Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (32)

            Entre os Puritanos, o estudo científico, juntamente com o teológico e literário era amplamente estimulado. “Os Puritanos abraçaram o estudo das artes tão completamente como o da ciência”.[1]

            McGrath em suas abalizadas pesquisas, afirmou que: “Em anos recentes, surgiu um crescente corpo de obras acadêmicas sustentando que a contribuição decisiva para o aparecimento das ciências naturais não veio do cristianismo em geral, mas do protestantismo, em particular”.[2]

            O fato é que o princípio cristão de coerência da realidade resultante de sua compreensão de que toda ela parte de um Deus infinito e pessoal que não se confunde com a Criação e, que se revela, trazia como pressuposto a busca de compreensão dos fenômenos naturais visto que o mundo é possível de compreensibilidade. Estes elementos contribuíram para a busca de entendimento e sistematização dos fenômenos naturais. “A ciência moderna não poderia ter surgido sem a Bíblia”, conclui Veith Jr.[3]

            O que se depreende, é que a Ciência Moderna, que teve a sua gênese no século XVII em “toda a Europa”,[4] não estava em princípio dissociada da fé cristã.

            Kuyper resume isso:

Somente quando há fé na conexão orgânica do Universo, haverá também a possibilidade para a ciência subir da investigação empírica dos fenômenos especiais para o geral, e do geral para a lei que governa acima dele, e desta lei para o princípio que domina sobre tudo.[5]

Todos os impérios estão sob o seu poder

            Assim, não há poder nesse mundo que não esteja sob o controle de Deus. Todos os reinos e impérios estão sob à preservação e domínio de Deus: “O SENHOR frustra os desígnios das nações e anula os intentos dos povos” (Sl 33.10). Esse é o nosso Pai.

Algumas aplicações

  1. Não há vida fora e à revelia de Deus. Ele nos mantém em bondade e amor. Sejamos-lhe gratos. A nossa obediência é a mais fiel expressão de adoração.
  2. Não vivemos em um mundo com leis mecânicas inflexíveis. As leis são expressões da forma ordinária de Deus preservar e dirigir a criação. Confiemos em Deus. Ele é o Senhor de toda a realidade.
  3. O nosso Senhor não dorme nem cochila. Ele tem sempre sob o seu cuidado a criação e, em especial a sua igreja. Não há força capaz de nos atingir sem a permissão e controle de Deus (Sl 121.1-8).
  4. Precisamos de estudantes que levem a sério seus estudos tendo como ponto de partida a existência de Deus e o seu cuidado com a criação. Somente assim poderemos ter uma ciência integral, considerando a exuberância da criação mas, sabendo que há um Deus que criou e preserva todas as coisas.
  5. Disposição para trabalhar. A certeza do cuidado de Deus não pode servir de pretexto para as pessoas se acomodarem em seus trabalhos – exercendo a sua função sem dedicação, responsabilidade e criatividade – contando de forma irreverente e sacrílega com a “providência de Deus”; antes, implica o desejo de trabalhar, usando os recursos que Deus nos tem concedido, rogando, ao mesmo tempo, a bênção de Deus para o nosso trabalho.
  6. Humildade. Mesmo trabalhando arduamente, sabemos que é Deus quem nos dá o pão. É Ele quem provê a nossa subsistência. É o Senhor quem nos propicia, de forma muitas vezes imperceptível, as condições para que exerçamos os nossos talentos, ou, em outras circunstâncias, Ele inclina o coração de outras pessoas para nos socorrer nos momentos de maior carência. O nosso sustento, seja de que modo for, vem do Senhor, a quem oramos de forma consciente: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”.

            Salomão, o rei mais sábio e rico de toda a história de Israel, dá o seu testemunho:

Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem. (Sl 127.1-2).

            À arrogante igreja de Corinto, Paulo escreve: “Pois quem é que te faz sobressair? e que tens tu que não tenhas recebido? e, se o recebestes, por que te vanglorias, como se o não tivesses recebido?” (1Co 4.7).

            Tiago, por sua vez, nos lembra de que “toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do alto, descendo do Pai das luzes” (Tg 1.17).

            Assim, a nossa atitude deve ser de humildade diante de Deus e do nosso próximo, visto que tudo que temos e somos provêm da misericórdia de Deus (1Co 15.10; 2Co 3.5).

            Esse Senhor e Rei que preserva e mantém a criação, é o nosso Pastor que cuida pessoal e amorosamente de nós. Ele supre as nossas necessidades, muitas delas nem ainda percebidas. De fato, sendo assim, nada nos faltará.

            Maringá, 25 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Leland Ryken, Santos no mundo,São José dos Campos, SP.: FIEL, 1992, p. 178.

[2]Alister E. McGrath, A revolução Protestante, Brasília, DF.: Editora Palavra, 2012, p. 368. À frente, continua: “As novas estratégias hermenêuticas promovidas pelos primeiros protestantes foram de importância fundamental no estabelecimento das condições que tornaram possível o aparecimento da ciência moderna” (Alister E. McGrath, A revolução Protestante, p. 369).

[3]Gene Edward Veith, Jr., De todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 23. “A ciência moderna surgiu dentro de uma cultura impregnada pela fé cristã. Esse fato histórico, por si só, já é sugestivo. Foi a Europa cristianizada – e nenhum outro lugar – que se tornou o berço da ciência moderna” (Nancy R. Pearcey; Charles B. Thaxton, A alma da ciência, São Paulo: Cultura Cristã, 2005, p. 19). Vejam-se também: Nancy Pearcey, Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural, Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, p. 39; Hermisten M.P. Costa, O Deus que fala: um estudo do Salmo 19, Goiânia, GO.: Edições Vila Nova, 2016.

[4]Paolo Rossi, O Nascimento da ciência moderna na Europa, Bauru, SP.: EDUSC, 2001, p. 9.

[5]Abraham Kuyper, Calvinismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 123. Vejam-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 623ss.; Alister E. McGrath, A revolução Protestante, Brasília, DF.: Editora Palavra, 2012, p. 368-369.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *