Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (58)

3) É uma disposição renovada

             Deus nos perdoa todas as vezes que o procuramos sinceramente, arrependidos de nossos pecados, dispostos a modificar a nossa vida, a não mais pecar contra Ele. 

Deus mesmo é quem nos diz: “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, orar e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então Eu os ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (2Cr 7.14).

            Deus está sempre disposto a nos perdoar. Quando arrependidos, confessamos-lhe os nossos pecados, Ele nos perdoa.

Acontece, porém, que nem sempre temos consciência de todas as nossas iniquidades. Sabendo disso, o salmista suplica: “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas” (Sl 19.12).

            O perdão de Deus é ilimitado. Por isso, Ele com a sua misericórdia ilimitada providenciou o nosso perdão definitivo em Cristo Jesus.

4)   É para sempre

    O perdão de Deus não tem prazo de validade. Nem precisamos pagar por uma garantia estendida. O sangue de Cristo tem um valor eterno.

As bênçãos comunicadas por sua obra têm um valor infinito e para sempre. Quando Deus nos perdoa em Cristo, Ele não cultiva mágoas de nossos pecados anteriores.[1]

Deus nos diz na sua Palavra: “Pois, perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jr 31.34; Hb 8.12; 10.17).

            “Jamais me lembrarei”. A promessa de Deus não é condicionada; é absoluta. Ela não pode ser revertida; não está determinada pelo nosso “bom comportamento”. Se assim fosse, o perdão de Deus não perduraria. Entretanto, Ele diz que jamais se lembrará dos nossos pecados… Jamais! Esta é a sua promessa.

Notemos que não há um “esquecimento” em Deus, mas, sim, o seu propósito deliberado de não mais considerar as nossas faltas.

            É Deus mesmo quem nos declara justificado. O absolutamente justo, pelos seus justos e santos critérios declara que já não há mais condenação para nós.

Haverá alguém que possa apresentar novas provas contra nós que já não tivessem sido expiadas por Cristo? Exulta Paulo: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

Ora, se isso é assim, poderia alguém raciocinar: por que, então, os crentes oram constantemente pedindo perdão a Deus pelos seus pecados?

Creio que as palavras de A. Booth (1734-1806) são oportunas aqui:

O fato de os crentes orarem continuamente para que Deus lhes perdoe os pecados não significa que eles já não estejam perdoados. Eles buscam a consciência de que foram perdoados. Não vamos imaginar que toda vez que eles pecam, arrependem-se, confessam o seu pecado e pedem perdão, Deus realiza novos atos de perdão. Contudo, eles precisam conscientizar-se sempre de que o perdão já lhes pertence, por serem filhos de Deus.[2]

            Portanto, ao suplicarmos o perdão de Deus, estamos dizendo: Senhor, dá-me consciência do teu perdão, garantido de forma definitiva por meio da Pessoa e Obra de Cristo Jesus. 

            O Catecismo de Heidelberg (1563), na questão 56, lemos:

Que é o que crês sobre “a remissão dos pecados”?

     R. Que, por causa da obra reconciliadora de Cristo, Deus não se lembrará mais dos meus pecados ou da maneira pecaminosa contra a qual tenho de lutar durante toda a minha vida; mas que ele graciosamente imputa a mim a justiça de Cristo, de modo que eu jamais virei a ser condenado.

São Paulo, 23 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]“Deus, simplesmente, não guarda mágoas contra as pessoas que se humilham e lhe pedem perdão por intermédio de Jesus Cristo” (O. Palmer Robertson, Jonas – um estudo sobre compaixão,  São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 42).

[2] A. Booth, Somente pela graça, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 32. Do mesmo modo escreveu L. Berkhof: “Esta consciência do perdão e de um renovado relacionamento filial muitas vezes é perturbada e obscurecida pelo pecado, e de novo é despertada e fortalecida pela confissão e oração, e por um renovado exercício da fé”(L. Berkhof, Teologia sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 519).

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