A Pessoa e Obra do Espírito Santo (115)

6.2.6. Na sua obra sacrificial (Continuação) 

A Voluntariedade do Filho

     A vinda de Jesus Cristo e todos os seus atos foram norteados pela sua obediência ao Pai e pela consciência de que era necessário assim fazê-lo, tendo sempre como meta, glorificar a Deus e salvar o seu povo (Jo 4.34; 5.30; 6.38,39;[1]10.10-18; 17.1-8).

     Desta forma, a obra de Cristo foi feita com espírito voluntário. Ele assumiu o nosso lugar morrendo sob o estigma da maldição, resgatando-nos da decorrente condenação, por sua livre graça (Gl 3.13,14).[2] Assim, o que era impossível ao homem – ter acesso a Deus e expiar o seu próprio pecado –, Jesus realizou perfeita e vicariamente! (1Pe 3.18;[3] Hb 7.26-28; 9.23-28; 10.10-18).

     Stott comenta:

Na cruz, a vontade do Pai e a vontade do Filho estavam em perfeita harmonia. Jamais devemos supor que o Filho se ofereceu para fazer alguma coisa contra a vontade do Pai, ou que o Pai exigiu do Filho alguma coisa contra a própria vontade deste”.[4]

A morte de Jesus pelo pecado foi um ato de autosacrifício e segundo a vontade de Deus Pai.[5]

     O sofrimento na cruz só não foi maior do que a glória da Trindade bendita ali revelada. Nossos pecados, aparente frustração, humilhação, dor, rejeição? Também estão ali. Mas, o que emerge da cruz é a justiça gloriosa de Deus, o seu amor incomensurável, o seu supremo poder e a vitória sobre todos os que são hostis à sua igreja (Jo 3.16; Rm 5.8; Cl 2.10-15).[6] “Em Cristo, a justiça e a misericórdia se abraçam, o sofrimento é o caminho para a glória, a cruz aponta para a coroa e a madeira da cruz se transforma na árvore da vida”, conclui Bavinck.[7] 

A consciência de Jesus Cristo a respeito da cruz

     Jesus Cristo não veio enganado. Ele tinha perfeita consciência do que teria de passar (Is 53). Jesus sabia que a sua vida de obediência espontânea ao Pai tinha como rota obrigatória a cruz.

     A cruz faz parte essencial de sua vitória. Sem a cruz, a encarnação e a ressurreição ficam fora de contexto. Aliás, todo o seu ministério, envolvendo o seu nascimento, ressurreição, ascensão e retorno glorioso, encontra o seu sentido na cruz.

     A cruz revela a gravidade de nossa ofensa ao Deus santo, a santa majestade de Deus e, também, a grandeza incomensurável e incompreensível de seu amor.

     A cruz não foi um acidente ou fatalidade. O seu ministério terreno caminhou para ela de forma irrevogável e contínua.

     Stott (1921-2011) enfatiza: “Desde a infância de Jesus, deveras desde o seu nascimento, a cruz lança sua sombra no Seu futuro. Sua morte se encontrava no centro de Sua missão. E a igreja sempre reconheceu essa realidade”.[8]

     Ele sempre soube que não havia desvios nem atalhos: A cruz era a sua missão. A vitória estava na cruz, a despeito da aparente vitória de Satanás. Não que houvesse com isso, um prazer na própria morte mas, sim,  a certeza de ser este o único caminho concreto e definitivo para a salvação de seu povo.

     As profecias do Antigo Testamento na esteira de Gn 3.15, já indicavam as dores do Messias e Ele as conhecia bem, já que estas profecias foram reveladas pelo Espírito de Cristo (Vejam-se: Lc 24.26,46/Is 53.1-12/At 3.18; Jo 17.1-3; 1Pe 1.10,11). Por isso, após a identificação por parte de Pedro de ser Ele o Cristo (=  Messias, Ungido) (Cf. Mt 16.13-17), registra Mateus:  “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas cousas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto, e ressuscitado no terceiro dia”(Mt 16.21/Mt 17.12; Lc 17.25).

     Jesus Cristo não tinha ilusões. Por isso, Ele administrava o tempo do qual era senhor, levando adiante a sua obra, tendo ciência perfeita da sua hora; do momento de se revelar, ser preso, torturado, morrer e ressuscitar (Cf. Lc 22.14-16/Jo 7.1-9; 12.23-33; 16.32; 17.1).  

     A cruz como símbolo de dor e desamparo, hoje usada como enfeite, joia e de coração, foi que tornou real a nossa salvação por meio  da poderosa proclamação do Evangelho nos intimando ao arrependimento e fé.[9] Pela graça atendemos a essa proclamação.

Maringá, 19 de fevereiro de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]“A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.34). “Eu nada posso fazer de mim mesmo; na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo, porque não procuro a minha própria vontade, e sim a daquele que me enviou” (Jo 5.30). 38 Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou.  39 E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.38-39).

[2]13 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro),  14 para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido” (Gl 3.13-14).

[3] Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito” (1Pe 3.18).

[4] John R.W. Stott, A Mensagem de Gálatas, São Paulo: ABU, 1989, p. 20.

[5] John R.W. Stott, A Mensagem de Gálatas, p. 21.

[6] “Não importa qual fosse, pois, a ignomínia que pudessem ter visto na cruz, qualificada a confundir os crentes, não obstante Cristo testifica que a mesma cruz traz-lhe glória e honra” (João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2,  (Jo 13.31), p. 78). “A razão consiste em que, através dela [morte na cruz], ele glorifica a Deus o Pai; pois na cruz de Cristo, como num magnificente teatro, a inestimável bondade de Deus é exibida diante do mundo inteiro. Em todas as criaturas, de fato, tanto elevadas quanto humildes, a glória de Deus resplandece, porém em parte alguma ela resplandeceu mais gloriosamente do que na cruz, no fato de que ali houve uma extraordinária mudança de coisas, sendo ali manifesta a condenação de todos os homens, o pecado sendo apagado, a salvação sendo restaurada nos homens; e, em suma, o mundo inteiro foi renovado e cada coisa restaurada à boa ordem” (João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 13.31), p. 78-79). Veja-se também: William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Cultura Cristã, 2004(Jo 17.1), p. 753.

[7]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 630.

[8] John R.W. Stott, A Cruz de Cristo, Miami: Editora Vida, 1991, p. 11.

[9] “A doutrina da Trindade declara que o homem Jesus é verdadeiramente divino; a da Encarnação declara que o divino Jesus é verdadeiramente humano. Juntas, elas proclamam a plena realidade do Salvador que o Novo Testamento apresenta, o Filho que veio da parte do Pai, pela vontade do Pai, para tornar-se o substituto do pecador sobre a cruz” (Encarnação: In: J.I. Packer, Teologia Concisa, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1999, p. 98).

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