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A Imprensa, o Protestantismo e o Futuro do Livro

Entre a Arrumação das Estantes e os Desafios Éticos da Era Digital

Chegando à noite, de volta a casa, entro no meu escritório: e na porta dispo as minhas roupas cotidianas, sujas de barro e de lama, e visto as roupas de corte ou de cerimônia, e, vestido decentemente, penetro na antiga convivência dos grandes homens do passado; por eles acolhido com bondade, nutro-me daquele alimento que é o único que me é apropriado e para o qual nasci. Não me envergonho de falar com eles, e lhes pergunto da razão das suas ações, e eles humanamente me respondem; e não sinto durante quatro horas aborrecimento algum, esqueço todos os desgostos, não temo a pobreza, não me perturba a morte: transfundo-me neles por completo. – N. Maquiavel.[1]

Introdução

     A organização de bibliotecas pessoais sempre foi expressão de erudição e disciplina. Cada estante guarda não apenas volumes − esses amigos silenciosos −, mas também fragmentos de identidade e vestígios de memória cultural. Arrumar livros é, de certo modo, arrumar lembranças: cada título repousa como testemunha de uma época, cada lombada marca jornadas intelectuais e afetivas.

     Hoje, porém, vivemos uma transição que desloca o peso das estantes para a leveza dos arquivos digitais. Se antes o saber se acumulava em prateleiras tangíveis, agora se dispersa em nuvens invisíveis, acessíveis a qualquer instante. Nesse cenário, o livro impresso continua a guardar valor simbólico e afetivo, resistindo como presença física diante da fluidez digital e lembrando-nos dos desafios éticos que acompanham essa transformação.

     Entre o pó das estantes e o brilho das telas, permanece a mesma busca: compreender o mundo, dialogar com o passado e projetar o futuro. A biblioteca, seja feita de papel ou de pixels, segue como metáfora de nossa sede de conhecimento e liberdade, convidando-nos a refletir sobre a revolução iniciada séculos atrás com a imprensa de tipos móveis e seu impacto no Humanismo, na Reforma Protestante e na formação cultural do Brasil.

1. A revolução da tipografia

     Johannes Gutenberg (c. 1397-1468), ao criar os tipos móveis metálicos no século XV, inaugurou uma era de democratização do saber. A Bíblia de 42 linhas tornou-se símbolo de uma invenção que Francis Bacon (1561-1626) classificou como uma das três grandes forças da modernidade, ao lado da pólvora e da bússola.[2] A tipografia foi decisiva para o Humanismo e o Renascimento, permitindo que ideias antes restritas ao clero e aos copistas se espalhassem pela Europa.[3]

2. Reforma Protestante e imprensa

     A Reforma Protestante encontrou na imprensa seu maior aliado. Panfletos, catecismos e traduções da Bíblia em línguas vernáculas multiplicaram-se, estimulando a leitura e impulsionando a criação de escolas. O protestantismo consolidou a cultura do livro, enquanto a tipografia ampliava o alcance da fé reformada. Essa relação de reciprocidade moldou a modernidade religiosa e cultural: a imprensa foi amplamente favorecida pela Reforma, que difundia a necessidade de alfabetização, incentivava a publicação de obras e promovia a leitura, tendo como ponto de partida a própria Escritura Sagrada.

3. A Imprensa no Brasil

            O Brasil retardou a instalação da tipografia em comparação a outras colônias. A censura portuguesa e a vigilância da Inquisição criaram quase uma “civilização sem livros”[4]. Apenas em 1808, com a chegada da corte portuguesa, foi fundada a Imprensa Régia no Rio de Janeiro. O decreto de 13 de maio daquele ano instituiu a tipografia oficial, destinada à impressão de leis e documentos diplomáticos.[5]

            O primeiro jornal brasileiro foi a Gazeta do Rio de Janeiro, publicada em setembro de 1808, com caráter oficial e propagandístico.

     A propósito deste periódico, o inglês Armitage (1807-1856) comenta com visível ironia:

Por  meio  dela (tipografia) só se informava com toda a fidelidade ao público do estado de saúde de todos os Príncipes da Europa, e de quando em quando as suas páginas eram ilustradas com alguns documentos  de  ofício,  notícia  dos dias natalícios, odes, e panegíricos a respeito da família reinante; não  se manchavam essas páginas com as efervescências da democracia, nem com a exposição de agravos. A julgar-se  do  Brasil  pelo seu único periódico, devia ser considerado como um paraíso terrestre, onde nunca se tinha expressado um só queixume.[6]

Hipólito José da Costa e o Correio Braziliense

     Paralelamente, Hipólito José da Costa (1774-1823),  exilado em Londres, fundou em junho de 1808 o Correio Braziliense, considerado o primeiro jornal brasileiro, ainda que publicado fora do país. Diferente da Gazeta, o Correio tinha caráter crítico e independente, denunciando abusos da corte e defendendo ideias liberais⁷. Hipólito é considerado o “fundador do jornalismo brasileiro”[7], e “fundador da imprensa brasileira.[8]

            Sua obra foi decisiva para formar opinião pública e preparar o terreno para o debate sobre identidade nacional.

