Saber ouvir, uma virtude teológica (1)

duas pessoas conversando

“Por isso, também eu, tendo ouvido” (Ef 1.15).

 

Na Carta aos Efésios, o Apóstolo Paulo, após descrever em forma doxológica aspectos dos grandes feitos de Deus de eternidade à eternidade, tendo como ponto fundamental a sua graça abençoadora que nos elege, redime, adota e sela (Ef 1.3-14), agora, volta-se à igreja como alvo de sua intercessão a Deus (Ef 1.15-23). Como sumariou Stott (1921-2011): “Primeiro, bendiz a Deus por nos ter abençoado em Cristo; depois, ora pedindo que Deus abra nossos olhos para entendermos plenamente esta bênção” (John R.W. Stott, A Mensagem de Efésios, São Paulo: ABU Editora, 1986, p. 29).

O “por isso” (dia\ tou=to) (Ef 1.15), certamente refere-se à toda doxologia (Ef 1.3-14). Paulo começa então destacando a fé e o amor dos efésios que têm sido motivo de testemunho entre as igrejas. Paulo ouviu a respeito (Ef 1.15). Ele era grato a Deus por isso. O último contato de Paulo com a igreja de Éfeso havia uns 5 anos. Muitas pessoas novas chegaram à igreja. Os falsos ensinamentos também se disseminavam aqui e ali. Saber que aqueles irmãos perseveram íntegros em sua fé e amor era uma grata notícia.

Mesmo preso, ele tem ouvido a respeito de tão viva fé depositada no Senhor Jesus como também o amor para com todos os santos.

Aqui, aprendemos de início algo a respeito da vida cristã. Como é bom divulgar as boas notícias, aprender com os nossos irmãos e compartilhar a respeito. As pessoas ficaram bem impressionadas com o testemunho dos efésios e falavam a respeito.

Paulo ouviu e agiu. O que ouvimos? Como ouvimos? O que fazemos quando ouvimos? O que ouvimos por um ouvido pode simplesmente sair por outro, conforme se diz popularmente, sem processar o que ouvimos? A Escritura nos fala sobre a importância de saber ouvir. Analisemos isso começando pelo próprio Deus.

1. Deus, o Ouvinte interessado

Em 336 a.C., Ctesifonte, cidadão ateniense, propôs, possivelmente de forma ilegal, que o povo de Atenas concedesse uma coroa de ouro ao orador Demóstenes pelos seus serviços prestados à pátria no período crítico da imposição macedônia. Ésquines, no entanto, partidário de outro grupo político, é contrário a tal premiação, argumentando de forma contundente. O processo se arrastou por seis anos. O debate público seria inevitável. Após o discurso de Ésquines, Demóstenes (c. 384-322 a.C.) apresentou a sua defesa, reconhecendo a dificuldade, visto falar em causa própria. Assim, temos a origem da obra A Oração da Coroa. Já no segundo parágrafo de seu discurso, o hábil orador deseja ter dos seus ouvintes, “ouvidos benignos” para com a sua fala (Demóstenes, A Oração da Coroa, Rio de Janeiro: Edições de Ouro, (s.d.), p. 19).

Ele foi coroado. Obter ouvidos benignos nem sempre é uma tarefa fácil e simples. Em certa ocasião fui surpreendido por um taxista que durante um percurso de meia hora falou-me com entusiasmo de determinado personagem de sua cidade no Piauí que foi muito marcante em sua formação. Confesso que o narrador era bastante eloquente. O personagem descrito me causou uma sincera admiração pelos seus princípios éticos. No entanto, o mais surpreendente estava por vir. Ao final da corrida, como era uma conta com centavos, pedi que arredondasse para cima. Ele gentilmente, além de não fazer isso, deu-me o equivalente a um desconto de quase 10%, me agradecendo alegremente por eu, sendo professor (dedução dele por ter embarcado em seu carro em uma das ruas de frente do Instituto Presbiteriano Mackenzie e estar de terno) tê-lo ouvido. Confesso que o fiz com alegria e aprendizado.1

O apóstolo Paulo, antes de ser um escritor profícuo, era um ouvinte interessado. Como sabemos, saber ouvir é mais do que simplesmente ficar calado. Paulo sabia ouvir, analisar o que ouviu e agir. Sabemos que, por vezes, é muito difícil ouvir àqueles que aparentemente, em parte pelo nosso preconceito, nada nos tem a acrescentar. Em Eclesiastes lemos esta constatação: “Melhor é a sabedoria do que a força, ainda que a sabedoria do pobre é desprezada, e as suas palavras não são ouvidas” (Ec 9.16). Por sua vez, continua Salomão: “As palavras dos sábios, ouvidas em silêncio, valem mais do que os gritos de quem governa entre tolos” (Ec 9.17).

Dentro de outra perspectiva, notamos biblicamente que os salmistas, entre tantos outros servos de Deus, em suas angústias, diversas vezes se alimentavam na certeza de que Deus ouve as suas orações.

Dentro de outra perspectiva, notamos biblicamente que os salmistas, entre tantos outros servos de Deus, em suas angústias, diversas vezes se alimentavam na certeza de que Deus ouve as suas orações. “Tens ouvido ([m;v’) (shama),2 SENHOR, o desejo dos humildes; tu lhes fortalecerás o coração e lhes acudirás” (Sl 10.17), expressa o salmista de modo confiante a sua fé.

Ainda que sejamos tentados em nossa precipitação a achar que Ele está distante ou muito ocupado, Deus sempre ouve com atenção as nossas súplicas. É o que demonstra Davi em outro salmo: “Eu disse na minha pressa: estou excluído da tua presença. Não obstante, ouviste ([m;v’) (shama) a minha súplice voz, quando clamei por teu socorro. (Sl 31.22).

Novamente: “8Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade, porque o SENHOR ouviu a voz do meu lamento; 9 o SENHOR ouviu a minha súplica; o SENHOR acolhe a minha oração” (Sl 6.8-9). Diferentemente dos ídolos (Sl 115.6; 135.17), Deus ouve a nossa oração. A palavra hebraica quando se refere a Deus como aquele que ouve, tem o sentido de ouvir e responder.

Deus nos ouve até mesmo quando estamos sofrendo devido à nossa desobediência. Ele é misericordioso. Certamente uma das narrativas mais marcantes sobre este assunto é a do profeta Jonas desesperado no ventre do peixe: “Então, Jonas, do ventre do peixe, orou ao SENHOR, seu Deus,2 e disse: Na minha angústia, clamei ao SENHOR, e ele me respondeu; do ventre do abismo, gritei, e tu me ouviste a voz” (Jn 2.1-2).

Devemos aprender a confiar em Deus, expor-lhe em oração as nossas angústias (Sl 18.6) e aguardar com fé a sua resposta: “De manhã, SENHOR, ouves a minha voz; de manhã te apresento a minha oração e fico esperando” (Sl 5.3). Ele entende as nossas necessidades e nos responde em Sua misericórdia (Sl 4.1,3; 22.24; 27.7; 28.2,6; 34.6,17; 39.12; 40.1; 54.2; 55.17; 61.1; 116.1; 119.149; 130.2 143.1; 145.19). Não tenhamos a pretensão de estabelecer para Deus o caminho da justiça. Exponhamos a Deus as nossas carências e aguardemos a sua resposta. Deus nos ouve. Ele jamais está “atarefado” demais que não nos possa ouvir. Amparados nesta certeza, exercitemos este privilégio com intensidade e, descansemos em Deus. Ele nos responderá. Talvez, em muitos casos, já em nossa história presente, terá até mesmo nos respondido (Is 65.24).

Deus nos deu a sua Palavra e também, nos concedeu seus ouvidos para que possamos falar com Ele. Como Pai, nos escuta atentamente quando nos dirigimos a Ele com fé e, até mesmo, por vezes, em nossos desatinos e confusões espirituais.

2. Paulo: saber ouvir e agir

Entre tantas outras virtudes, algo admirável em Salomão é a sua capacidade de ouvir. O mesmo rei que ouviu com atenção as inquietantes perguntas da rica rainha de Sabá, apresentando respostas que a deixaram “sem ar” (1Rs 10.1-7), ouviu também aquelas duas prostitutas que tinham uma questão certamente mais grave: a vida ou morte de um filho (1Rs 3.16-28). A sabedoria que Deus lhe concedeu foi socializada nas questões cotidianas (1Rs 10.4-8) e excepcionais de seu reinado

Em muitas ocasiões em que o apóstolo Paulo ouviu algo a respeito de seus irmãos, ele estava preso, aparentemente pouco ou nada podendo fazer. Tinha os seus próprios, intensos e graves problemas que envolviam enfermidades e mesmo a sua condenação iminente, que poderia significar a morte. Como é difícil nos sentir, como se diz, “com as mãos atadas”, sem capacidade de agir eficazmente na solução do problema e, mesmo assim, manter sincero interesse pelos problemas alheios. Talvez, muitos de nós já tenhamos nos sentido assim: grave enfermidade de um ente querido; total falta de recursos, distância geográfica, impedimentos dos mais variados.

No caso do apóstolo, percebemos que muito de suas cartas tem a ver com o que ouviu, avaliou, interpretou e, sob a direção do Espírito, orou e escreveu. No próximo post ilustraremos com alguns exemplos.

 

 

 

São Paulo, 28 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


1Não pense que esta prática seja rotineira. Certa ocasião, um tanto constrangido, ao embarcar no taxi no ponto oficial do aeroporto, não tendo opção (passava das 20 horas de sábado; poucos voos saem esta hora, logo, é difícil ter um taxi desembarcando passageiro), me desculpei com o taxista por minha corrida ser curta. Ele, curto e grosso demonstrou verbalmente que eu deveria apenas dizer o local para onde deveria me conduzir e pronto… Também não me foi oferecido nenhum desconto.

2 A palavra quando se refere a Deus como aquele que ouve, tem o sentido de ouvir e responder.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (10) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (3)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (9) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (2)

Acesse aqui esta série de estudos completa


E. O Apolinarismo

Nome derivado de Apolinário, o jovem (c. 310-c.390) bispo de Laodicéia, na Síria (c. 360), tendo seus ensinamentos condenados em vários Concílios: Alexandria (362) (aqui somente o apolinarismo, não Apolinário; o seu nome não foi mencionado);[1] Roma (377)[2] (Apolinário e o apolinarismo); Antioquia (378), no 2º Concílio Ecumênico de Constantinopla (381) (Apolinário e o apolinarismo). Atanásio (c 296-373), mais uma vez foi o campeão da ortodoxia do século IV, escrevendo contra esta heresia (371).[3] Ainda que alguns apolinaristas voltassem à Igreja, Apolinário conseguiu adeptos que perseveraram em seus ensinamentos;[4] um de seus discípulos, Vitális, fundou uma congregação em Antioquia (375), sendo consagrado bispo por Apolinário. “Os apolinarianos tiveram pelo menos um sínodo em 378, e há evidência no sentido de ter ocorrido um segundo sínodo. Depois da morte de Apolinário, seus seguidores dividiram-se em dois partidos, os vitalianos e os polemeanos ou sinusiatos. Por volta de 420, os vitalianos já estavam reunidos com a Igreja Grega. Pouco mais tarde, os sinusiatos fundiram-se no cisma monofisita”.[5]

 

Devido à sua concepção tricotômica do homem, bem como o seu desejo de preservar a divindade e a unipersonalidade de Cristo, terminou por concebê-Lo como sendo totalmente divino e apenas 2/3 humano. Baseando-se supostamente em Jo 1.14, admitiu que Jesus era uma unidade composta de elementos divinos e humanos; o Verbo divino teria assumido apenas a carne humana, não toda a humanidade; deste modo Jesus, ainda que humano fisicamente, não o era psicologicamente (Veja-se: Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, p. 291). Esta compreensão pode ser comparada com a ideia de uma alma humana ser implantada num leão; a pergunta é: quem governaria quem; no caso, a alma humana governaria o leão em seu corpo.[6]

 

A ideia de total humanidade envolvia o conceito de pecaminosidade, por isso, a sua tentativa de resguardar o Filho (Cf. Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 94). Para ele, o homem era constituído de Sw=ma (carne ou corpo); Yuxh/ (alma animal) e Pneu=ma (alma racional). O Pneu=ma é que torna o homem o que ele é. Aplicando estes conceitos a Jesus, Apolinário dizia que Jesus tinha Sw=ma e Yuxh/ iguais a de um homem comum; já o Pneu=ma fora substituído pelo Lo/goj (Logos); assim, Jesus possuía um corpo, uma alma, mas não possuía um espírito humano.

 

Kelly acentua que Apolinário deixa claro o seu pensamento nas seguintes considerações:

 

A carne por depender de algum outro princípio de movimento e ação (qualquer que seja este princípio) para se movimentar, não é por si só uma entidade viva completa, mas, a fim de se tornar uma, entra em fusão com alguma outra coisa. Dessa maneira, ela se uniu ao princípio celestial governante (isto é, o Logos) e fundiu-se com ele… Assim, a partir do movido e do motor, foi composta uma única entidade viva – não duas entidades, nem uma única composta de dois princípios completos e automáticos.[7]

 

Assim, para Apolinário há uma única vida; uma perfeita fusão do homem (carne) com o divino, sendo a carne de Jesus glorificada pelo Logos, daí ele falar de “carne divina”, “carne de Deus”, “natureza encarnada da Palavra divina” (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 221-222).

 

Os ensinamentos de Apolinário foram censurados pelo fato de que se o Logos não tomou sobre si a integridade da natureza humana – estando toda ela afetada pelo pecado –, esta natureza não poderia ser redimida, visto que aquilo que o Filho não levou sobre si não pode ser alvo de sua redenção.[8]

 

Pintura de parede do século VII ou VIII em uma igreja nestoriana na China (Wikipedia)

F. Nestorianismo

Nome proveniente de Nestório (380-451), Bispo de Constantinopla (428-431). Adversário voraz do Arianismo, seu primeiro ato oficial como patriarca foi incendiar uma capela ariana (Cf. H. Griffith, Nestório, Nestorianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 3, p. 18).

 

Nestório, numa série de sermões proferidos em 428, combateu uma designação popular dada à Maria de “Qeoto/koj” (“Mãe de Deus”). (Cf. H. Griffith, Nestório, Nestorianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 3, p. 18). Esta fórmula seria usada pouco depois pelo Concílio de Éfeso (431), alcunhada por Cirilo de Alexandria.[9]

 

Deve ser dito que o Concílio de Éfeso utilizou esta expressão não como uma atribuição de majestade a Maria,[10] mas como reconhecimento de que o que dela nasceu, por obra do Espírito Santo, era o Filho de Deus, o Deus encarnado desde à concepção. A expressão também ressalta que Maria não foi mãe simplesmente da natureza humana de Jesus, mas sim da pessoa Teantrópica de Jesus Cristo (Cf. P. Schaff, The Creeds of Christendom, v. 2, p. 64). A expressão é boa? Não. Talvez ela seja inspirada em Lc 1.43, quando Isabel diz à Maria, grávida: “E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor?” (Lc 1.43). Contudo, foi a melhor que se pôde elaborar naquele contexto para expressar a afirmação desta verdade bíblica. Parece-nos melhor a declaração de que Maria é mãe de Jesus Cristo, Aquele que é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus. O fato é que mesmo involuntariamente, o Concílio de Éfeso contribuiu para a deificação de Maria (Cf. Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 1235-1236).

 

Nestório, por sua vez – fugindo do que considerava o extremo oposto, que dizia ser Maria “a)nqropoto/koj” (“Mãe do homem”)[11] – entendia que a expressão correta seria “Xristoto/koj” (“Mãe de Cristo”) (Ver: G. C. Berkouwer. A Pessoa de Cristo, São Paulo: ASTE, 1964, p. 218-219), ou mesmo, “Qeodo/xoj” (“que recebe[12] a Deus”), por considerar distintas as qualidades da divindade e da humanidade. Deste modo, aceitando a sua posição, podemos perceber logo de início o problema da encarnação do Verbo: o menino que nasceu de Maria era Deus-Homem?.

 

Nestório, tentando refutar o Eutiquianismo, ensinava (?)[13] que Jesus Cristo era constituído de duas pessoas e duas naturezas. Sustentava que cada uma das duas naturezas de Jesus tinha a sua própria subsistência e personalidade; a união entre elas não era ontológica, mas apenas moral, simpática e afetiva.

