O Senhor e seus pensamentos inatingíveis: a angústia do profeta

“Quão grandes (ld;G”) (gadal), SENHOR, são as tuas obras! Os teus pensamentos (hb’v’x]m;) (machashabah) (desígnios, intentos) que profundos!” (Sl 92.5).

Os seus desígnios, por serem verdadeiros e provenientes do Deus santo, sábio, justo e soberano, são inumeráveis, profundos e eternos: “O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios (hb’v’x]m;) (machashabah) do seu coração, por todas as gerações” (Sl 33.11).

Aqui já nos deparamos com algo grandioso demais para nós. Pensamos sempre em termos de causa e efeito e, dentro das categorias tempo e espaço repletos de circunstâncias geográficas, culturais, sociais e pessoais. Curiosamente foi dentro dessas categorias tão importantes para nós, que Deus se revelou.

O salmista nos diz que os desígnios de Deus permanecem para sempre. Ou seja: muito do que podemos ver nessa vida não esgota nem mesmo aspectos do seu governo e propósito. Por isso, muitas vezes nos angustiamos com o que consideramos passividade, indiferença, demora de Deus ou, por presumir um fim que julgamos ser o melhor dentro de nossa lógica bastante consistente, pensamos.

Não foi justamente isso que enfrentou o profeta Habacuque?

Tempo e espaço determinam muitas de nossas prioridades conforme as circunstâncias. Em boa parte das vezes tais circunstâncias são elaboradas pela mistura de ambos os elementos conforme a nossa fórmula caseira de relacionar tempo e espaço.

Por isso, em nossa incompreensão e incertezas diante desses elementos, o tempo pode nos parecer, como ao angustiado poeta argentino Jorge L. Borges (1899-1986), uma “ilusão”¹. No entanto, sabemos, que ele é implacável em sua caminhada e transitoriedade. Mas, não nos esqueçamos, está sob a direção de Deus.

Quando estamos apressados, tudo parece demorado. Quando estou com tempo disponível, as distâncias ficam mais curtas. O relógio, em nossa mente, pode ser romanticamente domesticado, mas, o que de fato não ocorre concretamente.

Conforme a nossa base de avaliação comparativa circunstancial, posso dizer que algo é longe ou perto. Rápido ou demorado. Já observaram como uma viagem de duas horas é longa a partir, digamos, da primeira hora de percurso? Já uma viagem de 8 horas, você nem sequer considera a primeira hora porque ainda faltam muitas outras.

E a refeição servida no restaurante? Faz diferença o tempo de espera quando você está com fome, sozinho e, sem celular. Aliás, este é imprescindível. A sua percepção é diferente se estiver tranquilo, sem muita fome e com uma boa prosa ou conversando no zap? Mais tarde você conversará pelo zap com quem agora está com você à mesa…

Da mesma forma, como temos uma dimensão mais imediatamente material da realidade, tendendo a circunscrevê-la a isso apenas, os propósitos de Deus podem nos parecer demorados ainda que estejam perfeitamente sob à sua preservação, domínio e controle.

O profeta Habacuque viveu numa época extremamente difícil. O seu livro foi escrito por volta do ano 605 a.C., durante o reinado de Eliaquim, filho de Josias. Nesse período, o reinado de Eliaquim era apenas simbólico, pois quem de fato mandava em Israel era o rei egípcio, Faraó-Neco, quem inclusive destronou o antigo rei, irmão de Eliaquim, Jeocaz – levando-o para o Egito aonde viria falecer (2Rs 23.34) –, colocando Eliaquim no enfraquecido trono e, como sinal do seu poder, mudou o nome de Eliaquim para Jeoaquim.

O reinado de Jeoaquim (609-598 a.C.) ocorreu durante o ministério de Jeremias e Habacuque. Jeoaquim para pagar os tributos exigidos por Faraó, impôs pesados impostos sobre o povo de Israel (2Rs 23.35), construiu também prédios luxuosos com trabalho escravo, sendo descrito por Jeremias como um homem vaidoso, egoísta, ambicioso, violento e corrupto (Jr 22.13-18). O seu reinado foi marcado pela decadência moral e espiritual do povo, sendo as reformas feitas pelo seu pai Josias, gradativamente esquecidas.

Nesse contexto encontramos o profeta Habacuque [“Abraço ardente” (?)]², um fiel profeta de Deus, que tinha perguntas profundas, as quais revelavam a sua preocupação com o povo de Judá, bem como o desejo de entender a dura realidade dos fatos. Nesse livro nos deparamos com o profeta em conflito com a própria mensagem de Deus: Habacuque demonstra ter dificuldade em compreender o desígnio de Deus.

O povo estava em pecado: Violência, contenda, litígio, afrouxamento da lei, injustiça etc. (Hc 1.3-4). Ele orava constantemente ao Senhor, que aparentemente não o ouvia. A não percepção da manifestação de Deus causa-lhe angústia e incompreensão (Hc 1.2-3).

Agora Deus se revela a Habacuque, determinando a sua “sentença” [()af&am) (masã’), “oráculo”, que tem o sentido metafórico de “peso” e “fardo”. Temos o anúncio de julgamentos pesados contra o povo e o poder imperial (Hc 1.1). O fato de essa palavra ser usada já no primeiro verso, à semelhança de Naum (Na 1.1) e Malaquias (Ml 1.1/Zc 12.1), indica a severidade da mensagem. Essa forma figurada de falar a respeito de Israel não era estranha ao Antigo Testamento (Nm 11.11,17; Dt 1.12).

Contudo, a resposta de Deus foi por demais surpreendente para o profeta. Deus mostra que não está indiferente aos acontecimentos, mas, que levantaria os caldeus para oprimir aqueles opressores descritos pelo profeta (Hc 1.5-11). Aqui Habacuque se depara com a questão da santidade de Deus e a prevalência do mal. Como Deus, sendo justo, poderia castigar os injustos por intermédio de outros mais injustos ainda? O profeta desabafa:

Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Ó SENHOR, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina. Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele? Por que fazes os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?  A todos levanta o inimigo com o anzol, pesca-os de arrastão e os ajunta na sua rede varredoura; por isso, ele se alegra e se regozija. Por isso, oferece sacrifício à sua rede e queima incenso à sua varredoura; porque por elas enriqueceu a sua porção, e tem gordura a sua comida. Acaso, continuará, por isso, esvaziando a sua rede e matando sem piedade os povos? (Hb 1.12-17).

Mesmo que não possamos ter clareza quanto ao propósito de Deus em todos os atos da história, não podemos duvidar dele. Deus sustenta e controla o seu povo e os seus inimigos. Não há força neste mundo que não esteja sob a sua preservação e domínio. O fato de não entendermos perfeitamente os propósitos de Deus, é inteiramente natural afinal, Deus é o Senhor Eterno e Onisciente; os caminhos de Deus não são os nossos caminhos; a sua mente é inescrutável (Is 55.8,9; Rm 11.33).