4. Censura em Portugal e no Brasil

            A censura foi instrumento de controle político e religioso. Em Portugal, o Index Librorum Prohibitorum e o Rol dos Livros Defesos barraram traduções bíblicas e obras reformistas.

     Rocha Pombo (1857-1933) afirma: “Obter um livro, em qualquer ponto da Colônia, era um grande problema: era preciso subtrai-lo à vigilância das autoridades, ou então alcançar uma licença especial para recebê-lo da Europa”.[9]

            Mesmo em épocas distintas, não havia coerência absoluta na fiscalização censória. O mesmo livro podia ser impedido de entrar em determinada circunstância e aceito em outra. Viajantes e importadores dependiam da “sorte” e de certas astúcias.[10]

            Hipólito José da Costa (1774-1823), protegido em Londres pela cidadania inglesa, descreveu em seu jornal, de forma anedótica, o que seria essa censura prévia:

Se agora ressuscitasse o grande Newton, e quisesse publicar em Portugal os seus Princípios Matemáticos, ou outra produção do seu gênio ainda melhor; seria essa obra mandada rever, por alguns desses sábios do Areópago Português, que tem na sua mão o poder de dispensar as luzes à nação; e se o frade, a quem a obra fosse distribuída para censura, assentasse, que as proposições matemáticas, que ele não entendia, deviam, por isso mesmo, ser suprimidas; bem podia o grande Newton tornar a morar, e enterrar-se junto com a sua obra, porque Portugal, e o mundo estava sentenciado a ser privado do benefício daquela obra; e pergunto agora de quem era a culpa: falta de gênio em Newton, ou defeito do Governo, que admite tais regulamentos?

A minha hipótese não é de todo imaginária, muitas obras são proibidas em Portugal, porque os censores não sabem de que elas tratam. E toda a produção que estes focos da ciência não aprovam é má. Todo o mundo sabe que se o autor a quem se proíbe uma obra proferisse a menor queixa, teria finalmente ou uma mordaça na Inquisição, ou uma prisão de segredo, por ordem da chamada Polícia.[11]

            O controle não se limitava à entrada de livros estrangeiros, mas também à circulação interna. Curiosamente, no Brasil conseguiam entrar obras “proibidas” de caráter político e filosófico, mas não livros religiosos protestantes.

            Mesmo no século XVII, “a Bíblia era praticamente ignorada”[12] entre os títulos religiosos. Isso se explica pelo fato de que, desde o Concílio de Trento (1564), a Igreja havia proibido a leitura da Bíblia em vernáculo, para evitar interpretações não oficiais; ou seja: heterodoxas

            Essa mentalidade comprometeu a formação de uma teologia crítica e autônoma, restringindo o acesso ao saber.

5. Transição Digital e o Valor do Livro Impresso

            Hoje, vivemos uma transição cultural comparável à revolução de Gutenberg, mas orientada para o universo digital. Livros, jornais e revistas migram cada vez mais para o formato eletrônico, reduzindo a necessidade de estantes físicas e transformando o modo como o conhecimento é produzido, armazenado e acessado. Plataformas digitais permitem circulação instantânea de informações, democratizando o acesso e ampliando o alcance da leitura.

            Contudo, o livro impresso continua a guardar um valor simbólico e afetivo que o digital não substitui. Ele representa permanência em meio à fluidez das telas, materialidade diante da volatilidade dos arquivos eletrônicos. O objeto-livro carrega consigo a experiência sensorial da leitura — o toque do papel, o cheiro da impressão, a presença física na biblioteca — elementos que reforçam sua dimensão cultural e emocional.

            O desafio contemporâneo, portanto, não se limita ao aspecto tecnológico. Ele é também ético e social. A digitalização levanta questões sobre:

  • Acesso e exclusão: nem todos dispõem de recursos tecnológicos para acompanhar essa transição.
  • Memória e preservação: arquivos digitais podem ser facilmente apagados ou corrompidos, enquanto o livro impresso resiste ao tempo.
  • Controle da informação: plataformas digitais concentram poder em grandes corporações, que podem definir o que circula e o que é silenciado.
  • Formação crítica: a velocidade da informação digital e de sua transmissão, podem comprometer a reflexão profunda, favorecendo leituras fragmentadas e superficiais.