 

Os seus ensinamentos foram rejeitados no Concílio de Éfeso (431) e de Calcedônia (451). Ele foi mandado para um mosteiro em Antioquia, depois exilado (435/436) na distante cidade de Petra, na Arábia, e finalmente foi para o oásis de Upper, no Egito, onde passaria o resto de seus dias.[14]

 

O Nestorianismo permaneceu na Pérsia, onde seus seguidores estabeleceram um eficiente trabalho missionário que permitiu a sua proliferação na Arábia, Índia, Turquestão e China, espalhando-se por diversas regiões da Ásia. Ainda hoje sobrevive o Nestorianismo (“Caldeus Uniatos”) na Mesopotâmia, Pérsia e Síria, havendo um grupo alinhado com a Igreja de Roma e outro independente (“Igreja Nestoriana Não-Unida”).

 

G. Eutiquianismo

 

Nome derivado de Êutico (= Eutiques, Eutíquio) (c.378-454), arquimadrita[15] de um mosteiro em Constantinopla, discípulo de Cirilo de Alexandria. A sua doutrina consiste numa reação ao Nestorianismo. Ele sustentou que a encarnação é o resultado da fusão do divino com o humano em Jesus, sendo a natureza humana absorvida pela divina, ou que desta fusão surgisse uma nova substância “híbrida”;[16] um “terceiro tipo de natureza.”[17] Assim, sua posição envolvia uma pessoa e uma natureza. Ele foi o fundador do “Monofisismo”: Cristo tem uma única natureza; a divina revestida de carne humana. Observem que dentro desta perspectiva, Jesus não salvaria ninguém, já que Ele não seria verdadeiro homem nem verdadeiro Deus…

 

O Eutiquianismo foi condenado no Sínodo Permanente de Constantinopla (22/11/448).[18] Todavia, em outro Concílio, convocado pelo imperador Teodósio II (408-450), realizado em Éfeso (08/449), Êutico foi reabilitado.[19] Isto ocorreu à revelia do bispo de Roma Leão I, “o Grande”,[20] que havia elaborado uma “Carta Dogmática” ouTomo[21] (13/06/449) combatendo a doutrina da natureza única de Cristo. Dióscoro, sucessor de Cirilo († 444) como patriarca de Antioquia, foi quem presidiu este Concílio – com plenos poderes imperiais[22] –, impedindo inclusive que os três legados do bispo de Roma lessem a sua “Carta Dogmática” perante o Concílio.[23]

 

No entanto, dois anos depois, foi convocado o Concílio de Calcedônia (23/05/451)[24] pelo imperador Marciano, que casou-se com Pulquéria (irmã do imperador Teodósio II, falecido prematuramente numa queda de cavalo (28/07/450)). Calcedônia anulou a decisão de Éfeso e o invalidou como Concílio verdadeiramente ecumênico, condenando o Eutiquianismo, exilando Êutico e Dióscoro. Contudo, o Eutiquianismo continuou vigorando como ensinamento genuíno na Igreja Egípcia.

 

São Paulo, 26 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

 

[1] Cf. Herzog, Appolinarianism: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk Wagnalls, Publishers, 1887 (Revised Edition), v. 1, p. 109.

[2] Em 376 foi censurado pelo Papa Damaso I. Foi então que Atanásio desenvolveu a sua obra, Demonstração da Encarnação Divina, firmando a sua posição.

[3]Cf. Herzog, Appolinarianism: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, v. 1, p. 109.

[4]Cf. Herzog, Appolinarianism: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, v. 1, p. 109.

[5] V.L. Walter, Apolinarismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 98.

[6] Veja-se: Loraine Boettner, Studies in Theology, 9. ed. Philadelphia, The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970, p. 263.

[7] Apud J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 220.

[8] Vejam-se: Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 94-95; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 458.

[9] Quanto aos possíveis empregos da expressão antes deste período, ver: Maurice Jourjon; Bernard Meunier, Maria: In: Jean-Yves Lacoste, dir. Dicionário Crítico de Teologia, São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004, p. 1095; G.I. Söll, et. al. Maria: In: Angelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulus, 2002, p. 885-886.

[10] O que viria a acontecer por volta do sexto século, quando Maria começaria a ser adorada (Cf. W.C.G. Proctor, Madre de Dios: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Grand Rapids, Michigan: T.E.L..L., 1985, p. 325).

[11] Cf. Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 74.

[12] Proveniente de “Doxh/”, “recipiente”, “vasilha”, “depósito”. (A palavra é usada no NT. com o sentido de “banquete” (* Lc 5.29; 14.13))

[13]Em 1895 descobriu-se na Síria um escrito de Nestório, O Livro de Heraclides, (publicado em 1910) no qual ele ensina algo que vai justamente de encontro à heresia que supunham que ele sustentava. Referindo-se a Cristo, Nestório afirma que “o mesmo que é um é duplo”; ele também se dizia satisfeito com a Cristologia de Calcedônia. Na atualidade os estudiosos estão divididos quanto à interpretação de seu pensamento e, consequentemente, se foi justo ou não condená-lo. (Vejam-se: H. Griffith, Nestório, Nestorianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, v. 3, p. 19; J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento,p. 235-240; B. Hägllund, História da Teologia, Porto Alegre, RS.: Concórdia, 1973, p. 79-82; G.C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo, São Paulo: ASTE, 1964, p. 54; Johannes Quasten, Patrology, 7. ed. Westminster, Maryland: Christian Classics. INC., 1994, v. 3, p. 516; Charles Hodge, Teologia Sistemática, p. 781-782).

[14] Cf. Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, p. 96; W. Möller, Nestorius: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, v. 2, p. 1630b.

[15] Arquimadrita, significava, na Igreja oriental, o chefe de um ou mais mosteiros. O título também se aplicava aos padres celibatários de destaque.

[16] Cf. Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 303.

[17]Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, p. 459.

[18]Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 87. Quanto às articulações políticas de Dióscoro, patriarca de Antioquia, neste Concílio, Vejam-se: Ibidem., p. 88ss.; Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, p. 98.

[19] Vejam-se: Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 89-90.

[20]Latourette diz que Leão I “foi um dos homens mais capazes que já ocuparam o chamado trono de Pedro” (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo,v. 1, p. 220).

[21] Este “Tomo”, que Berkhof chama de “um compêndio da cristologia ocidental”, contribuiria decisivamente para a formulação de Calcedônia (Veja-se: Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 97-98). Do mesmo modo, declara Perrone: “O Tomus ad Flavianum representa uma contribuição decisiva para a solução da questão cristológica, tal como tomará forma na definição de Calcedônia” (Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 88). Boa parte deste “Tomo”, encontra-se In: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 83-86.

[22] Veja-se: Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, São Paulo: Vida Nova, (Uma História Ilustrada do Cristianismo), 1980-1988, p. 98.

[23] Este Concílio seria conhecido na História como o “Sínodo dos Ladrões”, alcunha dada por Leão, bispo de Roma, em carta dirigida a Pulquéria, irmã do imperador Teodósio II, em 20/07/451. Isto porque a sua decisão não coincidia com a ortodoxia da Igreja e também, porque o seu documento não foi lido. (Vejam-se mais detalhes, In: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 249-252; Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, p. 98-99).

[24] O Concílio foi convocado primariamente para realizar-se em Nicéia, todavia, em 22/09/451, transfere-o para Calcedônia. (Cf. Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberingo, org. História dos Concílios Ecumênicos, p. 93).

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (9) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (2)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (8) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (1))

Acesse aqui esta série de estudos completa


C. Monarquianismo

 

 O nome é derivado de duas palavras gregas, mo/noj & a)rxh/, daí, “Um só Princípio”, “Um só Deus”. O Monarquianismo modalista foi a heresia mais influente do terceiro século.[1]

 

A sua preocupação era a defesa do monoteísmo, negando toda e qualquer ideia de diversidade no Ser divino, daí a tentativa de conciliar a doutrina do “Logos”, com a unicidade de Deus.

 

Os monarquianos criam numa espécie de divindade de Jesus (monarquianismo dinâmico),[2] contudo afirmavam ser a Trindade irreconciliável com a unidade de Deus. Dentro desta perspectiva, não há relação trinitária e está totalmente fora de questão a doutrina da Expiação e da intercessão do Espírito.

 

1. Monarquianismo Dinâmico: Também conhecido como “Humanitariano”. Seu primeiro representante foi o curtidor Teodoto, que chegou a Roma de Bizâncio no ano 190, como resultado de uma perseguição. Teodoto foi excomungado pelo bispo de Roma, Vítor (186-198). Contudo, suas ideias foram preservadas e difundidas por outro Teodoto, banqueiro, e um tal Asclepiodoto.[3] No entanto, o mais destacado defensor desta doutrina foi Paulo de Samosata, bispo de Antioquia por volta do ano 260.

 

Paulo de Samosata ensinava que Jesus era originariamente um mero homem,[4] sendo elevado a uma posição superior no batismo, quando recebeu o poder (“du/namij“) do céu. Este poder, que passou a residir na pessoa humana de Jesus – como em mero recipiente –, qualificou-o para uma tarefa especial. Assim, Jesus foi elevado a uma posição intermediária entre Deus e os homens, no entanto, Jesus não é essencialmente divino. A consciência de ser o portador do Logos, foi crescendo gradativamente em Jesus a partir do seu batismo. O Logos o capacitou a exercer um ministério especial e era Ele quem controlava todas as palavras e obras de Jesus.

 

Na visão deles, Jesus era o filho adotivo de Deus; portanto, a sua “divindade” era apenas de honra, de adoção e não de essência; ela ocorria pela graça. No entanto, dentro da plenitude da revelação bíblica, não há lugar para nenhum tipo de teologia adocionista. O fato bíblico é o oposto: O verbo eterno de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14). A encarnação tem início lá em cima, de onde vem o nosso Senhor (Jo 8.23) (Veja-se: Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 52-53).

 

Essa teologia adopcionista foi condenada no Sínodo de Antioquia (268), sendo ele excomungado (Eusébio, Historia Eclesiastica, Madrid: La Editorial Catolica, [Biblioteca de Autores Cristianos, v. 349-350], 1973, VII.29.1).

 

2. Monarquianismo Modalista: Seu principal representante foi Sabélio, presbítero de Ptolemaida (250), tendo ensinado em Roma por volta do ano 215.

 

Esta forma de modalismo, foi conhecida no Ocidente como “Patripassianismo” (O Pai se encarnou e também sofreu)[5] e no Oriente como “Sabelianismo“.

 

Para Sabélio não havia Trindade; Pai, Filho e Espírito Santo eram apenas nomes diferentes para a mesma realidade; deste modo, os três eram apenas (Pro/swpata) (semblantes, faces) e não seres independentes (Veja-se: P. Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE., 1988, p. 73). Ele considerava as três Pessoas da Trindade como três diferentes modos de ação ou manifestação divina, as quais Deus assume sucessivamente, revelando-se como Pai na criação e na doação da Lei; como Filho na encarnação[6] e como Espírito na regeneração e santificação. Deus na realidade seria como um ator representando três papéis no enredo da história revelacional; três máscaras para três personagens encenados pelo mesmo ator.[7] Deste modo há apenas uma única Pessoa; ficando a Trindade reduzida a três modos de manifestação.

 

Epifânio, bispo de Salamis, descrevendo os ensinamentos do Sabelianismo, escreveu por volta do ano 375:        “Ensinam que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são uma só e mesma essência, três nomes apenas dados a uma só e mesma substância”.

 

À frente, Epifânio cita uma analogia utilizada:

 

Tome-se o sol: o sol é uma só substância, mas com tríplice manifestação: luz, calor e globo solar. O calor… é (análogo a) o Espírito; a luz, ao Filho; enquanto o Pai é representado pela verdadeira substância. Em certo momento, o Filho foi emitido como um raio de luz; cumpriu no mundo o que cabia à dispensação do Evangelho e à salvação dos homens, e retirou-se para os céus, semelhantemente ao raio enviado pelo sol que é novamente incorporado a ele. O Espírito Santo é enviado mais sigilosamente ao mundo e, sucessivamente, aos indivíduos dignos de o receberem.[8]

 

Implicações desta doutrina:

 

1) Não há Trindade.

2) As três formas de Revelação não são coeternas.

3) Há apenas três MODOS da mesma Pessoa, e não três Pessoas.

 

D. Arianismo

Nome derivado de seu maior representante, Ário (c. 250-c.336), natural da Líbia e educado em Antioquia da Síria, tendo como mestre a figura enigmática de Luciano de Antioquia († 312), que teria sido discípulo de Paulo de Samosata (Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 174).

 

Ário teve os seus ensinamentos condenados em Antioquia (02/325); e no Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia (20/05/325), sendo então deportado para o Ilírico. Mesmo no exílio, ele continuou escrevendo, aumentando consideravelmente a sua influência, contando sempre com um bom número de amigos fiéis, sendo o grande articulador político do grupo ariano, o bispo Eusébio de Nicomédia († 342). Em 335, num encontro com Constantino (274-337), Ário subscreveu uma confissão considerada pelo Imperador “ortodoxa”, que na realidade é mais eloquente no seu silêncio.[9] Em 336/337, quando jazia no seu leito de morte em Constantinopla, foi solenemente readmitido à comunhão da Igreja pelo Sínodo de Jerusalém.[10]

 

Atanásio, grande opositor ao Arianismo

O Arianismo a despeito de sua condenação em Nicéia, juntamente com os anátemas emitidos por este Concílio, desfrutou de ampla aceitação no quarto século, só começando a perder força no Concílio de Constantinopla (381), quando a posição de Nicéia foi reafirmada; no entanto, o arianismo permaneceu vivo até o final do século sétimo.[11] Se por um lado o arianismo desfrutou de boa aceitação devido ao grande número de seguidores influentes e a tolerância explícita do imperador – que desejava a tudo custo manter a unidade do império –,[12] ele encontrou um adversário perseverante que, apesar da pequena estatura, tornou-se um gigante na defesa da ortodoxia bíblica: Atanásio (c 296-373), o jovem bispo de Alexandria (328-373),[13] que mesmo sendo perseguido e exilado, conseguiu exercer poderosa influência na teologia ocidental, preservando a unidade da igreja e uma sã teologia bíblica, sustentando a divindade e a humanidade de Jesus.[14]

 

O ponto focal de Ário é de que há um só Deus (Pai) não-gerado, sem começo, único, verdadeiro, único detentor de imortalidade. Para os arianos, Jesus Cristo não era da mesma substância do Pai (o(moou/sioj) (“da mesma natureza”), mas sim de uma substância similar (o(moio/usioj)(“de natureza semelhante”). Esse “iota” grego fazia toda a diferença entre um cristianismo bíblico e um cristianismo forjado pela imaginação do homem.[15]

 

Desta premissa, como observa Kelly (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 172-174), decorrem quatro outras:

 

1) O Filho é uma criatura; uma criatura perfeita, distinta da criação, mas que veio à existência pela vontade do Pai;

2) Como criatura, o Filho teve um começo. Logo, a afirmação de que Ele era coeterno com o Pai implicaria na existência de dois princípios, o que assinalaria uma negação do monoteísmo;

3) O Filho não tem nenhuma comunhão substancial com o Pai. Ele é uma criatura que recebeu o título de “Palavra” e “Sabedoria” de Deus porque participa da Palavra e Sabedoria essenciais;

4) O Filho está sujeito à mudanças e ao pecado, e poderia cair como o diabo caiu. Contudo, Deus prevendo a sua firmeza de caráter, agiu preventivamente com a Sua graça.

 

Ário e seus discípulos, buscando apoio em textos tais como Jo 1.14; 3.16,18; Cl 1.15; 1Jo 4.9, ensinavam que Deus, o Pai, criou o Filho primeiro e, por meio do Filho criou o Espírito, os homens e o mundo; portanto: Jesus é o primogênito do Pai e o Espírito é o primogênito do Filho. O Filho foi criado do nada; Ele veio à existência antes da fundação do mundo, mas ele não é eterno porque foi criado (Ver: Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 78). Daí o “chavão” ariano: “Tempo houve em que Ele não existia” (Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 173). Portanto, sendo o Filho criado, não é Deus; consequentemente, Jesus não é da mesma essência ou natureza do Pai. A atribuição de títulos “Deus” e “Filho” feita a Jesus, era apenas de cortesia, resultante da graça.

