A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (19)

5.5. Para resistir ao Diabo

Uma das artimanhas do diabo é manter-nos na ignorância da Palavra de Deus. Podemos até ter contato com ela, entender intelectualmente sua mensagem, no entanto, não faz sentido espiritual. Não conseguimos visualizar significativamente o Senhor da glória, a essência do Evangelho (2Co 4.1-6).  Aliada a esta estratégia, satanás, partindo de uma hermenêutica mentirosa amplamente adequável aos seus interesses, procura torcer os ensinamentos de Deus para gerar indecisão e confusão, semeando a discórdia (Gn 3.1-7; Mt 4.5-6; 13.24-25,38-39).

 

Lloyd-Jones (1899-1981) expressou bem esta questão, dizendo: “A mente é o dom mais elevado do homem e, por isso, o diabo concentra os seus ataques nas mentes dos homens”.[1]

 

Paulo fala dos desígnios (no/hma)[2] de Satanás (2Co 2.11) – indicando a ideia de que ele tem metas definidas, estratégias elaboradas, um programa de ação com variedades de técnicas e opções a serem aplicadas conforme as circunstâncias.[3]   Satanás “fará qualquer coisa para conseguir vantagem sobre nós, diz o apóstolo, fará qualquer coisa para derrubar-nos, para fazer-nos parecer ridículos e para pôr em desgraça o nome de Deus”.[4]

 

Ele emprega toda a sua “energia” para realizar os seus propósitos. Esta ação é notória entre aqueles que ainda não conhecem a Cristo. Para que não entendam a Palavra de Deus, Satanás age obscurecendo o seu entendimento. Paulo diz que “… O deus deste século cegou os entendimentos (no/hma) dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2Co 4.4). (Vejam-se: Ef 4.17-18; Cl 1.21).

 

Na realidade, é possível – e creio que conhecemos bem isso – criar uma atmosfera contrária à fé cristã, uma má vontade para com a verdade, uma estrutura de pensamento totalmente secularizada onde não há lugar para Deus, valores e conceitos transcendentes e objetivos. O pecado afeta a totalidade do homem, inclusive o seu intelecto.[5] Assim, criamos um universo de valor privado onde a verdade é de cada um dentro dos significados subjetivos circunstanciais. Ou seja, meu desejo e interesse determinam as circunstâncias.

 

Aos judeus que não entendiam a mensagem de Cristo, Ele diz: “Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem (lalia/)[6]? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra (lo/goj).[7] Vós sois do diabo que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos (…). Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso não me dais ouvidos, porque não sois de Deus” (Jo 8.43,44,47).

 

A insensibilidade de Seus ouvintes não estava ligada à suposta obscuridade da mensagem de Cristo ou à Sua linguagem, mas sim à incapacidade espiritual de Seus ouvintes de entenderem o que Jesus lhes falara; havia um clima de total má vontade e descaso para com o Evangelho por Ele anunciado. No entanto, aqueles que são de Deus ouvem a Palavra de Deus, entendem salvadoramente a Sua mensagem e, portanto, são salvos. Deus é o Mestre que com sua didática celestial aponta para o filho: “Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus (didaktoi. qeou/). Portanto, todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim” (Jo 6.45/Jo 10.27-29).

 

Calvino comenta:

 

Deus trata conosco de uma forma tão clara e isenta de ambiguidade que Sua Palavra é com razão denominada de luz. Seu brilho, contudo, é ofuscado por nossas trevas. Isso sucede em parte por causa de nosso embotamento e em parte por causa de nossa leviandade. Apesar de sermos mais do que obtusos em nosso entendimento da doutrina de Deus, há ainda que adicionar a esse vício a depravação de nossas afeições. Aplicamos nossa mente mais à vaidade do que à verdade de Deus. Somos continuamente impedidos, ou por nossa rebelião, ou pelos cuidados deste mundo, ou pela luxúria de nossa carne.[8]

 

Às igrejas perseguidas, Pedro exorta:

 

Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo. (1Pe 5.8-9).

 

Satanás está ativamente feroz contra nós, desejando encontrar uma fresta, uma brecha pela qual ele possa entrar. Pedro nos diz que devemos resistir-lhe “firmes na fé”.

 

Esta resistência na fé significa: não lhe permitir o acesso, opor-se às suas sugestões malignas.

 

Somente podemos resistir-lhe com fé firmados no fundamento da fé, que é a Palavra de Deus. É Deus mesmo quem nos fortalece, nos firma até o fim.

 

     Às mesmas igrejas sofredoras, Pedro consola e estimula: “O Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou (kale/w) à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar” (1Pe 5.10).  

 

Notemos que a nossa resistência ao diabo encontra a sua base em Deus: É Ele Quem nos capacita a perdoar, nos dá a sua armadura, nos protege com a Sua presença e nos sustenta na fé que Ele mesmo produziu em nós.

 

Cipriano de Cartago (c. 210-258), referido por Agostinho (354-430), como “doutor suavíssimo”,[9] comentando o Pai Nosso, nos consola e estimula:

 

Tendo dito ‘livra-nos do mal”, nada mais resta que se deva pedir, pois já pedimos, numa só voz, a proteção de Deus contra o mal. Conseguida essa proteção, estamos seguramente guardados contra as maquinações do diabo e do mundo. Com efeito, que medo do mundo poderia existir para quem, no século, tem a Deus por guarda?[10]

 

De fato, sem Deus, nada podemos fazer (Jo 15.5). Entretanto, pesa sobre nós a responsabilidade de utilizar os meios fornecidos por Deus para que possamos cumprir o imperativo: “Resisti ao diabo”.

 

Pela fé, podemos resistir ao diabo em todas as suas armadilhas: A fé é o conhecimento convicto e confiante de Deus e da Sua vontade (1Pe 5.8,9/1Jo 5.4,5).

 

Maringá, 05 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este post faz parte de uma série. Acesse aqui a série completa

 


 

[1]  D.M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 76.

[2]A palavra traduzida por “desígnio” (no/hma) (nóêma) ocorre cinco vezes no NT., sendo utilizada apenas por Paulo: 2Co 2.11; 3.14; 4.4; 10.5; 11.3; Fp 4.7, tendo o sentido de “plano” (Platão, Política, 260d), “intenção maligna”, “intrigas”, “ardis”. Com exceção de Fp 4.7, a palavra sempre é usada negativamente no NT. No/hma é o resultado da atividade do nou=j (mente). (J. Behm; E. Wurthwein, nou=j, etc.: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 4, p. 960). “É a faculdade geral do juízo, que pode tomar decisões e pronunciar certos ou errados os vereditos, conforme as influências às quais tem sido expostas” (J. Goetzmann, razão: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 4, p. 32).

[3] “Satanás não tem propósitos construtivos; suas táticas são simplesmente para contrariar a Deus e destruir os homens” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP. Fiel, 1994, p. 82-83).

[4]D. M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 90.

[5] “O diabo de tal maneira enfeitiça as mentes dos homens que eles se apegam obstinadamente aos erros que em tempos passados assimilaram” (João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.2-7), p. 193). Calvino também observa que os “incrédulos se encontram tão intoxicados por Satanás, que, em seu estupor, não têm consciência de sua miséria” (J. Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 2.26), p. 247).

[6]Lalia/ (lalia) (* Mt 26:73; Jo 4.42; 8.43), parece indicar, mais do que o “dialeto”, a estrutura do pensamento de Jesus; eles não conseguiam acompanhar o seu raciocínio.

[7]Aqui significa a mensagem em si, o seu conteúdo.

[8]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 5.11), p. 139.

[9] Santo Agostinho, A doutrina cristã, São Paulo: Paulus, 2002 (Patrística; 17), II.61, p. 145.

[10]São Cipriano, A oração do Senhor, São Paulo: Paulus, 2016, (Coleção Patrística), 27. p. 194-195.

O Jardim do Éden e a sua condição paradisíaca sem a mulher

Não foi feita da sua cabeça, como para ter domínio sobre ele, nem de seus pés, como para não ser pisoteada por ele, senão de seu lado, para ser igual a ele, de debaixo de seu braço para ser protegida, e de junto ao coração para ser amada. – Matthew Henry.[1]

 

A mulher foi criada para ser companheira do homem. Deste modo percebe-se a ideia de complemento. O homem sozinho estaria no paraíso. Contudo permaneceria só, sem uma companheira. O paraíso sem a mulher seria um paraíso incompleto, insatisfatório. No céu, seremos como os anjos, não nos casaremos (Mt 22.30). Adão, no seu estado terreno, felizmente ainda precisa do auxílio de uma esposa.[2]

 

Visto que a mulher completaria o homem, ela tornar-se-ia da mesma forma incompleta se não cumprisse a missão a ela conferida. Vemos então, aqui, que somente os dois juntos, tornando-se uma só carne, se encaminham para a plenificação como imagem e semelhança de Deus por meio da geração de filhos, a proliferação da raça humana, e o uso de seus talentos de forma criativa e construtiva.[3]

 

O rabino Cassuto (1883-1951) colocou esse evento de forma poética: “Assim como a costela se encontra no lado do homem e lhe é anexa, da mesma forma a boa esposa, a costela de seu esposo, fica a seu lado para ser sua auxiliar-sósia, e sua alma faz fronteira com a dele”.[4]

 

1. Auxiliadora idônea

   “Far-lhe-ei uma auxiliadora (rz<[e) (‘ezer)[5] que lhe seja idônea (dg<n<) (neged) (Gn 2.18), é a solução encaminhada por Deus.

 

A) Auxiliadora

(rz<[e) (‘ezer): “Auxiliadora”, “ajudadora”. Esta palavra que nos tempos modernos é com frequência olhada como se fosse uma diminuição da mulher, tem na realidade um tom extremamente significativo. Ela é empregada especialmente para descrever a ação de Deus que vem em socorro do homem.

 

Em sentido lato, Deus mesmo é o ajudador dos pobres (Sl 72.12), dos órfãos (Sl 10.14/Jó 29.12); daqueles que não podem contar com mais ninguém (Sl 22.11). Por isso, podemos contar com ele nos momentos de enfermidade (Sl 28.7); nas opressões de inimigos (Sl 54.4) e em períodos de grande aflição (Sl 86.17). Aqueles que vivem fielmente, buscando seu amparo nele, podem ter a certeza do seu cuidado (Sl 37.40/Sl 89.21), sendo a sua lei e as suas mãos os seus auxílios (Sl 119.173,175).[6] Por isso, os servos de Deus suplicam a sua ajuda na batalha e nas aflições (Dt 33.7/Sl 20.2; 30.10; 79.9; 109.26; 119.86). O rei Uzias tornou-se famoso internacionalmente porque, por trás de todos os seus empreendimentos, estava a maravilhosa ajuda de Deus (2Cr 26.15). Por outro lado, quando Israel deixou de confiar no sustento de Deus e buscou aliança com os egípcios para a sua proteção, Deus diz que isso de nada adiantaria contra a Babilônia (Is 30.5,7; 31.3/Os 13.9).

 

Somos desafiados então, a confiar em Deus, porque ele cuida de nós, é o nosso amparo (Sl 33.20; 70.5; 72.12; 115.9-11; 124.8; Is 44.2): de Deus vem o nosso socorro (Sl 121.1-2). Israel é feliz porque tem a Deus como aquele que o socorre (Dt 33.26,29). Felizes são todos aqueles que têm a Deus por auxílio (Sl 146.5).

