O Jumentinho Feliz: Lições de Contentamento e Serviço
Quem convive mais proximamente de mim, sabe que tenho um carinho especial por alguns animais: pássaros, gatos e, especialmente cachorros, com os quais procuro manter uma relação de amizade − conquistada, é verdade, com alguns bifinhos.
O jumento desperta em mim uma admiração mais distante. Não convivo com eles, mas sempre tive a impressão romântica de seu olhar terno. Não é estranho valer-me de algum animal para ilustrar minhas aulas e mesmo pregações.
Não sei bem por que, mas ontem (27.05.2026), quando tomava meu café matinal em uma padaria relativamente próxima do Seminário, lembrei-me do burrinho, possivelmente um tanto romanticamente associado ao Shrek, com uma dublagem engraçada. Não sei ao certo.
O fato é que poucos animais aparecem na Bíblia com tanta dignidade discreta quanto o jumento, independentemente das nomenclaturas bíblicas usadas nos Originais.
Ele não ruge como o leão nem voa como a águia. Mas talvez seja por isso que Deus o escolheu tantas vezes para ensinar sobre fidelidade, humildade e alegria simples.
1. O jumento que conhece o dono
Por intermédio do profeta Isaías, Deus exorta o povo de Israel: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, a manjedoura do seu dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende”. (Is 1.3). O profeta usa o jumento como contraste. Enquanto o povo se perdia, o jumento sabia duas coisas essenciais: quem era seu dono e onde estava seu alimento.
Há uma felicidade básica aí. O jumento feliz não é o que tem liberdade sem rumo. É o que tem vínculo. Ele sabe a quem pertence e confia que será cuidado. Não vive ansioso pelo amanhã porque conhece a sua manjedoura. É um contentamento com raiz.
2. As jumentas que levaram Saul ao trono
Se em Isaías o jumento nos ensina sobre identidade e provisão, em Samuel ele aparece como parte de uma história aparentemente comum, mas cheia de propósito: “Extraviaram-se as jumentas de Quis, pai de Saul. Disse Quis a Saul, seu filho: Toma agora contigo um dos moços, dispõe-te e vai procurar as jumentas […] Chegaram à terra de Zufe, e Saul disse ao seu moço: Vem, e voltemos; não suceda que meu pai deixe de pensar nas jumentas e se aflija por causa de nós”. (1Sm 9.3-5).
Saul saiu para achar jumentas perdidas e encontrou um reino. Não procurava coroa. Procurava apenas servir ao pai. A fidelidade nas pequenas responsabilidades o colocou no caminho do profeta Samuel. As jumentas foram o fio que Deus usou para tecer um rei. O jumento feliz não despreza tarefa pequena. Às vezes, buscar jumenta é o primeiro passo para cumprir propósito.
3. O jumento que carregou o Rei
Se em Samuel o jumento aparece em tarefas comuns, em Jerusalém ele participa da cena mais sublime da história: carregar o próprio Cristo. Zacarias já havia profetizado: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta”. (Zc 9.9).
No Evangelho de Mateus, vemos o cumprimento da profecia: “Ide à aldeia que aí está diante de vós e logo achareis presa uma jumenta e, com ela, um jumentinho. Desprendei-a e trazei-mos”. (Mt 21.2). O Senhor não escolheu cavalo de guerra. Escolheu o animal do trabalho cotidiano, do homem simples.
Aquele jumentinho cumpriu a maior missão da vida dele sem entender teologia. Apenas caminhou, firme, enquanto o povo clamava “Hosana”. A satisfação dele estava em servir. Não precisou de aplauso. O peso que carregou era honra.
O teólogo Karl Barth (1886-1968), ao meditar nessa cena, declarou que gostaria de ser apenas um jumentinho carregando Cristo. Não ser visto, não ser aplaudido. Apenas levar o Senhor onde Ele quisesse ir. Essa é a ambição do jumento feliz: diminuir para que Cristo apareça.
Barth com seu humor característico, gostava de usar figuras imaginativas para si e seu ministério. Uma delas, usada algumas vezes, reapareceu em seu aniversário de 80 anos, comemorado com um dia de antecedência (09/05/1966), quando em meio a diversos tributos de reconhecimento, disse: “Deixem-me lembrar mais uma vez do jumento ao qual me referi em conexão com minha Epístola aos Romanos. Um jumento real é mencionado na Bíblia − mais especificamente um asno. Mas chamemo-lo simplesmente de jumento. Foi-lhe permitido levar Jesus a Jerusalém. Se fiz alguma coisa nesta minha vida, fiz como um parente daquele jumento que seguiu o seu caminho carregando um fardo importante. Os discípulos disseram ao seu dono: ‘O Senhor precisa dele.’”[1]
4. O animal que não devemos imitar
Mas a Escritura também usa esses animais como advertência. O salmista declara: “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem” (Sl 32.9).
