Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (37)

H. Temível[1]

Quando em certa ocasião estive visitando a Usina hidrelétrica de Itaipu, fiquei abismado com o tamanho da construção e das turbinas. O que me chamou muito a atenção foi quando verifiquei um caminhão parado perto de uma das turbinas. De forma comparativa o caminhão me pareceu muito pequeno ainda que não seja, exceto relativamente.

          As referências são muito importantes para podermos dimensionar diversos aspectos da realidade.

          Quando pensamos em Deus quais as referências que temos?

O oceano pode nos parecer assustador especialmente em meio a uma tempestade. Um avião comercial voando a 11 kms de altitude com turbulência, pode nos inspirar medo pela grandeza do espaço e por estarmos suspensos e de forma bastante insegura.

O tremor de terra por mais ameno que seja, nós, não acostumados a isso, nos assustamos… Porém, nada disso pode se comparar a Deus e ao seu poder.

          O temor que Deus inspira é notório nas páginas das Escrituras. Esse temor não ocorre por não conhecermos o seu amor e bondade, antes, pela dimensão de sua grandeza e santidade que ultrapassam qualquer padrão e se mostra, portanto, a nós, de modo terrível, impenetrável e incomensurável. Desse modo, Deus é para ser amado, mas, também, temido. Nada se compara a Ele.

          A compreensão correta deve nos conduzir a atitudes compatíveis. Assim sendo, o senso da grandeza incomensurável de Deus deve nos conduzir não à especulação, mas, ao santo temor em obediência e culto.

          Os salmistas se alegram no temor de Deus, cientes da sua santa majestade: “Porque grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado, temível (arey”) (yare) mais que todos os deuses” (Sl 96.4). “Celebrem eles o teu nome grande (lAdG”)(gadol) e tremendo (arey”) (yare), porque é santo (vAdq’) (qadosh)” (Sl 99.3).

          O nosso santo temor acompanhado de uma atitude condizente, alegra o Senhor. A Palavra nos ensina que o Deus abençoa os que o temem: “Ele abençoa os que temem (arey”) (yare) o SENHOR, tanto pequenos como grandes” (Sl 115.13)

          Esse Deus que é Rei glorioso e temível, é nosso pastor, que cuida pessoalmente de nós. Se Deus é por nós, não há força que possa nos separar do seu amor e cuidado. Louvemos ao Senhor com alegria e santo temor. Amém

Maringá, 03 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Voltarei a tratar desse assunto com mais detalhes à frente.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (36)

5) Rei Glorioso

Portanto, se queremos ter um só e único Deus, lembremo-nos de que, na verdade, não se deve subtrair de sua glória nem sequer uma partícula, senão que deve conservar para ele o que é seu por direito. – João Calvino.[1]

                          “7Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória. 8Quem é o Rei da Glória (dAbK’) (kabod)? O SENHOR, forte e poderoso, o SENHOR, poderoso nas batalhas. 9Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória (dAbK’) (kabod). 10Quem é esse Rei da Glória (dAbK’) (kabod)? O SENHOR dos Exércitos, ele é o Rei da Glória (dAbK’) (kabod)(Sl 24.7-10).

          “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória (dAbK’) (kabod), por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade” (Sl 115.1).

          A glória pertence a Deus e, por extensão ao seu reino visto que Ele mesmo não é glorioso pelo seu reino, mas, o seu reino e reinado são grandiosos porque Deus é o Rei da glória. A glória não está originariamente no que Deus realiza, mas, no fato de Deus ser autoglorioso e, por isso mesmo, realizar obras gloriosas.

          Bavinck comenta:

Para essa glorificação de si mesmo Deus não precisa do mundo, pois não é a criatura que independente e suficientemente exalta a honra de Deus; pelo contrário, é Ele que, por meio de suas criaturas ou sem elas, glorifica Seu próprio nome e revela-se a si mesmo. Deus, portanto, nunca procura a criatura para encontrar algo de que esteja precisando.[2]

Glória Excelsa revelada a todos os povos

          Escreve o salmista: “Excelso (~Wr) (rum) (= exaltado) é o SENHOR, acima de todas as nações, e a sua glória (dAbK’) (kabod), acima dos céus” (Sl 113.4/Sl 138.5-6).

A natureza, ainda que relativamente de forma diminuta, expressa aspectos da glória do Rei eterno evidenciando o seu glorioso poder entre todas as nações: “Os céus anunciam a sua justiça, e todos os povos veem a sua glória (dAbK’) (kabod) (Sl 97.6).