 

Quando perseguido em 321, Ário buscou ajuda no seu antigo e poderoso amigo, o bispo Eusébio de Nicomédia († 342) – que batizaria o imperador Constantino, moribundo em maio de 337 –, escrevendo: “Somos perseguidos porque afirmamos que o Filho tem um início, enquanto que Deus é sem início (a)/narxoj).[16]

 

O historiador W. Walker (1860-1922), resume a posição de Ário:

 

Para Ário, Cristo era, na verdade, Deus em certo sentido, mas um Deus inferior, de modo algum uno com o Pai em essência ou eternidade. Na encarnação, esse Logos entrou em um corpo humano, tomando o lugar do espírito racional humano.[17]

 

Tillich (1886-1965) especula: “A vitória do arianismo teria transformado o cristianismo em apenas mais uma entre as religiões já existentes” (P. Tillich, História do Pensamento Cristão, p. 77).

 

São Paulo, 26 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 


 

[1] Compare as informações de L. Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 71 com as de J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 89. Berkhof diz que foi Tertuliano o primeiro a dar este designativo (monarquiano) a este tipo de concepção (História das Doutrinas Cristãs, p. 71).

[2] A força propulsora por trás do modalismo era a dupla convicção, defendida com vigor, da unicidade de Deus e da plena divindade de Cristo” (J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 89).

[3]Eusébio, Historia Eclesiastica, Madrid: La Editorial Catolica, (Biblioteca de Autores Cristianos, v. 349-350), 1973, V.28.1-3,6,9.

[4]Eusébio, Historia Eclesiastica, V.28.2; VII.27.2.

[5] Na sua obra contra Práxeas (c. 213), Tertuliano escreveu: “O demônio tem lutado contra a verdade de muitas maneiras, inclusive defendendo-a para melhor destruí-la. Ele defende a unidade de Deus, o onipotente criador do universo, com o fim exclusivo de torná-la herética. Afirma que o próprio Pai desceu ao seio da Virgem, dela nascendo, e que o próprio Pai sofreu; que o Pai, em suma, foi pessoalmente Jesus Cristo…. Práxeas foi quem trouxe esta heresia da Ásia para Roma…. Ele afugentou profecia, e trouxe heresia; expulsou o Paráclito e crucificou o Pai” (Against Praxeas, 1. In: ANF., v. 3, p. 597-598). Devido à obscuridade da pessoa de Práxeas, pensa-se que este nome era apenas um apelido (“intrometido”), dado a algum proponente destas ideias, tais como, Noeto, Epígono ou o papa Calixto (217-222). (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 90).

[6] Boettner comenta: “A encarnação foi reduzida a ser simplesmente uma união temporária das naturezas Divina e humana no homem, Jesus Cristo” (Loraine Boettner, Studies in Theology, 9. ed. Philadelphia, The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970, p. 128).

[7] Ver: Roger Olson, História das Controvérsias na Teologia Cristã: 2000 anos de unidade e diversidade, São Paulo: Editora Vida, 2004, p. 198.

[8]In: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE, 1967, p. 71. Do mesmo em: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 382-383.

[9]Veja-se o texto da sua confissão In: Socrates Scholasticus, The Ecclesiastical History, I.26. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 2, p. 28-29; Salaminus Hermias Sozomen, The Ecclesiastical History, I.27. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, v. 2, p. 277-278; o texto grego está reproduzido In: Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), 1977, v. 2, p. 28-29. Veja-se também, Carlos Ignacio Gonzalez, El Desarrollo Dogmatico en los Concilios Cristologicos, Santafé de Bogotá: CELAM., 1991, p. 316.

[10] Cf. V.L. Walter, Arianismo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 105 e Eusebius of Nicomedia: In: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk Wagnalls, Publishers, 1887 (Revised Edition), v. 1, p. 772-773.

[11]Os visigodos (= godos do oeste) que invadiram e pilharam Roma em 24/08/410, conseguiram com muita dificuldade se manter sobre o território conquistado. Contudo, no período de apogeu, os visigodos estenderam os seus domínios sobre a maior parte da Espanha, comandados pelo rei Eurico (466-484). Os suevos, entretanto, conservaram o seu território independente no extremo noroeste da península. (Cf. Justo L. Gonzalez, A Era das Trevas, São Paulo: Vida Nova, (Uma História Ilustrada do Cristianismo), 1980-1988, v. 3, p. 12. Veja-se também: Vários autores, Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, Madrid, Espasa-Calpe, 70 Vols. (mais apêndices e suplementos), XXI, p. 902).

Apesar do indiscutível domínio dos visigodos, a unificação política dos seus domínios só se desenvolveu satisfatoriamente sob o reinado de Leovigildo (568-586), que estabeleceu a capital em Toledo, derrotando finalmente o reino dos suevos.

Os visigodos eram arianos, tendo sido doutrinados ao norte do Danúbio pelo missionário cristão Ulfilas (311?-383). Embora seja discutida a amplitude da influência do trabalho de Ulfilas sobre os visigodos, o fato é que ela existiu. (Cf. Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, 3. ed. Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1977, v. 1, 174 e Williston Walker, História da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE, 1967, v. 1, p. 175. Vejam-se, também: Stephen Neill, História das Missões, São Paulo: Vida Nova, 1989, p. 57 e Ruth A. Tucker, “…Até aos Confins da Terra.”: Uma História Biográfica das Missões Cristãs, São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 36-39). “Os arianos se consideravam a si mesmos como os verdadeiros cristãos e as suas igrejas, como a Igreja Católica” (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, v. 1, p. 399).

Leovigildo tentou impor o arianismo a seus súditos na península; todavia, com a sua morte (21/04/586)(1), encerra-se a sucessão de reis visigodos “arianos”. O seu filho Recaredo I,(2) assume o trono, governando de 586 a 601. Recaredo, que ao que parece, era cristão, declarou-se oficialmente em 587, quando reinava apenas há dez meses. O bispo de Sevilha, Leandro (540-596), por certo, teve grande influência em sua decisão, como também tivera na de seu irmão Hermenegildo (564-586).

Após Recaredo dominar três conspirações arianas, visto que estes não se conformavam com a sua conversão, ele convocou o Terceiro Concílio de Toledo, que se celebrou em 06/05/589, com a assistência de 62 bispos e 5 metropolitanos de Espanha e das Gálias, sendo Leandro de Sevilha (540-596) o grande personagem deste evento. À ocasião, Recaredo e sua esposa Bada, reafirmaram as suas conversões ao catolicismo – proclamando deste modo a conversão de todo o reino –, e muitos outros abjuraram o arianismo, entre eles cinco magnatas e oito bispos. (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XLIX, p. 1137). Alguns arianos aristocratas fizeram oposição ao rei, todavia, como não dispunham de apoio popular, nada conseguiram. (Cf. Jacques Heers, História Medieval, 3. ed. (corrigida), São Paulo: Difel, 1981, p. 31).

O crescente desaparecimento do arianismo “facilitou a unidade religiosa e cultural da Europa Ocidental”. (Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo, v. 1, p. 400).

 

*****

 

(1) Parece que Leovigildo se fez católico no leito de morte (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 904A; XXVII, p. 1205A; XXIX, p. 1234A), entregando seu filho Recaredo aos cuidados espirituais de     Leandro de Sevilha.

(2) O primeiro filho de Leovigildo foi Hermenegildo (564-586), nascido do seu primeiro casamento com a católica Riquilde (Richilde), que teve vida breve (ou Teodora, que segundo alguns, era irmã do bispo Leandro (Cf. Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXIX, p. 1234a)). Hermenegildo se converteu ao catolicismo por volta do ano 580, mudando o seu nome para João. Mais tarde, por questões políticas e, finalmente, por se negar voltar ao arianismo, rejeitando inclusive, receber a Comunhão das mãos de um bispo ariano, Hermenegildo foi martirizado em 13/04/586, provavelmente em Sevilha (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 903b; XXVII, p. 1204). Em sua homenagem, o Rei Fernando VII, de Espanha (1784-1833), criou em 10/07/1815, “A Real e Militar Ordem de São Hermenegildo”, que objetivava premiar os oficiais dos Reais Exércitos e Armada pela constância no serviço militar. (Veja-se: Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXVII, p. 1203-1204).

Recaredo foi o segundo filho de Leovigildo, rebento do seu casamento com Goisuintha, viúva de Atanagildo, sendo uma “ariana furiosa” (Cf. Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XXI, p. 903b). Todavia, na Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana, XIL, p. 1136b, encontramos a informação de que esta era a sua madrasta.

[12] Vejam-se: Philip Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1996, v. 3, § 119, p. 621; Atanásio: In: Tony Lane, Pensamento Cristão: Dos Primórdios à Idade Média, São Paulo: Abba Press Editora, 1999, v. 1, p. 45; P. Tillich, História do Pensamento Cristão, p. 75-76.

[13] Desses 45 anos, 17 foram passados em cinco exílios diferentes. (Cf. Samuel J. Mikolaski, Atanasio: In: Wilton M. Nelson, ed. ger. Diccionario de Historia de la Iglesia, Miami: Florida: Editorial Caribe, 1989, p. 100 e Atanásio: In: Tony Lane, Pensamento Cristão: Dos Primórdios à Idade Média, v. 1, p. 45).

[14]Veja-se: Samuel J. Mikolaski, Atanasio: In: Wilton M. Nelson, ed. ger. Diccionario de Historia de la Iglesia, p. 99-100.

[15] Vejam-se: Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, p. 179-180; P. Tillich, História do Pensamento Cristão, p. 73-74.

[16] Ário a Eusébio, In: Socrates Scholasticus, Ecclesiastical History, I.5. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 2, p. 3. Ver também: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 72 e Carlos Ignacio Gonzalez, El Desarrollo Dogmatico en los Concilios Cristologicos, p. 314.

[17] W. Walker, História da Igreja Cristã, São Paulo: ASTE., 1967, v. 1, p. 158.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (8) – A Doutrina de Cristo antes da Reforma – Um panorama histórico (1)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (7) – A Doutrina da Trindade: Formulação doutrinária – Um panorama histórico (2)

Acesse aqui esta série de estudos completa


 

Figura representativa dos gnósticos

Já nos primeiros séculos da Era Cristã, surgiram diversas heresias concernentes à Pessoa de Cristo e à relação das suas duas Naturezas. Essas heresias ora negavam a divindade, ora diminuíam a humanidade de Cristo. Alguns teólogos, no afã de combater alguma forma de erro, caíram com frequência em outro; passando a existir daí, não mais uma heresia, mas duas! Segundo Grudem, essas heresias surgiram da negação de um desses princípios fundamentais, a saber: a) Deus é três pessoas; b) Cada pessoa é plenamente Deus e, c) Só há um Deus. (Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 177). Notemos também, que nos primeiros séculos a Igreja confessou direta e indiretamente a Santíssima Trindade, a divindade do Filho e do Espírito; isto estava implícito de várias formas: no batismo, na “bênção apostólica” e no recitar do Credo Apostólico. O problema surge na elaboração desta verdade de modo compreensível. Na formulação da doutrina é que a Igreja se viu em sérias dificuldades: como tornar compreensível doutrinas entremeadas de mistérios? Este foi um dos problemas. Na tentativa da verbalização da doutrina é que muitas heresias surgiram…

Quanto à segunda pessoa da trindade, a preocupação predominante concentrava-se em tentar responder à pergunta concernente à divindade de Jesus. Segundo resume bem a questão:

Durante os quatro primeiros séculos que se seguiram à morte de Cristo, mais exatamente até os concílios de Nicéia (325), Éfeso (431) e Calcedônia (451), grande parte dessa criatividade cristológica foi dirigida a responder, de maneira cabal, à pergunta (…) Jesus de Nazaré é Deus1

Veremos abaixo, em forma de esboço, apenas os principais erros:

1. As heresias

A. Os Ebionitas

Heresia surgida nos círculos judaicos, no final do primeiro século. O nome é derivado do hebraico: }Oy:be) (‘ebheyôn), que significa “pobre”, “necessitado”, “miserável”, “mendigo”, “pedinte de esmolas”.2 Eusébio de Cesaréia (c. 262-339), com uma dose de maldade, diz que este nome “manifesta a pobreza de sua inteligência”.3 Informa que eles tinham a respeito de Cristo “pensamentos pobres e de baixa estima” (Eusébio, Historia Eclesiastica, III.27.1). Criam que a fé não era suficiente para a salvação, sendo preciso que os homens observassem a Lei. (Eusébio, Historia Eclesiastica, III.27.2). Determinado grupo de ebionitas “heterodoxo” cria que Jesus era um mero homem, filho de José e Maria, porém um sincero observante da Lei. (Eusébio, Historia Eclesiastica, III.27.2/VI.17). Ele foi qualificado mediante o batismo pela descida do Espírito Santo para ser um profeta e mestre; porém o Espírito Santo o abandonou no Calvário (Veja-se: 1Jo 5.6-12). No entanto, como Messias predestinado, Ele voltaria à terra para reinar (J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 103).

Este grupo desejava manter a qualquer preço o monoteísmo do Antigo Testamento – preservando a Lei mosaica e uma forma de ascetismo: todos os cristãos deveriam ser circuncidados –, nem que para isso tivessem de negar a divindade de Cristo e a Sua concepção virginal… o que de fato fizeram. Na tentativa de preservar o monoteísmo bíblico, os ebionitas sacrificaram todos os textos que falam da divindade e eternidade do Filho.

Rejeitavam os escritos de Paulo, chamando-o de “apóstata da lei” (Eusébio, Historia Eclesiastica, III.27.4); todavia, honravam a Tiago e Pedro.

Devemos acentuar que todo ebionismo é subordinacionista. A divindade do Filho, quando aceita, é menor do que a de Deus. O Filho é ontologicamente subordinado ao Pai.

Ebionita, na Teologia moderna, passou a significar aqueles que negam a divindade ou a plena divindade de Cristo.

B. O Gnosticismo

Nome derivado do grego gnw/sij, “conhecimento”. Este grupo extremamente “amorfo”,4 surgiu provavelmente no primeiro século.5 Os gnósticos pretendiam ter um conhecimento esotérico, secreto e especulativo de Deus. Ensinavam que somente aqueles que tivessem acesso a uma forma secreta – conhecida pelos gnósticos – de interpretar a Bíblia poderiam entendê-la e, portanto, obter a salvação.6 Na busca de um conhecimento maior, o gnosticismo se caracterizava por ser altamente especulativo, fazendo um sincretismo de elementos gregos, judeus, cristãos e orientais, buscando uma explicação peculiar para a origem do mal. Irineu (c. 130- c. 200) os retrata como hereges que corromperam a doutrina cristã, mesclando-a com a filosofia pagã (Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1985, II.14.1. p. 161ss). No entanto, ao que parece, muitos dos mestres gnósticos eram cristãos sinceros, desejosos de expressar o Evangelho de forma que parecesse satisfatória aos seus contemporâneos. Contudo, foram infelizes em sua tentativa, sacrificando o conceito bíblico do Logos divino, em prol de seus pressupostos filosóficos (Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 20).

Uma das preocupações dominantes nos sistemas gnósticos era com a questão da dualidade, caracterizada pela miséria e futilidade da vida humana neste mundo: vida aprisionada pelo corpo material, e o contraste com a ordem superior, inteiramente espiritual, que não se comunica com a matéria.

Criam que a matéria é má e Deus, o Pai supremo (Bythos), é o Éon perfeito; por isso, Deus não pode ter criado o mundo:

“o que Deus fez foi lançar uma série de emanações (30).7 Cada uma destas emanações distanciou-se mais de Deus, até que por último houve uma emanação tão distante que pôde tocar a matéria. Esta emanação (Demiurgo, identificado como o Deus do Antigo Testamento) foi a que criou o mundo (…). Os gnósticos sustentavam que cada emanação conhecia cada vez menos a Deus, até chegar a um ponto que as emanações não só ignoravam a Deus senão que lhe eram hostis. Assim chegaram, finalmente, à conclusão de que o deus criador não só era distinto do Deus verdadeiro, senão que o ignorava e lhe era ativamente hostil”.8

Para os gnósticos, Deus (Bythos) não tinha nada a ver com este universo, daí, possivelmente, a afirmação de João: “Todas as cousas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3).