A nossa mente finita não consegue compreender exaustivamente as perfeições de Deus. O limite de nosso conhecimento é determinado pela revelação. A revelação de Deus também não é completa no sentido de abarcar total e exaustivamente o ser de Deus. Porém, Deus se revela como de fato é. Portanto muitíssimos de seus atos soberanos nos escapam. O finito não pode comportar o infinito! No entanto, podemos conhecer a Deus genuína e verdadeiramente à luz de sua autorrevelação. Podemos conhecer a Deus genuinamente, porém, não exaustiva e absolutamente.

Deus é soberano na utilização dos seus meios. Ele usa sábia e soberanamente os meios que quer. Aqui ele usou os caldeus para disciplinar a Judá (Hc 1.12/Is 10.5-6). Deus é senhor dos meios e dos fins!

Os caldeus por certo atribuíam as suas vitórias aos seus poderosos feitos (Hc 1.11,15,16); eles não entendiam que por meio de sua própria e voluntária maldade havia a direção de Deus para o fim proposto. Os seus caminhos são com frequência incompreensíveis à nossa razão. As nossas categorias são finitas e, portanto, limitadas.

Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcham pela largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas. (Hc 1.6).

Não és tu desde a eternidade, ó SENHOR, meu Deus, ó meu Santo? Não morreremos. Ó SENHOR, para executar juízo, puseste aquele povo; tu, ó Rocha, o fundaste para servir de disciplina. (Hc 1.12).

Os caminhos de Deus são eternos. (Hc 3.6).

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR. (Is 55.8).

O livro do profeta Habacuque reflete o conflito entre a fé do profeta e a amarga experiência vivida. Como Deus pode permitir isso? Esta é a questão do profeta.

O livro objetiva mostrar que ainda que Deus tivesse usado uma nação pagã para disciplinar o seu povo, mais tarde, Deus mesmo destruiria os caldeus devido a sua idolatria e perversidade extrema, resultante de sua própria deliberação.

No entanto, não devemos nos precipitar. A aparente demora de Deus em nos atender visa nos estimular à prática perseverante da oração. Aprendo a perseverar perseverando.

Deus tem o domínio preciso de todas as coisas. Ele é o senhor do tempo e da eternidade; do espaço e do infinito.

Habacuque começa o livro trazendo um “fardo” (Hc 1.1): a sentença de Deus. Depois revela a sua incompreensão diante dos fatos que estão ocorrendo. Até que ele enquadra corretamente o problema dentro daquilo que tinha certeza absoluta: Deus é Todo-Poderoso, Eterno, Autossuficiente e Santo. O profeta então orou, colocando diante de Deus toda a sua perplexidade. Descansou em Deus e aguardou atentamente a sua resposta: tirou os olhos do problema e volveu-os para Deus (Hc 2.1). Deus lhe responde. Agora Habacuque mais maduro em sua fé, encerra o livro com uma palavra de confiança renovada, reafirmada, mesmo em meio a possíveis provações.

Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente. (Hc 3.17-19).

Aprendamos com o profeta essa lição: conheçamos o nosso Deus, entreguemos-lhe a nossa perplexidade e angústia, seja ela qual for, e aguardemos confiantes a sua resposta: Ele certamente responderá! Posso não saber o que me espera amanhã, porém, não posso ter dúvida do que me espera na eternidade. Um detalhe: o amanhã, como todos os nossos dias, está envolvido no propósito eterno de Deus.

O Deus incompreensível em sua extensão, nos ama – disso sabemos bem –, por isso, cuida graciosa, pedagógica e paternalmente de nós. Os seus caminhos são eternos! Os seus pensamentos são inatingíveis. Que Deus nos capacite a nele confiar. Afinal, esse Deus é o nosso pastor. De nada mais precisamos. Amém

São Paulo, 08 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten M.P. Costa

 


¹Jorge L. Borges, História da Eternidade, Buenos Aires: Emecé Editores, (6. impresión), 1969, p. 29.

²O significado do seu nome é incerto. Pode ser derivado de uma palavra hebraica que significa abraço (“abraçar” ou “ser abraçado”) ou, “lutador”, conforme tradução de Jerônimo, considerando que Habacuque lutou com Deus. Tem sido especulado também que a derivação do seu nome poderia vir do acadiano, designando alguma planta ou árvore denominada pelos assírios de hambaqûqu. No entanto, esta planta ainda não pôde ser identificada. (Para maiores detalhes, veja-se: P.A. Verhoef, Habacuque: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 2, p. 11-12 (especialmente).

O nosso Senhor é supremamente grande. Adoremos ao Senhor!

Nosso Deus é incomparável! Aprendemos isso nas Escrituras. No entanto, nos Salmos, com objetivos didáticos, encontramos costumeiramente termos comparativos para Deus a fim de realçar aspectos do seu caráter que são superlativamente incomparáveis.

Deus se vale desse recurso para falar de aspectos de sua natureza de modo que possamos entender, ainda que parcialmente, considerando obviamente os limites humanos.

Um dos termos empregados pelas Escrituras para realçar a soberania de Deus e a maravilha de suas obras, é a palavra grande (lAdG”) (gadol) e suas variações. Analisemos alguns aspectos da grandeza de Deus e como isso traz implicações para a nossa vida:

 

Porque o SENHOR é o Deus supremo (lAdG”) (gadol) e o grande (lAdG”) (gadol) Rei acima de todos os deuses. (Sl 95.3/77.13; 96.4; 99.2).

Grande (lAdG”) (gadol) é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento (hn”WbT.) (tebunah) (= inteligência, aptidão, habilidade) não se pode medir. (Sl 147.5).

Esse é o Deus conhecido intimamente pelo seu povo: Conhecido ([d;y”) (yada’) é Deus em Judá; grande (lAdG”) (gadol), o seu nome em Israel” (Sl 76.1).

Vemos aqui a importância de conhecer a Deus. Entretanto, o conhecimento de nossas limitações é resultado da revelação de Deus. Somente por graça podemos conhecer o que conhecemos e termos uma dimensão de que há muito o que conhecer (2Pe 3.18). Somente assim poderemos compreender que a suprema grandeza do Senhor o dignifica como devendo ser louvado por nós e, demonstra também, que o nosso culto deve ser caracterizado pela consciência de que adoramos ao Senhor que é grande.

A sua natureza e os seus poderosos e misericordiosos feitos devem nos conduzir ao culto. É por isso que a nossa adoração deve ser precedida pela reflexão sobre Deus e a sua grandeza. A nossa adoração reflete como vemos a Deus e o quanto consideramos os seus feitos. A prática adoracional é precedida por uma questão teológica e vivencial. O nosso culto deve ser determinado não pelo nosso gosto, mas pela grandeza de Deus conforme revelada na Escritura. Essa compreensão é comum aos salmistas:

 

Grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado, na cidade do nosso Deus. (Sl 48.1).

Porque grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado, temível (arey”) (yare) mais que todos os deuses. (Sl 96.4).

Grande (lAdG”) (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado; a sua grandeza (hL’WdG>) (gedullah) é insondável (rq,xe !yIa;) (ayin cheqer) (Sl 145.3).