Em toda a terra a glória de Deus é manifesta: “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória (dAbK’) (kabod) (Sl 108.5).

A glória da criação não se compara à glória de Deus

           Por mais gloriosa que seja a criação de Deus, expressando aspectos do seu Criador, tais como: beleza, grandeza, soberania, sabedoria, harmonia e bondade, ela não se compara ao Criador que é extremamente mais glorioso do que toda a criação. A beleza pura, plena e consumada só temos absolutamente em Deus.

Por isso, a obra de Deus não é um ato isolado de sua glória ou um ato de “superação” – como a de um artista que se supera na criação de sua “obra-prima” –, antes é a expressão compreensível a nós de sua transcendente glória que ultrapassa totalmente a nossa capacidade de compreensão (Rm 11.33-36/Jó 36.22,26; 37.5,16).

          A glória de Deus está expressa em tudo o que realiza. A natureza de Deus se evidencia em todas as suas realizações.

Schreiner está correto ao declarar: “Eu definiria a glória de Deus como a beleza, majestade e grandiosidade de quem Ele é; portanto, a grandiosidade de seu ser é demonstrada em tudo o que Ele faz, quer na salvação quer no julgamento”.[3]

          A glória de Deus por pertencer essencialmente a Ele, sendo-lhe inerente, não lhe é atribuída, acrescentada, diminuída ou mesmo esgotada em sua complexidade;[4] é-Lhe totalmente intrínseca. Por isso, de nada carece fora de si mesmo: permanece inalterada em tudo que criou e preserva.[5] Nada nem ninguém lhe comunica glória.

Ele é o Rei, o Senhor e Pai da Glória (Sl 24.7-10; At 7.2; Ef 1.17)[6] que, por meio de seu Filho “vestido de nossa carne, se revelou agora para ser o Rei da glória e Senhor dos Exércitos”.[7] (1Co 2.8; Tg 2.1/Jo 1.14).[8]

A maioria das pessoas que conviveu com Jesus Cristo durante o seu ministério terreno não conseguia perceber que aquele homem tão doce e acessível, amado e odiado, reverenciado e temido, era o próprio Deus encarnado. O Deus, o Senhor da glória.[9]

Paulo escreve aos coríntios mostrando a nulidade do conhecimento humano diante da sublimidade de Cristo, o Senhor: “Sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor (ku/rioj) da glória” (1Co 2.8/Tg 2.1/Jo 17.1-5).

Os nossos cânones intelectuais, sociais e culturais não conseguem por si só enxergar a majestade do Filho visto que não temos como mensurar o incomensurável. Como essa é também uma questão essencialmente espiritual, Satanás está comprometido com o velamento de nosso entendimento para que a Glória do Filho revelada no Evangelho não resplandeça a nós:  “O deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2Co 4.4).

Como temos insistido, a realidade, os fenômenos gloriosos da criação envolvendo os homens e os animais, revelam a glória de Deus.

          Deus criou todas as coisas, inclusive a Igreja, para a sua Glória. “Glória é excelência manifestada. A excelência dos atributos de Deus é manifestada por sua operação”, diz Hodge (1823-1886).[10]

A igreja e a glória de Deus

           Como vimos, a criação exibe aspectos da glória divina, porém, a Igreja é uma expressão especial, como comenta Calvino: “Ainda que Deus seja suficiente a si mesmo e se satisfaça exclusivamente consigo mesmo, não obstante quer que sua glória se manifeste na Igreja”.[11]

          O alvo final de todas as coisas é a glória Deus. Nada é mais elevado ou importante do que o próprio Deus. Há aqui um desafio extremamente difícil para todos nós individualmente e para a Igreja como um todo: abrir mão de nossos interesses aparentemente mais relevantes (aliás, em nossa óptica, o que há de mais importante do que os nossos interesses?) pelo que, de fato, é urgentemente relevante em sua própria essência: Reconhecer a glória de Deus manifestada em sua criação, Palavra e atos na história.

São Paulo, 2 de outubro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]João Calvino, As Institutas I.12.3.

[2]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 183.

[3]Thomas R. Schreiner, Uma Teologia bíblica da glória de Deus: In: S. Storms; J. Taylor, orgs. John Piper: ensaios em sua homenagem, São Paulo: Hagnos, 2013, p. 262.