Márcion (? – c. 165) o herege de Sinope9 – cujos ensinamentos perduraram no Oriente até o século VII – ainda que sustentasse alguns conceitos gnósticos, ensinando também a ideia de dois deuses, diferentemente do “gnosticismo tradicional”, não identificou o “Demiurgo” como o autor do mal.10

A respeito da Pessoa de Cristo, havia dentro do gnosticismo uma variedade de ideias, a saber:

a) Jesus era uma das 30 emanações “aeons” do Deus bom “Bythos”, emitidas para entrar em contato com a matéria que é má. Assim sendo, Jesus não é divino, é apenas uma espécie de semideus, uma entidade entre Deus e os homens.

b) Partindo do princípio filosófico de que a matéria é essencialmente má, afirmavam que Jesus não tinha corpo real; deste modo, ele era uma espécie de fantasma, sem carne e sangue reais. Jesus era uma ilusão; parecia homem, mas não era (docetismo);11 o filho de Deus, que era real, apenas usava o Jesus humano como meio de expressão; a encarnação, portanto, era apenas uma ilusão.12 Por trás deste conceito, estava a concepção de que Deus não pode sofrer; logo, se Cristo sofreu, ele não era Deus; e se ele era Deus, não poderia sofrer. Então, o sofrimento de Cristo teria sido apenas na aparência, não real. Inácio, bispo de Antioquia, no início do segundo século (c. 110) combateu ferreamente o docetismo, afirmando a divindade e a humanidade de Cristo.13 Do mesmo modo, Policarpo (c. 75-c. 160), bispo de Esmirna, escreve aos filipenses: “Qualquer que não confesse que Jesus Cristo veio em carne, é um anticristo. E quem não confessa o testemunho da cruz, é do diabo”.14

Alguns diziam que quando Ele andava, não deixava pegadas, porque seu corpo não tinha peso nem substância. João, de modo especial, combateu este tipo de conceito em seus escritos (Vejam-se: Jo 1.14; 20.31; Cl 1.19; 2.9; 1Jo 2.22; 4.1-3,15; 5.1,5,6; 2Jo 7).15

c) Jesus era um homem comum que foi usado pelo Espírito de Deus e abandonado no Calvário, não havendo de fato encarnação. (Vejam-se: Jo 1.14; 20.31; Cl 1.19; 2.9; 1Jo 2.22; 4.1-3,15; 5.1,5,6; 2Jo 7).

No próximo artigo, continuarei a tratar das principais heresias, abordando o Monarquianismo e o Arianismo. Até lá!

 

 

São Paulo, 26 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

1Juan Luis Segundo, O Homem de Hoje Diante de Jesus de Nazaré, (II/2), São Paulo: Paulinas, 1985, p. 17.

2 Apesar de haver alusões (Hipólito e Tertuliano) a um suposto Ebião como fundador da seita, esta palavra relembra o título com que a igreja judaico-cristã de Jerusalém gostava de ser reconhecida (Vejam-se: Rm 15.26; Gl 2.10) (Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 103).

3Eusébio de Cesarea, Historia Eclesiastica, Madrid: La Editorial Catolica, (Biblioteca de Autores Cristianos, v. 349-350), 1973, III.27.6.

4 Conforme expressão de C.H. Dodd, A Interpretação do Quarto Evangelho, São Paulo: Paulinas, 1977, p. 134 e de J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 16. Do mesmo modo entende, A.F. Walls, Gnosticismo: In: J. D. Douglas, ed. ger. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 2, p. 674.

5 Há um certo consenso por parte dos Pais da Igreja em atribuírem a Simão, o Mágico (At 8.9ss), a origem do gnosticismo (Veja-se por exemplo, Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1995, I.23.2. p. 99s.); todavia, nos detalhes são divergentes, devido à variedade de grupos gnósticos. (Vejam-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 16ss; B. Hägglund, História da Teologia, Porto Alegre, RS.: Concórdia, 1973, p. 27).

6 Veja-se: Alister E. McGrath, Teologia Histórica: uma introdução à História do Pensamento Cristão, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 54-55.

7 Irineu, Irineu de Lião, I.1.3. p. 33. “Esses trinta éons constituem o Pleroma, ou a plenitude da Divindade” (J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 17).

8 William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora (Juan I), 1974, v. 5, p. 20. Para uma descrição mais detalhada deste processo de emanações, Vejam-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 17ss; B. Hägglund, História da Teologia, p. 29-30; L. Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 45-47.

9 A respeito de seus ensinamentos, Vejam-se, entre outros: Tertulian, The Five Books Against Marcion. In: Alexander Roberts; James Donaldson, editors. Ante-Nicene Fathers, 2. ed. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 3, p. 269-475; Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1995, I.27.2-4. p. 109-110; Justino de Roma, I Apologia, São Paulo: Paulus, 1995, 58, p. 73-74.

10 Vejam-se: Justino de Roma, I Apologia, 26, p. 42-43; J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 42; Márcion: In: R.N. Champlin; João M. Bentes, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, São Paulo: Editora e Distribuidora Candeia, 1991, v. 4, p. 119-121; A. Skevington Wod, Marcionitas: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Grand Rapids, Michigan: T.E.L..L., 1985, p. 333; Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, p. 49-50. “Márcion não foi um Gnóstico verdadeiro ou típico a despeito do seu dualismo e docetismo.” (John Knox, Marcion: In: Harry S. Ashmore, Editor in Chief. Encyclopaedia Britannica, Chicago: Encyclopaedia Britannica Inc., 1962, v. 14, p. 868a. Do mesmo modo, ver: B. Aland, Marcião – Marcionismo: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002, p. 881-882). No entanto, ele foi o “teólogo mais proeminente a popularizar uma cristologia docética” (Carl E. Braaten, A Pessoa de Jesus Cristo: In: Carl E. Braaten; Robert W. Jenson, eds. Dogmática Cristã, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1995, v. 1, p. 485).

11 Como sabemos este nome é derivado do verbo grego doke/w = “parecer”. Este ensinamento foi primariamente difundido por volta do ano 85 por Cerinto, natural de Alexandria, discípulo de Fílon.

12 Vejam-se: M.C. Tenney, Docetismo: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, p. 175; Docetismo: In: R.N. Champlin; João M. Bentes, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v. 2, p. 203-205; J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: Origem e Desenvolvimento, p. 104-105

13 Vejam-se: Suas Cartas: Aos Efésios, 7,18,19,20; Aos Magnésios, 11; Aos Tralianos, 9; Aos Esmirnenses, 1-3, 7. (Veja-se a coleção de Cartas In: Cartas de Santo Inácio de Antioquia, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1984). Devemos mencionar que apesar de Inácio combater os “docetas”, este nome só iria aparecer como designação deste tipo de pensamento, por volta do ano 200, em Serapião, que denomina este grupo de Dokhta\j. (Cf. Eusébio, Historia Eclesiastica, VI.12.6).

14Polycarp, The Epistle of Polycarp to the Philippians, VII. In: Alexander Roberts; James Donaldson, editors. Ante-Nicene Fathers, 2. ed. Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 1, p. 34. Quanto a um testemunho antigo sobre o procedimento de Policarpo, Vejam-se: Irineu, Irineu de Lião, III.1.3. p. 251-252).

15 Notemos que nem todo “docetismo” era gnóstico, no entanto, como este era uma das características do gnosticismo, os termos foram identificados.

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (7) – A Doutrina da Trindade: Formulação doutrinária – Um panorama histórico (2)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (7) – A Doutrina da Trindade: Formulação doutrinária – Um panorama histórico (1)

Acesse aqui esta série de estudos completa.


Relação Trinitária

Outro ponto foi a questão da relação Trinitária. Ela foi compreendida pela Igreja da seguinte forma: Quando falamos do Filho em relação ao Pai, dizemos que aquele é gerado (gennhqe/nta) do Pai e quando nos referimos ao Espírito, declaramos que Ele é procedente (e)kporeuo/menon)1 do Pai e do Filho.2 Esta relação ocorre eternamente, sem princípio nem fim, jamais havendo qualquer tipo de mudança na essência (ou)si/a) divina,3 nem qualquer tipo de subordinação ontológica; “a subordinação pretendida consiste apenas naquilo que concerne ao modo de subsistência e operação, implícito nos fatos bíblicos de que o Filho procede do Pai, e o Espírito procede do Pai e do Filho, e de que o Pai opera através do Filho, e o Pai e o Filho operam através do Espírito” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 346). Portanto, a subordinação não é ontológica (“imanente”),4 mas sim existencial (econômica). Deste modo, a nomenclatura Pai, Filho e Espírito Santo, é apenas um designativo que implica uma correlação intertrinitária que é necessária e eterna, não uma primazia de essência, no que resultaria em diferenças de honra e glória.5 Insisto: A relação Trinitária tem sido compreendida pela Igreja como uma procedência eterna e necessária, do Espírito da parte do Pai e do Filho. As palavras de Agostinho (354-430) tornaram-se basilares na compreensão Ocidental: “O Espírito Santo, conforme as Escrituras, não é somente Espírito do Pai, nem somente o Espírito do Filho, mas de ambos”.6 Daí que, a Confissão de Westminster (1647), refletindo esta compreensão bíblica conforme a tradição teológica ocidental, diz: “O Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho” (II.3) (Jo 15.26; Gl 4.6).

Edwin H. Palmer (1922-1980), coloca a questão da “procedência” do Espírito nos seguintes termos:

Sua procedência não quer dizer que seja inferior ao Pai e ao Filho, do mesmo modo que pelo fato do Filho ser gerado tampouco significa que não esteja num plano de igualdade com o Pai. O segredo está no fato de que o Espírito foi ETERNAMENTE espirado, do mesmo modo que o Filho foi eternamente gerado. Nunca houve um tempo em que o Espírito não fosse espirado. Tem coexistido eternamente com o Pai e o Filho. Dizer que procedeu de, ou foi espirado do Pai e do Filho não implica que seja menos Deus; só fala da relação que sustenta eternamente com as outras duas Pessoas da Trindade.7

Termos limitados

Os nossos termos serão sempre limitados, meras alusões à complexidade do Ser divino,8 por isso, podemos no máximo, trabalhando dentro dos limites da Revelação, ter uma compreensão pálida deste mistério, que certamente ultrapassa em muito a nossa percepção e, mais ainda, a nossa linguagem, no esforço de expressar o que percebemos;9 no entanto, se a doutrina da Trindade foi-nos revelada nas Escrituras, fazendo parte do desígnio de Deus, tem por certo “utilidade” para a vida da Igreja;10 nada na Escritura é ocioso (At 20.27/2Tm 3.16); ocioso e ingrato (Veja-se: J. Calvino, As Institutas, III.21.4), é deixar de considerar “todo o desígnio de Deus”11 ou tentar ultrapassá-lo. Quanto a este último perigo, talvez mais tentador para nós teólogos, cabe a advertência de Calvino (1509-1564), ao encerrar o capítulo sobre a Trindade:

Espero que pelo que temos dito, todos os que temem a Deus verão que ficam refutadas todas as calúnias com que Satanás tem pretendido até o dia de hoje perverter e obscurecer nossa verdadeira fé e religião. Finalmente confio em que toda esta matéria haja sido tratada fielmente, para que os leitores refreiem sua curiosidade e não suscitem, mais do que é lícito, molestas e intrincadas disputas, pois não é minha intenção satisfazer aos que colocam seu prazer em suscitar sem medida algumas novas especulações.

Certamente, nem conscientemente nem por malícia omiti o que poderia ser contrário a mim. Mas como meu desejo é servir à Igreja, me pareceu que seria melhor não tocar nem revolver outras muitas questões de pouco proveito e que resultariam enfadonhas aos leitores. Porque, de que serve discutir se o Pai gera sempre? Tendo como indubitável que desde a eternidade há três Pessoas em Deus, este ato contínuo de gerar não é mais que uma fantasia supérflua e frívola.12

Por outro lado, se os termos são imperfeitos e imprecisos, devemos sempre lembrar que somente a Escritura é inspirada e infalível, não os nossos termos e interpretações. O ponto, portanto, que deve ser priorizado, é a realidade por trás dos termos. “Procede esta compreensão?”, deve ser sempre a pergunta do estudante sincero, desejoso de conhecer mais a Palavra de Deus.

Bavinck é-nos imprescindível em suas observações a respeito da elaboração doutrinária da Igreja:

Para satisfazer a essa exigência (tratar da diversidade e unidade) a Igreja Cristã e a teologia cristã primitiva fizeram uso de várias palavras e expressões que não podem ser encontradas literalmente nas sagradas Escrituras. A Igreja começou a falar da essência de Deus e de três pessoas nessa essência do Ser divino. Ela falava de características triúnas e trinitárias, ou essenciais e pessoais, da eterna geração do Filho e da procedência do Espírito Santo do Pai e do filho, e outros termos semelhantes.

Não há razão pela qual a Igreja Cristã e a teologia cristã não devam usar esses termos e expressões, pois as Sagradas Escrituras não foram dadas por Deus à Igreja para ser desconsideradamente repetida, mas para ser entendida em toda a sua plenitude e riqueza, e para ser reafirmada em sua própria linguagem para que dessa forma possa proclamar os poderosos feitos de Deus. Além disso, tais termos e expressões são necessários para manter a verdade da Escritura contra seus oponentes e colocá-la em segurança contra equívocos e erros humanos. E a história tem mostrado através dos séculos que a despreocupação com esses nomes e a rejeição deles conduz a vários afastamentos da confissão.

Ao mesmo tempo nós devemos, no uso desses termos, nos lembrar que eles são de origem humana e, portanto, limitados, sujeitos a erro e falíveis. Os Pais da Igreja sempre reconheceram isso. Por exemplo, eles afirmavam que o termo pessoas, que foi usado para designar as três formas de existência no Ser divino não fazem justiça à verdade, mas servem de ajuda para manter a verdade e eliminar o erro. A palavra foi escolhida, não porque fosse a mais precisa, mas porque nenhuma outra melhor foi encontrada. Nesse caso a palavra está atrás da ideia, e a ideia está atrás da realidade. Apesar de não poder preservar a realidade a não ser dessa forma, nós nunca devemos nos esquecer de que é a realidade que conta, e não a palavra. Certamente na glória outras e melhores palavras e expressões serão colocadas em nossos lábios.13

Na procedência do Espírito da parte do Pai e do Filho temos uma relação trinitária ontológica e econômica. Em outros termos, partindo do princípio de que a revelação de Deus alude à essência de Deus; por intermédio da manifestação da Trindade, vemos, limitadamente, aspectos da relação essencial da Trindade. Privar-nos desta compreensão (procedência do Pai e do Filho) equivale a empobrecer a nossa compreensão de Deus conforme nos foi dado conhecer na Palavra e definitivamente em Jesus Cristo, perdendo assim, a amplitude de nossa salvação, que passa necessariamente pela declaração de que Deus se fez carne (Jo 1.14). Corremos o risco de cair parcialmente num agnosticismo teológico. (Veja-se: Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 102).

O Quarto Concílio Ecumênico, realizado em Calcedônia (8-31/10/451) ratificou o Credo de Nicéia (325) e o de Constantinopla (381). O seu objetivo era estabelecer uma unidade teológica na Igreja. Apesar de sua preocupação dominante ser concernente às questões referentes ao Filho, encontramos na sua declaração termos que se tornaram padrão dentro da teologia para se referirem à Trindade.

A Igreja reafirma a sua fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo reconhecendo a sua grande dívida histórica para com diversos servos de Deus que, guiados pelo Espírito, em suas limitações e piedade, puderam deixar para nós uma compreensão mais ampla de tão grande doutrina. Glorifiquemos ao Deus Triúno!

 

Maringá, 21 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


1 gennhqe/nta e e)kporeuo/menon são expressões usadas no Credo Niceno-Constantinopolitano (381). Quanto à distinção das expressões, e o significado da “procedência”, confesso minha ignorância, juntamente com Agostinho (354-430) e João Damasceno (c. 675-749) (Veja-se: F. Turretin, Institutes of Elenctic Theology, Phillipsburg, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1992, v. 1, III.31.3; J. Oliver Buswell, A Systematic Theology of the Christian Religion, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, © 1962, I, p. 119-120).

2 Como já mencionamos supra, a expressão “e do Filho” em latim “Filioque”, foi acrescentada no Concílio local de Toledo (589).

3“O Pai é entendido como o primeiro princípio (archê) da Trindade e, por conseguinte, como o princípio unificador da hypostases (u/po/stasij). O Filho é gerado do Pai, e o Espírito procedente do Pai através do Filho” (Trinitas: In: Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1993, p. 308). No entanto, a expressão do autor, “o Espírito procedente do Pai através do Filho” não corresponde à compreensão de Nicéia e Constantinopla, visto que esta fórmula, de certo modo, inspirada em Gregório de Nissa (c. 335-c.394) – que modelou a teologia oriental –, foi rejeitada por Agostinho (354-430), para evitar qualquer tipo de subordinação (Agostinho, A Trindade, V.14.15. p. 208-210).(Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã, p. 198).