Portanto, o nosso culto, pelo seu sublime objetivo e conteúdo, deve ter uma conotação missionária, visto que o grande Deus é o seu motivo e propósito. A adoração deve ser um testemunho para todos do quão grande é o nosso Senhor:

 

Engrandecei (ld;G”) (gadal) o SENHOR comigo, e todos, à uma, lhe exaltemos o nome. (Sl 34.3/Sl 40.6; 69.30; 70.4).

Bendize, ó minha alma, ao SENHOR! SENHOR, Deus meu, como tu és magnificente (ld;G daom.) (gadal meod): sobrevestido de glória e majestade. (Sl 104.1).

Louvai-o pelos seus poderosos feitos; louvai-o consoante a sua muita grandeza (ld;G” bro) (gadal rob). (Sl 150.2).

 

Os seus grandiosos feitos devem ser anunciados:     “Falar-se-á do poder dos teus feitos tremendos (arey”) (yare), e contarei a tua grandeza (hL’WdG>) (gedullah) (Sl 145.6).

Por vezes, em momentos de dúvida e abatimento, devemos considerar a nossa história de vida. Com demasiada frequência o presente parece ser a única realidade, nada o tendo precedido. Assim, o agora assume a conotação em nossa limitação psicológica, de eterno presente. A amnésia da fé esvazia a nossa possibilidade de esperança. Por isso mesmo, pode nos causar muita tristeza, senso de solidão e, pior: ingratidão para com o Senhor.

O considerar as obras de Deus é, com muita frequência, um estímulo a confiar e a continuar confiando. Deus nos chamou, nos guiou e preservou. Ele é o Deus grande que opera maravilhas em nossa vida e na de nossos irmãos. Ele não é um marqueteiro de suas bênçãos. Devemos apreciar os seus atos de bondade em nossa rotina de vida. Ele se faz presente não somente em eventos grandiosos aos nossos olhos, como quando compramos a nossa casa, nos casamos, somos admitidos em um emprego, temos nossos filhos, somos aprovados em nossa Monografia (Dissertação ou tese), ou nos restabelecemos de grave enfermidade. A grandeza de Deus se revela também nas pequenas coisas de nossa cotidianidade. O rotineiro pode se tornar para nós uma grande bênção quando somos privados temporariamente dele e, posteriormente, voltamos àquilo que nem sequer avaliávamos. Devemos, portanto, nos alegrar em seus feitos e descansar em suas promessas.

Samuel quando deixa de ser juiz de Israel, porque o povo desejava ter um rei, se despede. Recapitula brevemente a história da Israel e, no final, lhe diz: “Tão-somente, pois, temei ao SENHOR e servi-o fielmente de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas (lAdG”) (gadol) coisas vos fez” (1Sm 12.24).

Esse sentimento é comum aos salmistas. Davi considerando os feitos de Deus e o fato de que Ele ouve as suas orações, escreve: “Pois tu és grande (lAdG”) (gadol) e operas maravilhas; só tu és Deus!” (Sl 86.10).

O salmista refletindo sobre as suas grandes obras se dispõe a adorar a Deus em companhia dos fiéis: “Aleluia! De todo o coração renderei graças ao SENHOR, na companhia dos justos e na assembleia. Grandes (lAdG”) (gadol) são as obras do SENHOR, consideradas por todos os que nelas se comprazem” (Sl 111.1-2)

Em outro momento, o salmista considerando a misericórdia de Deus revelada em suas singulares maravilhas, rende graças: “Ao único que opera grandes (lAdG”) (gadol) maravilhas (al’P’) (pala), porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 136.4).

Davi canta com alegria a magnificente misericórdia de Deus que se manifestou em livramento e alento de sua alma:

Render-te-ei graças, SENHOR, de todo o meu coração; na presença dos poderosos te cantarei louvores. Prostrar-me-ei para o teu santo templo e louvarei o teu nome, por causa da tua misericórdia e da tua verdade, pois magnificaste (ld;G”) (gadal) acima de tudo o teu nome e a tua palavra. No dia em que eu clamei, tu me acudiste e alentaste a força de minha alma. (Sl 138-1-3).

Quando o salmista recapitula a história de Israel do deserto, marcada pelo cuidado e provisão de Deus, bem como pela desobediência do povo, um aspecto destacado é o esquecimento dos grandiosos feitos de Deus: “Esqueceram-se de Deus, seu Salvador, que, no Egito, fizera coisas portentosas (lAdG”) (gadol) (Sl 106.21).

A certeza da grandeza de Deus deve alimentar e fortalecer a nossa fé: “Com efeito, eu sei ([d;y”) (yada’) que o SENHOR é grande (lAdG”) (gadol) e que o nosso Deus está acima de todos os deuses” (Sl 135.5).

Os feitos grandiosos de Deus, por vezes, são reconhecidos até mesmo pelos estrangeiros: “Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha. Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes (ld;G”) (gadal) coisas o SENHOR tem feito por eles” (Sl 126.1-2).

Esse é o nosso Deus. É o nosso Pastor e Rei. Ele é grande! Os seus atos de misericórdia são grandiosos e nos acompanham diariamente. Contemos as bênçãos de Deus e lhe prestemos culto com coração agradecido.

São Paulo, 6 de novembro de 2018.

Rev. Hermisten M.P. Costa

O Senhor Altíssimo, mas não distante

Uma expressão usada por vezes como um nome para Deus é Altíssimo. Deus está acima de todas as coisas. Esta é uma forma poética de dizer que Deus é o Senhor soberano acima de tudo. Ele é o Altíssimo eternamente. Ele não se confunde com as outras divindades tribais e locais, criadas pela imaginação humana e limitadas pelos seus domínios, que expressam a pecaminosa engenhosidade humana em formar seus deuses a sua imagem.

Antes, o Senhor é o Altíssimo sobre todos os poderes e sobre a criação, obras de suas mãos.

Esse foi o ponto que, durante fortíssima tempestade, assustou os experientes marinheiros diante do profeta Jonas, que se identificava como alguém que temia ao Senhor criador de todas as coisas: “Sou hebreu e temo ao SENHOR, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jn 1.9/Jn 1.16).

Nos salmos lemos Davi cantando com gratidão: “Eu, porém, renderei graças ao SENHOR, segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome do SENHOR Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon)(Sl 7.17/Sl 47.2).

Aqui temos a combinação dos nomes: Senhor e Altíssimo, enfatizando a sua realeza sobre todas as coisas e todos os supostos deuses. (Veja-se: Sl 97.9).

“E reconhecerão que só tu, cujo nome é SENHOR, és o Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon) sobre toda a terra” (Sl 83.18/Sl 92.8), escreve reverentemente o salmista.

Na relação cultual com Deus, é comum a ideia de que o povo deve subir ao templo. A questão não é apenas topográfica, mas, de natureza essencial: Deus é o Senhor Altíssimo, perfeito em toda a sua natureza e relações; nós somos criaturas dependentes de sua misericórdia. Ele habita o alto e o sublime (Sl 57.15).

