ver as nossas possibilidades com pessimismo: os nossos problemas se configuram de forma mais grave do que a realidade e os nossos recursos se mostram menores do que de fato são.

    É bem conhecida a observação feita por Dom Quixote  ao seu leal amigo e escudeiro Sancho: “O medo que tens é que faz, Sancho, que nem vejas, nem ouça às direitas, porque um dos efeitos do medo é turvar os sentidos, e fazer que pareçam as coisas outras do que são”.[1]

    Por certo, todos nós já nos deparamos com situações que nos deixam inseguros.  Isso contribui para a acarretar a nós um estado de perplexidade e, com frequência, tendemos – talvez até por um instante apenas –  a nos esquecer de Quem é o nosso Deus.

    Quando isso ocorre, nos sentimos previamente derrotados. A Palavra de Deus é um meio de santificação, porque ela nos mostra como Deus nos firma os passos, nos conferindo segurança. Quando somos obedientes a Deus e à sua Palavra, não temos do que temer. Caminhar nos trilhos da Palavra é um motivo mais do que suficiente para a nossa segurança.  Analisemos alguns exemplos bíblicos:

    a) JOSUÉ, quando foi assumir de fato a liderança do povo de Israel, sabia das dificuldades que encontraria. Afinal, ele labutou com Moisés durante toda a caminhada de quarenta anos no deserto, viu toda aquela geração que partiu do Egito morrer no deserto, devido à sua própria desobediência.

     Essa peregrinação  no deserto foi um teste para o povo, a fim de que aqueles que entrassem na terra prometida tivessem uma fé mais viva e sólida nas promessas de Deus.

Antes de Israel entrar na terra prometida, Moisés relembra ao povo as bênçãos de Deus, durante os anos no deserto – lembremo-nos que de todos aqueles que saíram do Egito, com mais de vinte anos, apenas Josué e Calebe entraram na terra de Canaã; todos os outros que entraram nasceram no deserto. (Nm 14.28-30).

Em determinado momento, ele diz:

Recordar-te-ás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. (Dt 8.2). (Vejam-se também: Ex 20.20; Dt 8.16; 13.3; Jz 2.22).

     Josué, portanto, conhecia o seu povo e, por certo, tinha em mente que a sua jornada não seria nada fácil, tendo como uma de suas primeiras missões, dentro de três dias, atravessar o rio Jordão  (Js 1.11) e, em breve, conquistar a cidade de Jericó.

    No momento em que ele assumiu a liderança, Deus lhe diz:

Tão-somente sê forte e mui corajoso, para teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para que sejas bem sucedido por onde quer que andares. Não cesses de falar deste livro da lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo a tudo quanto nele está escrito; então farás prosperar o teu caminho e serás bem sucedido. Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares. (Js 1.7-9).

    Sob a Palavra de Deus, Josué foi, e quando o povo se preparava para atravessar o rio Jordão, ele disse: “Santificai-vos, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vós” (Js 3.5). Aqui está o exemplo de um homem que confiava na Palavra de Deus, tendo os seus pés firmados nela.

    b) DAVI, analisando o circunstancial progresso e felicidade dos ímpios, fala a respeito do caminho dos justos, realçando a sua firmeza na Palavra de Deus.“No coração tem ele a lei do seu Deus; os seus passos não vacilarão” (Sl 37.31).

    Meus irmãos, enquanto seguirmos a lei de Deus poderemos caminhar seguros. A Palavra de Deus firma os nossos passos. Davi narra a sua experiência:  “Esperei confiantemente pelo Senhor; Ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, dum tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos” (Sl 40.1-2). 

    Por isso, em outro lugar, ele pôde dizer: “Firme está o meu coração, ó Deus! Cantarei e entoarei louvores de toda a minha alma” (Sl 108.1).

     Calvino acentua: “Tudo estará bem com os devotos servos de Deus, cuja incansável diligência é fazer progresso no estudo da lei divina”.[2]

    c) ASAFE, o salmista, apresenta um quadro ilustrativo da sua vida.   Ele nos conta que quando os seus olhos começaram a se deslocar da contemplação da bondade de Deus para a caminhada dos arrogantes, invejando a prosperidade e aparente calma dos perversos (Sl 73.2-12), “quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos” (Sl 73.3). Até que entrou no santuário de Deus e despertou do fascínio do progresso do ímpio que é ilusório e passageiro, e reconheceu:  “Todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita. Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória (…). Deus é a fortaleza do meu coração” (Sl 73.23,24,26).

    Quando tiramos os nossos olhos de Deus e da sua Palavra, tornamo-nos presas fáceis das armadilhas de nossas paixões. Devemos ser guiados pelo conselho de Deus, que é a fortaleza de nosso coração. Jamais devemos permitir que os nossos olhos se desviem dos preceitos de Deus, porque senão os nossos pés vacilarão, seguiremos caminhos tortuosos, cujo fim é a morte (Pv 14.12; 16.25. Vd. Pv. 16.9; 20.24).

    d)  PAULO se constitui num exemplo eloquente do que estamos falando. Contudo, citaremos apenas a sua postura quando escreveu a Timóteo, consciente da proximidade de sua morte: “Porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia” (2Tm 1.12).

    Paulo, que caminhara durante todo o seu ministério sob os ditames da Palavra, no ocaso de sua existência terrena, permanecia confiante naquele que era o seu Senhor, na vida, na morte e na ressurreição. A Palavra de Deus firma os nossos passos, sempre! Não há terreno inseguro quando somos guiados por Deus.

    A Palavra de Deus deve ser o guia em todas as fases e circunstâncias de nossa caminhada: ela nos dirige e orienta na juventude e na velhice; de dia e de noite; no inverno, no verão, no outono  e na primavera; em nossa vida profissional, estudantil, sentimental, familiar, etc. Quando seguimos os ditames da Palavra, não há quedas: “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não há tropeço” (Sl 119.165).

    Quando, por exemplo, oramos: “seja feita a tua vontade”, estamos de fato pedindo a Deus que nos dê coragem para caminhar nos seus preceitos, sabendo que neles não há desvios nem tropeços.

    Desta forma, estamos declarando que a Palavra de Deus é suficiente para as nossas necessidades, não sendo ultrapassada, e que não há situação em nossa vida em que precisemos de novas diretrizes.

    Que Deus nos capacite a cumprir os seus mandamentos e, Ele mesmo, nos firme os passos, nos fazendo caminhar nas pegadas de Cristo: “Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos” (1Pe 2.21).

   Conforme já estudamos, Paulo  no  final  da vida, como que deixando o seu testamento  espiritual, escreve a  Timóteo: “Toda Escritura é inspirada  por Deus e útil para  ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16).

Maringá, 21 de dezembro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Miguel Cervantes de Saavedra, Dom Quixote de la Mancha, São Paulo: Abril Cultural, I.18. p. 100.

[2] João Calvino,  O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 1.1), p. 50.

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