 

Devido ao seu socorro, devemos entoar louvores ao seu nome (Sl 28.7). Dentro das profecias messiânicas de Isaías, vemos a confiança do Ungido do Senhor. Certo do socorro do Senhor, sabe que não será envergonhado (Is 50.7,9).

 

Harriet e Gerard fazem uma bela e real aplicação: “Que papel importante Deus dá a mulher. Ela se coloca ao lado do seu marido como auxiliadora, assim como Deus se coloca ao lado de seu povo”.[7]

B) Idônea

(dg<n<) (neged): “Idônea”, tem o sentido de “correspondente a ele”, “conforme”, “aquilo que corresponde”, “sua contrária”. Significa também, “estar em frente”, “defronte” (Êx 19.2; Js 3.16; 6.5,20; Dn 6.11).

 

A mulher foi formada como uma “contraparte” do homem. É uma semelhança perfeita dele, ainda que lhe seja oposta, no sentido de complemento. O homem aprovou a criação de Deus, porque pode perceber a mulher “não como sua rival, mas como sua companheira, não como uma ameaça, mas como a única capaz de realizar seus desejos íntimos”.[8]

 

Robertson analisa:

O propósito da existência do homem como ser criado não é ser um auxílio para a mulher no casamento. Mas o propósito da existência da mulher como ser criado é glorificar a Deus sendo um auxílio para o homem.

…. A mulher deve ser, na verdade, uma auxiliadora do homem. Mas deve ser auxiliadora ‘correspondente a ele’. O todo da criação de Deus serviria de auxílio ao homem de uma ou outra maneira. Mas em parte alguma da criação poder-se-ia achar um auxiliar ‘correspondente’ ao homem (Gn 2.20). Somente a mulher como ser criado do homem correspondeu a ele de tal maneira que fez dela o auxílio adequado de que ele necessitava.

Este traço distintivo da mulher indica que ela não é menos significativa do que o homem com respeito à pessoa dela. De maneira igual ao homem, ela traz em si mesma a imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27). Somente como igual em pessoalidade podia a mulher ‘corresponder’ ao homem.[9]

 

2. A igualdade entre o homem e a mulher

 

Os textos também revelam a prioridade social e governamental do homem, não a sua superioridade essencial (Ef 5.22; 1Co 11.3-12; 1Pe 3.6,7).[10] É preciso que não confundamos a primazia e liderança com o domínio tirânico.

 

Ortlund, Jr., escreve:

 

A masculinidade e a feminilidade identificam seus respectivos papéis. Conforme Deus determinou, o homem, em virtude de sua masculinidade, é chamado a liderar. E a mulher, em virtude de sua feminilidade, é chamada para ajudar. (…) Mas, observe: dominação masculina é uma falha pessoal e moral, não uma doutrina bíblica.[11]

 

Deus, ao criar a mulher, não a fez inferior. Ela também foi feita conforme à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27). A ordem divina quanto ao povoar, dominar, guardar e cultivar a terra é responsabilidade de ambos. Os dois partilham dos deveres e responsabilidades conferidos por Deus. Sozinhos, ambos são insuficientes para cumprirem o propósito de Deus em suas vidas.

 

Harriet e Gerard comentam:

 

A passagem [Gn 1.26-31] claramente indica que na sua origem a fêmea foi criada da mesma substância do macho; ela não é inferior quanto ao seu ser ou pessoa. Ela não é inferior como portadora da imagem, representante ou espelho de Deus na vida diária. A mulher é uma pessoa tanto quanto o homem. Assim como o macho é, a fêmea é feita à imagem e semelhança do Deus triúno e consequentemente tem o seu próprio relacionamento pessoal e espiritual com Deus. Neste particular ela é absolutamente igual ao homem. Ela também recebeu o mesmo mandato que o seu marido recebeu. Ela deveria cultivar o jardim com ele, dominar sobre ele e com o marido, ser frutífera e povoar a terra. No capítulo 2 ela, juntamente com o seu marido, recebeu o mandato espiritual de continuar a andar com Deus. Ela e o seu marido são proibidos de comer do fruto da árvore. Ambos recebem o mandato social de serem frutíferos.[12]

 

O paraíso sem a mulher seria solitário e, de certa forma, menos alegre. Deus retardou a criação da mulher para, entre outras coisas, mostrar ao homem, a sua importância e necessidade de complemento.

 

Agradeçamos a Deus por nossas mães, esposas e filhas, como representativas de todas as mulheres, criadas como nós, homens, à imagem de Deus, tendo como propósito mútuo, amadurecer em nossa fé conforme a imagem de Cristo, o modelo absoluto para todos nós (Rm 8.29-30).

 

 

São Francisco do Sul, 7 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa.

 


 

[1]Matthew Henry, “Commentary on The Whole Bible,” The Master Christian Library, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Sofware, 2000), v. 1, (Gn 2.21-25), p. 58-59.

[2]Cf. Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 574-575.

[3] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 587-589.

[4] Apud Bruce K. Waltke; Cathi J. Fredericks, Gênesis, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, (Gn 2.21), p. 105.

[5] A Septuaginta traduz por bonqo\n, proveniente de bonqoj, “útil”, “auxiliador”, “ajudador” (*Hb 13.6).

[6] 173Venha a tua mão socorrer-me, (rz:[‘)(‘azar) pois escolhi os teus preceitos. (…) 175 Viva a minha alma para louvar-te; ajudem-me (rz:[‘)(‘azar) os teus juízos” (Sl 119.173, 175).

[7]Harriet; Gerard van Groningen, A Família da Aliança, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 99.

[8] Raymond C. Ortlund, Jr., Igualdade Masculino-Feminina e Liderança Masculina: In: John Piper; Wayne Grudem, compiladores, Homem e Mulher: seu papel bíblico no lar, na igreja e na sociedade, p. 39.

[9] O. Palmer Robertson, Cristo dos Pactos, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1997, p. 69.

[10] Veja-se: Bruce K. Waltke; Cathi J. Fredericks, Gênesis, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, (Gn 2.18), p. 104.

[11] Raymond C. Ortlund, Jr., Igualdade Masculino-Feminina e Liderança Masculina: In: John Piper; Wayne Grudem, compiladores, Homem e Mulher: seu papel bíblico no lar, na igreja e na sociedade, p. 40.

[12]Harriet; Gerard van Groningen, A Família da Aliança, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 94. Veja-se também: Gerard van Groningen, Criação e Consumação, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, v. 1, p. 86.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (18)

5. Necessidade da fé salvadora

 

 5.1. À salvação

 

A fé, como vimos, é a causa instrumental da salvação. Ela é “a mão pela qual o pecador recebe a salvação oferecida por Deus”.[1] É por isso que é chamada de fé salvadora (Jo 3.16; At 16.31; Ef 2.8; 1Pe 1.9).

 

5.2. À oração

 

“Palavras sem pensamentos, nunca para o céu vão”.[2] A oração deve ser sempre acompanhada de fé. Como confiar os nossos desejos mais íntimos a alguém que não conhecemos? A oração sincera é um atestado de carência e de total confiança em Deus. A certeza de que seremos atendidos repousa na Palavra de Deus. (Mt 21.22; Tg 1.5-8).[3]

 

Hodge (1797-1878) resume:

 

A oração é a conversa da alma com Deus. (…) Um homem sem oração é necessária e totalmente irreligioso. Não pode haver vida sem atividade. Assim como o corpo está morto quando cessa sua atividade, assim a alma que não se dirige em suas ações a Deus, que vive como se não houvesse Deus, está espiritualmente morta.[4]

 

 5.3. Ao culto[5]

Ninguém é verdadeiro adorador de Deus senão aqueles que reverentemente obedecem a Sua Palavra. – João Calvino.[6]

 

O culto cristão é a expressão da alma que conhece a Deus e, que deseja dialogar com o seu Criador; mesmo que este diálogo, por alguns instantes, consista num monólogo edificante no qual Deus nos fale por meio da Palavra.

 

A seguinte definição, expressa bem esta realidade:

 

Em essência o culto é um encontro de Deus com Seu povo no qual se estabelece um diálogo: Deus fala à Sua Igreja através de Sua Palavra e a Congregação expressa sua adoração ao Senhor mediante as orações, oferendas e hinos.[7]

 

O culto cristão não é uma ação humana, mas sim, uma resposta; uma atitude responsiva à ação de Deus que primeiro veio ao homem, revelando-Se e capacitando-o a responder-Lhe. A essencialidade desta atividade é apontada pelo fato de que é Deus mesmo Quem procura constantemente[8] Seus adoradores:[9] “….vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura (zhte/w)[10] para seus adoradores” (Jo 4.23).[11]  Deus não procura líderes, “facilitadores”, mestres ou discípulos, mas sim, adoradores. “A finalidade ou o propósito do evangelismo e de missões é criar um povo para adorar a Deus”.[12] A adoração é a nossa mais importante e permanente atividade, tanto aqui como na eternidade. Portanto, nós cultuamos a Deus não para simplesmente “evangelizar” os incrédulos, antes, para expressar em fé a nossa adoração, louvor e gratidão.[13]

 

O Culto a Deus deve ser a atitude natural do povo de Deus em reconhecimento prazeroso de Seu senhorio sobre a nossa existência e de ser Ele o originador e provedor de todas as bênçãos celestiais que temos recebido em Cristo Jesus: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1.3).[14]

 

A adoração correta ao verdadeiro Deus, é uma atitude de fé, gratidão e obediência na qual, o adorador se prostra diante do Deus que o atraiu com a Sua graça irresistível.[15] Neste ato de culto, o homem confessa sua dependência de Deus, professando a sua fé em resposta à Palavra criadora de Deus (Jo 1.1-3; Rm 1.16; 10.17; Tg 1.18,21; 1Pe 1.23).[16]

 

A Palavra de Deus é criadora porque gera a fé e, todas as vezes que Deus fala ao homem, algo de novo acontece, o homem não pode ser mais o mesmo, ele não pode mais ignorar este acontecimento (At 4.20). E isto, se expressa em culto. Deus fala e o homem adora; Deus Se mostra, o homem contempla; Deus abençoa, o homem louva… “De longe se me deixou ver o Senhor, dizendo: Com amor eterno eu te amei, por isso com benignidade te atraí” (Jr 31.3).

 

Culto sem fé é uma contradição de termos (Hb 10.22; 11.4,17,28).

 

 5.4. Em nosso relacionamento com Deus

A nossa aproximação de Deus por meio da oração, leitura e meditação na Palavra, deve ser sempre norteada pela fé.  5 Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois, antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus.  6 De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.5-6).

 

 

Maringá, 04 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este post faz parte de uma série. Acesse aqui a série completa

 


 

[1] R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 20.

[2] W. Shakespeare, Hamlet, São Paulo: Abril Cultural, 1978, III.3. p. 272.

[3] “A genuína oração provém, antes de tudo, de um real senso de nossa necessidade, e, em seguida, da fé nas promessas de Deus” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, p. 34). “Para que nossa fé repouse verdadeira e firmemente em Deus, devemos levar em consideração, ao mesmo tempo, estas duas partes de seu caráter – seu imensurável poder, pelo qual ele pode manter o mundo inteiro sob seus pés; e seu amor paternal, o qual manifestou em sua Palavra” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 46.7), p. 335-336).