Davi então ora: “A ti, SENHOR, elevo (af’n”) (nasa’) a minha alma” (Sl 25.1). Mesmo sabendo que as armadilhas estão embaixo, o salmista olha continuamente para cima, porque somente o Senhor o pode livrar: “Os meus olhos se elevam continuamente ao SENHOR, pois ele me tirará os pés do laço (tv,r,) (resheth) (rede)(Sl 25.15).

Os arrogantes, em sua visível e decantada prosperidade, motejam do Altíssimo. Os fiéis, inseguros, ainda que por um momento, se encantam com o sucesso de seu caminho sem Deus. Essa foi a experiência do salmista ao se fascinar com o visível progresso do ímpio em meio a sua arrogância e aparente impunidade (Sl 73.3.8-11).

No entanto, ainda que o ímpio não creia, ou até mesmo os servos de Deus, em momento de fraqueza diante de circunstâncias adversas, poderem cair em um ateísmo prático, negando o seu poder, ele continua sendo o que é eternamente: O Altíssimo onipotente.

No salmo 97 temos um convite a louvar ao Senhor, que é o Altíssimo sobre toda a criação e sobre todos os deuses criados pelos homens:

1Reina o SENHOR. Regozije-se a terra, alegrem-se as muitas ilhas. 2 Nuvens e escuridão o rodeiam, justiça e juízo são a base do seu trono. 3 Adiante dele vai um fogo que lhe consome os inimigos em redor. 4 Os seus relâmpagos alumiam o mundo; a terra os vê e estremece. 5 Derretem-se como cera os montes, na presença do SENHOR, na presença do Senhor de toda a terra. 6 Os céus anunciam a sua justiça, e todos os povos veem a sua glória. 7 Sejam confundidos todos os que servem a imagens de escultura, os que se gloriam de ídolos; prostrem-se diante dele todos os deuses. 8 Sião ouve e se alegra, as filhas de Judá se regozijam, por causa da tua justiça, ó SENHOR. 9 Pois tu, SENHOR, és o Altíssimo (!Ayl.[,) (elyon) sobre toda a terra; tu és sobremodo elevado acima de todos os deuses” (Sl 97.1-9).

O Senhor Altíssimo é o Deus conosco que jamais nos desampara. A consideração desse fato deve nos confortar e conduzir ao culto. Portanto, com fé e reverência cultuemos ao Senhor Altíssimo! Amém.

São Paulo, 05 de novembro de 2018.
Rev. Hermisten M.P. Costa

A “fé explícita” e a necessidade de uma fé consistente

A Reforma Protestante no seu período de consolidação teológica, se deparou com a necessidade de sistematizar a sua fé distinguindo-se não simplesmente do grande outro que seria a igreja católica romana, mas, também, aprofundar e pontuar aquilo que a diferenciava de outros grupos protestantes. Considerando a autonomia individual proclamada pela Reforma, estes ensinamentos deveriam ser inteligíveis ao cristão mais simples, para que ele pudesse filiar-se à igreja, conhecendo o que ela cria e ensinava.

Calvino (1509-1564) já combatera a “fé implícita” (fides implicita) – que era patente na teologia católica –, declarando que a nossa fé deve ser “explícita” (fides explicita). Ou seja: o fiel deve conhecer aquilo que crer. No entanto, ressalta que devido ao fato de que nem tudo foi revelado por Deus, bem como à nossa ignorância e pequenez espiritual, muito do que cremos permanecerá nesta vida de forma implícita.

Calvino depois de um extenso comentário, nos diz: “Certamente que não nego (de que ignorância somos cercados!) que muitas cousas nos sejam agora implícitas, e ainda o hajam de ser, até que, deposta a massa da carne, nos hajamos achegado mais perto à presença de Deus, cousas essas em que nada pareça mais conveniente que suspender julgamento, mas firmar o ânimo a manter a unidade com a Igreja. Com este pretexto, porém, adornar com o nome de fé à ignorância temperada com humildade, é o cúmulo do absurdo. Ora, a fé jaz no conhecimento de Deus e de Cristo (Jo 17.3), não na reverência à Igreja” (J. Calvino, As Institutas, III.2.3).

Em outro lugar: “Que costume é esse de professar o evangelho sem saber o que ele significa? Para os papistas, que se deixam dominar pela fé implícita, tal coisa pode ser suficiente. Mas para os cristãos não existe fé onde não haja conhecimento” (João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 1.2), p. 25).

Pelas palavras de Calvino, podemos observar a necessidade latente do ensino e estudo constante da Palavra de Deus, a fim de que cada homem, sendo como é, um ser responsável, tenha condições de se posicionar diante de Deus de forma consciente. A fé explícita é patenteada pela igreja por intermédio do ensino da Palavra.

Entende que a prática de afastar o povo da Palavra, mantendo-o na ignorância, é uma atitude anticristã e altamente prejudicial: “Daqui se faz evidente que espécie de cristianismo existe dentro do papado, onde não só é a crassa ignorância exaltada em nome da simplicidade, mas também o povo é rigidamente proibido de buscar o real discernimento” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.14), p. 143). Ao mesmo tempo lamenta que nem todos, mesmo tendo oportunidade, têm usado deste privilégio: o estudo das Escrituras: “A Palavra de Deus, a única norma do genuíno discernimento, a qual é aqui declarada como indispensável a todos os cristãos. Mesmo entre os que já foram libertados de tão diabólica proibição e que já desfrutam da liberdade de aprender, há, não obstante, indiferença tanto em ouvir quanto em ler. Quando negligenciamos tal disciplina, nos tornamos insensíveis e destituídos de todo e qualquer discernimento” (João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 5.14), p. 143).

Tillich (1886-1965), a despeito de muitos desvios teológicos, interpreta corretamente essa compreensão: “Cada indivíduo deve ser capaz de confessar os próprios pecados, experimentar o significado do arrependimento, e se tornar certo de sua salvação em Cristo. Essa exigência gerava um problema no protestantismo. Significava que todas as pessoas precisavam ter o mesmo conhecimento básico das doutrinas fundamentais da fé cristã. No ensino dessas doutrinas não se emprega o mesmo método para o povo comum e para os candidatos às ordens, ou para os futuros professores de teologia, com a prática do latim e grego, da história da exegese e do pensamento cristão. Como se pode ensinar a todos? Naturalmente, apenas se tornarmos o ensino extremamente simples” (Paul Tillich, Perspectivas da Teologia Protestante nos Séculos XIX e XX, São Paulo: ASTE., 1986, p. 41).

Essa necessidade, determina o uso cada vez mais evidente da razão a fim de apresentar de forma mais razoável possível a doutrina, e ao mesmo tempo, de forma simples. Eis dois marcos do ensino ortodoxo: amplitude e simplicidade. O ser humano é responsável diante de Deus; ele dará contas de si mesmo ao seu Criador. Portanto, tendo oportunidade, ele precisa conhecer devidamente a Palavra de Deus em toda a sua plenitude revelada.