            Assim, a transição atual exige não apenas inovação técnica, mas também responsabilidade ética. É necessário pensar em políticas de inclusão digital, em estratégias de preservação da memória cultural e em práticas que garantam liberdade de acesso e diversidade de vozes.

            O livro impresso e o digital não devem ser vistos como inimigos, mas como complementares: juntos podem ampliar horizontes, desde que a sociedade saiba equilibrar permanência e fluidez, tradição e inovação.

6. Ética, plágio e Inteligência Artificial

            A facilidade de copiar e reproduzir textos sem a devida citação compromete a integridade acadêmica e enfraquece a credibilidade da produção intelectual. O plágio, antes restrito a manuscritos e impressos, assume novas dimensões na era digital, marcada pela circulação instantânea de informações e pela tênue fronteira entre autoria e reprodução.

            Com o advento da Inteligência Artificial, esse desafio torna-se ainda mais complexo. Ferramentas capazes de gerar textos, imagens e análises em segundos ampliam as possibilidades criativas, mas também exigem responsabilidade ética. É necessário distinguir a autoria humana da produção automatizada, assegurar referências adequadas e preservar a honestidade intelectual. A IA não deve ser encarada como substituta da reflexão crítica, mas como instrumento que precisa ser utilizado com consciência e transparência. Trata-se de uma ferramenta de apoio, que pode enriquecer a produção acadêmica, mas jamais substituir o trabalho, a reflexão e a criatividade individuais.

            Nesse cenário, a “modéstia epistemológica” continua indispensável. Reconhecer limites, citar corretamente e valorizar o trabalho alheio são atitudes que sustentam a dignidade acadêmica. Mais do que nunca, torna-se urgente cultivar uma ética da informação que una inovação tecnológica e respeito às tradições do saber.

            O verdadeiro avanço não reside apenas na velocidade de acesso ou na multiplicidade de recursos, mas na capacidade de preservar a integridade e a confiança no conhecimento produzido.

Considerações finais

            Da arrumação das estantes ao universo digital, a história da imprensa revela que cada geração enfrenta seus próprios dilemas. Se Gutenberg abriu as portas do saber ao mundo, hoje nos cabe assegurar que a tecnologia não obscureça a ética nem deturpe a verdade.

            O livro − impresso ou eletrônico − continua a ser mais que objeto: é símbolo da busca humana por conhecimento e liberdade, testemunho silencioso de nossa sede de permanência em meio à fluidez do tempo.

            No Brasil, a Imprensa Régia e o Correio Braziliense inauguraram caminhos distintos, mas complementares: um oficial, outro crítico. Ambos demonstram que a imprensa, desde sua origem, é simultaneamente instrumento de poder e de emancipação, capaz de legitimar discursos e, ao mesmo tempo, abrir espaço para a contestação.

            E, depois de percorrer esse longo itinerário histórico, retorno ao meu espaço cotidiano: o escritório, onde cada livro repousa como um amigo silencioso e onde o desafio, agora, é apenas concluir a arrumação das estantes.

Maringá, 18 de janeiro de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]N. Maquiavel, Carta de Maquiavel a Francesco Vettori.In:O Príncipe,São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 9), 1973, p. 119.

[2]Francis Bacon, Novum Organum, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 13), 1973, I.129. p. 94. Na Inglaterra não era estranho ser identificada a invenção da imprensa com a providência de Deus (Ver: Christopher Hill,  A Bíblia Inglesa e as Revoluções do Século XVII, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 30).

[3] “Todo o pensamento vive de contatos, de trocas. O livro precipitou, alargou as correntes que veiculavam o antigo livro manuscrito” (Fernand Braudel, Civilização Material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII,São Paulo: Martins Fontes, (Reimpressão), 1997, v. 1, p. 366).

[4]Eduardo Hoornaert, Formação do Catolicismo Brasileiro: 1550-1800, Petrópolis, RJ.: Vozes, 1974, p. 20.

