O Choro Bem-Aventurado: Uma emoção Contracultural (Mt 5.4) (2)

2. Razões para a tristeza

 

A Bíblia não é um livro de autoajuda. Ela de fato não simplesmente nos ajuda, mas nos mostra o caminho definitivo para a sua concretização eterna, a salvação em Cristo Jesus que envolve o tempo e a eternidade. Portanto, ela não trata de segredinhos para enganar, disfarçar ou esconder nossas rugas, manchas, “estrias” ou mazelas espirituais. Ela nos ensina que antes da alegria vem o choro; antes da felicidade vem a tristeza.

 

A Escritura descreve diversos momentos de angústia e tristeza entre os seres humanos, quer por motivos nobres, quer não; de homens e mulheres piedosos, ou não. Este sentimento acompanhado pelas lágrimas é comum ao ser humano. De forma ilustrativa, indiquemos algumas circunstâncias de tristeza e lágrimas:

1) Morte

A consciência da morte[1] que, por causa do pecado, pode ser tão grave, intensa e esmagadora para o homem,[2] soando como algo anormal,[3] pode e deve ser olhada como o caminho para a glória, como escreveu Calvino:

 

Somente os crentes genuínos conhecem a diferença entre este estado transitório e a bem-aventurada eternidade, para a qual foram criados; eles sabem qual deve ser a meta de sua vida. Ninguém, pois, pode regular sua vida com uma mente equilibrada, senão aquele que, conhecendo o fim dela, isto é, a morte propriamente dita, é levado a considerar o grande propósito da existência humana neste mundo, para que aspire o prêmio da vocação celestial.[4]

 

Não é de se estranhar que a morte seja um dos aspectos mais indicados nas Escrituras como sendo causador de tristeza, dor e lágrimas.

 

A) A Morte de filhos

 

 1) Jacó, quando pensou que José, seu filho preferido, havia morrido, chorou intensamente, se negando, inclusive, a ser consolado pelos familiares: 34 Então, Jacó rasgou as suas vestes, e se cingiu de pano de saco, e lamentou o filho por muitos dias. 35 Levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém, recusou ser consolado e disse: Chorando, descerei a meu filho até à sepultura. E de fato o chorou seu pai” (Gn 37.34-35).

 

2) Davi chora intensamente a morte de seus filhos. Amnom, morto por ordem de Absalão, e, posteriormente, pela morte deste:

 

Absalão, porém, fugiu e se foi a Talmai, filho de Amiúde, rei de Gesur. E Davi pranteava a seu filho [Amnon] todos os dias. (2Sm 13.37).[5]

Então, o rei, profundamente comovido, subiu à sala que estava por cima da porta e chorou; e, andando, dizia: Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho! (2Sm 18.33).

 

Com esta lamentação intensa e contínua pela morte de Absalão, algo constrangedor aconteceu, como nos chama atenção MacArthur: “O pranto de Davi por Absalão foi tão intenso que seus soldados ficaram envergonhados da vitória”.[6]

 

Joabe foi fundamental para admoestar a Davi mostrando-lhe o quanto estava sendo nefasto o seu comportamento:

 

Disseram a Joabe: Eis que o rei anda chorando e lastima-se por Absalão. 2 Então, a vitória se tornou, naquele mesmo dia, em luto para todo o povo; porque, naquele dia, o povo ouvira dizer: O rei está de luto por causa de seu filho. 3 Naquele mesmo dia, entrou o povo às furtadelas na cidade, como o faz quando foge envergonhado da batalha. 4 Tendo o rei coberto o rosto, exclamava em alta voz: Meu filho Absalão, Absalão, meu filho, meu filho! 5 Então, Joabe entrou na casa do rei e lhe disse: Hoje, envergonhaste a face de todos os teus servos, que livraram, hoje, a tua vida, e a vida de teus filhos, e de tuas filhas, e a vida de tuas mulheres, e de tuas concubinas, 6 amando tu os que te aborrecem e aborrecendo aos que te amam; porque, hoje, dás a entender que nada valem para contigo príncipes e servos; porque entendo, agora, que, se Absalão vivesse e todos nós, hoje, fôssemos mortos, então, estarias contente. (2Sm 19.1-6).

 

As Escrituras narram que Davi reagiu positivamente a esta sincera e necessária repreensão (2Sm 19.8-15).

 

 

Maringá, 01 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este artigo faz parte de uma série. Confira aqui a série completa.

 


 

[1] “O que distingue os humanos de todas as outras criaturas é a autoconsciência. Sabemos que estamos vivos e que morreremos, e não conseguimos deixar de questionar por que a vida é assim e qual é o seu significado” (Charles Colson; Harold Fickett, Uma boa vida, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 20).

[2] “Durante toda a minha vida, meu pensamento esteve ocupado pelo problema com o qual todos se defrontam: o sentido da vida e da morte. É, no fundo, a única questão contra a qual se choca desde a origem o animal pensante, o único que enterra seus mortos, o único que pensa na morte, que pensa sua morte. Para iluminar seu caminho nas trevas, para adaptar-se à morte, esse animal tão bem adaptado à vida só tem duas luzes: uma se chama religião, a outra se chama ciência” (Jean Guitton, in: Jean Guitton; Grichka Bogdanov; Igor Bogdanov, Deus e a Ciência, em direção ao metarrealismo, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992, p. 14). Veja-se: William Edgar, Razões do Coração, Brasília, DF.: Refúgio, 2000, p. 79ss.

[3] J. I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 185.

[4]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 90.12), p. 440. Vejam-se: João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 61,66; João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.24-25), p. 218-219.

[5] É possível que isto tenha acontecido devido ao fato de Davi não ter punido corretamente a Amnon pelo ato de violentar a sua meia-irmã Tamar. (Veja-se: Francis A. Schaeffer, Não há gente sem importância, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 109).

[6] John MacArthur, O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 67.