Nesse período (séculos XVI e XVII) são compostas diversas Confissões e Catecismos, que além de visar preservar a sã doutrina, objetivavam tornar clara e objetiva a fé dos crentes. Essas declarações de fé precisavam ser, até certo ponto, completas. Entretanto, precisavam ao mesmo tempo ser simples, para que o crente comum (não iniciado nas questões teológicas) pudesse entender o que estava sendo dito. Avaliando esse com a Palavra de Deus, o crente teria, assim, uma compreensão mais amplamente bíblica da sua fé.

Lutero (1483-1546) exerceu poderosa influência por meio de seus Catecismos: O Catecismo Maior (abril de 1529) e principalmente, O Catecismo Menor (maio de 1529), ambos escritos em alemão. No prefácio do Catecismo Menor, Lutero declara os motivos que o levaram a redigir este Catecismo e, apresenta também sugestões de como ensiná-lo à Congregação. No decorrer dos sete capítulos, ele quase sempre inicia dizendo: “Como o chefe de família deve ensiná-lo à sua casa” ou: “Como o chefe de família deve ensiná-lo com toda a simplicidade à sua casa” e expressões similares.

Transcreverei apenas o que Lutero disse a respeito das suas motivações: “A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino (…). Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos”. (Martinho Lutero, Catecismo Menor: In: Os Catecismos, São Leopoldo, RS.; Porto Alegre, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, p. 363)

Em síntese, podemos dizer que o princípio da fé explícita foi um dos fermentos poderosos na promoção da tradução das Escrituras para diversos idiomas, a elaboração de Confissões, a criação de escolas, o progresso nas ciências e, a sistematicidade do ensino cristão em nossas igrejas. Hoje, dia 31 de outubro, quando comemoramos o aniversário da Reforma Protestante (1517), devemos ser gratos a Deus por esse movimento teológico-espiritual que trouxe grandes contribuições para a sociedade em diversos níveis, a começar pelo aspecto teológico, que se irradia na vivência consciente e comprometida de nossa fé em todas as esferas de nossa existência.

São Paulo, 30 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

A eloquência de um silêncio

Quando Daniel e seus amigos foram promovidos na Corte da Babilônia, houve o ciúme natural de outros líderes que, ainda que não ousassem desafiar a Daniel, preparam uma armadilha para Hananias, Misael e Azarias, sem dúvida para atingir a Daniel e enfraquecer o seu poder. Eles dizem ao que rei aqueles jovens judeus não adoravam, conforme o decreto real ao deus imperial (Dn 3.8-12). Há aqui 3 acusações: a) Não fizeram caso do rei; b) Não servem aos deuses do rei; c) Não adoram a imagem de ouro erguida pelo rei (Dn 3.12).

O rei então os chama e lhes faz a pergunta, mostrando-se profundamente arrogante, porém, conferindo-lhes assim, a oportunidade de retratação; o que de fato seria impossível: “É verdade, ó Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que vós não servis a meus deuses, nem adorais a imagem de ouro que levantei? Agora, pois, estai dispostos e, quando ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da cítara, da harpa, do saltério, da gaita de foles, prostrai-vos e adorai a imagem que fiz; porém, se não a adorardes, sereis, no mesmo instante, lançados na fornalha de fogo ardente. E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” (Dn 3.14-15). “Responderam Sadraque, Mesaque e Abede-Nego ao rei: Ó Nabucodonosor, quanto a isto não necessitamos de te responder” (Dn 3.16).

O rei foi incapaz de dobrar os três jovens e estes, mesmo amarrados e atirados na fornalha (Dn 3.21), eram de fato os únicos livres, pois nem mesmo a ameaça de morte o fizeram dobrar-se a um ídolo pagão. Isto ilustra como a fidelidade nas pequenas questões pode tornar-se ainda mais vigorosa no momento de grandes desafios e provações. No silêncio desses jovens aprendemos algumas lições sobre a fé depositada na soberania de Deus.

1.Deus já demonstrara o seu poder

Ninguém conseguira interpretar o sonho do rei; somente Daniel o pôde pela misericórdia de Deus. O próprio rei reconhecera a Majestade de Deus (Dn 2.47). Agora, o rei vem com aquela pergunta desafiante: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” (Dn 3.15). A esta pergunta não cabia resposta: Se o rei não se convencera pelo que já tinha visto era melhor se calar. O rei não teria mais palavras, teria uma prova definitiva.

Meus irmãos, o mesmo pode acontecer conosco: Deus tem demonstrado o seu poder, a sua misericórdia, temos sido alvos especiais do seu cuidado e providência, no entanto nos esquecemos disso tudo e, quando a situação se torna diferente, mais favorável a nós, pensamos que somos autossuficientes e ousamos desafiar a Deus de forma direta ou indireta. É necessário que não confundamos os recursos que Deus nos fornece com a nossa suposta suficiência. É preciso saber discernir bem a ocasião: a hora de falar e de calar.

Para aqueles jovens a soberania de Deus não era assunto para mero arrazoado, era questão de vida ou morte. Com Deus não se brinca; eles não estavam dispostos a simplesmente empreender um debate sobre a soberania de Deus após Ele mesmo ter dado provas suficientes do seu poder.

2. Deus age como lhe apraz

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego não sabiam se sobreviveriam à condenação do rei, no entanto, tinham certeza de que Deus se assim o quisesse (poder ordenado), nada nem ninguém poderia impedir-lhe (poder absoluto). Estes jovens conheciam o seu Deus de forma que sabiam que Ele tinha poder absoluto para livrá-los; contudo, o que eles não poderiam fazer, e de fato não fizeram, era declarar levianamente que Deus os livraria.

Daqui tiramos um princípio de suma importância: Deus não satisfaz necessariamente as nossas expectativas. Ele cumpre sempre as suas promessas, não aquilo que imaginamos que Ele vá fazer. Notemos que estes homens estariam cheios de motivos para dizer que Deus os libertaria, afinal eles estavam naquela situação devido à sua fidelidade a Deus. Esses jovens não comprometeram a sua fé a um desejo natural de sobrevivência. Deus não lhes prometera preservá-lo naquela prova; portanto, eles não poderiam falar por Deus. O que eles sabiam é que o Deus sábio e soberano tinha poder para livrá-los. Se Ele assim o desejasse, nem a fornalha nem o rei poderiam impedi-lo; contudo, o seu poder não estaria condicionado a esta circunstância: libertá-los ou não. Deus sabe o que é melhor para nós ainda que não entendemos perfeitamente isso.

Precisamos aprender a confiar em Deus e nas suas promessas, no entanto, devemos também aprender a não confundir os nossos anseios com o propósito de Deus, ainda que aqueles sejam considerados por nós santos e justos.

Calvino conclui: “Sempre que for oportuno, Deus usará Seu poder e nos salvará; contudo, se Ele nos levar à morte, decidamos em nossos corações que não nos há nada melhor do que morrermos, e que é prejudicial o prolongamento de nossas vidas” (João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Edições Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.23-25), p. 216).

Esses jovens demonstraram também que a acusação feita era parcialmente verdadeira; eles não serviriam nem adorariam a deuses estranhos, que nada são: “Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste” (Dn 3.17-18/Dn 3.12).

