O Ministério da Chateação: quando o Zelo se Esquece da Misericórdia
Introdução
Já desconfiava que essa arrumação do escritório − leia-se: organização e limpeza dos livros, ainda que sem grande rigor − acabaria me conduzindo por caminhos desviantes.
Hoje, em plena sexta-feira, enquanto lidava com a seção de Teologia Pastoral, ocorreu-me uma curiosa analogia: teólogos, conselheiros e nutricionistas parecem estar sempre de plantão, ainda que não sejam profissionais da área.
Lutando contra a ditadura da balança, você comenta que deixou de jantar para emagrecer, e alguém retruca: “Só isso não adianta”. Diz que começou a caminhar, e já ouve: “Isso não é suficiente”.
Até mesmo atos piedosos são cercados de ressalvas: se ora em secreto, logo suspeitam de vaidade espiritual; se devolve o dízimo, lembram que é apenas obrigação.
O mesmo acontece na vida espiritual: faz um plano de leitura anual da Bíblia, e alguém adverte: “Quero ver perseverar” ou “Ler somente não resolve”. Procura ser justo, e surge o alerta contra o legalismo; demonstra misericórdia, e acusam de graça barata; busca conciliar, e chamam de político; cultiva mansidão, e dizem que é covardia; mostra ousadia, e acusam de imprudência; perdoa com facilidade, e alertam contra abusos; exige disciplina, e logo o rotulam de legalista ou opressor.
Sem dúvida, sempre há espaço para melhorar, aperfeiçoar-nos e alcançar maior clareza bíblica em tudo o que realizamos. Não somos perfeitos. A vida cristã é marcada por tensões: buscamos santidade, mas tropeçamos em nossas limitações; desejamos servir, mas nos cansamos; queremos ajudar, mas, por vezes, atrapalhamos. Entre essas armadilhas, destaca-se o perfeccionismo sem misericórdia, que, em vez de nos conduzir a uma vida mais santa, acaba apenas por nos tornar desagradáveis.
É curioso como, em nome da excelência, podemos nos transformar em fiscais da vida alheia. Em suma, qualquer virtude pode ser convertida em defeito por quem tem o dom da crítica permanente. E, convenhamos, nada mais desgastante do que conviver com alguém que, em nome da perfeição, se torna chato.
O Peso da Ansiedade e da Crítica
João Calvino (1509-1564), comentando Romanos 12.12, lembra que “a diligência na oração é o melhor antídoto contra o risco de soçobrarmos”.[1] Quando cada gesto é desmerecido, a alma se vê tentada a sucumbir à ansiedade. Jerry Bridges (1929-2016) reforça: “O grande antídoto para a ansiedade é aproximar-se de Deus em oração”.[2]
Lloyd-Jones (1899-1981) advertia que o cuidado ansioso é espiritualmente paralisante e fisicamente debilitante.[3] Pessoas que sempre apontam insuficiências acabam se tornando instrumentos de desânimo, não de edificação. J.I. Packer (1926-2020) observava que os ansiosos se tornam vulneráveis a influências estranhas e fazem coisas tolas. O perfeccionismo sem misericórdia, portanto, não apenas gera ansiedade, mas também abre espaço para atitudes irracionais e destrutivas.[4]
Celebrar os Pequenos Passos
Diante desse cenário, a resposta pastoral não pode ser a crítica constante, mas o encorajamento. Se a ansiedade paralisa, a graça fortalece; se a cobrança sufoca, o cuidado liberta. Precisamos, portanto, aprender a valorizar aquilo que parece pequeno, mas que diante de Deus é precioso.
Pastoralmente, precisamos reconhecer que o perfeccionismo sem misericórdia é uma forma de orgulho disfarçado de zelo. Ele nos torna desagradáveis, chatos e, pior, pouco cristãos. O conselheiro bíblico não é chamado a ser um inspetor de falhas, mas um encorajador de passos. Jay Adams (1929-2020) lembrava que verdade e piedade são inseparáveis[5] − e piedade sem misericórdia não é piedade, é tirania.
Celebrar pequenos avanços é bíblico. O Reino de Deus é comparado a uma semente de mostarda (Mt 13.31-32): começa pequena, mas cresce e se torna árvore. O perfeccionista sem misericórdia, porém, despreza o broto por não ser ainda frondoso. O pastor, ao contrário, deve aprender a louvar a Deus por cada gesto de fé autêntica, por cada passo de obediência e por cada sinal de transformação.
O Ministério da Chateação
Há pessoas que parecem ter recebido um chamado especial: o “ministério da chateação”. São especialistas em transformar qualquer boa notícia em alerta de perigo. Se você diz que está feliz porque conseguiu organizar seis estantes, respondem: “Mas ainda faltam vinte!”. Se comemora ter perdido dois quilos, logo ouve: “Mas precisa perder dez!”. Se caminha dez minutos, comentam: “Mas o ideal seriam trinta”.
É como se fossem fiscais da alegria, guardiões da ansiedade, zelosos em lembrar que nunca é suficiente. Talvez devêssemos criar uma nova categoria teológica para eles: os “profetas do desânimo”.
Conclusão
O perfeccionismo sem misericórdia não nos torna mais santos, apenas mais chatos. Ele sufoca a alegria, mina a esperança e multiplica a ansiedade. O chamado cristão é diferente: é viver cada instante coram Deo, celebrando os pequenos passos, encorajando os irmãos e reconhecendo que a obra é de Deus, não nossa.
Que nossas palavras sejam bálsamo, não fardo; incentivo, não obstáculo; graça, não peso. Afinal, como dizia Calvino em outro contexto, “não há labor insignificante aos olhos do Senhor”.[6]
E, retomando a metáfora inicial: se na arrumação da biblioteca cada prateleira organizada já é motivo de gratidão, na vida cristã cada gesto de fé, cada ato de obediência, cada sinal de transformação é motivo de louvor. Não precisamos esperar a estante inteira para agradecer − Deus já se alegra com o primeiro livro colocado no lugar certo.
Antes que me esqueça: faltam umas 12 prateleiras. Ou melhor, já organizei 13. Antes que me digam: Graças a Deus! Sem dúvida: Deus é de toda Graça.
Maringá, 09 de janeiro de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1]João Calvino, Comentário à Epístola aos Romanos, São Paulo: Editora Paracletos, 1997, (Rm 12.12), p. 438.
[2]Jerry Bridges, A Vida Frutífera, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 76.
[3]D. Martyn Lloyd-Jones, Do Temor à Fé, Miami, Flórida: Vida, 1985, p. 42-43.
[4]J.I. Packer, O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 102.
[5]Jay E. Adams, Teologia do Aconselhamento Cristão, Eusébio, CE.: Peregrino, 2016, p. 417.
[6] A frase literal é: “Não há trabalho insignificante ou nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante antes os olhos de Deus.” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 77).

Rev. Hermisten, nosso professor permanente. Damos graças a Deus por esse ministério de formação de pastores. Lendo o artigo, senti-me em sala de aula naquelas experiências iniciais do seminário em 1982.