[4] Charles Hodge, Systematic Theology, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1976 (Reprinted), v. 3, p. 692.  

[5] Para um estudo mais detalhado sobre o significado do culto, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Princípios Bíblicos de adoração cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[6]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 103.18), p. 603.

[7] Víctor M.S. Garcia, Musica y Alabanza: In: Revista Teológica, México, v. 9, nº 31-32, 1978, p. 47.

[8] O verbo zhte/w na sua forma indicativa, conforme aparece em Jo 4.23, aponta para a atividade contínua e habitual de Deus.

[9]Ver: Boanerges Ribeiro, O Senhor que Se Fez Servo, São Paulo: O Semeador, 1989, p. 46-47.

[10]Este verbo (92 vezes no NT), quando empregado referindo-se à ação do Pai e do Filho, em suas poucas aparições, tem um sentido altamente significativo. a) Jesus, o Filho, busca não a sua glória, mas a do Pai: “Respondeu-lhes Jesus: O meu ensino não é meu, e sim daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo. Quem fala por si mesmo está procurando (zhte/w) a sua própria glória; mas o que procura (zhte/w) a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro, e nele não há injustiça” (Jo 7.16-18);  “Replicou Jesus: Eu não tenho demônio; pelo contrário, honro a meu Pai, e vós me desonrais. Eu não procuro (zhte/w) a minha própria glória; há quem a busque  (zhte/w) e julgue” (Jo 8.49-50).   b) O Filho busca fazer a vontade do Pai: “Eu nada posso fazer de mim mesmo; na forma por que ouço, julgo. O meu juízo é justo, porque não procuro (zhte/w) a minha própria vontade, e sim a daquele que me enviou” (Jo 5.30). c) O Filho veio buscar o perdido: “Porque o Filho do Homem veio buscar  (zhte/w) e salvar o perdido” (Lc 19.10). Esta passagem faz eco à promessa de Deus que, através de Ezequiel, dissera: “Como o pastor busca o seu rebanho, no dia em que encontra ovelhas dispersas, assim buscarei as minhas ovelhas; livrá-las-ei de todos os lugares para onde foram espalhadas no dia de nuvens e de escuridão. Tirá-las-ei dos povos, e as congregarei dos diversos países, e as introduzirei na sua terra; apascentá-las-ei nos montes de Israel, junto às correntes e em todos os lugares habitados da terra. Apascentá-las-ei de bons pastos, e nos altos montes de Israel será a sua pastagem; deitar-se-ão ali em boa pastagem e terão pastos bons nos montes de Israel. Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar, diz o SENHOR Deus. A perdida buscarei, a desgarrada tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a enferma fortalecerei; mas a gorda e a forte destruirei; apascentá-las-ei com justiça” (Ez 34.12-16). Na Parábola da “Ovelha Perdida”, temos figura semelhante: “Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar (zhte/w) a que se extraviou?” (Mt 18.12).

No Antigo Testamento ao povo rebelde, distante de Deus, alheio à Aliança, Deus o conclama a voltar-se para Ele com integridade de coração. Deus se deixaria achar: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jr 29.13/Dt 4.29; Is 55.6). Na reforma levada a efeito por Asa –  o terceiro Rei de Judá após a divisão das tribos de Israel. Asa governou durante 41 anos (c. 910-869) –, houve esta busca sincera por Deus: “Israel esteve por muito tempo sem o verdadeiro Deus, sem sacerdote que o ensinasse e sem lei. Mas, quando, na sua angústia, eles voltaram ao SENHOR, Deus de Israel, e o buscaram, foi por eles achado(2Cr 15.3-4). O Cronista fala de várias pessoas das tribos de Israel que se juntaram a Judá com o propósito de buscar a Deus: “Entraram em aliança de buscarem ao SENHOR, Deus de seus pais, de todo o coração e de toda a alma” (2Cr 15.12). No Novo Testamento, Jesus Cristo ratifica o ensino do Antigo Testamento, estabelecendo a prioridade do Reino e de sua justiça: Buscai (zhte/w), pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33). Temos também a promessa de encontrar Aquele a quem buscamos: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai (zhte/w) e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca (zhte/w) encontra; e, a quem bate, abrir-se-lhe-á.” (Mt 7.7-8). No entanto, Jesus não se deixa enganar: Ele sabe da sinceridade de nosso coração e de nossos verdadeiros desejos: “Quando, pois, viu a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos, tomaram os barcos e partiram para Cafarnaum à sua procura. E, tendo-o encontrado no outro lado do mar, lhe perguntaram: Mestre, quando chegaste aqui? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, (zhte/w) não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes” (Jo 6.24-26).

Paulo, considerando a liberdade cristã em relação aos “rudimentos do mundo”, exorta: “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai (zhte/w) as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus” (Cl 3.1). De fato, como somos peregrinos neste mundo, buscamos intensamente a cidade eterna: “Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos (e)pizhte/w) a que há de vir” (Hb 13.14).

Lucas relata que o procônsul Sérgio Paulo, que ouvia a Paulo e a Barnabé, tinha grande avidez pela Palavra: “…. o procônsul Sérgio Paulo, que era homem inteligente. Este, tendo chamado Barnabé e Saulo, diligenciava  (e)pizhte/w) para ouvir a palavra de Deus” (At 13.7).

[11]Veja-se: Confissão de Fé de Westminster, IX.3,4.

[12] Terry L. Johnson, Adoração Reformada: A adoração que é de acordo com as Escrituras, São Paulo: Puritanos, 2001, p. 23. “Deus salva os homens para fazê-los adoradores” (A.W. Tozer, O Poder de Deus, 2. ed. São Paulo:  Mundo Cristão, 1986, p. 113).

[13] Vd. Michael S. Horton, O Cristão e a Cultura, São Paulo:  Editora Cultura Cristã, 1998, p. 84.

[14]Deus nos tem abençoado continuamente em Cristo. O particípio aoristo, “Bendito” (eu)logh/saj), indica dentro deste contexto, um fato consumado e a ação continuada de Deus. Podemos interpretar que Deus na eternidade já nos abençoou definitivamente; a sua bênção é completa; todavia, ela é-nos comunicada constantemente ao longo da história. Essas bênçãos são multifacetadas: “toda sorte” (pa/sh), na realidade, “todas” e “cada” bênção que temos, sem exceção, provém do Senhor. As “regiões celestiais” (e)n toi=j e)pourani/oij = lit. “dos céus”, “celestiais”) indicam a procedência das bênçãos. As bênçãos são espirituais porque se originam e provêm de Deus – o Pai que habita os céus (Mt 6.9) e, para onde Ele mesmo nos levará (2Tm 4.18) -, sendo-nos comunicadas pelo Espírito. Essas bênçãos relacionam-se diretamente ao ministério de Cristo, que é celestial (2Tm 4.18),  tendo um alcance cósmico (Ef 3.10).  Isso também denota a nossa nova condição: Deus “nos fez assentar nos lugares celestiais (e)pourani/oij) (Ef 2.6) juntamente com Cristo (Ef 1.20).

Considerando essas bênçãos, que ultrapassam em muito a nossa capacidade de pensar, sentir ou imaginar (Ef 3.20), devemos buscar continua e habitualmente o reino de Deus (Mt 6.33); as “coisas lá do alto” onde Cristo está à direita de Deus (Cl 3.1).

[15]Veja-se: Confissão de Fé de Westminster, X.1,2.

[16] “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3).“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16). “…. a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).  “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tg 1.18). “Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma” (Tg 1.21). “Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1Pe 1.23).

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (17)

4.9. Vence as tentações do mundo

 

Na vida cristã é necessária vigilância. Os Cânones de Dort, mesmo nos confortando com a graça de Deus que nos faz perseverar, alerta quanto à necessidade de vigilância em nossa vida:

 

O poder de Deus, pelo qual ele confirma e preserva os verdadeiros crentes na graça, é tão grande que isto não pode ser vencido pela carne. Mas os convertidos nem sempre são guiados e movidos por Deus, e assim eles poderiam, em certos casos, por sua própria culpa, desviar‑se da direção da graça e ser seduzidos pelos desejos da carne e segui‑los. Devem, portanto, vigiar constantemente e orar para que não caiam em tentação. Quando não vigiarem e orarem, eles podem ser levados pela carne, pelo mundo e por Satanás para sérios e horríveis pecados. Isto ocorre também muitas vezes pela justa permissão de Deus. A lamentável queda de Davi, Pedro e outros santos, descrita na Sagrada Escritura, demonstra isso.[1]

 

Precisamos estar atentos à exortação bíblica, nos valendo dos recursos que Deus coloca à nossa disposição para o nosso crescimento espiritual (2Pe 1.3)[2]:

 

12 Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes,[3] não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; 13 porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade. 14 Fazei tudo sem murmurações nem contendas, 15 para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo, 16 preservando a palavra da vida, para que, no Dia de Cristo, eu me glorie de que não corri em vão, nem me esforcei inutilmente (Fp 2.12-16).

 

A graça de Deus que opera por meio da fé, torna-nos vitoriosos já nesta vida, a partir do aqui e do agora. Por intermédio da fé, podemos viver neste mundo sem sermos dominados pelas suas agendas e praxes. Os nossos ditames são celestiais. (1Jo 5.4,5/1Pe 5.8,9).[4]

 

Um dos aspectos fundamentais da vida cristã é esse: Não somos mais do mundo. Ele não mais é o senhor de nosso pensar, idealizar e agir.[5]

 

Ter uma mente mundana significa pensar de forma tal que Deus e a sua Palavra sejam eliminados, desconsiderados na forma como planejamentos a nossa vida e nos relacionamos com todas as facetas da realidade.[6]

 

McGrath está correto ao afirmar:

 

Permitir que novas ideias e valores tornem-se controlados por qualquer coisa ou pessoa que não a autorrevelação de Deus na Escritura é adotar uma ideologia, em vez de uma teologia; é tornar-nos controlados por ideias e valores cujas origens se acham fora da tradição cristã – e potencialmente tornar-nos escravizados por eles.[7]

 

Uma das prisões mais sutis com a qual nos deparamos e, com frequência, sem perceber nela estamos, é a prisão de nossa mente: uma forma direcionada de pensar, cativa de determinados valores com os quais somos bombardeados diariamente e fortalecidos pelo próprio meio em que vivemos, sem que tenhamos necessariamente um filtro adequado para selecionar de modo crítico o que vemos e ouvimos. Assim, sem que nos demos conta, estamos assimilando valores que nos aprisionam, tornando-nos “escravos” de uma maneira de pensar e, consequentemente, de agir. Determinando, portanto, o nosso modo de ver a realidade, nos relacionar, criar nossos filhos, tratar nossos irmãos, trabalhar, estudar, nos divertir e, no nosso caso específico, de ler, aplicar e expor ou não a Palavra. Deste modo, sem que percebamos, temos, em nome da liberdade de pensamento, uma mente estruturalmente cativa.