Eles sabiam que Deus age como determina agir, tendo plenos poderes para levar adiante a Sua determinação (Sl 115.3).

Deus por intermédio de Isaías, falando a respeito da futura destruição da babilônia, diz: “O meu conselho permanecerá de pé, farei toda da minha vontade” (Is 46.10).

Quais são os nossos sonhos, planos e projetos para os próximos dias, meses e anos? Como os idealizamos? É necessário que tenhamos em mente que se eles estiverem dentro do propósito de Deus nada poderá impedir-nos. Entretanto, devemos ter sempre em mente o “se”.

Deus, conforme o seu propósito, salvou os seus servos e, o próprio rei pagão Nabucodonosor, teve de admitir: “Não há outro Deus que possa livrar como este” (Dn 3.29). Nabucodonosor aprende que ele pode fazer decretos e governar o seu império, no entanto, o seu poder não é absoluto.

Considerações finais

Do mesmo modo, a nossa fidelidade a Deus não pode estar restrita àquilo que imaginamos que Deus deva fazer. A vida cristã caminha pela fé não simplesmente pelo que vê. Os jovens não necessitavam de um grande sinal maravilhoso para crerem em Deus. Diferentemente dos deuses pagãos, Deus pode dá a interpretação dos sonhos, resgatar o seu povo e libertá-los da fornalha. Se Ele não o fizer é porque tem outro propósito; cabe a nós confiar e aguardar em Deus o desenrolar de seu caminho providencial.

Há sempre o perigo de buscarmos justificativas para a nossa falta de fé ou para nossos pecados, atribuindo ao outro e no caso, a Deus, a responsabilidade de nossos erros. Adão tenta jogar a culpa sobre Eva pelo seu pecado; é claro que Eva cedeu primeiro, no entanto, a sua responsabilidade era para com Deus; o pecado de Eva não o obrigava a cometer a mesma transgressão. Esses homens não condicionaram a sua fé a preservação miraculosa de Deus, eles sabiam em Quem criam e, quanto a isso, não precisavam fazer nenhum discurso.

São Paulo, 29 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

O poder absoluto e o poder ordenado de Deus

A soberania de Deus se manifesta no fato de sua operância em fazer tudo o que faz (poder ordenado) e mesmo aquilo que não realiza visto que não determinou fazê-lo (poder absoluto). O poder absoluto de Deus envolve o seu poder ordenado. E o poder ordenado delimita o poder absoluto pela própria decisão restritiva de Deus: quando Deus decide fazer o que faz, delimitou a sua ação de forma que não mais pode fazer o que não determinou fazer. O poder de Deus é sempre condizente com a totalidade de seus atributos.

Deus exerce o seu poder no cumprimento do que decretou e nas obras da providência. Aliás, as obras da providência consistem na execução temporal dos decretos eternos de Deus.

Contudo, o que Deus realiza não serve de limites para o seu poder. “Destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão”, adverte João Batista aos arrogantes descendentes da carne, mas, não da fé de Abraão (Mt 3.9).

Na criação e preservação temos uma magnífica amostragem da majestade de Deus e de seu poder, não, contudo, a totalidade. O poder absoluto de Deus transcende infinitamente o seu poder revelado. O seu poder é maior do que tudo o que criou. Todavia, o seu poder sempre será, em ato e potência, consoante com as suas eternas perfeições.

Portanto, quando oramos a Deus, não temos dúvida quanto ao seu poder para nos atender em nossas súplicas. Ele pode. Não sabemos apenas se isso faz parte do seu propósito santo, sábio e eterno. Por isso, o que fazemos é suplicar a Deus que confirme com poder e graça o seu propósito, e nos dê fé para aceitar a sua direção ainda que não entendamos adequadamente a sua vontade em todas as circunstâncias de nossa vida.

A Deus demos glória. Amém!

Maringá, 28 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

O ensino de Deus e o fascínio dos ídolos do coração

Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho” (Sl 32.8). Figuradamente a palavra traduzida por “ensinar” tem também o sentido de mostrar, indicar, apontar (Sl 25.8).

1) Davi diz que Deus em sua bondade aponta o caminho aos pecadores

Bom e reto é o SENHOR, por isso, aponta o caminho aos pecadores” (Sl 25.8/Sl 25.12). Diante de tantas e novas opções que se mostram querendo nos tornar cativos de suas percepções e ações, aprendemos que na realidade, o único caminho viável para aqueles que amam ao Senhor, confiam nos seus preceitos e querem agradá-lo, é seguir as suas instruções.

Em geral, os caminhos propostos pelos homens têm vários rótulos com múltiplos adjetivos que falam ao nosso coração encontrando eco em nossos desejos que cultivamos de poder e autonomia. Faz-se necessário que assumamos o compromisso diante de Deus de buscar a sua instrução. Deus tem prazer em nos orientar e guiar. A sua Palavra tem este propósito. É preciso que não duvidemos, mas, que atentemos para as suas instruções.

Ele aponta o caminho para nós. Este caminho poderá consistir, em muitas ocasiões, em um retorno, num recomeço e redirecionamento de nossas prioridades.

O caminho de Deus nunca será óbvio diante de uma sociedade materialista e pragmática.

2) O salmista pede a Deus que ensine o seu caminho

Ensina-me, SENHOR, o teu caminho e guia-me por vereda plana, por causa dos que me espreitam” (Sl 27.11).

Suplicar pela instrução de Deus significa que estamos desejosos não apenas de sabermos intelectualmente qual é o caminho, como se estivesses brincado com um GPS simulando um destino para verificar a rota, distância e tempo de chegada, sem que na realidade tencionemos seguir naquela direção. Não. Queremos saber o caminho porque queremos de fato fazer a sua vontade, ser realmente guiado pela sua Palavra. (Sl 86.11; 119.33,102).

Muitas vezes, o caminho denominado de prático e real, se constitui em uma justificativa para desobedecermos ao caminho proposto por Deus.

Nas mídias sociais, um indicativo de prestígio e relevância é o número de seguidores. Não importa quem sejam ou porque nos seguem. Os números é que geram influência e patrocínios dentro de um círculo vicioso onde a virtude se transforma em números. Na prática somos bastante pragmáticos, pouco nos preocupando com a essência da coisa.

O nosso caráter, valores e prioridades se revelam naquilo que seguimos, no que tomamos como norma e padrão de nosso pensar e fazer. Quais conselhos são por nós adotados? (Sl 26.1-3,11).

Deus deseja que conheçamos o seu caminho não simplesmente para exercitar a nossa curiosidade ou diletantismo intelectual, mas, para ser segui-lo (Sl 32.8).

3) Os ídolos nada podem ensinar e a sua própria existência, sem vida, moldada pelo homem, conduz-nos ao engano

O erro não nos ensina, porém, podemos aprender, ainda que dolorosamente com o erro a fim de não mais seguirmos aquele caminho. Satanás visa nos ensinar por meio das tentações, contudo, podemos e devemos aprender muito por meio delas, ainda que não as busquemos. A idolatria é por si só um engano. O seu caminho é o do vazio e da nulidade que nos conduz à frustração e ao desespero.