[4]“Pois se homens e anjos juntassem sua eloquência em função deste tema, ainda assim tocariam mui diminutamente em sua imensurabilidade” (João Calvino, Efésios,São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.14), p. 39).

[5]Veja-se: João Calvino, Romanos,2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 11.36), p. 430.

[6]“Estêvão respondeu: Varões irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a Abraão, nosso pai, quando estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã” (At 7.2). “Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele” (Ef 1.17). (Destaques meus).

[7]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 24.8), p. 536.

[8]“Sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória (do/ca) (1Co 2.8). “Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória (do/ca), em acepção de pessoas” (Tg 2.1). “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória (do/ca), glória (do/ca) como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).

[9] Veja-se: R.C. Sproul, A Glória de Cristo, São Paulo: Cultura Cristã, 1997.

[10]A.A. Hodge, Esboços de Theologia, Lisboa: Barata & Sanches, 1895, p. 223.

[11]João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 2.17), p. 100.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (35)

            A afirmação do Evangelho da soberania de Deus e do governo redentivo de Cristo, sempre enfrentará oposição de todas as pessoas e classes. Não nos iludamos. Muitas vezes a rebelião contra a Igreja não tem outro alvo senão o governo de Cristo.[1] A igreja quando se mantém fiel ao seu Senhor tenderá e enfrentar grande oposição.[2] A sua própria constituição e preservação é estranha à mera compreensão humana e a interesses terrenos. “A Igreja de Deus jamais subsiste sem inimigos”, interpreta Calvino.[3]

            No entanto, ela sabe quem é o Senhor e qual é a sua vocação. Ela é filha da eternidade, não do tempo. A sua mensagem é o reinado de Cristo, o seu único Senhor. A igreja não está acima de seu Senhor. Se ela for-lhe fiel, se sua proclamação for Cristocêntrica, enfrentará oposição.

Algumas aplicações

1) Deus reina eterna e gloriosamente sobre todo o universo, sobre toda a Criação; nada escapa ao seu controle e direção. “Se nosso coração se encontra plenamente cativo à autorrevelação de Deus como o Criador, não mais podemos imaginar que exista uma zona neutra e segura fora do alcance de Deus”, conclui corretamente Dooyeweerd (1894-1977).[4]

2) No nascimento de Jesus Cristo, o Deus encarnado, vemos o cumprimento de parte do Salmo 2:

30Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. 31 Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. 32 Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; 33 ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim. (Lc 1.30-33).

3) Temos aqui um desafio amoroso à evangelização. O Senhor deseja que todos os povos sejam conquistados para o seu Reino de amor e justiça; daí Ele dizer: “Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão” (Sl 2.8). A Igreja é a herança do Senhor constituída por todos aqueles de todos os lugares e de todos os tempos que creram no seu nome (Rm 8.17; Ef 2.4-7).[5] Compete à Igreja, portanto, anunciar o Reinado de Cristo para que homens e mulheres de todas as classes sociais, idades, e raças possam se arrepender de seus pecados e, por graça, tornarem-se alegres súditos do Reino, recebendo a Cristo pela fé.

4) Devemos nos alegrar com a oportunidade de poder trabalhar no Reino de Deus. Servir ao Senhor é um privilégio responsabilizador. “Trabalhar no reino é o nosso estilo de vida”.[6]

5) Este Salmo, evidenciando que a promessa de Deus não pode falhar (Sl 2.6-8), aponta para a sua consumação escatológica, assinalando a vitória completa e final do Messias, conforme atesta Paulo:

24 E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. 25 Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. 26 O último inimigo a ser destruído é a morte. 27 Porque todas as coisas sujeitou debaixo dos pés. E, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, certamente, exclui aquele que tudo lhe subordinou. 28 Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos. (1Co 15.24-28).

            Esse Rei eterno é o nosso Pastor. Nem no tempo, nem na eternidade, poderemos ser separados do seu Reino que se manifesta sobre nós em cuidado e amor.

Maringá, 28 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Quando a Igreja se acha oprimida, a glória divina é ao mesmo tempo vilipendiada” (João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Edições Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 102.15), p. 577).

[2] “É um fato misterioso da História que a Igreja está sempre no seu melhor quando ela enfrenta a maior oposição” (Gene Edward Veith, Jr., De todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 93).

[3]João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 46.6), p. 334.