[5]Veja o documento in: Hipólito José da Costa, Correio Braziliense, ou, Armazém Literário. (Edição Fac-Similar), São Paulo; Brasília, DF.: Imprensa Oficial do Estado; Correio Braziliense, 2001-2002, v. 1, p. 517; Ana Maria de A. Camargo; Rubens Borba de Camargo,  Bibliografia da Impressão Régia do Rio de Janeiro, São Paulo: EDUSP.; Livraria Kosmos Editora, 1993, v. 2, p. 7. Costa (1774-1823) transcreve esse decreto e o saúda com grande satisfação, tecendo seus comentários. (Veja-se: Hipólito José da Costa, Correio Braziliense, ou, Armazém Literário, (Edição Fac-Similar), v. 1, p. 517-520).  Moraes (1899-1986) comenta: “É curioso notar que o decreto não se refere ao fato extraordinário de se estar introduzindo a imprensa no Brasil”. (Rubens Borba de Moraes, Livros e Bibliotecas no Brasil Colonial,  Rio de Janeiro; São Paulo: Livros Técnicos e Científicos; Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1979, p. 100). Hallewell  observa que “dois meses mais tarde, em 26 de julho, o decreto foi emendado por uma declaração  de que uma das principais razões para a criação da Impressão fora auxiliar a expansão da educação pública” (Laurence Hallewell, O Livro no Brasil: sua história, São  Paulo: T.A. Queiroz; EDUSP., 1985. p. 36).

[6]João Armitage, História do Brasil. Belo Horizonte; São Paulo: Itatiaia; EDUSP., 1981, p. 35. Silva (Maria Beatriz Nizza da Silva,  A Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822): cultura e sociedade.  p. 7) considera exagerados os comentários de Armitage. No entanto, na década de 1860, Ribeyrolles  (1812-1860) (Charles Ribeyrolles, Brasil Pitoresco,  Belo Horizonte; São Paulo: Itatiaia; Edusp., 1980,  v. 1, p. 125-136) teve percepção semelhante a de Armitage quanto à imprensa brasileira. Fenômeno idêntico ao descrito por Armitage,  ocorria na França – talvez  com o mesmo exagero de ênfase –, antes  da Revolução Francesa (Ver: Robert Darnton, Os Dentes Falsos de George Washington: Um guia não convencional para o século XVIII, São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 47-49).

[7] Mecenas Dourado, Hipólito da Costa e o “Correio Brasiliense”, Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1957, v. 1, p. 142.

[8]Carlos Rizzini, O Livro, O Jornal e a Tipografia no Brasil, São Paulo: Imprensa Oficial  do  Estado,  1988, p. 345.

[9] José F. da Rocha Pombo  História do Brazil, Rio de Janeiro: Benjamin Aguila – Editor, [s.d.], v. 7, p. 126. Até mesmo as bibliotecas de falecidos eram investigadas por ordem da inquisição, apreendendo, caso existissem, livros proibidos (1711 e 1750, por exemplo). Um personagem que representou bem uma “mentalidade inquisitorial”, foi o cônego de Mariana, João Luís de Souza Sayão, que obsessivamente não conhecia limites em suas intromissões em todos os níveis sociais para verificar a privacidade de cada um e, havendo indícios, denunciar infiéis à Inquisição (Cf. Luiz Carlos Villalta, Censura Literária e Inventividade dos Leitores no Brasil Colonial: In: Maria Luiza Tucci Carneiro (org.), Minorias Silenciadas: História da Censura no Brasil, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Imprensa Oficial do Estado; Fapesp., 2002, p. 71-72). Vejam-se: Adalberto G. Araújo Jr., A Biblioteca de um Cristão-Novo nas Minas de Goiás In: Lina Gorenstein; Maria Luiza Tucci Carneiro (orgs.), Ensaios sobre a Intolerância: Inquisição, Marranismo e Anti-Semitismo (Homenagem a Anita Novinsky), 2. ed. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005, p. 321-339. Quanto às bibliotecas particulares, veja-se: Rubens Borba de Moraes, Livros e Bibliotecas no Brasil Colonial, Rio de Janeiro; São Paulo: Livros Técnicos e Científicos; Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1979, p. 23-36.

[10] Veja-se: Luiz Carlos Villalta, Censura Literária e Inventividade dos Leitores no Brasil Colonial: In: Maria Luiza Tucci Carneiro, (org.), Minorias Silenciadas: História da Censura no Brasil, p. 76ss.

[11] Hipólito José da Costa, Correio Braziliense, ou, Armazém Literário. (Edição Fac-Similar),  v. 1, p. 383-384.

[12]Luiz Carlos Villalta, O que se fala e o que se lê: língua, instrução e leitura: In: Fernando A. Novais; Laura Melo Souza (orgs.). História da Vida Privada no Brasil, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, v. 1, [p. 332-385],  p. 361.

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