O profeta Hacabuque, então, pergunta: 18Que aproveita o ídolo, visto que o seu artífice o esculpiu? E a imagem de fundição, mestra de mentiras, para que o artífice confie na obra, fazendo ídolos mudos? 19 Ai daquele que diz à madeira: Acorda! E à pedra muda: Desperta! Pode o ídolo ensinar? Eis que está coberto de ouro e de prata, mas, no seu interior, não há fôlego nenhum” (Hc 2.18-19).

Algumas observações devem ser feitas: Os ídolos, por sua própria nulidade tem que ser construídos de forma externamente atraente: ouro e prata. O caminho de nosso coração, com muita frequência, passa pelos nossos olhos costumeiramente acríticos no que se refere ao pecado (Cf. Gn 3.6).

Na declaração do profeta podemos destacar também três assuntos interligados. Há uma questão ontológica: Os ídolos não são; a sua existência enquanto essência é nula. Temos uma questão epistemológica: Se eles nada são, não há conhecimento. Do nada, nada se conhece. O que podemos ter é vislumbres de minha fé que se materializa por meio do que tento criar e conferir significado. Há também a questão lógica: Se o ídolo não existe, exceto na mente de quem o fez, portanto, não tem vida, ele não pode ser conhecido. O conhecido é apenas a matéria que compus. Portanto, ele nada pode fazer para me instruir, socorrer e consolar.

A idolatria começa em nosso coração por meio daquilo que cultuamos, temos como importante e, por isso, torna-se determinante de nosso culto. O que cultuamos reflete nossos valores e prioridades. A idolatria é pródiga na condução de uma estrutura de pensamento pecaminosa e viciada. Isso é o que resta ao homem sem referências permanentes. A negação de Deus, implica necessariamente na criação de um deus que lhe dê sentido à vida.

Muitas vezes, no entanto, seguimos aos deuses de nossa cultura e de nossa mente. Toda cultura e cada época cria e molda seus deuses conforme seus valores e desejos. Cultuamos o que nos fascina. Assim, buscamos de forma estratégica o melhor caminho para atingirmos os nossos objetivos, enaltecendo, colocando no altar os modelos que encarnam o que almejamos. A idolatria assume várias formas. Após a Queda os ídolos estão dentro de nossos corações ávidos pelos seus próprios interesses e a intenção imperativa de satisfazê-los. Logo, o meu desejo é o meu “deus”. Portanto, é preciso que arranquemos os ídolos de nosso coração, tão pródigo em suas promessas de satisfação.

Quando ignoramos a Deus e rejeitamos seu Filho, já não sabemos bem quem somos; daí uma compreensão errada da realidade e uma postura equivocada no mundo, fornecida pela invenção de uma nova divindade criada à nossa imagem e semelhança.

No entanto, Deus pela sua Palavra tem continuamente apontado o caminho para nós. Nas Escrituras vemos estampadas as consequências desastrosas e devastadoras da desobediência e os efeitos abençoadores da obediência aos conselhos de Deus.

A Palavra do Senhor permanece: 11No caminho da sabedoria, te ensinei e pelas veredas da retidão te fiz andar. 12Em andando por elas, não se embaraçarão os teus passos; se correres, não tropeçarás. 13 Retém a instrução e não a largues; guarda-a, porque ela é a tua vida” (Pv 4.11-13).

Atentemos para o ensino do Senhor, deixemos os ídolos de nossa cultura que, por vezes, tornam-se onipresentes em nossos corações. No dia 28 votemos com discernimento e submissão.

São Paulo, 23 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten M.P. Costa

Pensar sobre o pensar: Um exercício devocional

Um dos perigos para nós cristãos é simplesmente não usar a nossa mente. A nossa conversão a Deus envolve também uma nova mente, uma nova maneira de perceber a realidade, vendo o real como de fato é ainda que não exaustivamente. Nosso coração e mente precisam ser convertidos ao Senhor. Devemos aprender a entender a vontade de Deus em todas as circunstâncias e submetermo-nos a ela. A nossa mente deve ser tão devotada a Deus como o nosso coração; excluí-la, significa não amar a Deus como Ele requer.

Deus deseja que O amemos e O sirvamos também com nossa inteligência: “Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento” (Mt 22.37-38).

Portanto, o nosso testemunho exige o uso abalizado de nossa inteligência. A rejeição de um racionalismo autônomo, cuja única referência seria o eu pensante, não significa o abandono da racionalidade na compreensão e transmissão da mensagem do Evangelho.

Na Segunda Epístola destinada a Timóteo, Paulo se despede. Apresenta instruções finais e palavras de encorajamento ao seu discípulo mais próximo. Escreve então: “Pondera (= atentar, compreender, pensar, entender) o que acabo de dizer, porque o Senhor te dará compreensão (= entendimento, inteligência, discernimento) em todas as coisas” (2Tm 2.7).

Pensar, pensar sobre o pensar é algo salutar e muito desafiante e abençoador. Somos destinados ao pensar. Devemos nos valer deste privilégio, próprio do ser humano, concedido pelo Criador.

Precisamos aprender que a fé não elimina a nossa responsabilidade de pensar. Pensar não exclui a nossa fé. Ambas as atitudes devem caracterizar a vida do cristão a fim de que a nossa fé seja compreensível e a nossa razão seja guiada pela fé. A nossa fé e a nossa inteligência devem caminhar de mãos dadas em submissão a Deus.

O Senhor nos dá compreensão, nos faz ter entendimento de toda a realidade. O real não é uma mera utopia, antes, é acessível e, portanto, conhecível. Não vivemos num mundo de imagens, mas, de realidade, por mais desagradável que essa possa se configurar a nós em determinadas circunstâncias. No entanto, precisamos refletir a respeito. Não basta ler, é preciso refletir. O que me faz pensar que o caminho para a compreensão das coisas é um pensar intenso, humilde e submisso a Deus. Nem sempre as coisas se mostram a nós de forma clara e evidente. Precisamos pensar a respeito. E mais: Sentir-se totalmente à vontade, “socializado” em uma sociedade enferma, não me parece um sintoma de sanidade, antes um estado patológico.

O clima intelectual de uma época é sempre fortemente influenciador de nossa estrutura de pensamento e, portanto, de nossas prioridades e valores. A força deste “clima” talvez repouse sobre a sua configuração óbvia e normativa com que ele se apresenta à nossa mente. É quase impossível ter a percepção de algo que nos conduz – como também a nossos parceiros de entendimento –, de forma tão suave. Por isso, o simples – ainda que não seja tão simples assim – fato de podermos pensar com clareza, sem estes condicionantes, é uma bênção inestimável de Deus.

Por vezes pensamos que o pensar com intensidade é uma tarefa exclusiva para profissionais, quem sabe, filósofos. No entanto, o Cristianismo apresenta um desafio constante ao pensamento, à analise e ponderação. O homem é destinado ao pensamento. Na Criação vemos que Deus planeja, executa e avalia a Sua obra (Gn 1.26-31). Ao mesmo tempo, lemos que Deus nos criou à sua imagem e semelhança. Por isso não podemos conceber o ser humano no emprego adequado de seus dons, não se valer naturalmente desta característica divina que lhe foi concedida e, que o caracteriza.