[4]Herman Dooyeweerd, No Crepúsculo do Pensamento, São Paulo: Hagnos, 2010, p. 258. Cullman (1902-1999) pontua bem esta questão: “O senhorio de Cristo há de estender-se a todos os âmbitos da criação. Se houvesse um só onde este senhorio fosse excluído não seria total e Cristo deixaria de ser o Kyrios” (Oscar Cullman, Cristologia do Novo Testamento, São Paulo: Editora Liber, 2001, p. 298). À frente: “Cristo não é somente o Senhor do mundo, o senhor da igreja; é também o meu Senhor. Experimentado e reconhecido como Senhor da igreja é também, Senhor de cada um dos que a compõem” (Oscar Cullman, Cristologia do Novo Testamento, São Paulo: Editora Liber, 2001, p. 302).

[5] Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17). 4 Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, 5 e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos, 6 e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; 7 para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus” (Ef 2.4-7). “A igreja é o presente na troca de presentes. Este é o plano eterno de Deus para a igreja. Nós devemos ser profundamente gratos, ansiosos e animados por ser parte dele” (John MacArthur, Eu amo a Tua igreja, ó Deus!: In: John MacArthur, et. al. Avante, soldados de Cristo: uma reafirmação bíblica da Igreja, São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 19).

[6]Cornelius Plantinga Jr., O crente no mundo de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 111.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (34)

            A morte de Cristo que parecia uma vitória de satanás sobre o Reinado do Senhor, não o foi, antes, constituiu-se na realização do propósito de Deus.[1] A ressurreição de Cristo é o coroamento desta vitória.

            Paulo pregando em Antioquia demonstra esta realidade citando inclusive o Salmo 2:

32 Nós vos anunciamos o evangelho da promessa feita a nossos pais, 33 como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus, como também está escrito no Salmo segundo: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei. 34 E, que Deus o ressuscitou dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, desta maneira o disse: E cumprirei a vosso favor as santas e fiéis promessas feitas a Davi. 35 Por isso, também diz em outro Salmo: Não permitirás que o teu Santo veja corrupção. 36 Porque, na verdade, tendo Davi servido à sua própria geração, conforme o desígnio de Deus, adormeceu, foi para junto de seus pais e viu corrupção. 37 Porém aquele a quem Deus ressuscitou não viu corrupção. (At 13.32-37).

            Da mesma forma escreve aos Romanos: “E foi designado (o(ri/zw) (determinado, constituído, destinado)[2] Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1.4).

O Rei eterno na ressurreição de Cristo valida o seu ministério.[3] “A ressurreição é a inversão divina da sentença que o mundo impôs a Jesus”.[4] Nela temos a manifestação pública de sua filiação divina e da aprovação de seu ministério.[5] Na ressurreição a sua glória se tornou publicamente manifesta. “A ressurreição é o ponto que marca o começo de uma nova época na existência do Filho de Deus. Sendo antes Filho de Deus em debilidade e humilhação, pela ressurreição torna-se o Filho de Deus em poder”, rejubila-se Nygren (1890-1978).[6]

            O Pai glorificou o Filho na ressurreição: “Assim, também Cristo a si mesmo não se glorificou para se tornar sumo sacerdote, mas o glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Hb 5.5).

            A ressurreição de Cristo é o coroamento do seu Ministério terreno. Ela é repleta de significado para o Ministério de Cristo e, consequentemente para a vida da Igreja, que é o seu Corpo.

            Sem a ressurreição, a obra de Cristo seria nula, a Igreja não existiria, não haveria salvação, estaríamos todos perdidos para sempre! “Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos”(1Co 15.20), é o brado de Paulo.

            A Igreja cristã se firmou amparada na certeza da ressurreição de Cristo, o Messias.[7] Daí que a sua pregação se constituiu no elemento central de toda pregação. Esta é a fé da Igreja;[8] é nossa certeza. Calvino está ao correto ao dizer: “Sem a ressurreição não podemos consolar-nos de nenhuma maneira; todos os argumentos possíveis serão insuficientes para alegrar-nos”.[9]

            No Novo Testamento após a cura operada por Pedro e João em um homem coxo de nascença com mais de quarenta anos (At 3.1-10,22), sendo esses ameaçados e proibidos de falar do nome de Cristo, quando se reúnem para compartilhar os fatos com os demais discípulos, registra Lucas:

23 Uma vez soltos, procuraram os irmãos e lhes contaram quantas coisas lhes haviam dito os principais sacerdotes e os anciãos. 24 Ouvindo isto, unânimes, levantaram a voz a Deus e disseram: Tu, Soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há; 25 que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? 26 Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido; 27 porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, 28 para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram; 29 agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra. (At 4.23-29). (Destaques meus).

            Aqui vemos claramente a consciência dos discípulos de que o Salmo de Davi se cumpria e, ao mesmo tempo, Deus continuava como Senhor de todas as coisas, operando, inclusive por intermédio de seus inimigos.

Maringá, 28 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “A morte do Senhor Jesus Cristo na cruz do Calvário não foi um acidente; foi obra de Deus. Foi Deus quem o ‘manifestou’ ali” (David M. Lloyd-Jones, A cruz: A justificação de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1980, p. 3).

[2]*Lc 22.22; At 2.23; 10.42; 11.29; 17.26,31; Rm 1.4; Hb 4.7.

[3]Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 25.

[4]Herman Bavinck, Teologia Sistemática,Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 405.

[5] Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 2.7), p. 68-69. “Gerar [Sl 2.7], aqui, tem referência àquilo que foi feito conhecido. (…) Cristo foi declarado Filho de Deus pelo exercício público de um poder verdadeiramente celestial, ou, seja, o poder do Espírito, quando Ele ressuscitou dos mortos” (João Calvino, Romanos, 2. ed., São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 1.4), p. 39,40).

[6]Anders Nygren, Commentary on Romans, 5. ed. Philadelphia: Fortress Press, 1980, p. 51. “Por meio de sua gloriosa ressurreição, sua investidura com poder não só foi realçada, mas também começou a resplandecer em toda sua glória” (William Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 1.4), p. 58-59).

[7] “A pregação da Igreja primitiva estava essencialmente baseada na ressurreição. A princípio, a doutrina da ressurreição de Jesus foi o ensinamento central do Cristianismo” (Alan Richardson, Así se hicieron los Credos: Una breve introducción a la historia de la Doctrina Cristiana, Barcelona: Editorial CLIE, 1999, p. 24).

[8]“A Cristandade descansa na certeza da ressurreição de Jesus como uma ocorrência no espaço-tempo da história” (J.I. Packer, Teologia Concisa, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1999, p. 119).

[9]Juan Calvino, Se Deus fuera nuestro Adversario: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 6), p. 85. “Declaramos positivamente que ninguém tem feito nenhum progresso na escola de Cristo, a menos que espere rejubilante o dia de sua morte e ressurreição final” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 66).

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (33)

4) Rei Eterno

O nosso Pastor é Rei. O seu reinado não tem mandato ou prazo de validade nem limites geográficos. O nosso pastor é o Senhor que reina eternamente. O seu reinado não se desgasta nem se deteriora. Continua perfeito como Deus o é. A eternidade do reino reflete a glória e o poder eternos do Rei.

            Nessa certeza, os salmistas exultam:

O SENHOR permanece no seu trono eternamente, trono que erigiu para julgar. (Sl 9.7).

O SENHOR é rei eterno. (Sl 10.16).

Reina o SENHOR. (…) Desde a antiguidade, está firme o teu trono; tu és desde a eternidade. (Sl 93.1-2).

Tu, porém, SENHOR, permaneces para sempre, e a memória do teu nome, de geração em geração. (Sl 102.12).

O SENHOR reina para sempre; o teu Deus, ó Sião, reina de geração em geração. Aleluia! (Sl 146.10).

            Os homens, por mais poderosos que sejam, na realidade, estão poderosos em decorrência de alguma posição que ocupam, das riquezas e/ou prestígio que possuem, do sucesso de suas realizações ou até mesmo devido à proximidade com pessoas influentes que, por sua vez, se encaixam em alguma das colocações acima.[1] Entretanto, quando a Bíblia fala do poder soberano de Deus, ela se refere não a um estado determinado por fatores externos, tais como dinheiro, fama, prestígio, etc., mas sim, à sua própria natureza. Deus, como temos dito, é autopoderoso, autoautenticador de tudo que é e faz. Deus não simplesmente está poderoso: Ele é o próprio Poder. Todo o poder emana dele. Por isso, Ele se manifesta poderosamente: “Uma vez falou Deus (~yhil{a/) (elohim), duas vezes ouvi isto: Que o poder pertence a Deus (~yhil{a/)(elohim) (Sl 62.11).