 

Lloyd-Jones (1899-1981) coloca a questão nestes termos:

 

A maior tirania que temos que enfrentar nesta vida é a perspectiva mundana. Ela se insinua em nosso pensamento em toda parte, e nós a recebemos imediatamente após nascermos.[8] (…) O mundo tende a controlar o nosso pensamento, a nossa perspectiva e a nossa mentalidade.[9]

 

Outro aspecto que quero destacar, é que Deus permite que passemos por provações para que, mediante o Seu sustento, possamos nos fortificar em nossa fé, nos apegando mais confiantemente a Ele, frutificando em toda boa obra, crescendo em nossa vida espiritual, reconhecendo que a nossa sustentação provém de Deus, que nos capacita a resistir em todos os embates. Deve ser dito que nós não nos alegramos com o sofrimento, mas sim, com o proveito espiritual que podemos pela graça tirar dele (Ver: 1Pe 4.12-19).[10] Calvino (1509-1564) chega a dizer que “tanto ao Diabo, quanto aos ímpios todos, Deus os arma para o embate e toma assento, como se fora um mestre de liça, para que nos exercite a paciência”.[11]

 

4.10. Uma vida transformada por meio da Palavra

 

Uma das maiores evidências da fé salvadora, é um testemunho que reflita uma vida transformada pelo poder de Deus que age por intermédio da Palavra. Contra isto não há argumentos. Podemos argumentar contra uma teoria, mas não contra uma vida digna (Vejam-se: 1Sm 12.1-5; Jo 8.46; 2Co 5.21).[12]

 

A fé envolve a nossa mente, aquece o nosso coração e se plenifica em nossas mãos. A Palavra de Deus age eficazmente em nós produzindo frutos. Por isso, o fundamento de nossa integridade espiritual está no apego incondicional à poderosa Palavra de Deus (Cl 1.4-6;[13] 1Ts 2.13/Js 1.8; Sl 1.2; Tg 1.22-25).

 

Maringá, 04 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

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[1] Os Cânones de Dort, São Paulo: Cultura Cristã, (s.d.), V.4.

[2] “Visto como, pelo seu divino poder (du/namij), nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2Pe 1.3).

[3] Veja-se: F.F. Bruce, Filipenses, Florida: Editora Vida, 1992, (Fp 2.12-13), p. 90.

[4]4 porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.  5 Quem é o que vence o mundo, senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?” (1Jo 5.4-5). 8 Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar;  9 resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo” (1Pe 5.8-9).

[5]Veja-se: D.M. Lloyd-Jones, Seguros Mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 25. “Ser do mundo pode ser assim resumido – é vida, imaginada e vivida, separadamente de Deus. Noutras palavras, o que decide definitiva e especificamente se eu e vocês somos do mundo ou não, não é tanto o que podemos fazer em particular como a nossa atitude fundamental. É uma atitude para com todas as coisas, para com Deus, para com nós mesmos, e para com a vida neste mundo; em última análise, ser do mundo é ver todas estas coisas separadamente de Deus (…).

“Ser do mundo – e isso é repetido pelos apóstolos – significa que somos governados pela mente, pela perspectiva e pelos procedimentos deste mundo no qual vivemos” (D. Martyn Lloyd-Jones, Seguros mesmo no Mundo, p. 28-29).

[6]Vejam-se: William G. Tullian Tchividjian, Fora de Moda, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 37; D.M. Lloyd-Jones, Seguros Mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 28-29.

[7]Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 53.

[8]Conforme já citamos no início de nossos estudos, “a menos que Deus mude a maneira de pensarmos – o que Ele faz em alguns pelo milagre do novo nascimento – nossas mentes sempre nos dirão para nos virarmos contra Deus – o que é precisamente o que fazemos” (James M. Boice, O evangelho da Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 111).

[9]D. M. Lloyd-Jones, Seguros Mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 28 e 29.

[10]Vd. Charles Hodge, Commentary on the Epistle to the Romans, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1994 (Reprinted), (Rm 5.3-4), p. 134-135.

[11]João Calvino, As Institutas, I.17.8. Em outro lugar: “O Senhor prontamente e ao mesmo tempo encoraja nossa fé e subjuga nossa carne. Ele deseja que nossa fé permaneça serena e repouse como se estivesse em segurança num sólido abrigo. Ele exercita nossa carne com várias provas a fim de que ela não se precipite na indolência” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 6.4-6), p. 154).

[12]Na literatura grega, encontramos o testemunho de     Xenofonte (c. 430-355 aC.), historiador e general grego, a respeito de seu mestre, Sócrates (469-399 aC.), talvez o mais admirável filósofo da Antigüidade. Xenofonte escreveu: “Sei que Sócrates era para seus discípulos modelo vivo de virtuosidade e que lhes administrava as mais belas lições acerca da virtude e o mais que ao homem concerne” (Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 2), 1972, I.2.17. p. 44).

[13]4Desde que ouvimos  da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que tendes para com todos os santos; 5por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes  pela palavra da verdade do evangelho, 6 que chegou até vós; como também, em todo o mundo, está produzindo fruto e crescendo, tal acontece entre vós, desde o dia em que ouvistes e entendestes a graça de Deus na verdade” (Cl 1.4-6).

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (16)

4.8. Perseverança

 

A fé salvadora é aquela que permanece até o fim firmada em Deus e na Sua Palavra (Jo 8.30,31; Hb 10.39; Ap 14.12).[1] Essa é uma prova crucial.[2]

 

No entanto, o fundamento dessa certeza está em Deus, Aquele  que não fracassa em Seu propósito salvador como em tudo o mais. Ele gera a fé e nos conduz, a despeito de nossas fraquezas e percalços pelo caminho, à perseverança final. O propósito eterno de Deus é imutável (Hb 6.17; Rm 9.11).[3] A sua obra estabelecida na eternidade será consumada (Rm 8.29-30; Fp 1.6). Pela graça Deus nos atrai para Si e, pela graça nos preserva em comunhão consigo. (Jo 10.27-29).[4]

 

Aqui não há lugar para um quietismo solitário e misticamente irresponsável, nem para antinomismo que rejeita a lei em prol de uma graça barata inventada pelo homem, nem para um ativismo que no fundo supõe poder completar uma fé insuficiente.

 

Em determinada ocasião, o salmista Davi sentiu-se só e abandonado por Deus. Esta, sem dúvida, é uma provação dolorosa.

 

No salmo 13, Davi após descrever as suas angústias, incertezas e o seu circunstancial senso do abandono de Deus, revela, por fim, uma fé viva e vigorosa.

 

Davi ao escrever este salmo estava numa situação aflitíssima, passando por grande angústia e provação. Como Davi viveu muitos desses momentos, é difícil determinar quando ele o redigiu.      É possível que tenha composto este salmo no deserto, quando fugia de Saul que queria matá-lo para que ele não se tornasse o rei de Israel, conforme Samuel o ungira cumprindo a ordem do Senhor (1Sm 16.1,3,12,13).[5]

 

A sua situação no deserto nunca fora confortável. Durante os cerca de nove anos em que viveu foragido, além dos incômodos naturais, corria constante risco de morte, deslocando-se de um lado para o outro sob a perseguição implacável de Saul (1Sm 23.14; 25-28; 24.1-2),[6] contando às vezes com a amizade sincera de uns (1Sm 23.15-18)[7] – destacando-se neste caso a lealdade de Jônatas –, e sem necessariamente contar, tinha traições voluntárias de outros (1Sm 23.10-12; 23.19ss; 26.2).

 

No entanto, ele declara a sua fé perseverante de Deus: “No tocante a mim, confio na tua graça; regozije-se o meu coração na tua salvação” (Sl 13.5).

 

Um elemento fundamental à fé é a oração. A oração é um imprescindível exercício de nossa fé e esperança.[8]

 

O verso 3 retrata a grande transição na vida do salmista.[9] Ele clamou a Deus, o seu Deus. Na oração, encontramos o descortinar das promessas de Deus tão bem registradas em sua Palavra, mas, que às vezes, para nós, homens e mulheres do século XXI, ficam esquecidas ou, não nos soam como verdades objetivas em nossos desafios contemporâneos. Por vezes há a nítida sensação de que o culto a Deus é um mundo à parte, um faz de conta agradável e enternecedor, mas, que nós, precisamos em seguida despertar do sonho para voltarmos à nossa vida cotidiana com suas lutas, prioridades e valores que, por sinal, são bastante distantes daqueles que cultivamos durante o momento de “adoração”.

 

A sensibilidade espiritual de Davi, no entanto, não servia de pretexto para o esmorecimento de sua fé, antes ele declara: “No tocante a mim, confio na Tua graça (ds,x,)(Heisedh)”[10] (Sl 13.5).

 

Por vezes, as aflições presentes em sua aparente onipresença e perenidade, podem se tornar mais fortes do que a nossa capacidade de esperar com perseverança para além delas.

 

Calvino comenta:

 

Seguindo esse exemplo, devemos então contender contra as tentações, protegidos pela certeza de fé, mesmo submersos no mais emaranhado dos conflitos [cotidianos], confessando que as calamidades que nos induzem ao desespero têm de ser vencidas; justamente como vemos que a fraqueza da carne não podia impedir Davi de recorrer a Deus e de encontrar nele seus recursos.[11]

 

Davi reconhece que a sua confiança não está depositada em homens ou nos seus méritos, antes, na graça de Deus. É somente pela fé que podemos visualizar e nos apropriar da graça de Deus que nos consola e sustenta.

 

A questão é: como perseverar em meio às aflições? O caminho está em depositar a nossa fé unicamente na promessa de Deus. Nós não precisamos de nada além da Palavra de Deus. “A fé que precisa de mais do que a simples Palavra de Deus em mandamento e promessa, chega a ser tentação do próprio Deus”.[12]

 

Um grande desafio para nós é crer na Palavra e continuar crendo quando as promessas de Deus parecem, diante de nossos olhos incrédulos, ter falhado; quando o nosso contexto parecer indicar que a “justiça” de Deus nos conduz ao fracasso e os nossos meios são mais eficazes. Esperar na Palavra significa permanecer confiantes apesar das adversidades e da condução que o mundo dá às nossas inquietações, apresentando soluções aparentemente finais para os nossos problemas.

 

Encontramos o testemunho do salmista referente a estas experiências: “Alegraram-se os que te temem quando me viram, porque na Tua Palavra tenho esperado” (Sl 119.74). “Desfalece-me a alma, aguardando a tua salvação; porém espero na tua palavra” (Sl 119.81). “Tu és o meu refúgio e o meu escudo; na tua palavra espero” (Sl 119.114).

 

A fé cristã estará sempre associada à Palavra, à busca de santidade em nosso viver. A perseverança não é mera teimosia ou acomodação pecaminosa, antes é um perseverar em santidade.[13] A graça da fé se evidencia também na graça da perseverança até à comsumação da obra de Deus em nós (Fp 1.6).[14]

 

Sem dúvida, “pessoas justificadas podem cair de degraus da graça, podem abandonar o primeiro amor, perdem o favor de Deus por um tempo, mas não perdem sua justificação”.[15] Aqui não há lugar para arrogância ou suposta superioridade espiritual. É Deus quem nos sustenta. Por isso, o povo de Deus pelo poder do seu Senhor perseverará até o fim. Somente esses, de fato, nasceram de novo pelo Espírito.[16] Essa é a nossa convicção amparada na fidelidade de Deus que nos sustenta. Portanto, aqueles a quem Deus chamou, justificou. Esses já são considerados glorificados, porque a obra de Deus não poderá ser frustrada (Rm 8.29-30).[17]

 

Todavia, a despeito da extrema relevância da fé,  ela se tornará desnecessária: No céu já não mais precisaremos de ter fé pois, a plenitude daquilo que esperávamos pela fé foi alcançada. (1Co 13.9-13).

 

Maringá, 04 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]30 Ditas estas coisas, muitos creram nele.  31 Disse, pois, Jesus aos judeus que haviam crido nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos” (Jo 8.30-31).“Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma” (Hb 10.39). “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Ap 14.12).

[2]Veja-se: John Murray, Redenção: consumada e aplicada, São Paulo: Cultura Cristã, 1993, p. 168.

[3]“Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu propósito, se interpôs com juramento” (Hb 6.17). “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama)” (Rm 9.11).

[4]27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.  28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.  29 Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar” (Jo 10.27-29).

[5]“Disse o SENHOR a Samuel: Até quando terás pena de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que não reine sobre Israel? Enche um chifre de azeite e vem; enviar-te-ei a Jessé, o belemita; porque, dentre os seus filhos, me provi de um rei (…) 3 Convidarás Jessé para o sacrifício; eu te mostrarei o que hás de fazer, e ungir-me-ás a quem eu te designar. (…) 12 Então, mandou chamá-lo e fê-lo entrar. Era ele ruivo, de belos olhos e boa aparência. Disse o SENHOR: Levanta-te e unge-o, pois este é ele. 13 Tomou Samuel o chifre do azeite e o ungiu no meio de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do SENHOR se apossou de Davi. Então, Samuel se levantou e foi para Ramá” (1Sm 16.1,3,12,13).

[6]14 Permaneceu Davi no deserto, nos lugares seguros, e ficou na região montanhosa no deserto de Zife. Saul buscava-o todos os dias, porém Deus não o entregou nas suas mãos. (…) 25Saul e os seus homens se foram ao encalço dele, e isto foi dito a Davi; pelo que desceu para a penha que está no deserto de Maom. Ouvindo-o Saul, perseguiu a Davi no deserto de Maom. 26 Saul ia de um lado do monte, e Davi e os seus homens, da outra; apressou-se Davi em fugir para escapar de Saul; porém este e os seus homens cercaram Davi e os seus homens para os prender. 27 Então, veio um mensageiro a Saul, dizendo: Apressa-te e vem, porque os filisteus invadiram a terra. 28 Pelo que Saul desistiu de perseguir a Davi e se foi contra os filisteus. Por esta razão, aquele lugar se chamou Pedra de Escape.  1Tendo Saul voltado de perseguir os filisteus, foi-lhe dito: Eis que Davi está no deserto de En-Gedi. 2Tomou, então, Saul três mil homens, escolhidos dentre todo o Israel, e foi ao encalço de Davi e dos seus homens, nas faldas das penhas das cabras monteses” (1Sm 23.14; 25-28; 24.1-2).

[7] 15 Vendo, pois, Davi que Saul saíra a tirar-lhe a vida, deteve-se no deserto de Zife, em Horesa. 16 Então, se levantou Jônatas, filho de Saul, e foi para Davi, a Horesa, e lhe fortaleceu a confiança em Deus, 17 e lhe disse: Não temas, porque a mão de Saul, meu pai, não te achará; porém tu reinarás sobre Israel, e eu serei contigo o segundo, o que também Saul, meu pai, bem sabe. 18 E ambos fizeram aliança perante o SENHOR. Davi ficou em Horesa, e Jônatas voltou para sua casa” (1Sm 23.15-18).

[8]Veja-se: João Calvino, Efésios, São Paulo: Edições Paracletos, 1998, (Ef 6.18), p. 195.

[9]Atenta para mim, responde-me, SENHOR, Deus meu! Ilumina-me os olhos, para que eu não durma o sono da morte(Sl 13.3).

[10]ds,x cuja etimologia é obscura, pode ser traduzido por “bondade”, “graça”, “benevolência”, “benignidade”, “clemência”, “beneficência”, “humanidade” (ARA. 2Sm 2.5), “fidelidade” (ARA. 2Sm 16.17) e “misericórdia”. Ocorre cerca de 247 vezes no Antigo Testamento, principalmente nos Salmos (127 vezes). Figuradamente, Deus é chamado de “Misericórdia” por Davi, no Salmo 144.2; a sua misericórdia dura para sempre (Sl 100.5; 106.1;107.1; Jr 33.11). Por isso Deus deve ser louvado (Sl 107.8,21, 31).

A ideia principal é a de que Deus manifesta o seu amor ativamente na forma de uma relação de um pacto; ds,x é um amor pactual, solícito e constante (Dt 7.9,12; Jr 31.3). O ds,x é a causa e o efeito do Pacto; Deus fez o Pacto por misericórdia; Ele revela a sua misericórdia de acordo com o Pacto (1Rs 8.23 [2Cr 6.14]; Ne 1.5; 9.32; Is 55.3; Dn 9.4).

     Devido ao seu ds,x, Deus voluntariamente elege o seu povo, mantendo-Se fiel nesta relação independentemente da fidelidade circunstancial dos seus eleitos (Dt 7.6-11; 2Sm 2.6; Sl 36.5; 57.3; 89.49; Is 54.10; 55.3).

[11]João Calvino, O Livro de Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 13.1), p. 262-263.

[12]D. Bonhoeffer, Tentação, Porto Alegre, RS.: Editora Metrópole, 1968, p. 52.

[13]Veja-se: John Murray, Redenção: consumada e aplicada, 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 138-139.

[14]Veja-se: Charles H. Spurgeon, A Perseverança na Santidade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, p. 21.

[15]Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 267.

[16]Veja-se: Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 659.

[17]Veja-se: J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 128.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (15)

 

4.5. Procedimento diário

 

A fé em Deus influencia de forma determinante a nossa cosmovisão e, consequentemente, o nosso comportamento.[1] A fé não é algo abstraído da realidade; os assuntos da fé têm relação com o nosso hoje existencial. Não podemos separar a fé do nosso testemunho, da nossa ética, da nossa forma de viver (Rm 1.17; 2Co 5.17; Gl 2.20).

 

 4.6. Santificação

A fé salvadora conduz-nos ao crescimento espiritual, à apropriação dos meios concedidos por Deus para o nosso crescimento (Mt 13.23). A fé cresce por graça por meio da Palavra (2Ts 1.3; 1Tm 4.6).

 

Paulo, diante do rei Agripa, testemunhando a sua conversão e o seu chamado ministerial para trabalhar entre os gentios, relata as palavras de Cristo a ele dirigidas: “Para lhes abrir os olhos e convertê-los das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26.18).

 

A fé está indissoluvelmente ligada à santificação. Calvino instrui-nos:

 

Ora, visto que a fé abraça a Cristo como Ele nos é oferecido pelo Pai, e Aquele, de fato, seja oferecido não apenas como justiça, remissão dos pecados e paz, mas também como santificação, e fonte de água viva, sem dúvida, jamais o poderá alguém conhecer devidamente que não apreenda ao mesmo tempo a santificação do Espírito. (…) A fé consiste no conhecimento de Cristo. E Cristo não pode ser conhecido senão em conjunção com a santificação do Seu Espírito. Segue-se, consequentemente, que de modo nenhum a fé se deve separar do afeto piedoso.[2]

 

4.7. Operosidade

 

Louvo o fruto da boa obra, mas reconheço como raiz a fé. – Agostinho (354-430).[3]

 

Esse ponto de certa forma completa aquele que falamos sobre obediência.

 

Como temos demonstrado, a fé é um compromisso com Deus em resposta ao seu compromisso pactual conosco manifestado de forma cabal na cruz.[4] Consequentemente a fé tem também compromissos existenciais irrevogáveis. A nossa cosmovisão consciente deve estar comprometida com a busca de coerência perceptiva e existencial.[5] Isto nós chamamos de integridade, o não esfacelamento condescendente e excludente daquilo que cremos, falamos e fazemos.

 

Ainda que não haja a ideia de orgulho meritório na fé,[6] ela é responsável pelo nosso agir e pensar. “A fé não concerne a um setor particular da vida denominado religioso, ela se aplica à existência em sua totalidade”.[7] Contudo, a fé biblicamente orientanda não pode ser autorreferente. Ela não pode se contentar em uma suposta relação mística com Deus e uma ética construída a partir de suas preferências e gosto pessoal. A verdadeira fé parte da Palavra e para lá se direciona. A fé que se basta é uma contradição de termos visto que seria apenas uma boa obra humana produzida pela suposta capacidade autossuficiente de seu possuidor.[8]

 

Por buscarmos a coerência do crer e viver ‒ daí a extrema importância de uma fé inquiridora ‒[9] há compromissos sérios entre o que cremos e como agimos. Um distanciamento consciente e docemente acalentado e justificado entre o crer e o fazer, produz uma esquizofrenia intelectual, emocional e espiritual cuja solução definitiva envolverá um destes caminhos: ou mudar a nossa crença ou abandonar a nossa práxis.

 

Para o cristão, cosmovisão é compromisso de fé e prática. E, como diz Lloyd-Jones (1899-1981): “A fé cristã não é algo que se manifeste à superfície da vida de um homem, não é meramente uma espécie de camada de verniz. Não, mas é algo que está sucedendo no âmago mesmo de sua personalidade”.[10]

 

Avaliando aspectos da influência social de Calvino, o Dr. Hart escreve com precisão:

 

Se as reformas de Calvino desempenharam um papel central na história do Ocidente, elas o fizeram não por serem princípios de organização que moldaram desenvolvimentos políticos e econômicos, e sim por causa de suas exigências de que os crentes e as congregações conformassem, individualmente, sua vida à Palavra de Deus.[11]

 

A Palavra de Deus oferece-nos o escopo de nosso pensar e agir. Por meio dela poderemos ter uma real visão de Deus, de nós mesmos e do mundo. Portanto, uma cosmovisão Reformada, por partir de uma perspectiva bíblica, é uma visão que se esforça por interpretar a chamada realidade pela ótica das Escrituras.

 

Sem as Escrituras permanecemos míopes para distinguir as particularidades do real, tendo uma epistemologia desfocalizada.

 

Calvino usa de uma figura que continua atual:

 

Exatamente como se dá com pessoas idosas, ou enfermas de olhos, e quantos quer que sofram de visão embaçada, se puseres diante deles até mui vistoso volume, ainda que reconheçam ser algo escrito, mal poderão, contudo, ajuntar duas palavras; ajudadas, porém, pela interposição de lentes, começarão a ler de forma mais distinta. Assim a Escritura, coletando-nos na mente conhecimento de Deus de outra sorte confuso, dissipada a escuridão, mostra-nos em diáfana clareza o Deus verdadeiro.[12]

 

O crescimento e fortalecimento da nossa fé é demonstrado por meio da nossa operosidade (1Ts 1.3,8),[13] agindo sempre em amor. A fé se agencia pelo amor (Gl 5.6; Ef 1.15; 6.23; Cl 1.4/1Co 13.2). A fé não é algo simplesmente contemplativo. Ela se manifesta em atos. A palavra empregada por Paulo, traduzida por “operosidade” (e)/rgon) (1Ts 1.3), tem o sentido tanto de trabalho ativo, como de resultado do trabalho feito.

 

Paulo diz ter sido confortado com as notícias trazidas por Silas concernentes ao fato de que os tessalonicenses mesmo sob forte tribulação permaneciam firmes na fé (1Ts 2.14/1Ts 3.7). De passagem, vemos que o nosso trabalho deve ser guiado pela fé e, a fé, se concretiza no trabalho. A Igreja de Corinto era fruto do trabalho de Paulo (1Co 9.1).[14]

 

A fé dos tessalonicenses era tão ativa, que já se repercutira nas regiões da Macedônia e Acaia (1Ts 1.7-9).[15] Um fato que se tornou notório foi a sua conversão a Deus e o abandono da idolatria (1Ts 1.9).

 

O mesmo aconteceria posteriormente com a Igreja de Roma. Paulo então escreveu: “Dou graças a meu Deus mediante Jesus Cristo, no tocante a todos vós, porque em todo mundo é proclamada a vossa fé” (Rm 1.8).

 

Tiago diz que “a fé sem obras é morta” (Tg 2.26). Ou seja, a fé bíblica se manifesta em atos de obediência. A fé operosa é aquela que obedece aos mandamentos de Deus. A fé é mãe da obediência.

 

Desse modo, de forma coerente, temos a recomendação de Paulo aos coríntios: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra (e)/rgon) do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho (ko/poj) não é vão” (1Co 15.58).

 

Do modo semelhante, instrui a Tito quanto ao que deveria ensinar:

 

Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras (kalw=n[16] e)/rgwn). Estas coisas são excelentes e proveitosas aos homens. (Tt 3.8).

 

Paulo enfatiza que para isso mesmo todos fomos eleitos, sendo regenerados para as boas obras: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras (e)/rgoij a)gaqoi=j[17]), as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10).

 

Nessa prática, como temos visto, agradamos a Deus, “frutificando em toda boa obra (e)/rgw a)gaqw=) e crescendo no pleno conhecimento de Deus” (Cl 1.10).

 

É interessante observar que no Apocalipse, repetidamente, quando Deus fala às sete igrejas da Ásia, diz: “conheço as tuas obras” (Ap 2.2,19; 3.1,8,15) – mostrando que o juízo é conforme as obras de cada um, procedentes da fé (Ap 18.6; 20.12,13; 22.12).

 

 

 

Maringá, 04 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]“A estrutura da fé, uma vez apreendida, nos concede uma nova maneira de ver o mundo e encontrar sentido em nosso lugar no esquema maior das coisas” (Alister E. McGrath, Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas, São Paulo: Hagnos, 2015, p. 15).

[2]João Calvino, As Institutas, III.2.8.

[3] Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/1), 1997, v. 1, Sl 31, “II. Sermão ao Povo”, p. 352.

[4]Vejam-se: Alister E. McGrath, Creio: Um estudo sobre as verdades essenciais da fé cristã no Credo Apostólico, São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 23-24; John MacArthur Jr., O Evangelho segundo os apóstolos – O papel da fé e das obras na vida cristã, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2011, p. 54-56.

[5] “Todo indivíduo tem uma visão de mundo. A visão de mundo dá respostas às quatro perguntas essenciais perguntas que dizem respeito à origem, ao sentido, à moralidade e à esperança que garante um destino. Essas respostas devem ser verdadeiras e coerentes como um todo” (Ravi Zacharias, A Morte da Razão: uma resposta aos neoateus, São Paulo: Vida, 2011, p. 25).

[6]“Não existe orgulho na fé. Fé é simplesmente a crença de que nada podemos fazer para nos salvar, mas que confiamos plenamente na graça de Deus” (Peter Jones, Verdades do Evangelho x Mentiras pagãs, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 34).

[7]Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 24.

[8]“Se Deus tem derramado sobre nós um dom excelente, e se, porém, imaginamos que ele mesmo se deve a nosso próprio mérito, acabaremos insuflados de orgulho” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 34).

[9]“A fé cristã não é uma fé apática, uma fé de cérebros mortos, mas uma fé viva, inquiridora. Como Anselmo afirmou, a nossa fé é uma fé que busca entendimento” (William L. Craig, Apologética Cristã para Questões difíceis da vida, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 29. De igual modo: Garrett J. DeWeese; J.P. Moreland, Filosofia Concisa, São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 158).

[10] David M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: Editora Fiel, 1984, p. 89.

[11]D.G. Hart, O Reformador da Fé e da vida. In: Burk Parsons, ed. João Calvino: Amor à devoção, doutrina e glória de Deus, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2010, p. 77. Veja-se: Philip Benedict, Christ’s Churches Purely Reformed: A Social History of Calvinism, New Haven: Yale University Press, 2002, p. 543.

[12]João Calvino, As Institutas, I.6.1.

[13]“Recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo (…) 8 Porque de vós repercutiu a palavra do Senhor não só na Macedônia e Acaia, mas também por toda parte se divulgou a vossa fé para com Deus, a tal ponto de não termos necessidade de acrescentar coisa alguma” (1Ts 1.3,8).

[14]“Não sou eu, porventura, livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor? Acaso, não sois fruto do meu trabalho no Senhor?” (1Co 9.1).

[15]7 de sorte que vos tornastes o modelo para todos os crentes na Macedônia e na Acaia. 8 Porque de vós repercutiu a palavra do Senhor não só na Macedônia e Acaia, mas também por toda parte se divulgou a vossa fé para com Deus, a tal ponto de não termos necessidade de acrescentar coisa alguma; 9 pois eles mesmos, no tocante a nós, proclamam que repercussão teve o nosso ingresso no vosso meio, e como, deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro” (1Ts 1.7-9).

[16]Kalo/j, “bom”, “útil” A palavra grega indica algo que é essencialmente bom, formoso – a ideia de beleza estética está classicamente presente nesta palavra – útil e honroso.

[17] a)gaqo/j, denota o que é moral e praticamente bom. A vontade de Deus é boa (a)gaqo/j) (Rm 12.2) porque Ele é bom. (Lc 18.19).

[18]Na literatura grega, encontramos o testemunho de Xenofonte (c. 430-355 a.C.), historiador e general grego, a respeito de seu mestre, Sócrates (469-399 a.C.), talvez o mais admirável filósofo da Antiguidade. Xenofonte escreveu: “Sei que Sócrates era para seus discípulos modelo vivo de virtuosidade e que lhes administrava as mais belas lições acerca da virtude e o mais que ao homem concerne” (Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 2), 1972, I.2.17. p. 44).

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (14)

 

4.4. Obediência

 

Se somos obedientes agora em atos pequenos, preparando-nos para os desafios maiores que Deus, em sua misericórdia, pode colocar em nossa jornada. Aprendamos de Jesus que toda obediência é importante. Obedeçamos nas coisas menores, para que estejamos preparados para as maiores. Entendamos o papel que os testes de fé cumprem na preparação para o que Deus pode ter planejado para nós no futuro. Sejamos mais e mais semelhantes a Jesus em sua resolução de obedecer, obedecer e obedecer, não importando o custo. – Bruce Ware.[1]

 

Em vão se tentam novas modalidades de obras para ganhar-se o favor de Deus, Cujo culto genuíno consta da só obediência. – João Calvino.[2]

 

 

“A pedra de toque da fé é quando espontaneamente recebem a palavra de Deus e continuam firmes e constantes em sua obediência a ela”, ensina Calvino.[3] 

Fé significa conhecer a Deus, e também, em saber o que Deus deseja que façamos. Fé envolve um compromisso entre nós e Deus. Nós fomos criados em Cristo para as boas obras (Ef 2.8-10). Deste modo, é inconcebível um “crente” de “muita fé” desobediente à Palavra e às determinações da Igreja – enquanto esta permanecer fiel à Palavra de Deus.

 

A obediência é fruto da genuína fé. A obediência é a fé manifestada. A fé é a obediência oculta.  A verdadeira fé se evidencia no fato de tomarmos a Bíblia como a nossa norma de vida. Não podemos crer realmente em Deus se desconsideramos a Sua Palavra e promessas.

 

A profissão de nossa fé se dá no ato de nossa obediência, conforme resumiu bem Bonhoeffer (1906-1945): “A resposta do discípulo não é uma confissão oral da fé em Jesus, mas sim um ato de obediência (…). Não há qualquer outro caminho para a fé senão o da obediência ao chamado de Jesus”.[4]

 

Portanto, ou a fé é obediente, ou senão, ela não é a legítima fé salvadora. Ninguém será salvo por uma declaração de fé, mas, pela graça, mediante uma fé declarada. A declaração vívida da fé se materializa em obediência.

 

Desse modo, assim como a fé é um dom gracioso de Deus, a nossa obediência é o resultado e fruto dessa mesma graça. A recompensa da obediência não é apenas final, mas, se processa no aprendizado da obediência submissa e sincera.[5] Obedecer é graça que se manifesta em gratidão.

 

A graça de Deus que gerou a fé em nossos corações produz invariavelmente de forma dinâmica uma poderosa influência transformadora e modeladora no nosso caráter.[6] A graça da fé nunca é estéril na construção de uma vida com novos valores e atitudes moldados pela Escritura.

 

Uma fé viva se revela em nossa caminhada, em nossas construções, desconstruções e em uma busca compromissada com a aplicação da Palavra aos desafios com os quais nos deparamos.

 

Os crentes efésios, por exemplo, eram um testemunho eloquente deste poder: A sua vida fora transformada. Paulo alude a isso considerando sempre a misericórdia operante de Deus a partir da qual ele descreve a antiga e a nova condição destes irmãos bem como os imbui de sua responsabilidade:

 

Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, 2 nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; 3 entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. 4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, 5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, 6 e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; 7 para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus (Ef 2.1-7).

Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, 2 com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, 3 esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; 4 há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; 5 há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; 6 um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos (Ef 4.1-6). (Vejam-se também: Ef 4.17-32; 5.1-21; 6.1-20)

 

Boas obras não são a causa de nossa salvação, contudo, são a evidência dela. Elas são frutos decisivos que testificam a realidade de Cristo em nossa vida.[7] Se a nossa fé em Deus não se manifestar de forma prática em um testemunho coerente e consistente, esta fé não é melhor do que a fé dos demônios.[8] Esta alegada fé solitária estaria morta. As obras que seguem à fé são resultantes de uma nova compreensão espiritual da realidade e um total engajamento com esta compreensão. Calvino acentua com propriedade: “A fé, sem a evidência de boas obras, é inutilmente pretendida, porque o fruto sempre provém da raiz viva de uma boa árvore”.[9]

 

Tiago argumenta que até mesmo os demônios têm uma fé discernidora: “Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem” (Tg 2.19).

 

Por vezes, nas Escrituras, os demônios demonstram ter uma fé intelectualmente correta,

a) Reconhecendo a autoridade de Cristo (Mt 8.29-31; Mc 5.7),[10]

b) Sua divindade (Lc 4.41)[11] e a

c) Sua ressurreição (At 19.15).[12]

 

Contudo, isso em nada modifica a sua essência e ações malignas. Uma fé assim, inoperante, morta, não é a genuína fé salvífica.[13] De passagem, podemos dizer que esta fé não deixa de ser mais intensa do que a de muitos críticos antigos e modernos que negam a divindade e a ressurreição de Cristo.

 

Uma poderosa evidência da fé é a nossa firme perseverança na Palavra, preservando-a firmemente como fonte de orientação, correção e consolo.[14]

 

Fé significa conhecer a Deus, e também, saber o que Deus deseja que façamos. Fé envolve um compromisso entre nós e Deus. Nós fomos criados em Cristo para as boas obras (Ef 2.8-10). Deste modo, é inconcebível um “crente” de “muita fé” desobediente à Palavra e às determinações da Igreja – enquanto esta permanecer fiel à Palavra de Deus.

 

Deus é glorificado por meio de nossa obediência. Logicamente a nossa obediência não é meritória, contudo, a verdadeira fé inevitavelmente se revela em obediência. Deus tem prazer em nossa verdadeira expressão de fé por meio da obediência aos Seus mandamentos. Se a fé é graça, a obediência é gratidão.

 

Ao desobediente Saul, instrui e adverte Samuel:  “….Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” (1Sm 15.22).

 

A satisfação de Deus reside na demonstração obediente de fé por parte de Seus filhos. Por isso a instrução de Paulo aos colossenses: “Filhos, em tudo obedecei a vossos pais; pois fazê-lo é grato diante do Senhor” (Cl 3.20).

 

Paulo, depois de apresentar diversas recomendações aos romanos concernentes ao modo de viver, inclusive em relação ao nosso próximo, declara: “Aquele que deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens” (Rm 14.18).

 

O escritor de Hebreus, concluindo a carta, apresenta diversas instruções. Entre elas, uma expressão de fé: “Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz” (Hb 13.16).

 

Jesus Cristo em Sua vida e ministério é o exemplo supremo de uma obediência perfeita e, portanto, agradável a Deus. Ele mesmo afirma de modo confiante e compromissado: “E aquele que me enviou está comigo, não me deixou só, porque eu faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8.29). Por isso, nos momentos finais de Seu ministério terreno, ora ao Pai: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer” (Jo 17.4).

 

A profissão de fé que termina em si mesma, não é a fé salvadora. A fé bíblica dá um passo além, se evidenciando aos olhos humanos, em obediência.[15] A obediência cristã, portanto, é fruto da verdadeira fé. “Só o crente é obediente, e só o obediente é que crê”.[16] A fé se materializa em nossa obediência.[17] Esta inevitável expressão de fé agrada a Deus.[18] A fé correta se evidencia no fato de tomarmos a Bíblia como a nossa norma de vida, levando a sério o Senhor que nos instrui por meio de Sua Palavra (At 15.22-29; 16.4-5). (Vejam-se: Rm 1.4,5; 16.25,26; Hb 11.7,8, 17-19; Tg 2.14,20-23).

 

Agostinho (354-430), de modo poético, diz: “Ele chama e nós respondemos, não pela voz, mas pela fé; não pela língua, mas pela vida”.[19]

 

No Catecismo de Heidelberg (1563),[20] analisando a doutrina da Justificação, lemos: “Esta doutrina não torna as pessoas descuidadas e ímpias?”. Responde: “De forma alguma, pois é impossível que alguém que está enxertado em Cristo por uma verdadeira fé, não produza frutos de gratidão” (Pergunta 64).

 

Um crente seguro de sua salvação por graça, é um trabalhador ardoroso e fiel à Causa de Cristo; não um espectador irresponsável e indolente com uma suposta fé bem fundamentada.

 

Como vimos, a graça operante de Deus em nossa salvação continua a sua obra em nós de forma dinâmica nos conduzindo à obediência, conforme a Sua boa vontade. “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13).[21]

 

São Paulo, 26 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Bruce Ware, Cristo Jesus homem: Reflexões teológicas sobre a humanidade de Jesus Cristo, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 108.

[2]João Calvino, As Institutas, II.8.5.

[3]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 106.12), p. 676.

[4] Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, 2. ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1984, p. 20.

[5]“Existe uma recompensa, não somente após obedecer aos mandamentos de Deus, mas durante a obediência deles” (Matthew Henry, Comentário Bíblico de Matthew Henry, 5. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, (Sl 19), p. 411).

[6]D.M. Lloyd-Jones, Seguros Mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 89; John MacArthur, Obediência: Amor ou legalismo?: In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 44.

[7]Veja-se: Robert B. Strimple, O Arrependimento em Romanos: In: M. Horton, org. Cristo o Senhor, São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 64.

[8]Veja-se: J.C. Ryle, Santidade, São José dos Campos, SP.: FIEL, 1987, p. 40.

[9]John Calvin, Commentaries on the Epistle of James, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, (Calvin’s Commentaries, v. 22/2), (Tg 2.18), p. 312. Um respeitado estudioso do pensamento e obra de Calvino, escreveu a esse respeito: “Fé e ação são absolutamente inseparáveis na ética calviniana. E esta ética não se contenta com ações ‘caritativas’ individuais, pois abarca toda a vida política coletiva no sentido mais amplo do termo, englobando as atividades econômicas e todas as relações sociais” (André Biéler, Calvino, o profeta de La era industrial: fundamentos y método de La ética calviniana de la sociedad, México, D.F.: Casa Unida de Publicaciones, 2015, p. 30).

[10]29 E eis que gritaram: Que temos nós contigo, ó Filho de Deus! Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo? 30 Ora, andava pastando, não longe deles, uma grande manada de porcos. 31 Então, os demônios lhe rogavam: Se nos expeles, manda-nos para a manada de porcos” (Mt 8.29-31). “Exclamando com alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” (Mc 5.7).

[11]“Também de muitos saíam demônios, gritando e dizendo: Tu és o Filho de Deus! Ele, porém, os repreendia para que não falassem, pois sabiam ser ele o Cristo” (Lc 4.41).

[12]“Mas o espírito maligno lhes respondeu: Conheço a Jesus e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois” (At 19.15).

[13]Veja-se: John MacArthur, O Evangelho Segundo os Apóstolos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2011, p. 198-199.

[14]“A pedra de toque da fé é quando espontaneamente recebem a palavra de Deus e continuam firmes e constantes em sua obediência a ela” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 106.12), p. 676).

[15] É muito esclarecedora a obra: R.C. Sproul, Estudos bíblicos expositivos em Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 95-103.

[16]Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, 2. ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1984, p. 25.

[17]“A fé somente é fé no ato da obediência” (Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, p. 25). “Aqueles que possuem a fé salvadora necessariamente, imediatamente começam a manifestar os frutos da fé, que são as obras da obediência” (R.C. Sproul, Justificação pela Fé Somente: a natureza forense da justificação: In: John F. MacArthur, Jr., et. al., A Marca da Vitalidade Espiritual da Igreja: Justificação pela Fé Somente, São Paulo: Editora Cultura Cristã, (2000), p. 34).

[18]“Suspeito que, da mesma maneira que Satanás acusa os cristãos para que sintam falsa culpa e falsa acusação, ele também tenta privá-los da grande alegria de conhecer o favor de Deus em suas atividades diárias e de saber que Deus se agrada com a obediência deles” (Wayne Grudem, Agradar a Deus com nossa obediência: um ensinamento negligenciado do Novo Testamento: In: S. Storms; J. Taylor, orgs. John Piper: ensaios em sua homenagem, São Paulo: Hagnos, 2013, p. 336).

[19]Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, (Sl (102)101), v. 3, p. 31.

[20]Esta Confissão foi escrita por dois jovens teólogos: Caspar Olevianus (1536-c. 1587) – quem recebeu influência de Melanchton (1497-1560) e de Peter Martyr Vermigli (1500-1562) – professor de teologia na Universidade de Heidelberg e Zacharias Ursinus (1534-1583), que fora aluno de Melanchton, em Wittenberg (1550-1557), bem como amigo de Calvino (1509-1564). Acusado de Criptocalvinismo (Calvinista disfarçado), foi para Zurique (1560), onde dirigiu o Collegium Sapientiae (1561). Para uma abordagem mais exaustiva, além da proveitosa e edificante leitura do Catecismo, consulte: Lyle D. Bierma, et. al. Introdução ao Catecismo de Heidelberg, São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

[21]Veja-se: John MacArthur, Obediência: Amor ou legalismo?: In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 44-45.

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (13)

4. Evidências da fé salvadora

As características se constituem, de certa forma, em evidências e, de igual modo, algumas evidências caracterizam a fé salvadora. Entretanto, fizemos tais divisões com o objetivo de apresentar uma visão mais didática e, assim, termos uma compreensão mais abrangente e prática desta doutrina. Prossigamos.

 

4.1. O desejo de ser batizado

 

Um homem desprovido de fé salvadora pode até desejar ser batizado; isto é admissível, especialmente no caso da fé temporal, agindo sob forte emoção ou uma convicção passageira.

O que não é concebível é um crente, salvo pela graça de Deus, não desejar receber este sinal externo que evidencia a sua filiação divina. Desejar o sinal pelo sinal, sem dúvida é tolice. O sinal nada acrescenta à coisa ou a produz.[1] No entanto, o batismo é uma sequência natural da fé salvadora, uma indicação de que fomos regenerados, perdoados, nos tornamos filhos de Deus por meio de Cristo, nosso irmão mais velho. Portanto, não desejar receber o batismo que aponta para nossa genuína fé produzida por Deus e para os altíssimos e gloriosos privilégios envolvidos, seria algo totalmente estranho. (Mc 16.16; At 8.37,38; 16.30-33; 18.8).[2]

 

4.2. Fraternidade

 

A fé salvadora é demonstrada na vida diária da Igreja. Isso não é algo imposto, antes, torna-se natural pela compreensão da graça de Deus na vida de todos. A fraternidade cristã é resultado da obra de Cristo.[3] Quando Deus nos regenerou, fomos incorporados à igreja, à comunidade de pecadores regenerados que envolvem um reino espiritual, que é o corpo glorioso de Cristo.[4] (At 2.44; 4.32).

 

4.3. Viva esperança em Deus

 

A fé é demonstrada na nossa atitude de esperança depositada em Deus e nas Suas promessas. A esperança sem o conhecimento de Cristo e de Suas promessas, é apenas uma utopia humana. Jesus Cristo é o Senhor e o alvo da nossa esperança que procede da fé. (Rm 4.18; 6.8; 1Co 15.19; 2Tm 1.12; 4.7; Hb 11.1). “A esperança não é mais do que o alimento e a força da fé”.[5]

 

São Paulo, 26 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]“O sinal visível e material é tão-somente uma representação de coisas mais altas e mais excelentes, para cujo conhecimento é preciso recorrer à Palavra de Deus, na qual está toda a virtude e eficácia do sinal” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.11), p. 173).

[2] “É o Espírito de Deus quem nos regenera e nos transforma em novas criaturas, visto, porém, que sua graça é invisível e oculta, no batismo nos é dado um símbolo visível dela” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 3.5), p. 350-351).

[3]Veja-se: Dietrich Bonhoeffer, Vida em Comunhão, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1982, p. 12.

[4]Veja-se: Herrman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 564.

[5] J. Calvino, As Institutas, III.2.43

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (12)

 

3.4. É resultado da nossa eterna eleição

 

Conforme já demonstramos, a fé nunca é autogerada por nossa suposta capacidade intelectual, emocional ou sensorial. Ela também não é geradora da graça, nem da eleição. Ao contrário, a eleição divina é-nos totalmente estranha até que nos conscientizemos desta realidade pela fé. A fé em nada é meritória. Uma fé autossuficiente seria uma negação de sua própria essência. A fé une o futuro e o além, ao aqui e agora. O passado, nesse caso, serve como elemento ilustrativo da fé de nossos irmãos que perseveraram e, também, de nossa própria fé vivenciada, a despeito de, por vezes, diminuta e cambaleante.