Outro aspecto que quero destacar é que pelo fato de nosso pensamento fluir com certa facilidade sobre determinados assuntos, termos opiniões formada ou uma linha de pensamento que nos parece coerente e sensata, nem por isso podemos nos acomodar em nossos pensamentos. É preciso que desenvolvamos a arte de pensar sobre o pensar. O pecado também afetou a nossa estrutura de pensamento e consequentemente o ato de pensar e, necessariamente, o processo de reflexão. Muito do que vemos e priorizamos está associado não ao que vemos, mas, à nossa predisposição intelectual para ver como vemos.

Como cristãos, talvez por partirmos do pressuposto equivocado de que a fé cristã é apenas uma questão de sentimento, corrermos o risco de reduzir a nossa fé e as Escrituras a apenas esta esfera da realidade. Deste modo, o nosso cultuar limita-se ao que sentimos, ainda que nada compreendamos ou mesmo, nos esforcemos por isso. Não podemos ser cristãos autênticos sem o cultivo de uma mente que também busque o amadurecimento.

Cada época, é de certa forma, cativa de valores que são apresentados com status de racionalidade, objetividade, universalidade e perpetuidade. É extremamente difícil escapar dos encantos sedutores de nossa geração. Contrariamente, o que Paulo instrui a Timóteo é no sentido de que ele reflita sobre o que o Apóstolo lhe escreveu buscando a compreensão no Senhor. Pensamento e oração caminham juntos. Devemos, portanto, pensar sobre o pensar rogando a Deus a sua iluminação. Deus, por graça, nos dará o discernimento sobre todas as coisas. Pense sobre isso. Vote com consciência.

São Paulo, 23 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

Detestai e fugi do mal. Porém, votai bem

Vós que amais o SENHOR, detestai o mal; ele guarda a alma dos seus santos, livra-os da mão dos ímpios” (Sl 97.10).

O salmista preventivamente suplica ao Senhor: “Longe de mim o coração perverso; não quero conhecer o mal” (Sl 101.4). Outro salmista conta a sua experiência: “De todo mau caminho desvio os pés, para observar a tua palavra” (Sl 119.101).

Portanto, aprendemos biblicamente que devemos nos precaver. O fascínio do mal está justamente no fato dele não se apresentar como mal a corações bastante inclinados aos seus apelos. Isto pode parecer paradoxal, mas, não é: gosto do mal, ainda que não o denomine assim. Posso chamá-lo de maturidade, equilíbrio, prazer etc. Aprecio as suas promessas – muitas, frutos de minha imaginação ‒, ainda que não ouse chamá-las de efeitos do mal ou da maldade.

Por isso, devemos nos manter distantes de homens que tais coisas praticam. As versões apresentadas são muito estimulantes e convincentes a corações predispostos. As fotografias do mal difundidas por seus proponentes são repletas de cores vivas e promessas estonteantes. Quem já não se sentiu enganado por uma propaganda a respeito de um lugar belíssimo? De uma casa para vender ou alugar? Por vezes, já hospedado em algum hotel localizei um folder com sua propaganda. Em geral, as fotos, ainda que verdadeiras (correspondem mesmo ao edifício), são tiradas de ângulos inusitados e num horário que favoreça as suas belezas. Além disso, quem as tiram são profissionais. A Escritura nos exorta: “Não tenhas inveja dos homens malignos, nem queiras estar com eles” (Pv 24.1). Estes são profissionais em suas seduções.

Não devemos maquinar o mal contra o nosso próximo explorando a sua confiança: “Não maquines o mal contra o teu próximo, pois habita junto de ti confiadamente” (Pv 3.29).

Quem se ocupa com o planejamento do mal, em geral o faz por pensar deter o poder para fazê-lo e controlar suas consequências. A possibilidade da prática do mal tende a dar ao ser humano o senso de impunidade e, por isso mesmo, de poder. No entanto, tal procedimento não ficará sem o juízo de Deus: “Ai daqueles que, no seu leito, imaginam a iniquidade e maquinam o mal! À luz da alva, o praticam, porque o poder está em suas mãos” (Mq 2.1).

No dia 28, votemos bem. Tenhamos discernimento. Não permitamos ser enganados por falsas promessas feitas por aqueles que seguem o mal e pervertem o bem e o direito.

São Paulo, 23.10.2018.
Rev. Hermisten M.P. Costa

Conhecimento libertador e esclarecedor

A realidade pertence a Deus, quem a criou, sustenta e lhe confere sentido. Quando, então nos referimos ao conhecimento que podemos ter do próprio Deus, do seu caráter e majestade, temos de reafirmar a verdade bíblica de que esse conhecimento provém do próprio Deus.

Portanto, Deus só pode ser conhecido por ele mesmo. Daí a necessidade de revelação para que possamos conhecê-lo, e nos relacionarmos com ele. Deus em sua integridade se revela verdadeiramente como é em sua natureza essencial. Este conhecimento resultante da graça é único, singular e pessoal.

No entanto, não é demais enfatizar que o nosso conhecimento a respeito de Deus é um “conhecimento-de-servo” delimitado pelo próprio Senhor, considerando, inclusive, o pecado humano.

O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa. Mesmo podendo ser verdadeiro, sempre será limitado pela nossa própria finitude. O conhecimento de nossa limitação não é inato, antes é precedido pela revelação. A consciência do mistério é antecedida pela graça da revelação. Sem revelação o mistério continuaria sendo ignorado como mistério.

Portanto, poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa da graça divina. O nosso conhecimento é um ato de fé, e esta é procedente da graça que se manifesta no fato de Deus se revelar e de nos possibilitar conhecer. Mais: nunca somos ou seremos o padrão de verdade. Os nossos pensamentos e as nossas supostas experiências concretas não têm poder em si mesmos, antes, precisam sempre ser validados pela Palavra, que é a verdade (Jo 17.17).

Só pensamos verdadeiramente quando pensamos à luz da Palavra. Por isso, é que conhecer a Deus é algo singular porque somente Deus é soberano e, somente a partir dele podemos conhecê-lo. E tudo isso, por meio de Jesus Cristo, o Deus encarnado, a revelação pessoal de Deus.

Conhecer a Deus em sua soberania, portanto, é um dom da graça do soberano Deus. Este conhecimento, por sua vez, nos liberta para que possamos conhecer a nós mesmos e as demais coisas da realidade. Somente a partir de um genuíno conhecimento de Deus poderemos nos conhecer verdadeiramente bem como toda a realidade. O conhecimento de Deus possibilita-nos enxergar a realidade em suas múltiplas facetas com os seus valores próprios conferidos pelo próprio Deus que a sustenta. A verdade nos liberta (Jo 8.32).

Em um período de tanta informação e contrainformação, peçamos a Deus que nos dê discernimento. Votemos com sabedoria e submissão.

São Paulo, 23 de outubro de 2018.
Rev. Hermisten M.P. Costa