            Deus é tão eterno quanto o eu poder. Não podemos falar da história de Deus como de um processo evolutivo, aprendendo, crescendo, tornando-se, por exemplo, o que é, antes, falamos da história das manifestações do Senhor na história do homem em seus avanços e retrocessos.

            O seu reinado, assim como sua existência, não tem início nem fim. Ele sempre foi e será o que é, independentemente de qualquer elemento externo a Ele. Deus existe eternamente por si próprio.[2] “Somente em Deus a existência e a essência são uma coisa só”.[3] O Senhor não se torna algo; Ele é o que é eternamente e pelo seu próprio poder.

Conforme vimos, a existência de Deus é autoexistente por sua própria determinação. A vontade de Deus é o fundamento último de todas as coisas. Isto nos basta.[4]

Somente Ele é absoluto e de fato, é o fim de todas as coisas.[5] Por isso que a Bíblia não tenta explicar a existência de Deus; ela parte apenas do fato consumado de que Deus existe, manifestando o seu poder em seus atos criativos (Gn 1.1).

            Deus tem o seu poder em si mesmo e todo poder sobre o seu poder. Nada lhe escapa, é grande demais ou incompreensível a Ele. O Senhor governa sobre todas as coisas com a sua mão poderosa; ninguém o poderá destruir.

            No Salmo 2, essencialmente messiânico, lemos:6Eu, porém, constituí (%s;n”) (nasak) (= estabeleci)[6] o meu Rei sobre o meu santo monte Sião. 7Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei” (Sl 2.6-7).

            O Reinado do Filho é de caráter eterno conforme o decreto estabelecido por Deus. A glória do Filho é eterna (Jo 17.5).[7] Jesus Cristo, o Messias, é Deus. Foi o Pai mesmo quem o constituiu. Esta constatação deve nos conduzir a uma fé reverente, não a uma curiosidade presunçosa.[8]

            O Reinado de Cristo é instituído e preservado pelo próprio Deus Pai.

            João Calvino escreve sobre esse ponto:

A doutrina da eterna duração do reino de Cristo é, portanto, aqui estabelecida, visto que ele não fora posto no trono pelo favor ou pelos sufrágios humanos, mas por Deus que, do céu, pôs a coroa real em sua cabeça, com suas próprias mãos.[9]

   Em Hebreus deparamo-nos com a citação do Salmo 2.7 para indicar a glória e majestade do Messias:

3 Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, 4 tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. 5 Pois a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho?” (Hb 1.3-5).[10]

No Apocalipse temos ecos do Salmo 2, na declaração da eternidade do Reino do Messias (Ap 1.5; 2.27; 12.5; 19.4-5 etc.).[11]

            Deus permanece no controle de todas as coisas, mesmo em meio à oposição dos presumidamente poderosos, que não conseguem entender que todo o seu poder não lhe é ontologicamente inerente, mas, provêm de Deus.

Em Atos os discípulos orando, afirmam que a morte de Cristo e a consequente ressurreição estavam sob o controle do Pai: “Para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At 4.28).

Maringá, 28 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]T. Hobbes, O Leviatã, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 14), 1974, I.x., p. 57ss, fala sobre algumas formas de poder humano.

[2] Veja-se uma boa discussão sobre isso em R.C. Sproul, Razão para crer, São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 80-83.

[3]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 246.

[4] Veja-se: João Calvino, As Institutas, III.23.2.

[5]“Nada, exceto Deus mesmo, é um fim em si mesmo” (John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 41).

[6] *Sl 2.6; Pv. 8.23.

[7]“E, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo 17.5).

[8] Veja-se: C.H. Spurgeon, El Tesoro de David, Barcelona: Libros CLIE, 1989, v. 1, (Sl 2.7), p. 21-22.

[9] João Calvino, O Livro dos Salmos,São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 21.2), p. 457-458.

[10] Cf. Peter C. Craigie; Marvin E. Tate, Psalms 1-50,2. ed. Waco: Thomas Nelson, Inc. (Word Biblical Commentary, v. 19), 2004, (Sl 2), p. 69; James M. Boice, Psalms: an expositional commentary, Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1994, v. 1, (Sl 2), p. 25-26; Willem A. VanGemeren, Psalms: In: Frank E. Gaebelein, gen. ed. The Expositor’s Bible Commentary, Grand Rapids, MI.: Zondervan, 1991, v. 5, p. 65-66; D.A. Carson, Jesus, o Filho de Deus: O título cristológico muitas vezes negligenciado, às vezes mal compreendido e atualmente questionado, São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 46ss (Especialmente).