4 Conforme expressão de Olson (Roger Olson, História das Controvérsias na Teologia Cristã: 2000 anos de unidade e diversidade, São Paulo: Editora Vida, 2004, p. 196).

5 “A propriedade peculiar e pessoal da terceira pessoa é expressa pelo título Espírito. Esse título não pode expressar sua essência, visto que sua essência é também a essência do Pai e do Filho. Ele deve expressar sua eterna relação pessoal com as outras pessoas divinas, visto ser ele uma pessoa constantemente designada como o Espírito do Pai e o Espírito do Filho” (Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge, São Paulo: Editora os Puritanos, 1999, Capítulo II, p. 91). (Veja-se: também, A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, p. 151-152).

6Agostinho, A Trindade, São Paulo: Paulus, 1994, XV.17.27. p. 522. Veja-se: também: IV.20.29; V.14.15; XV.17.29; 26.47; 27.50.

7 Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d.), Edição Revista, p. 15. Berkhof interpreta desta forma: “O eterno e necessário ato da primeira e da segunda pessoas da Trindade pelo qual elas, dentro do Ser Divino, vêm a ser a base da subsistência pessoal do Espírito Santo, e propiciam à terceira pessoa a posse da substância total da essência divina, sem nenhuma divisão, alienação ou mudança” (L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 98). (Veja-se: também, A.H. Strong, Systematic Theology, 35. ed. Valley Forge, Pa.: Judson Press, 1993, p. 340-343; F. Turretin, Institutes of Elenctic Theology, v. 1, III.31.3ss. p. 308-310; A.A. Hodge, Esboços de Theologia, p. 151-152; Charles Hodge, Teologia Sistemática, p. 394; Loraine Boettner, Studies in Theology, p. 122-124; Herman Bavinck, The Doctrine of God, The Doctrine of God, 2. ed. Grand Rapids, Michigan: W. M. Eerdmans Publishing Co., 1955. p. 310ss; L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 97-98; R.L. Dabney, Lectures in Systematic Theology, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1985 (Reprinted), XIX, p. 210-211).

8 Este tipo de comentário poderia induzir o leitor à compreensão de que desvalorizamos os termos teológicos; o que estaria extremamente distante de nossa convicção e perspectiva. Os termos teológicos, em grande parte, são expressões humanas na elaboração da fé conforme revelada nas Escrituras; portanto, limitados; no entanto, servem de referências para expressar a compreensão bíblica formulada no decorrer da história. Desprestigiar gratuitamente as expressões teológicas, tem, em geral, contribuído para o empobrecimento da doutrina bíblica e, consequentemente o enfraquecimento da vida cristã.

9 “A linguagem é a primeira tentativa do homem para articular o mundo de suas percepções sensoriais. Esta tendência é uma das características fundamentais da linguagem humana” (Ernst Cassirer. Antropologia Filosófica, 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1977, p. 328).

10 “O artigo sobre a santa Trindade é o coração e o núcleo de nossa confissão, a marca registrada de nossa religião, e o prazer e o conforto de todos aqueles que verdadeiramente crêem em Cristo.

“Essa confissão foi a âncora na guerra de tendências através dos séculos. A confissão da santa Trindade é a pérola preciosa que foi confiada à custódia da Igreja Cristã” (Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 145).

11 Calvino também aqui tem algo dizer: “A Escritura é a escola dO Espírito Santo, na qual, como nada é omitido não só necessário, mas também proveitoso de conhecer-se, assim também nada é ensinado senão o que convenha saber” (J. Calvino, As Institutas, III.21.3).

12Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana, Rijswijk, Países Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1967 (Nueva Edición Revisada), I.13.29.

13Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, p. 157-158.

A Trindade e o culto legítimo

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“Nós adoramos a Deus porque Ele nos criou para adorá-Lo” – Hughes Oliphant Old.[1]

 

Paulo em sua maravilhosa doxologia (Ef 1.3-14) declara que Deus nos tem abençoado continuamente em Cristo. Ele bendiz a Deus com uma expressão de ação de graças, considerando as bênçãos de Deus que recebemos por Cristo: que nos tem abençoado (eu)logh/saj) (eulogésas)(3). O particípio aoristo (eu)logh/saj), indica dentro deste contexto, um fato consumado e a ação continuada de Deus.

 

Podemos interpretar que Deus na eternidade já nos abençoou definitivamente; a sua bênção é completa; todavia, ela é-nos comunicada constantemente ao longo da história. Essas bênçãos são multifacetadas: “toda sorte” (pa/sh), na realidade, “todas” e “cada” bênção que temos, sem exceção, provém do Senhor. As “regiões celestiais” (e)n toi=j e)pourani/oij = lit. “dos céus”, “celestiais”)[2] indicam a procedência das bênçãos. Elas provêm de Deus, o Pai que habita os céus (Mt 6.9) e, para onde Ele mesmo nos levará (2Tm 4.18).

 

Devemos estar atentos ao fato de que tudo que temos provém de Deus, por meio de Cristo, sendo comunicado pelo Espírito. De modo especial, o texto destaca algumas dessas bênçãos: a eleição (4-5), a redenção (7), o selo do Espírito (13-14). Portanto, “é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divinos segundo a medida da prosperidade terrena que ele alcança”.[3] As bênçãos são espirituais porque se originam em Deus, sendo-nos comunicadas pelo Espírito. Essas bênçãos relacionam-se diretamente ao ministério de Cristo, que é celestial (2Tm 4.18), tendo um alcance cósmico (Ef 3.10).

 

Isso também denota a nossa nova condição: Deus “nos fez assentar nos lugares celestiais (e)pourani/oij) (epouraníois) (Ef 2.6) juntamente com Cristo (Ef 1.20). Essa realidade é altamente estimulante: cada bênção de Deus, o Seu cuidado mantenedor e preservador constitui-se na administração de Sua graça, concedida em Cristo Jesus desde a eternidade. Devemos, então, considerar que “se desejamos refrear nossas paixões, devemos recordar que todas as coisas nos têm sido dadas com o propósito de que possamos conhecer e reconhecer o seu autor”.[4]

 

Considerando essas bênçãos, que ultrapassam em muito a nossa capacidade de pensar, sentir ou imaginar (Ef 3.20), devemos buscar o reino de Deus (Mt 6.33); as “coisas lá do alto” onde Cristo está à direita de Deus (Cl 3.1).

 

Tudo que temos é “em Cristo”. “Vê-se então que a fé nos ensina que todo o bem que nos é necessário e que em nós mesmos não existe está em Deus e em Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, em quem o Senhor constituiu toda a plenitude das Suas bênçãos e da Sua liberalidade”.[5] Neste texto, Efésios 1.3-14, há pelo menos 12 referências diretas a Cristo, indicando a verdade de que, fora de Cristo nada somos e nada temos; Ele é o fundamento da Igreja. Juntamente com os dons celestiais, Cristo dá-se a Si mesmo por nós (Rm 8.32). A eleição tem um sentido escatológico: é da eternidade para a eternidade em santificação: até que a nossa salvação seja consumada na glorificação. Contudo, a grande, a maior bênção Cristã quer aqui, quer na eternidade é o próprio Jesus Cristo. Todas as demais coisas, por mais relevantes que sejam – e são –, decorrem de uma Pessoa: Jesus Cristo, o Deus encarnado.[6]

 

Paulo inicia a doxologia bendizendo a Deus, demonstrando que Deus é digno de ser bendito. A palavra bendito, (Eu)loghto\j = “louvado”, “bem-aventurado”) (Hebraico: Baruk; Latim: Benedictus) ocorre oito vezes no Novo Testamento e é sempre usada para Deus (Mc 14.61; Lc 1.68; Rm 1.25; 9.5; 2Co 1.3; 11.31; Ef 1.3; 1Pe 1.3).[7] A fraseologia desta saudação, também empregada em 2Co 1.3, assemelha-se à de Pedro em 1Pedro 1.3. Na Epístola aos Coríntios, Paulo bendiz a Deus considerando o fato de que é Ele quem nos conforta em toda a nossa tribulação; Pedro, bendiz a Deus considerando a nossa regeneração efetuada pela misericórdia de Deus, para que tenhamos uma viva esperança por intermédio da ressurreição de Cristo. Em Efésios, Paulo, contemplando a extensão da obra do Deus triúno de eternidade a eternidade efetuando a nossa eleição, dá graças a Deus. (Ver o Salmo 103).[8]

 

Paulo diz que Deus, o Pai, tem, ao longo da história, manifestado as suas bênçãos eternas para conosco – Paulo, os efésios e todos os santos em todos os tempos – nas regiões celestiais em Cristo Jesus. Notemos aqui, que Deus é Pai do “nosso Senhor Jesus Cristo” (path\r tou= kuri/ou h)mw=n )Ihsou= Xristou=).

 

Paulo dá graças a Deus considerando então as bênçãos de Deus derramadas sobre o seu povo: No passado: (Eleição) (Ef 1.3,4); No presente: (Redenção) (Ef 1.7); No futuro: (Posse definitiva da vida eterna) (Ef 1.12-14).

 

O mesmo Espírito que nos abençoa, orienta-nos em nossa adoração, a fim de que ofereçamos a Deus «hinos e cânticos espirituais» (Ef 5.19), conforme acentuou Old: “Os hinos e salmos que são cantados na adoração sãos músicas espirituais, isto é, elas são as músicas do Santo Espírito (At 4.25; Ef 5.19)”.[9] (Ver: Cl 3.16).

 

Paulo bendiz a Deus contemplando a extensão da obra do Deus triúno de eternidade a eternidade efetuando a nossa eleição. Os eleitos bendizem a Deus pelo que Ele é e pelo que Ele fez por nós. A gratidão deve nortear o nosso relacionamento com Deus. “Não há um caminho mais direto (à gratidão), do que o de tirarmos nossos olhos da vida presente e meditar na imortalidade do céu”.[10]

 

 Deus deve ser sempre o alvo de nossa adoração sincera, resultante de um coração consciente e agradecido, que reconhece a Sua Glória e os Seus atos salvadores e abençoadores (2Ts 2.13/Ef 5.20). Comentando o Salmo 6, Calvino assim se expressa: “Depois de Deus nos conceder gratuitamente todas as coisas, ele nada requer em troca senão uma grata lembrança de seus benefícios”.[11]

 

Fomos eleitos por Deus na eternidade para que O adoremos. Portanto, no culto a igreja vivencia o propósito de sua eleição: o fim principal do homem é glorificar a Deus! A igreja é a comunidade de adoradores que se congrega para testemunhar publicamente os atos graciosos de Deus.

 

Maringá, 21 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]Hughes Oliphant Old, Worship: That Is Reformed According to Scripture, Atlanta: John Knox Press, 1984, p. 1.

[2]E)poura/nioj: Mt 18.35 (variante textual); Jo 3.12; 1Co 15.40,48,49; Ef 1.3,20; 2.6; 3.10; 6.12; Fp 2.10; 2Tm 4.18; Hb 3.1; 6.4; 8.5; 9.23; 11.16; 12.22.

[3] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 17.14), p. 346.

[4]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 72.

[5] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 91.

[6]D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 42.

[7] Na Septuaginta, a única vez que a palavra é usada para referir-se ao homem é em Gênesis 24.31.

[8]Ver: R.C.H. Lenski, The Interpretation of St. Paul´s Epistles to the Ephesians, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1998, (Ef 1.3), p. 349.

[9]Hughes Oliphant Old, Worship: That Is Reformed According to Scripture, Atlanta: John Knox Press, 1984, p. 6.

[10]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 73.

[11]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999,  v. 1, (Sl 6.5), p. 129. Por sua vez, “os ímpios e hipócritas correm para Deus quando se vêem submersos em suas dificuldades; mas assim que se vêem livres delas, olvidando seu libertador, se regozijam com frenética hilaridade” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 28.7), p. 608).

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (6) – A Doutrina da Trindade: Formulação doutrinária – Um panorama histórico (1)

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (5) – A Doutrina da Trindade: Definição, compreensões e incompreensões

Acesse aqui esta série de estudos completa.

 

 


 

 

As exposições concernentes à Trindade estão relacionadas à compreensão equivocada da Pessoa de Cristo e do Espírito Santo. O desenvolvimento da compreensão Cristológica por parte da igreja foi determinante na evolução da teologia do Espírito Santo e esta contribui para aquela de forma retroalimentadora.[1] Portanto, trataremos conjuntamente destas questões.

No final do segundo século, Irineu (c. 130-200 AD) testemunha que a Igreja de Deus, espalhada por toda face da terra, declarava a sua fé trinitária – conforme recebera dos discípulos –, a saber: “a fé em um só Deus, Pai onipotente, que fez o céu e a terra, o mar e tudo quanto nele existe; em um só Jesus Cristo, Filho de Deus, encarnado para nossa salvação; e no Espírito Santo que, pelos profetas, anunciou a economia de Deus”.[2] Ainda segundo ele, esta pregação era comum na Igreja: “Unanimemente as prega, ensina e entrega, como se possuísse uma só boca”.[3]

 

Orígenes (c. 184-254), a despeito de outros equívocos subordinacionitas, reconhece a divindade trinitária: “Por isso, tudo o que for uma propriedade do corpo, não pode ser afirmado nem sobre o Pai nem sobre o Filho; mas o que pertence à natureza da divindade é comum ao Pai e ao Filho”.[4]

 

Credos

O Credo Apostólico, ao ser analisado estatística e teologicamente, evidencia de modo contundente que as declarações a respeito da Pessoa e Obra de Cristo são mais expressivas e mais completamente elaboradas do que as referentes ao Pai e ao Espírito. O Credo – ainda que as suas três divisões sejam dedicadas a cada uma das Pessoas da Trindade –, demonstra de forma eloquente ser a Pessoa de Cristo o seu tema. Isto se torna ainda mais evidente, quando apresentamos o Credo Apostólico de forma sinótica:

 

“Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Deus Pai Todo-Poderoso,

 

 

 

”Creio em Jesus Cristo seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido….

 

“nasceu da virgem Maria, padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; no terceiro dia ressurgiu dos mortos, subiu ao Céu, e está sentado à mão direita de

 

“de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

 

 

 

 

 

 

“Por obra do Espírito Santo,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Creio no Espírito Santo….”

 

De semelhante modo, o Credo Niceno (325) procede: após falar do Pai e mais exaustivamente do Filho, diz: “(cremos) no Espírito Santo”.[5]

O quase silêncio

Este quase silêncio quanto à doutrina do Espírito Santo,[6] pode ser explicado pelo fato de que nos primórdios da história da igreja cristã, poucos movimentos levantaram questões consideradas sérias a respeito da sua Pessoa[7] e, menos ainda, a respeito do Pai. Para ser mais preciso, podemos mencionar Orígenes (c. 184-254), que inspirando-se em Tertuliano (c. 155-220) foi mais longe do que ele, dizendo que o Filho era subordinado ao Pai[8] e o Espírito subordinado ao Filho.[9] Por volta do ano 360, encontramos Atanásio (c. 296-373), bispo de Alexandria (328-373) combatendo um grupo de cristãos egípcios, que ele chamou de “tropicianos” (derivado de Tro/poj = “figura”, “forma”), pelo modo figurado de interpretar as Escrituras. Este grupo que, ao que parece, teve uma influência apenas local, com uma hermenêutica tendenciosa de Am 4.13; Zc 1.9 (LXX) e 1Tm 5.21, cria ser o Espírito meramente um anjo hierarquicamente superior aos outros.[10]

 

Ainda no 4º século, apareceu o macedonismo,[11] uma das facções do arianismo, ensinando que o Espírito Santo era uma criação do Filho, que se destinava a atuar em nós e no mundo, sendo, desta forma, subordinado ao Filho.[12] Esta heresia foi condenada pelo Concílio de Constantinopla em 381, que estabeleceu definitivamente a identidade do Espírito. Este Concílio tomou o Credo Niceno e o ampliou; na cláusula sobre o Espírito, afirmou:

Cláusula “Filioque”

“(cremos) no ESPÍRITO SANTO, o Senhor e Vivificador, o que procede do Pai (e do Filho),[13] e que juntamente com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o que falou através dos profetas….”.