Aqui o quadro é de teimosia e falta de entendimento. É o animal que só anda na direção certa se for puxado à força. Não discerne, não obedece por amor ou confiança. Precisa de cabresto, freio, pressão externa.
O jumento de Isaías conhece o dono e a manjedoura. A mula do Salmo 32 ignora a voz do dono. Um vive por relacionamento. O outro só se move por controle. Um tem paz no estábulo. O outro resiste até ser dominado.
5. Outros jumentos que marcam a história
Balaão teve seu caminho corrigido por uma jumenta que via o anjo que ele não via. Ela salvou a vida do profeta teimoso. (Nm 22).
O jumento do samaritano levou o homem ferido. Lucas registra: “Colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele”. (Lc 10.34).Não fez o curativo, nem pôde cuidar dele sozinho, mas garantiu que o cuidado chegasse até o fim.
Sempre o mesmo padrão: serviço fiel, percepção simples, presença na hora certa. O segredo do jumento feliz
A diferença está no entendimento e na disposição do coração:
• Conhece seu dono: tem identidade. Pertence a alguém. Não é selvagem sem rumo.
• Conhece sua manjedoura: confia na provisão.
• Tem entendimento: ouve a voz antes do freio.
• Obedece por vínculo, não apenas por dor.
• Aceita sua função: carrega o que precisa ser carregado.
• É sensível ao que outros não veem.
Seja jumenta perdida, como as de Saul, seja jumentinho em Jerusalém.
Como queria Barth, contenta-se em ser o animal que leva Cristo.
Como a jumenta de Balaão, às vezes percebe o perigo espiritual antes dos “espertos”.
O Salmo 32 mostra que Deus não quer filhos teimosos guiados pelo cabresto. Ele quer guiar com os olhos.
A felicidade não está em ser forçado, mas em conhecer o Dono — a ponto de caminhar ao seu lado por vontade própria, amparado e estimulado pela graça.
Vivemos numa época que confunde felicidade com ausência de peso. O jumento bíblico mostra o contrário. A alegria dele está no vínculo, no serviço e na confiança de que o dono sabe cuidar. Mas só funciona quando há entendimento. Sem isso, vira teimosia com cabresto. Talvez a pergunta final seja tripla: sabemos onde é nossa manjedoura? Temos procurado as “jumentas” que Deus colocou no nosso caminho como Saul? E temos ouvido a voz antes de precisar do freio? Pois, como Isaías e Davi lembraram, até o jumento sabe. A questão é se decidimos ter entendimento.
Portanto, se Deus precisar nos conduzir com firmeza − até quando resistimos − que o atendamos com alegria, lembrando que Ele nos ama e sabe o que é melhor para nós.
A verdadeira felicidade não está em andar sem peso, mas em carregar com alegria o fardo que vem das mãos do Dono.
São Paulo, 28 de maio de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1] “Em uma carta de meu pai, escrita quando eu tinha quatro anos (em 1890), li recentemente estas palavras: ‘Karli teve de apanhar novamente hoje.’ Eu levei ‘a correia’ durante toda a minha vida, e talvez ainda haja mais dela reservada para mim − e é isso que realmente mereço mais do que todas as coisas bonitas que hoje foram ditas a meu respeito. Deixem-me lembrar mais uma vez do jumento ao qual me referi em conexão com minha Epístola aos Romanos. Um jumento real é mencionado na Bíblia − mais especificamente um asno. Mas chamemo-lo simplesmente de jumento. Foi-lhe permitido levar Jesus a Jerusalém. Se fiz alguma coisa nesta minha vida, fiz como um parente daquele jumento que seguiu o seu caminho carregando um fardo importante. Os discípulos disseram ao seu dono: ‘O Senhor precisa dele.’ Assim parece que agradou a Deus usar-me naquele tempo, exatamente como eu era. […] Eu simplesmente estava ali no momento. E, Enquanto todas essas coisas estavam sendo ditas sobre mim hoje, eu dizia a mim mesmo: ‘a batalha foi travada, o inimigo foi atingido − e ali estava eu, no trem de bagagem.’ Foi assim que eu estive presente − e esse foi o meu trabalho. Eu simplesmente estava no lugar certo. Uma teologia algo diferente da teologia corrente era aparentemente necessária em nosso tempo, e foi-me permitido ser o jumento que carregou essa teologia melhor por parte do caminho, ou que tentou carregá-la da melhor maneira possível.” (Karl Barth, Karl Barth’s speech on the occasion of his Eightieth Birthday Celebrations: In: Karl Barth, Fragments grave and gay, (Edited by Marttin Mosbacher), Great Britain, Collins, 1971, [p. 111-118], p. 116-117).
