Entre a mesa do café, a arquibancada e a empresa: reflexões sobre ética Reformada e a lógica do desempenho
Introdução
Foi durante um café da manhã em família que me ocorreu a relação entre três universos aparentemente distintos: a fala dos torcedores de futebol nas redes sociais, os discursos empresariais e a ética Reformada. Essa cena doméstica, marcada pela simplicidade, tornou-se ocasião para pensar como diferentes discursos revelam valores e práticas que se entrelaçam na vida contemporânea. O ponto de convergência é a lógica do desempenho: o valor da pessoa medido por sua produtividade imediata.
A ética Reformada como horizonte
A ética Reformada parte da convicção de que toda a vida deve ser vivida coram Deo — diante de Deus. Esse princípio confere unidade à existência humana, pois nenhuma esfera está fora do alcance da soberania divina. O trabalho e a vocação não se avaliam apenas por resultados circunstanciais, mas pela fidelidade ao chamado recebido.
O ministério e o serviço cristão não constituem privilégios ou status, mas responsabilidades confiadas por Deus para que a verdade seja proclamada com pureza e constância. Nesse sentido, o ministro não é definido por títulos honoríficos ou pela posição que ocupa, mas pela própria essência de sua função: ministrar, isto é, servir.
Essa compreensão confere ao discurso Reformado uma densidade teológica que transcende o utilitarismo moderno. O valor da vida e do trabalho não está enraizado na produtividade ou na eficiência, mas na fidelidade ao Senhor. Assim, a ética Reformada se opõe à lógica do descarte e do imediatismo, lembrando que a dignidade humana é derivada da relação com Deus e não de sua capacidade de gerar resultados.
O discurso empresarial
O mundo corporativo, ainda que, em geral não conheça os fundamentos da ética Reformada, apresenta semelhanças em sua racionalização do trabalho. A disciplina, a organização e a busca por produtividade refletem valores que, em certo sentido, dialogam com a ética cristã. Contudo, no contexto atual, o fim último é utilitário: maximizar resultados e manter a engrenagem funcionando. O trabalhador é valorizado enquanto produz; sua dignidade, porém, não é reconhecida como intrínseca, mas condicionada ao desempenho.
A voz dos torcedores
Nas redes sociais, a fala dos torcedores de futebol expõe de forma crua essa mesma lógica. Técnicos e jogadores são exaltados enquanto vencem, mas rapidamente descartados diante de derrotas circunstanciais. Pouco importa o histórico de conquistas ou o esforço acumulado: o que vigora é o imediatismo. Essa exigência de resultados instantâneos contrasta com a fidelidade e a constância que caracterizam a ética Reformada.
A lógica do descarte
Essa mentalidade, presente tanto na arquibancada quanto na empresa, revela uma lógica de descarte. Quando alguém já não produz como antes — seja por cansaço, idade ou enfermidade — é prontamente substituído. O “capital de trabalho” acumulado ao longo dos anos não se converte em confiança nem em reconhecimento. O esforço adicional, realizado em férias ou mesmo em meio à doença, não é valorizado. O único acúmulo que permanece é o da chamada “gordura” física, especialmente abdominal, fruto de uma rotina desregrada em períodos de trabalho intenso.
Conexão entre os discursos
O paralelo entre arquibancada e empresa mostra como o senso comum, expresso nas falas dos torcedores, influencia e reflete práticas sociais mais amplas. Ambos os discursos revelam uma mentalidade utilitarista que mede o valor da pessoa pelo desempenho imediato. Em contraste, a ética Reformada insiste que a dignidade humana não se mede por produtividade, mas pela fidelidade a Deus e pela vocação recebida. Essa visão amplia o horizonte e resiste à lógica do descarte, pois reconhece que toda esfera da existência está sob o senhorio de Cristo.
Conclusão: da mesa ao púlpito
O café da manhã em família, com sua simplicidade, tornou-se metáfora de como refletimos sobre a vida em comunidade. Arquibancada e empresa revelam uma mesma mentalidade: o valor da pessoa está condicionado ao desempenho imediato. Contra essa lógica, a ética Reformada proclama que cada vida tem valor eterno diante de Deus. O desafio da Igreja é viver e anunciar essa ética em meio a uma sociedade que descarta o que não rende, lembrando que o verdadeiro critério não é a produtividade, mas a fidelidade ao Senhor.
Maringá, 7 de fevereiro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