 

O Espírito é Deus

Entre o Concílio de Nicéia (325) e o de Constantinopla (381), a declaração explícita de que o Espírito é Deus foi apenas sugerida, porém não declarada. Em 372, Basílio Magno (c. 330-379) defensor ardoroso da divindade do Filho, também sustentou a divindade do Espírito, porém não foi tão incisivo ao ponto de identificá-Lo como Deus;[14] mesmo, posteriormente (373), quando ampliou o seu pensamento, declarou que o Espírito deve ser honrado juntamente com o Pai e com o Filho.[15] Gregório de Nissa (c. 335-c.394), outro dos “pais capadócios”, seguiu os passos de seu irmão Basílio, sem contudo, apresentar maior contribuição, enfatizando apenas a unicidade das três pessoas.[16]

 

O terceiro destes pais,[17] Gregório de Nazianzo (329-390),[18] amigo de ambos, foi, segundo expressão de Daniélou, “o pensador trinitário por excelência”. De fato, com ele a divindade do Espírito é declarada com todas as letras:

 

Sem confusão, existem Três Pessoas na Única natureza e dignidade da Divindade.

Por conseguinte o Filho não é o Pai (é um só o Pai), mas é exatamente aquilo que o Pai é. Nem o Espírito é o Filho, por vir de Deus (um só é o Unigênito), é, porém, exatamente aquilo que o Filho é. Estes três são um pela Divindade, e, na unidade, são três por suas propriedades.

Desse modo não são o Um de Sabélio nem os três da péssima divisão de hoje (modalismo).

– Que, então? O Espírito é Deus?

– Perfeitamente, sem dúvida alguma.

– E é consubstancial?

– Sim, já que é Deus.[19]

 

Agostinho (354-430), em 393, escreveu:

 

Numerosos são os livros que homens sábios e espirituais escreveram sobre o Pai e o Filho. (…) O Espírito Santo, entretanto, não tem sido estudado com tanta abundância e cuidado pelos doutos e grandes comentaristas das divinas Escrituras, de tal sorte que resultará igualmente fácil compreender seu caráter próprio: que faz com que não possamos chamar-lhe nem Filho nem Pai, senão unicamente Espírito Santo.[20]

 

Modernamente a heresia Ariana foi retomada pela seita anticristã das Testemunhas de Jeová, que afirma ser o Espírito apenas uma força impessoal e ativa sem ser dotado de inteligência.[21]

 

As Testemunhas de Jeová reconhecem em Ário um precursor de Charles Taze Russel (1852-1916), o iniciador de sua seita.

 

Ao estudarmos este assunto, não devemos nos esquecer que as Escrituras falam mais “do” Filho do que “do” Espírito.[22] A natureza do Espírito – e não poderia ser diferente –, é menos explicitada, tratando mais especificamente do Seu Ministério, que consiste, após a ascensão de Cristo, em dar testemunho Dele.[23] A Obra do Filho reclama as operações do Espírito; e estas, amparam-se naquela. A nossa teologia portanto, nada mais é do que uma reflexão interpretativa da Palavra, não o seu “complemento”;[24] ela é o estudo da Revelação Pessoal de Deus conforme registrada nas Escrituras Sagradas.

No próximo post sobre o tema, continuo o assunto nesse modelo esquemático.

 

Maringá, 21 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1]A duas declarações seguintes refletem o que estamos dizendo: “É verdade que as controvérsias cristológicas que remontam ao ano 360 não são no fundo mais do que uma consequência lógica das discussões sobre a fé trinitária” (B. Studer, Trindade: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002, p. 1389). “É possível argumentar que a doutrina da Trindade encontra-se intimamente associada ao desenvolvimento da doutrina sobre a divindade de Cristo. Quanto mais a igreja insistia no fato de Cristo ser Deus, mas era pressionada a esclarecer a forma como Cristo se relacionava com Deus” (Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 378).

[2] Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1985, I.10.1. p. 61-62.

[3] Irineu, Irineu de Lião, I.10.2. p. 62. Sobre o trabalho trinitário, Veja-se: Ibidem., IV.20.1,3; V.6.1.

[4] Origin, Origen de Principiis, I.1.8. In: Alexander Robertson; James Donaldson, eds. The Ante-Nicene Fathers, 2. ed. Massachussets: Hendrickson, Publishers, 1995, v. 4, p. 245.

[5] Curiosamente, o Credo formulado por Cirilo de Jerusalém (c. 315-386) por volta de 350, para ser recitado pelos Catecúmenos, era um pouco mais completo neste ponto, dizendo: “Pisteu/omen (…) ei)j e(\n a(/gion pneu=ma, to\n para/klhton, to\ lalh=san e)n toi=j profh/taij.” “(Cremos) em um Espírito Santo o Consolador, que falou através dos profetas” (Veja-se: o texto grego do Credo de Cirilo e o de Nicéia In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 7, p. xlvii). Do mesmo modo, Veja-se: Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), 1977, v. 2, p. 32 e 57.

[6] Notemos que o “silêncio” era quanto à uma doutrina do Espírito mais elaborada, não à sua realidade, presença e direção. (Veja-se: por exemplo, Clemente de Roma, Epístola aos Coríntios, XXII.1; Didaquê, VII.1; Inácio de Antioquia, Carta aos Magnésios, IX.2; XIII.1-2; XV; Carta aos Filadélfios, Introdução, VII.1-2; Carta aos Efésios, IX.1; XVIII.2; Irineu, Contra as Heresias, III.11.9; 12.1-2; 17.1-4; 19.2). Robert W. Jenson, diz que Irineu (c. 120-202) foi “uma figura-chave no período em que a pneumatologia patrística se cristalizou” (Robert W. Jenson, O Espírito Santo: In: Carl E. Braaten; Robert W. Jenson, eds. Dogmática Cristã, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1995, v. 2, p. 134).

[7]Kelly diz que mesmo o Credo Niceno declarando “simplesmente” a sua crença no Espírito Santo, “transcorreriam muitos anos antes que houvesse alguma controvérsia pública acerca de Sua posição na Divindade” (J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: origem e desenvolvimento, São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 190). Adiante acrescenta: “Embora o problema do Espírito não tenha sido levantado em Nicéia, percebe-se a partir daí um aumento de interesse pelo assunto” (Ibidem., p. 192). Boettner comenta: “Tão absorvido esteve o Concílio com a formulação da doutrina da Pessoa de Cristo, que omitiu fazer uma declaração formal a respeito do Espírito Santo” (Loraine Boettner, Studies in Theology, 9. ed. Philadelphia: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1970, p. 127-128).

[8] Veja-se: Carlos Ignacio Gonzalez, El Desarrollo Dogmatico en los Concilios Cristologicos, Santafé de Bogotá: CELAM., 1991, p. 47ss.

[9] Veja-se: J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: origem e desenvolvimento, p. 198.

[10] Cf. J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: origem e desenvolvimento, p. 193-194. Escrevendo ao seu amigo Serapião, bispo de Tmuis, no delta do Nilo, Atanásio comenta a respeito destes hereges: “… fomentam pensamentos hostis contra O Espírito Santo, pretendendo-o não apenas criatura mas até um dos espíritos servis, distinto dos anjos tão-somente por grau” (Atanásio, 1. Carta a Serapião, In: C. Folch Gomes, Antologia dos Santos Padres, 2. ed. rev. e aum. São Paulo: Paulinas, 1980, p. 209).

[11] Nome derivado de Macedônio, bispo de Constantinopla (c. 341-360). Este grupo era também denominado de Pneumatoma/xh (“lutadores contra o Espírito”). (Pneu=ma & ma/xomai). (ma/xomai e ma/xh *Jo 6.52; At 7.26; 2Co 7.5; 2Tm 2.23,24; Tg 4.1,2).

[12] Esta concepção se harmonizava com a de Orígenes (c. 185-254) (Cf. L. Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas 1992, p. 83; J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: origem e desenvolvimento, p, 198). A perspectiva subordinacionista a respeito do Espírito parece ser comum na época, ainda que rejeitada pela Igreja. “Os erros subordinacionistas sobre o Espírito Santo dominavam o campo da história, com mais violência e mais demoradamente, do que os mesmos erros sobre o Logos” (O. Semmelroth, Espírito Santo: In: H. Fries, dir. Dicionário de Teologia, 2. ed. São Paulo: Loyola, 1983, v. 2, p. 99).

[13]A expressão “e do Filho” em latim “Filioque”, foi acrescentada no III Concílio local de Toledo (589) e, ao que parece, posteriormente no Quarto Sínodo de Braga (675) e em Hatfield (680).(Cf. O. Semmelroth, Espírito Santo: In: In: H. Fries, dir. Dicionário de Teologia, 2. ed. São Paulo: Loyola, 1983, v. 2, p. 100; J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, Salamanca: Secretariado Trinitario, 1980, p. 426, 429-430). Todavia, esta cláusula já havia sido usada no Primeiro (400) e Segundo (477) Concílio de Toledo. (Veja-se: H. Bettenson, Documentos da Igreja Cristã, p. 56; P. Schaff, Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), 1977, v. 1, p. 26; Earle E. Cairns, O Cristianismo Através dos Séculos, São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 109; G.W. Bromiley, Filioque: In: E.F. Harrison, ed. Diccionario de Teologia, Grand Rapids, Michigan: T.E.L.L., 1985, p. 242; L. Boff, A Trindade e a Sociedade, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1987, p. 93; J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 427). Este acréscimo – que reflete especialmente o pensamento de Agostinho (354-430), que enfatizou com propriedade a unidade da Trindade (A Trindade, São Paulo: Paulus, 1994, II.5.7; IV.20.29.; XV.17-20; 26-27), ainda que não exclusivamente (Veja-se: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 425) –, marca de forma definitiva a teologia anti-Ariana sustentada pela Igreja Ocidental, enfatizando a unidade essencial do Pai e do Filho bem como a procedência do Espírito como sendo de ambos. Este acréscimo que se tornou amplamente aceito na Igreja Ocidental (em 1014, o papa Benedito VIII determinou que o Credo Niceno-Constantinopolitano, com a expressão “filioque” deveria ser proferido durante a missa. (Cf. Robert W. Jenson, O Espírito Santo: In: Carl E. Braaten; Robert W. Jenson, eds. Dogmática Cristã, v. 2, p. 159)) e ratificado em 1017, foi o principal motivo doutrinário para a primeira grande divisão da Cristandade, criando a Igreja do Oriente e a do Ocidente em 1054 (As Igrejas do Oriente, diziam: “Do Pai através do Filho”). No entanto, somente no Segundo Concílio de Lyon (1274), é que esta cláusula foi considerada oficialmente como doutrina da Igreja Ocidental (Cf. H. Brandt, O Risco do Espírito: Um Estudo Pneumatológico, p. 16). Este assunto seria ampla e vagarosamente discutido no Concílio de Ferrara-Florença-Roma (1438-1445) entre os representantes da Igreja Oriental e Ocidental, quando então, os Orientais aceitariam como razoável o acréscimo latino, contudo não ficando imposto à sua Igreja a aceitação do mesmo. Nesta reunião foi formulada uma declaração “conciliatória”, datada de 06/7/1439. (Veja-se: o texto In: L. Boff, A Trindade e a Sociedade, p. 95-96). (Veja-se: Umberto Proch, A União no Segundo Concílio de Lião e no Concílio de Ferrara-Florença-Roma: In: Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 300ss, 305; L. Boff, A Trindade e a Sociedade, p. 95-96). (Veja-se: uma boa discussão a respeito do uso da expressão, In: J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, p. 424ss.; Reinhold Seeberg, Manual de Historia de las Doctrinas, El Paso, Texas: Casa Bautista de Publicaciones, 1963, v. 2, p. 45; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Editora Os Puritanos, 2000, p. 95-103). No entanto, não devemos nos esquecer que a Confissão Ortodoxa de Fé da Igreja Católica e Apostólica do Oriente (1643), reafirma a procedência do Espírito como sendo apenas do Pai. (Veja-se: o texto In: P. Schaff, Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Revised and Enlarged), 1977, v. 2, p. 282).

[14]Basil, Letters, 113 e 114 In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 8, p. 189-190; Veja-se: Gregório de Nazianzo, Epístola, 58.

[15]Basil, Letters, 125.3; 159.2. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (reprinted). (Second Series), 1978, v. 8, p. 195-196; 212.

[16] Oração Catequética, 3s. Gregório de Nissa, no entanto, foi de grande relevância na questão da procedência do Espírito (Veja-se: Contra Eunômio, 1.42; Contra Macedônio, 2.10,12,24), ainda que tenha deixado aberta uma fresta para a compreensão equivocada de que o Espírito procede do Pai por meio do Filho…

[17] Latourette diz, não sem razão, que os “pais capadócios”, “mostraram como interpretar de tal maneira o Símbolo Niceno que ganhou o apoio da grande maioria dos bispos orientais, inclusive o apoio de muitos dos que haviam sido classificados como arianos. Eles representavam o que poderia chamar-se de origenismo de direita, aquela corrente de pensamento que havia sido reforçada por Orígenes e que sustentava que o Logos sempre foi igual ao Pai” (K.S. Latourette, Historia del Cristianismo, 4. ed. Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, 1978, v. 1, p. 210). No entanto, deve ser dito, que a posição de Orígenes é difícil de precisar pois, em alguns textos ela parece sustentar a unidade essencial entre o Pai e o Filho, em outros, apresenta uma inclinação subordinacionista; no entanto, esta última aparece com mais clareza em seus escritos. (Veja-se: Carlos Ignacio Gonzalez, El Desarrollo Dogmatico en los Concilios Cristologicos, p. 47ss.).

[18] Devido à sua eloquência e profundidade teológica, deram-lhe o título de “o teólogo” (homologado em Calcedônia, 451) e, de “o Demóstenes cristão”. (Cf. W.C. Weinrich, Gregório de Nazianzo: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1990, v. 2, p. 226, C. Folch Gomes, The Ecclesiastical History,The Ecclesiastical History, p. 245 e Gregório Nazianzeno: In: R.N. Champlin; J.M. Bentes, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia, São Paulo: Candeia, 1991, v. 2, p. 979. O livro de Tillich diz que o designativo de “o teólogo”, foi dado a Gregório de Nissa. (P. Tillich, História do Pensamento Cristão, São Paulo: ASTE, 1988, p. 81. A impressão que tenho, é que este lapso foi um erro de revisão…). Gregório de Nazianzo presidiu durante um período o Sínodo de Constantinopla 381; quando se despediu, pronunciou o famoso “Discurso de adeus”. (Veja-se: Lorenzo Perrone, De Nicéia (325) a Calcedônia (451): In: Giuseppe Alberigo, org. História dos Concílios Ecumênicos, São Paulo: Paulus, 1995, p. 65-66).

[19] São Gregório de Nazianzo, Discursos Teológicos, Petrópolis, RJ.: Vozes, 1984, XXXI.9-10. p. 98. Gregório entende que a doutrina do Espírito deveria mesmo ser formulada por último, obedecendo a uma espécie de revelação progressiva: “A antiga Aliança pregou abertamente o Pai, mais obscuramente o Filho. A Nova manifestou o Filho, deixou entrever a divindade do Espírito. Agora o Espírito mora conosco, e de modo mais evidente se manifesta a nós. Porque não era prudente, antes de ser reconhecida a divindade do Pai, proclamar abertamente a do Filho. Nem, antes de admitida a do Filho, falar dO Espírito Santo, para que, se assim se pode dizer, não se impusesse um jugo pesado demais. Para não acontecer, como a opressos em excesso de comida ou a olhos enfermos diante dos raios do sol, fossem postos em perigo acima de suas forças. Por estes acréscimos paulatinos ou, como diz Davi, ascensões (Sl 84.7), também de glória em glória mais esplêndidos avanços e progressos, brilha a luz da Trindade” (Ibidem., XXXI.26).

[20] Agostinho, On Faith and the Creed: In: Philip Schaff, Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2. ed. (First Series), Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1995, v. 3, p. 328 e 329.

[21]Cf. Let Your Name Be Sanctified, Brooklyn, NY.: Watchtower Bible and Tract Society of New York, Inc., 1961,  p. 269. (Consulta feita em 21.11.2018). Hoekema também ressalta que a concepção tida do Espírito como algo inferior, é evidenciada na tradução que as Testemunhas de Jeová fazem das Escrituras, colocando o “Espírito” sempre com a inicial minúscula (Veja-se: A. Hoekema, Testigos de Jehova, Grand Rapids, Michigan Subcomision Literatura Cristiana de la Iglesia Cristiana Reformada, 1978, p. 21-23). Veja-se também, J.K. Van Baalen, O Caos das Seitas, 3. ed. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1977, p. 193.

[22] Ainda que a intenção seja apreciável, acredito que a analogia feita por McGrath é infeliz. Diz este brilhante autor: “O Espírito Santo tem sido, por muito tempo, como a Cinderela da Trindade. As outras duas irmãs podem ter ido ao baile da teologia; o Espírito Santo, toda vez, é deixado para trás” (Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 361).