 

Fé é certeza do que ainda não aconteceu, do por vir como fato acontecido. Por isso, o tempo não serve de empecilho para fé, antes, para o exercício da esperança. Como exercitar a esperança no que já tenho (Hb 11.1). Ao contrário de qualquer filosofia humana, a fé cristã traz sólida esperança que é nutrida e preservada pela Palavra do Deus fiel. A esperança, por sua vez, é a expressão perseverante de fé

 

A vocação eterna é o caminho que Deus percorre para produzir fé em seus escolhidos. A vocação frutifica em fé, como resposta ao chamado divino.[1]

 

Agostinho (354-430), enfatiza: “Pois a misericórdia de Deus se lhe antecipa, sendo chamado para que cresse”.[2] A fé é um diálogo responsivo à graça, possibilitado pela graça. Pela graça Deus nos torna Seu povo, pela graça, respondemos professando a fé de que Ele é o nosso Deus e Pai. (Os 2.23; Zc 13.9/Sl 27.8; Rm 8.15-16).

 

A fé é a causa instrumental de nossa salvação; todavia, a causa essencial é a nossa eleição. Deus elege e chama eficazmente. A fé e o arrependimento são resultados da eleição.[3] Usando uma expressão de Calvino, podemos dizer que a “eleição é mãe da fé”.[4] Dito de outro modo:  “A fé é um fruto da eleição”.[5] A fé não é precondição da eleição, no entanto, ela evidencia e confirma como um selo a nossa eleição.[6] A eleição de Deus nunca cai no vazio. Na eleição eterna está embutida todos os elementos em que envolvem a nossa salvação até à consumação da obra divina em nossa vida. (Rm 8-29-31)

 

Calvino (1509-1564) resume em lugares diferentes:

 

A causa eficaz de fé não é a perspicácia de nossa mente, mas a vocação de Deus. E ele [Pedro] não se refere somente à vocação externa, que é em si mesma ineficaz; mas à vocação interna, realizada pelo poder secreto do Espírito, quando Deus não somente emite sons em nossas orelhas pela voz do homem, mas, pelo Seu próprio Espírito atrai intimamente nossos corações para Ele mesmo.[7]

O fundamento de nossa vocação é a eleição divina gratuita pela qual fomos ordenados para a vida antes que fôssemos nascidos. Desse fato depende nossa vocação, nossa fé, a concretização de nossa salvação.[8]

 

Deste modo, percebemos como Deus em Sua misericórdia em tudo se antecipou a nós;[9] a fé é dos eleitos de Deus (Tt 1.1). Aquele que crê é um eleito de Deus. No entanto, devemos enfatizar que esta relação não é mecânica: eleição e fé. Os eleitos “não são eleitos porque creram, mas são eleitos para que cheguem a crer”.[10]

 

Paulo associa o seu ministério como um serviço aos eleitos, na promoção da fé dos eleitos (Tt 1.1)

A Palavra nos ensina que fomos eleitos para que tivéssemos fé; e esta fé é gerada e sedimentada em nossos corações pelo Espírito por meio do conhecimento de Cristo. “A fé salvadora é um salto à luz porque se baseia no conhecimento do Senhor Jesus Cristo”, afirma Kuiper (1886-1966).[11] E o conhecimento de Cristo deve ser a nossa vocação incondicional. “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

 

Paulo considerou todas as outras coisas como perda, diante da realidade sublime do conhecimento de Cristo. Conhecer a Cristo era a sua prioridade. Ele declara: “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor: por amor do qual, perdi todas as cousas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo” (Fp 3.8).[12]

 

Desta forma, podemos dizer que:

a) Todos os eleitos creem: Jo 10.16,27-29; 6.37,39; 17.2,9,24.

b) Só os eleitos creem: Jo 10.26.

c) Os que creem, fazem-no por serem eleitos: At 13.48/Tt 1.1.

 

Portanto, toda a honra e glória pertencem a Deus (Ef 2.5,8-10). (Vejam-se: 1Ts 1.3,4; 2Ts 2.13; Tg 2.5; Jd 3).

 

São Paulo, 26 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 670.

[2] Agostinho, A Graça (II), São Paulo: Paulus, 1999, p. 193. “É em razão de ser misericordioso que Deus primeiro nos recebe em sua graça, e então prossegue nos amando” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 1.2), p. 27).

[3] “O arrependimento não está no poder do homem” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 6.6), p. 155).

[4] Ver: J. Calvino, As Institutas, III.22.10.

[5]João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 76.

[6] Ver: J. Calvino, As Institutas, III.24.3.

[7] John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (reprinted), v. 22, (2Pe 1.3), p. 369.

[8]João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 4.9), p. 128.

[9] Veja-se: Agostinho, On The Gospel of St. John. In: Philip Schaff; Henry Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of Christian Church, (First Series), 2. ed. Peabody, Massachusettes, Hednrickson Publishers, 1995, Tractate 86 (Jo 15.16), p. 354.

[10]Agostinho, A Graça (II), São Paulo: Paulus, 1999, p. 194. “Deus escolheu os crentes, mas para que o sejam e não porque já o eram” (Agostinho, A Graça (II), p. 195). “Não cremos porque nos escolheu, mas escolheu-nos para crermos, para que não digamos que o escolhemos….” (Agostinho, A Graça (II), p. 200).

[11]R.B. Kuiper, El Cuerpo Glorioso de Cristo, Michigan: Subcomision Literatura Cristiana de la Iglesia Cristiana Reformada, 1985, p. 230. Figura semelhante é empregada por McGrath: “A fé, portanto, tem de ser vista como uma forma de crença motivada ou justificada. Não é um salto cego no escuro, mas a jubilosa descoberta de um quadro mais abrangente das coisas, do qual fazemos parte. É algo que induz e convida à sanção racional, e não algo que a compele. A fé diz respeito a ver as coisas que os outros deixaram passar e apreender sua relevância mais pofunda” (Alister E. McGrath, Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas, São Paulo: Hagnos, 2015, p. 14).

[12] “O conhecimento de Deus não está posto em fria especulação, mas Lhe traz consigo o culto” (João Calvino, As Institutas, I.12.1) “Jamais poderemos conhecer demasiadamente as grandes doutrinas da fé, mas se esse conhecimento não nos leva a uma experiência cada vez mais profunda do amor de Cristo, não passa de conhecimento que ‘incha’ (1Co 8.1)” (D.M. Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 8. “Prefácio”). “O conhecimento é absolutamente essencial; sem conhecimento não pode haver nenhum crescimento. Todavia o conhecimento, no sentido verdadeiramente cristão, nunca é meramente intelectual. É assim, e isso porque é o conhecimento de uma Pessoa. O propósito de toda doutrina, o valor de toda instrução, é levar-nos à Pessoa do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (D.M. Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, p. 165).

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (11)

Algumas aplicações

 

Comentando o Salmo 11, Craigie e Tate, concluem:

 

Na vida de , a confiança é uma necessidade e uma virtude. É uma necessidade, porque a ausência de confiança pode contribuir para a desintegração da vida em medo e ansiedade; é uma virtude, pois pode conduzir para a plenitude da vida que Deus planejou quando Ele nos concedeu o dom da vida.[1]

 

Esta confiança, entretanto, deve estar depositada em Deus.

Davi que inicia o salmo 11 declarando a sua confiança em Deus, conclui revelando o aspecto temporal e escatológico[2] de sua fé: “os retos lhe contemplarão a face” (Sl 11.7). Aqui temos a certeza que no ato de libertação da opressão de seus inimigos, o salmista verá a face do Deus santo, soberano e justo. É uma forma figurada de dizer: agora sim, vimos a Deus agindo. Creio também, que ele está convicto de que pela livre graça de Deus, veremos a Sua face.

 

Matthew Henry (1662-1714) está correto ao interpretar:

 

Os princípios da religião são os fundamentos sobre os quais se edificam a fé e a esperança do justo. O nosso dever é apegarmo-nos fortemente a eles, e posicionarmo-nos contra todas as tentações provenientes da incredulidade; os crentes seriam destruídos se não pudessem recorrer a Deus, confiar nEle e esperar por uma bênção futura.[3]

 

Nas Escrituras há constante demonstração do poder de Deus tendo isto um aspecto pedagógico; para que aprendamos a depositar a nossa confiança no Deus soberano.

 

Calvino observa que,

 

Em virtude de nosso coração incrédulo, o mínimo perigo que ocorre no mundo influi mais em nós do que o poder de Deus. Trememos ante a mais leve tribulação, pois olvidamos ou nutrimos conceitos mui pobres acerca da onipotência divina.[4]

 

Em outro lugar:

 

É verdade que tanto os bons quantos os maus participam das misérias e dificuldades desta presente vida; porém, para os ímpios, os sofrimentos são sinais da maldição divina, porquanto são resultado do pecado; sua única mensagem é a ira de Deus e a nossa comum participação na condenação de Adão, e seu único resultado é o abatimento da alma. Porém, por meio de seus sofrimentos [gerados pelo testemunho de Cristo], os crentes estão sendo conformados a Cristo, e produzem em seus corpos o morrer de Cristo, para que a vida de Cristo seja um dia manifestada neles.[5]

 

O Reformador nos desafia a confiar inteiramente na promessa de Deus:

 

As pessoas erram clamorosamente na interpretação da Escritura, deixando inteiramente suspensa a aplicação de tudo quanto se diz acerca do poder de Deus e em não descansar certas de que ele será também seu Pai, uma vez que fazem parte de seu rebanho e são partícipes de sua adoção.[6]

 

Descansemos em Deus. Firmemos os nossos passos neste fundamento, sabendo que o nosso Deus é Santo, Soberano e Justo. Um dia, quando tudo isso terminar, Deus tiver levado a bom termo os Seus propósitos quanto à história e ao Seu Reino, veremos em Cristo, de modo definitivo, a face de Deus. (1Jo 3.2/[7] Sl 4.6; 16.11; 44.3; Mt 5.8; Ap 22.4).

 

Agora, no tempo presente, caminhemos nessa certeza, colocada de forma quase poética por Barth (1886-1968):

 

Não existe fidelidade a não ser em Deus. A fé é a confiança que nos permite que nos mantenhamos nele, nas suas promessas e nos seus mandamentos. Manter-se em Deus é abandonar-se a essa certeza e vivê-la: Deus está aqui para mim. Tal é a promessa que Deus nos faz: eu estou aqui, para ti.[8]

 

Amém Senhor. Eu creio.

 

 

Maringá, 22 de fevereiro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Peter C. Craigie; Marvin E. Tate, Psalms 1-50, 2. ed. Waco: Thomas Nelson, Inc. (Word Biblical Commentary, v. 19), 2004, (Sl 11), p. 134.

[2] Veja-se: James M. Boice, Psalms: an expositional commentary, Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1994, v. 1, (Sl 11), p. 96.

[3] Matthew Henry, Comentário Bíblico de Matthew Henry, 5. ed., Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, (Sl 11), p. 404-405.

[4]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 68.17), p. 658.

[5]João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 1.5), p. 18.

[6]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 46.7), p. 336.

[7]Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é(1Jo 3.2).

[8] Karl Barth, Esboço de uma Dogmática, São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 21.