Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (57)

E. Características do perdão de Deus

1)   É gratuito

             Não há condições meritórias a serem cumpridas antes do perdão nos ser concedido. O arrependimento, como já vimos, não torna o perdão compulsório; ele na realidade é uma concessão da graça de Deus.

“A fé e o arrependimento não devem ser reputados coisas meritórias mediante as quais merecemos o perdão. Pelo contrário, são os meios pelos quais nos apropriamos da graça de Deus”, escreve Leon Morris (1914-2006).[1]

            Zaqueu, a mulher samaritana, Paulo, o carcereiro de Filipos, todos eles foram perdoados sem o cumprimento de quaisquer exigências anteriores. Arrependidos de seus pecados, eles creram em Jesus Cristo, recebendo a salvação que lhes fora destinada.

Todos estes homens, como nós também um dia, estavam distantes de Deus, sendo considerados seus inimigos. No entanto, Deus em Cristo nos reconciliou consigo mesmo, conforme escreve o apóstolo: “Porque se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida”(Rm 5.10).

            Portanto, quando suplicamos pelo perdão, estamos dizendo: “Senhor, por tua graça plenamente manifestada em Cristo, perdoa todas as minhas iniquidades e capacita-me a não mais pecar contra Ti”.

2)   É pleno

             Quando Deus nos perdoa, independentemente da gravidade de nosso pecado, Ele não mais toma em consideração a nossa ofensa. Numa linguagem figurada e enfática, Deus diz:“Perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jr 31.34).

            Paulo nos diz que Cristo nos libertou de nossas transgressões,“perdoando todos os nossos delitos” (Cl 2.13).

            O perdão de Deus envolve todos os nossos pecados, por maiores que sejam. Nenhum resíduo de nossos pecados ficou sem purificação e perdão.

Lembremo-nos de que um único pecado, por “menor” que seja dentro da nossa escala de valores, nos conduziria à morte eterna.

            Ninguém pode dizer: os meus pecados são grandes demais para serem perdoados ou: os meus pecados são tão pequenos que não precisam ser confessados. O fato é que, como temos visto, todos pecamos por palavras, pensamentos, ações e omissões (Rm 3.23). Porém, Deus nos purifica de todos os nossos pecados.

O perdão de Deus é um milagre que ultrapassa a nossa compreensão: O Deus onisciente apaga, se esquece totalmente de nossas transgressões. Ele já não considera em nossas relações as nossas faltas anteriores que foram perdoadas.

O profeta Miquéias, estupefato com isto, escreve:

Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade, e te esqueces da transgressão do restante da tua herança? O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia. Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniquidades, e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. (Mq 7.18-19).

“De tal maneira Deus tratou dos nossos pecados que Ele os tomou e os lançou nas profundezas do mar do seu esquecimento eterno. Os nossos pecados, em Cristo, são perdoados absoluta, final e completamente; para que não se vejam nunca mais”, enfatiza Lloyd-Jones.[2]

E Deus mesmo nos diz: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro” (Is 43.25). (Vejam-se também: Sl 25.7;  32.2; 51.1,9; 79.8; 85.3; 103.9, 12; 130.3; Is 38.17; Jr 3.12; 31.34).

Numa linguagem figurada, Deus diz que ainda que o pecado perdoado seja buscado, não será encontrado (Jr 50.20).

            No Novo Testamento, João reafirma esta verdade: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

E Jesus Cristo dá uma demonstração evidente da plenitude do perdão de Deus, quando diz a respeito da mulher que lhe ungira os pés: “Perdoados lhe são os seus muitos pecados” (Lc 7.47).

O perdão de Deus é integral; isto significa que o seu perdão equivale ao cancelamento definitivo de uma dívida; não há mais lembrança, ela é tida como quitada.

Na parábola do “credor incompassivo”, encontramos no senhor compassivo, que perdoou ao servo que pedia misericórdia, a ilustração desta afirmação: “E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora, e perdoou-lhe a dívida” (Mt 18.27).

Quando Deus nos perdoa, Ele nos livra do poder dominante do pecado. Todavia, muitas das consequências de nossos pecados perdoados continuam.

Teremos, portanto, que arcar com elas. No entanto, o Deus que nos perdoa também nos fortalece com sua graça, nos capacitando a lidar com isso, nos ensinando inclusive à maior humildade e persistência em nossa fé.

Muitas vezes é justamente no meio desta batalha que amadurecemos em nossa fé e na capacidade de resistência às tentações.

São Paulo, 23 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Leon Morris, Perdão: In: J.D. Douglas, ed. org.O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 3, p. 1268a.

[2] D.M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 162.

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