[23] Compreensão semelhante encontrei em Millard J. Erickson, Christian Theology, 13. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996, p. 847.  

[24] “A teologia é o conhecimento de Deus derivado da revelação bíblica. (…) Cada vez mais tenho chegado à conclusão de que o ensino de teologia jamais deve estar separado da Bíblia.” (D.M. Lloyd-Jones, Uma Escola Protestante Evangélica: In: Discernindo os Tempos, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 389). (“Discurso proferido na inauguração do Seminário Teológico de Londres, em 6 de outubro de 1977”).

Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (5) – A Doutrina da Trindade: Definição, compreensões e incompreensões

Este artigo é continuação do: Introdução ao Estudo dos Credos e Confissões (4) – Os Credos e as Confissões como expressões de fé e conhecimento

Acesse aqui esta série de estudos completa.


Um único Deus é a Trindade. – Décimo Primeiro Concílio de Toledo (675).1

 

Ela (Trindade) é, em certo sentido, a mais excelsa e a mais gloriosa de todas as doutrinas, a coisa mais espantosa e estonteante que aprouve a Deus revelar-nos sobre Si mesmo – D.M. Lloyd-Jones.2

 

Na quarta-feira interrompi a sequência desse assunto para tratar da oração. Creio que entramos em um tema difícil para o qual a nossa mente, como em tantos outros, é incapaz de tratar adequadamente. Por outro lado, tudo o que foi revelado deve ser alvo de nossas pesquisas visando a conhecer mais a Deus a fim de cultuá-lo de forma mais intensa e reverente. Com esse espírito, continuemos nossos esboços.

Para expressar a verdade bíblica de que o Ser de Deus subsiste em Três Pessoas, a teologia cristã usa o termo Trindade, palavra esta que não se encontra na Bíblia, mas, sim, o seu ensinamento. A expressão Trindade é proveniente do latim trinitas, derivando-se do termo trinus (= triplo), ao que veio corresponder outro sinônimo: tríade, do grego tri/aj que significa um conjunto de três.

Até onde sabemos, Teófilo de Antioquia (c. 115-181) – em uma apologia a respeito do Cristianismo –, foi possivelmente o primeiro a usar a palavra Trindade (tri/aj) (trías).3 Tertuliano (c. 155-220) foi o primeiro a usar o termo latino Trinitas4 e, também, o primeiro a tentar sistematizar esta doutrina, ainda que o tenha feito de forma deficiente, subordinando o Filho e o Espírito ao Pai.5

Esta doutrina é uma das marcas características do Cristianismo, sendo fundamentalmente dependente da revelação bíblica.6 Ela, conforme veremos, sofreu ao longo da história diversos ataques, muitos dos quais resultantes de uma compreensão limitada e errada dos ensinamentos bíblicos.

Herman Bavinck (1854-1921) acentua:

O artigo sobre a santa Trindade é o coração e o núcleo de nossa confissão, a marca registrada de nossa religião, e o prazer e o conforto de todos aqueles que verdadeiramente creem em Cristo.

Essa confissão foi a âncora na guerra de tendências através dos séculos. A confissão da santa Trindade é a pérola preciosa que foi confiada à custódia da Igreja Cristã.7

Ainda à guisa de introdução, devemos enfatizar que este ensinamento não é decorrente – como alguns equivocadamente pensam –, de especulação humana; antes, a nossa dependência na formulação e compreensão desta doutrina é unicamente da iluminação do Espírito por intermédio da Palavra. As Escrituras Sagradas contém elementos suficientes para a formulação deste ensino. Esta doutrina é tão surpreendente que jamais poderia ter sido inventada pelo homem; ela é resultado da Revelação Especial de Deus que nos foi concedida para que conheçamos o Trino Deus e o adoremos.

Preferimos a palavra Triunidade por acreditar que ela expressa melhor o ensinamento bíblico de que há um só Deus que subsiste em Três Pessoas. No entanto, usaremos os termos Trindade e Triunidade de forma intercambiável.

É necessário enfatizar que quando nos aproximamos deste tema para estudá-lo, temos de fazê-lo com reverente temor e humildade, reconhecendo a grandiosidade do assunto e a nossa limitação para entendê-lo de forma adequada e explicá-lo de modo correto.

A palavra Triunidade traz em seu bojo quatro ideias fundamentais embasadas nas Escrituras, a saber:

1) O Pai é Deus;

2) O Filho é Deus;

3) O Espírito é Deus;

4) Estes três são um só Deus.8

Vejamos agora algumas definições e exposições Confessionais desta doutrina:

 

Confessamos e reconhecemos um só Deus (…). Um em substância e, contudo, distinto em três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.9

 

Cremos e ensinamos que o mesmo Deus imenso, uno e indiviso é inseparavelmente e sem confusão, distinto em pessoa – Pai, Filho e Espírito Santo – e, assim como o Pai gerou o Filho desde a eternidade, o Filho foi gerado por inefável geração, e o Espírito Santo verdadeiramente procede de um e outro, desde a eternidade e deve ser com ambos adorado.

Assim, não há três deuses, mas três pessoas, consubstanciais, coeternas e coiguais, distintas quanto às hipóstases e quanto à ordem, tendo uma precedência sobre a outra, mas sem qualquer desigualdade. Segundo a natureza ou essência, acham-se tão unidas que são um Deus, e a essência divina é comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.10

 

Na unidade da Divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade – Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo. O Pai não é de ninguém – não é nem gerado, nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho.11

 

As igrejas ensinam entre nós com magno consenso que o decreto do Concílio de Nicéia sobre a unidade da essência divina e sobre as três pessoas é verdadeiro e deve ser crido sem qualquer dúvida. A saber: que há uma só essência divina, a qual é chamada Deus e é Deus, eterno, incorpóreo, impartível, de incomensurável poder, sabedoria, bondade, criador e conservador de todas as coisas, visíveis e invisíveis. E, contudo há três pessoas, da mesma essência e poder, e coeternas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. E a palavra ‘pessoa’ usam-na no sentido em que a usaram, nesta questão, os escritores eclesiásticos, para significar não uma parte ou qualidade em outra coisa, mas aquilo que subsiste por si mesmo.12

 

Conforme esta verdade e esta palavra de Deus, cremos em um só Deus, que é um único ser, em que há três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Estas são, realmente e desde a eternidade, distintas conforme os atributos próprios de cada Pessoa.

O Pai é a causa, a origem e o princípio de todas as coisas visíveis e invisíveis. O Filho é o Verbo, a sabedoria e a imagem do Pai. O Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho, é a eterna força e o poder.

Esta distinção não significa que Deus está dividido em três. Pois a Sagrada Escritura nos ensina que cada um destes três, o Pai e o Filho e o Espírito Santo, tem sua própria existência, distinta por seus atributos, de tal maneira, porém, que estas três pessoas são um só Deus. É claro, então, que o Pai não é o Filho e que o Filho não é o Pai; que, também, o Espírito Santo não é o Pai ou o Filho.

Entretanto, estas Pessoas, assim distintas, não são divididas nem confundidas entre si. Porque somente o Filho se tornou homem, não o Pai ou o Espírito Santo. O Pai jamais existiu sem seu Filho e sem seu Espírito Santo, pois todos os três têm igual eternidade, no mesmo ser. Não há primeiro nem último, pois todos os três são um só em verdade, em poder, em bondade e em misericórdia.13

Esta doutrina pode decompor-se nas seguintes proposições:14

1) Há no Ser Divino uma só essência (ou)si/a)(ousía) indivisível

No “Shemá” a instrução iniciava com a afirmação de que há somente um Deus: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4).

No Novo Testamento Paulo instrui aos Efésios: “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.4-6). (Tg 2.19).

A compreensão da Igreja é de que não há diferença na essência de Deus; Deus é um ser simples, não composto. A afirmação da Igreja, conforme veremos em outro momento, é de que há apenas uma essência na Trindade partilhada pelas três pessoas,15 havendo distinção, mas não separação entre elas. A essência “é o fundamento de sua unidade comum, apesar da distinção em suas manifestações exteriores” (Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 376).

2) No Ser de Deus há três Pessoas

A Bíblia demonstra haver três pessoas na Triunidade; entretanto, sabemos que o termo Pessoa é uma expressão imperfeita e, portanto, inadequada para retratar a mensagem bíblica. Naturalmente as expressões são limitadas16 para descrever o Ser de Deus. O nosso esforço é no sentido de utilizar os termos que melhor exprimem o ensinamento bíblico.17

As Escrituras afirmam haver um só Deus, mas, que subsistem em três Pessoas. Calvino (1509-1564) assim define Pessoa: “Designo como pessoa, portanto, uma subsistência na essência de Deus que, enquanto relacionada com as outras, se distingue por uma propriedade incomunicável”.18 Adiante, acrescenta: “Com efeito, em cada e qualquer das hipóstases a natureza inteira se compreende, com isto, que lhe subjaz, a cada uma, a sua propriedade específica. O Pai está todo no Filho, o Filho todo no Pai….”.19 (Ver: Mt 3.16-17; 4.1; Jo 1.1-3,18; 3.16; 5.20-22; 14.26; 15.26; 16.13-15).

Berkhof (1873-1957) comentando a primeira distinção feita por Calvino, observa:

 

Isso é perfeitamente permissível e pode proteger-nos de entendimento errôneo, mas não deve levar-nos a perder de vista o fato de que as autodistinções do Ser Divino implicam um “Eu” e “Tu” no Ser de Deus, que assumem relações pessoais uns para com os outros.20

 

3) A essência de Deus pertence totalmente por igual a cada uma das Três Pessoas

A essência divina não está dividida entre as três pessoas como se fossem modulares e independentes. Deus é plenamente as Três Pessoas com todas as Suas perfeições; isto equivale a dizer que as Três Pessoas da Trindade tem a mesma essência: O Deus Pai é tanto Deus Filho como Deus Espírito Santo. Portanto, não há subordinação de essência (ontológica); não há nenhuma diferença em dignidade pessoal. A única subordinação que podemos falar é a da que se refere à ordem e à relação.21

4) A Igreja confessa que a Triunidade é um Mistério que transcende a compreensão do homem

A Triunidade “é inteligível em algumas de suas relações e de seus modos de manifestação, mas é ininteligível em sua natureza essencial”.22 As especulações sobre o assunto no decorrer da história geraram heresias como o triteísmo e o modalismo23 que ora negava a essência una de Deus, ora negava as distinções pessoais dentro da essência.24

É preciso que entendamos que não compete à Igreja explicar o mistério da Trindade; ela, partindo da Escritura, apenas o descreve de forma mais ou menos sistemática, formulando a doutrina de tal forma que evite os erros e as heresias.

Calvino com a cautela costumeira diante do mistério, nos adverte pastoralmente sobre o perigo da especulação indevida:

Aqui, mui certamente, se alguma vez, em qualquer parte, nos recônditos mistérios da Escritura, importa discorrer sobriamente e com muita moderação, aplicada, ademais, muita cautela, para que, seja o pensamento, seja a língua, não avance além do ponto a que se estendam os limites da Palavra de Deus. Pois, como haja a mente humana, que ainda não pode estatuir ao certo de que natureza seja a massa do sol, que, entretanto, diariamente com os olhos se vê, de à sua parca medida reduzir a imensurável essência de Deus? (…) Pelo infelicíssimo resultado de qual temeridade importa-nos ser advertidos, para que tenhamos o cuidado de aplicar-nos a esta questão com docilidade mais do que com sutileza, nem incutamos no espírito ou investigar a Deus em qualquer outra parte que em Sua Sagrada Palavra, ou a Seu respeito pensar qualquer cousa, a não ser que lhe vá à frente a Sua Palavra, ou falar que não o tomado dessa mesma Palavra.

Ora, se a distinção que em uma só é única divindade subsiste de Pai, Filho e Espírito, posto que é difícil de apreender-se, causa a certos espíritos mais dificuldade e problema do que é justo, lembrar-se devem de que as mentes humanas penetram em um labirinto25 quando cedem à sua curiosidade e, destarte, por mais que não alcancem a altura do mistério, deixem-se reger dos oráculos celestes.26

Agostinho (354-430), conclui a sua monumental obra Da Trinitate – que se tornaria decisiva para toda formulação cristológica posterior – com uma humilde e reverente oração: “Senhor, único Deus, Deus Trindade, tudo o que disse de ti nestes livros, de ti vem. Reconheçam-no os teus, e se algo há de meu, perdoa-me e perdoem-me os teus. Amém”.27

Maringá, 21 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

1Apud Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 384.

2D. M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Grandes Doutrinas Bíblicas, v. 1), 1997, p. 114.

3“Os três dias que precedem a criação dos luzeiros são símbolo da Trindade….” (Theophilus to Autolicus, II.15. In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. The Ante-Nicene Fathers, Buffalo: The Christian Literature Company, 1886, v. 2, p. 101. Em português: Teófilo de Antioquia, Segundo Livro a Autólico, 15. In: Padres Apologistas, São Paulo: Paulus (Patrística, 2), 1995, p. 246. Ver também: William G.T. Shedd, Dogmatic Theology, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, © 1888 (Reprinted), v. 1, p. 267; A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, p. 148; B. Studer, Trindade: In: Ângelo Di Berardino, org. Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, RJ.; São Paulo: Vozes; Paulinas, 2002, p. 1387.

4 Tertuliano foi pródigo na criação de neologismos na língua latina (Ver estatísticas em: Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 375). Veja-se: Jaroslav Pelikan, A tradição cristã: uma história do desenvolvimento da doutrina: O surgimento da tradição católica 100-600, v. 1, São Paulo: Shedd Publicações, 2014, p. 121.

5 Ver: Tertullian, Agains Praxeas, II. In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. The Ante-Nicene Fathers, Buffalo: The Christian Literature Company, 1886, v. 3, p. 598. Extratos do texto encontram-se também em: Cirilo Folch Gomes, (compilador). Antologia dos Santos Padres, 2. ed. (revista e ampliada), São Paulo: Paulinas, 1980, p. 165-167. Berkhof diz que “Tertuliano foi o primeiro a declarar claramente a tri-personalidade de Deus e a manter a unidade substancial das três Pessoas. Mas não chegou a exprimir de forma clara a doutrina da Trindade” (Louis Berkhof, História das Doutrinas Cristãs, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 77).

6 Cf. Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2003, v. 1, p. 452.

7 Herman Bavinck, Our Reasonable Faith, 4. ed. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1984, p. 145.

8 Para uma classificação um pouco diferente, ver: Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2003, v. 1, p. 452.

9 A Confissão Escocesa (1560), Cap. I. In: Livro de Confissões, São Paulo: Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969, § 3.01.

10 A Segunda Confissão Helvética (1562-1566), Cap. III. In: Livro de Confissões, São Paulo: Missão Presbiteriana do Brasil Central, 1969, §§ 5.016-5.017.

11 Confissão de Westminster, Cap. II.3. Ver também: Catecismo Maior de Westminster, Perguntas 9-11 e Catecismo Menor de Westminster, Pergunta 6.

12 A Confissão de Augsburgo, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1980, Art. I, p. 17.

13 Confissão Belga, Art. 8.

14 Esquema adaptado de Berkhof (Louis Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 88-91).

15 “Pai, Filho e Espírito Santo, cada um possui toda a substância e todos atributos da divindade. A pluralidade de Deus não é, portanto, pluralidade de essência, mas de distinções hipostáticas ou pessoais” (Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2003, v. 1, p. 492).

16“Tendo criado o homem para ser uma criatura sociável, Deus não só lhe inspirou o desejo e o colocou na necessidade de viver com os de sua espécie, mas outorgou-lhe igualmente a faculdade de falar, faculdade que deveria constituir o grande instrumento e o laço comum desta sociedade. É daí que provêm as palavras, as quais servem para representar, e até para explicar as ideias” (G.W. Leibniz, Novos Ensaios São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 19), 1974, III.1. § 1, p. 167).

17 Ver: João Calvino, As Institutas, I.13.3; Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2003, v. 1, p. 491; Albertus Pieters, Fundamentos da Doutrina Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1979, p. 179.

18João Calvino, As Institutas, I.13.6.

19 João Calvino, As Institutas, I.13.19.

20Louis Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 89. Veja-se também: A. B. Langston, Esboços de Teologia Sistemática, 7. ed. Rio de Janeiro: JUERP., 1983, p. 119ss.

21 Ver: Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 90; João Calvino, As Institutas, I.13.19.

22Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 91.

23 Termo introduzido por Adolf von Harnack (1851-1930) para descrever as heresias de Noetus, Práxeas e Sabélio (Cf. Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, histórica e filosófica: uma introdução à teologia cristã, São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 382).

24 Como acentua Berkhof, “Os numerosos esforços feitos para explicar o mistério foram especulativos, e não teológicos. Invariavelmente redundaram no desenvolvimento de conceitos triteístas ou modalistas de Deus, na negação ou da unidade da essência divina ou da realidade das distinções pessoais dentre da essência” (Louis Berkhof, Teologia Sistemática, p. 91).

25 Figura semelhante Calvino empregou para falar a respeito da doutrina da Eleição. “Quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num labirinto do qual nunca achará saída. Porque não é certo que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais Ele não concede pleno conhecimento sejam esquadrinhadas dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a sabedoria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a Sua infinidade eterna. Pois Ele quer que a Sua altíssima sabedoria seja mais adorada que compreendida (a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da vontade de Deus que Ele achou bom comunicar-nos, Ele nos testificou em Sua Palavra. Ora, Ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interesse e que nos seria proveitoso” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.8.1), p. 38). “Aprendamos, pois, a evitar as inquirições concernentes a nosso Senhor, exceto até onde Ele nos revelou através da Escritura. Do contrário, entraremos num labirinto do qual o escape não nos será fácil” (João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 11.33), p. 426-427).

26João Calvino, As Institutas, I.13.21.

27Santo Agostinho, A Trindade, São Paulo: Paulus, 1994, (Patrística, 7), XV.28, p. 557.

O Dia-a-dia de ação de graças e a graça de todo dia

O princípio de sermos agradecidos a Deus e ao nosso semelhante é amplamente ensinado na Bíblia. Paulo, servo e apóstolo de Jesus Cristo, orienta: “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1Ts 5.18).

A gratidão é a atitude da alma que reconhece a direção de Deus em todos os episódios de sua existência, daí a recomendação paulina: “Em tudo dai graças”. Nesta atitude não há uma senha mágica, um talismã linguístico, que vise a modificar as situações adversas, mas, sim, a expressão sincera de um coração agradecido, que se sente seguro sob o cuidado de Deus (Rm 8.31-39).

Conforme lei brasileira (5.110, 22/09/1966), na quarta quinta-feira de novembro comemora-se o Dia de Ação de Graças. Esta lei foi inspirada no desejo do Embaixador brasileiro Joaquim Nabuco que, impressionado com as comemorações deste dia em 1909 na Catedral de São Patrício em Nova Iorque, dissera: “Eu quisera que toda a humanidade se unisse, no mesmo dia, para um agradecimento universal a Deus”. A Lei que criaria este dia foi promulgada em 1949, passando posteriormente por regulamentações até a sua forma final em 1966.

A origem do Dia de Ação de Graças está relacionada aos Peregrinos (puritanos) em Massachusetts (1621) que ali se instalaram por questões de perseguição religiosa. Depois de alguns anos com uma colheita fraca, agravada por um inverno rigoroso, finalmente tiveram uma farta colheita de milho em 1621. Os índios norte-americanos os ajudaram com suas técnicas de cultivo. Por este motivo marcaram uma festividade no outono deste mesmo ano. Além do culto de gratidão a Deus, o cardápio das comemorações constava de patos, perus, peixes e milho. Como forma de gratidão e amizade, convidaram índios norte-americanos a participarem da festa; compareceram 90 deles que também trouxeram comidas. A festividade foi realizada ao ar livre, marcada por grande alegria, durando três dias. Esta prática religiosa, festiva e fraterna se propagou. Em 1863 o então presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, instituiu a última quinta-feira de novembro como o dia nacional de Ação de Graças. Posteriormente, inclusive por motivos comerciais, o dia passou por algumas alterações.

Nossa gratidão a Deus é resultado da certeza de que Ele cuida de nós e que, de fato, não existem eventos casuais, sorte, azar ou fatalismo. Deus é Quem nos guarda! Portanto, em todas as circunstâncias, podemos encontrar motivos para agradecer a Deus, certos de que Ele é o Senhor da história e nada nos acontece sem a permissão governativa de Deus e que tudo o que nos ocorre tem um sentido proveitoso para a expressão de nossa vida física, psíquica e espiritual. Deus deseja que nos aperfeiçoemos em todos os níveis, tendo em Jesus Cristo, o Filho de Deus, o modelo perfeito para nós (Rm 8.28-30).

O profeta Daniel, vivendo no exílio da Babilônia, quando soube que, por decreto do rei Dario, nenhum homem poderia invocar a Deus durante o prazo de 30 dias, entrou no seu quarto e deu graças a Deus conforme seu reverente costume (Dn 6.10).

O apóstolo Paulo e seu companheiro Silas, presos na cidade de Filipos por anunciarem o Evangelho, na prisão, “por volta da meia-noite …. oravam e cantavam louvores a Deus….” (At 16.25). Esta atitude – que o texto indica que se repetiu por algum tempo – era inusitada e, ao que parece, tão surpreendente aos outros prisioneiros que, conforme registra Lucas, os companheiros de cela se detiveram para ouvir seus louvores (At 16.25).

Assim, ao nos aproximarmos do final de mais este ano, devemos dirigir nossas mentes e corações a recordar os feitos perceptíveis de Deus em nossa existência: a paz, vida, saúde, família, escola, entre outras coisas. A gratidão revela a nossa confiança em Deus, no Seu paternal cuidado; por isso, mesmo sem entendermos o alcance dos fatos, devemos, pela fé, agradecer a Deus: “Dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5.20).

Hoje, dia 22, de modo especial, dou graças a Deus pelo aniversário de minha querida filha caçula, Sarah Ribeiro, que, como jornalista competente que é, administra esta página de forma efetiva.

Maringá, 21 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Oração, intimidade e reverência

Crédito: David Beale on Unsplash

“Portanto, vós orareis assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome” (Mt 6.9).

 

Contrastando com a prática comum descrita nos versos anteriores (Mt 6.5-8), Jesus Cristo apresenta com ênfase qual seria o modo correto de orar, como que dizendo: “Vós, porém, como meus discípulos deveis orar assim….”.[1]

 

Jesus então ensina os seus discípulos a iniciar a oração com a meditação da glória de Deus. Aparentemente simples, na prática, nos parece uma dura e disciplinadora lição. Procuramos Deus nos limites de nossas forças, confessando de forma contundente a nossa limitação. No entanto, Jesus Cristo nos desafia a esquecer as nossas questões, os nossos problemas, e a conduzir os nossos olhos para a glória de Deus.

 

Lloyd-Jones (1899-1981) acentua corretamente:

 

Antes de começarmos a pensar em nós mesmos e em nossas próprias necessidades, antes de nossa preocupação com o próximo, devemos começar nossas orações por esse grande interesse acerca do Senhor Deus, de sua honra, de sua glória.[2]

 

Jesus quer nos educar de tal forma que tenhamos em tudo, a começar pela oração, o senso de prioridade e de urgência, já que o imperativo aoristo indica isto.[3] Ele nos mostra que por mais sérios e graves que sejam os nossos problemas e preocupações, Deus deve ter a primazia. “Somente quando se dá a Deus seu lugar próprio tudo o mais passa a ocupar o lugar que lhe corresponde”.[4]

 

Nesta oração, encontramos uma demonstração prática do ensino de Jesus: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33).

 

Lloyd-Jones (1899-1981), comenta:

 

Se quisermos conhecer a Deus e ser abençoados por Ele, precisamos começar as nossas orações pela adoração à Sua pessoa. Precisamos orar, dizendo: “santificado seja o teu nome”, dizendo-Lhe que, antes de mencionarmos qualquer preocupação conosco, o nosso mais profundo anelo é que Ele seja conhecido entre os homens.[5]

 

Neste ensinamento há outro ponto que deve se realçado: Quando oramos, estamos falando com o nosso Pai. Todavia, devemos ter em mente também que Deus é um Pai Santo, que deve ser reverenciado e adorado. Jesus Cristo, na oração sacerdotal, assim se refere ao Pai: “Pai Santo” (Jo 17.11).  “Este Deus, a quem chamamos Pai, é o Deus de quem devemos nos aproximar com reverência e adoração, com temor e maravilha. Deus é nosso Pai que está nos céus, e nele se combinam o amor e a santidade,” interpreta corretamente Barclay (1907-1978).[6]

 

É impossível louvar a Deus sem que sejamos tomados de um reverente temor diante da Sua grandeza. “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; revelam prudência todos os que a praticam. O seu louvor permanece para sempre” (Sl 111.10).

 

O alto privilégio que temos de nos relacionar com Deus por intermédio de Jesus Cristo deve estar sempre associado à visão da grandeza de Deus, que nos conduz ao seu serviço com santo temor. “Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12.28-29).

 

Davi inicia o Salmo 25 – que é uma mescla de meditação e oração –, dizendo: “A ti, Senhor, elevo a minha alma” (Sl 25.1). O salmista sabe a quem se dirige, por isso fala de elevar a sua alma: Deus é santo e soberano; a oração tem sempre o sentido de enlevo espiritual, ainda que seja de confissão de pecados. Falar com Deus sempre é um ato de elevar a nossa alma! (Veja-se o post O Senhor Altíssimo, mas não distante).

 

Algumas pessoas, com uma ideia equivocada de “intimidade com Deus”, pensam que podem se aproximar dele de qualquer maneira, tratá-lo como a um igual ou em muitos casos, até mesmo como a um ser inferior a quem fazem verdadeiras imposições em suas “orações”. Ao contrário disso, a Palavra de Deus nos ensina que a nossa proximidade de Deus, antes de nos conduzir a uma suposta intimidade equivocada com Ele, dá-nos a perfeita dimensão da Sua gloriosa santidade e que, portanto, devemos nos aproximar dele em adoração e respeito. Davi é enfático: “A intimidade (dAs) (sod) (conselho secreto, conversa confidencial) do SENHOR é para os que o temem (arey) (yare’), aos quais ele dará a conhecer a sua aliança” (Sl 25.14).

 

Os “íntimos” de Deus são aqueles que o temem e lhe obedecem! O temor de Deus nos fala de um senso de reverência pelo fato de conhecermos a Deus, sabermos de sua grandeza e majestade. Os que temem a Deus são os íntimos; têm “conversas confidenciais” com o Senhor. Mais uma vez nos deparamos com um paradoxo. O senso de temor, longe de nos afastar, nos aproxima de Deus. Somos tornados íntimos de Deus. É ele mesmo quem nos aproxima de si.

 

Deus compartilha com os que o temem a sua aliança, o seu propósito e conselho, colocando no coração destes a alegria e a confiança de saber de forma experiencial quem é o seu Deus, o Deus da Aliança, digno de todo temor ‒ próprio daqueles que são íntimos do Senhor ‒, e alegre obediência. “O homem justo e reto, que anda no temor do Senhor, receberá o conselho secreto de Deus”.[7]

 

Salomão, falando sobre Deus, diz que Ele domina sobre o céu e a terra, não podendo o seu poder ser contido por estes. “Eis que os céus, e até o céu dos céus, não te podem conter” (1Rs 8.27).

 

Considerando isto, Jesus, o Deus encarnado, nos ensina a começar a nossa oração reconhecendo quem é Deus, proclamando a Sua Gloriosa Santidade!: “Santificado seja o teu nome” (Mt 5.9; Is 29.23; Ez 36.23). No entanto, devido à nossa limitação de cumprir este ato de glorificação de forma adequada, rogamos que Deus mesmo santifique o seu nome e implante o seu reino.

 

Jesus declara a santidade do nome de Deus. O que significa isto? É necessário que entendamos que, no mundo judeu, o nome significa a própria pessoa, por isso, falar no nome de Deus é falar no próprio Deus: a sua natureza e caráter.  O nome de Deus é a sua própria natureza. O nome envolve tudo quanto nos foi revelado a seu respeito: Todos os seus atributos e todas as suas obras.

 

Declarar a santidade de Deus significa proclamar que o seu ser, a sua Palavra e as Suas obras são santos. O nome de Deus está relacionado à Sua revelação. Jesus revelou (fanerw/n (phanerõn) = “tornar claro”; “manifestar”, “fazer conhecido”) o nome do Pai (Jo 17.6).

 

Revelar o nome significa revelar a própria pessoa e o seu caráter; assim como, confiar no nome é o mesmo que confiar na pessoa (Sl 9.10; 20.7; 22.22; Mt 12.21[8] etc.). Deste modo, a santificação do seu nome pressupõe o conhecimento daquele a quem o nome representa; ou seja, conhecer experimentalmente a Deus (Sl 9.10; 20.7). (Veja-se o post Revelação, conhecimento e relacionamento pessoal).

 

Nesta oração Jesus enfoca a honra de Deus entre os homens. Quando oramos estamos desejosos de que o caráter santo e bondoso de Deus seja reconhecido e respeitado entre os homens, como já sucede nos céus.

 

Quando oramos somos convidados a meditar naquilo que Deus é e tem feito. Ao dizermos: “santificado seja o teu nome”, estamos convidando a todos os homens a reverenciarem a Deus, reconhecendo sua santidade; estamos, como Davi, declarando de forma incisiva: “Engrandecei o Senhor comigo e todos à uma lhe exaltemos o nome” (Sl 34.3); de modo semelhante ao salmista que diz: “Aclamai a Deus, toda a terra. Salmodiai a glória do seu nome, dai glória ao seu louvor” (Sl 66.1-2).

 

A nossa oração deve ser sempre um ato de glorificação a Deus. Nós o glorificamos quando reconhecemos quem é Deus e, pelo Espírito, nos dispomos a cumprir a sua vontade, proclamando a sua majestade e glória reveladas no Seu nome (Jo 17.4,6).

O Catecismo de Heidelberg (1563), à questão 122 – “Qual é a primeira petição?” –, responde:

 

“Santificado seja o teu nome.” Isto é: Ajuda-nos primeiro que tudo, a conhecer-te, glorificar-te e louvar-te e todas as tuas obras, pelas quais brilham o teu poder onipotente, a tua sabedoria, bondade, justiça, misericórdia e verdade. E de tal modo disciplina toda a nossa vida, no que diz respeito a pensamento, palavras e obras, que teu nome nunca seja blasfemado por nossa causa, mas seja sempre honrado e louvado.

 

Calvino comentando o Pai Nosso, interpreta:

 

Quando pedimos na oração que o nome de Deus seja santificado, não devemos fazer essa petição tendo em vista algum proveito para nós, mas somente tendo em consideração a glória de Deus, sem nenhum outro interesse, fim ou intenção. E, contudo, essa mesma petição redunda em nosso proveito e utilidade. Porque, quando pedimos dessa maneira que o nome de Deus seja santificado, paralelamente é feito benefício à nossa santificação. Mas, como foi dito, nem nesse proveito devemos pensar quando fazemos a primeira petição. De tal modo deve ser assim que, ainda que fosse excluído todo o nosso proveito e que nada recebêssemos de Deus em resposta à oração, não devemos deixar de desejar e pedir em oração esta santificação do nome de Deus, bem como as outras coisas semelhantes que pertencem à sua glória.[9]

 

Aproximemo-nos de Deus com alegre confiança e reverente temor: Deus é o nosso Pai e é absolutamente Santo. Em Cristo, nosso Senhor, temos livre e reverente acesso (Jo 14.6; Hb 10.19-23). A reverência deve caracterizar a nossa vida, orações e pesquisas teológicas.

 

Maringá, 18/19 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


 

[1] Cf. R.C.H. Lenski, The Interpretation of St. Matthew’s Gospel, Peabody, Massachusetts:  Hendrickson Publishers, 1998, p. 263.

[2] D.M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: FIEL., 1984, p. 344.

[3] Cf. A.T. Robertson, Word Pictures in the New Testament, Grand Rapids, Michigan:  Baker Book House, © 1930, v. 1, p. 52-53.

[4]William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1973, (Mateo I), v. 1, p. 212.

[5] D.M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, p. 347.

[6] William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, (Mateo I), v. 1, p. 217.

[7]R.D. Patterson, Swd: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1031.

[8] Em ti, pois, confiam os que conhecem ([dy) (yada) o teu nome, porque tu, SENHOR, não desamparas os que te buscam (Sl 9.10). Uns confiam em carros, outros, em cavalos; nós, porém, nos gloriaremos em o nome do SENHOR, nosso Deus (Sl 20.7). A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (Sl 22.22). E, no seu nome, esperarão os gentios (Mt 12.21). 

[9] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 124.