[11]“E da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados” (Ap 1.5),

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (32)

            Entre os Puritanos, o estudo científico, juntamente com o teológico e literário era amplamente estimulado. “Os Puritanos abraçaram o estudo das artes tão completamente como o da ciência”.[1]

            McGrath em suas abalizadas pesquisas, afirmou que: “Em anos recentes, surgiu um crescente corpo de obras acadêmicas sustentando que a contribuição decisiva para o aparecimento das ciências naturais não veio do cristianismo em geral, mas do protestantismo, em particular”.[2]

            O fato é que o princípio cristão de coerência da realidade resultante de sua compreensão de que toda ela parte de um Deus infinito e pessoal que não se confunde com a Criação e, que se revela, trazia como pressuposto a busca de compreensão dos fenômenos naturais visto que o mundo é possível de compreensibilidade. Estes elementos contribuíram para a busca de entendimento e sistematização dos fenômenos naturais. “A ciência moderna não poderia ter surgido sem a Bíblia”, conclui Veith Jr.[3]

            O que se depreende, é que a Ciência Moderna, que teve a sua gênese no século XVII em “toda a Europa”,[4] não estava em princípio dissociada da fé cristã.

            Kuyper resume isso:

Somente quando há fé na conexão orgânica do Universo, haverá também a possibilidade para a ciência subir da investigação empírica dos fenômenos especiais para o geral, e do geral para a lei que governa acima dele, e desta lei para o princípio que domina sobre tudo.[5]

Todos os impérios estão sob o seu poder

            Assim, não há poder nesse mundo que não esteja sob o controle de Deus. Todos os reinos e impérios estão sob à preservação e domínio de Deus: “O SENHOR frustra os desígnios das nações e anula os intentos dos povos” (Sl 33.10). Esse é o nosso Pai.

Algumas aplicações

  1. Não há vida fora e à revelia de Deus. Ele nos mantém em bondade e amor. Sejamos-lhe gratos. A nossa obediência é a mais fiel expressão de adoração.
  2. Não vivemos em um mundo com leis mecânicas inflexíveis. As leis são expressões da forma ordinária de Deus preservar e dirigir a criação. Confiemos em Deus. Ele é o Senhor de toda a realidade.
  3. O nosso Senhor não dorme nem cochila. Ele tem sempre sob o seu cuidado a criação e, em especial a sua igreja. Não há força capaz de nos atingir sem a permissão e controle de Deus (Sl 121.1-8).
  4. Precisamos de estudantes que levem a sério seus estudos tendo como ponto de partida a existência de Deus e o seu cuidado com a criação. Somente assim poderemos ter uma ciência integral, considerando a exuberância da criação mas, sabendo que há um Deus que criou e preserva todas as coisas.
  5. Disposição para trabalhar. A certeza do cuidado de Deus não pode servir de pretexto para as pessoas se acomodarem em seus trabalhos – exercendo a sua função sem dedicação, responsabilidade e criatividade – contando de forma irreverente e sacrílega com a “providência de Deus”; antes, implica o desejo de trabalhar, usando os recursos que Deus nos tem concedido, rogando, ao mesmo tempo, a bênção de Deus para o nosso trabalho.
  6. Humildade. Mesmo trabalhando arduamente, sabemos que é Deus quem nos dá o pão. É Ele quem provê a nossa subsistência. É o Senhor quem nos propicia, de forma muitas vezes imperceptível, as condições para que exerçamos os nossos talentos, ou, em outras circunstâncias, Ele inclina o coração de outras pessoas para nos socorrer nos momentos de maior carência. O nosso sustento, seja de que modo for, vem do Senhor, a quem oramos de forma consciente: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”.

            Salomão, o rei mais sábio e rico de toda a história de Israel, dá o seu testemunho:

Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem. (Sl 127.1-2).

            À arrogante igreja de Corinto, Paulo escreve: “Pois quem é que te faz sobressair? e que tens tu que não tenhas recebido? e, se o recebestes, por que te vanglorias, como se o não tivesses recebido?” (1Co 4.7).

            Tiago, por sua vez, nos lembra de que “toda boa dádiva e todo dom perfeito é lá do alto, descendo do Pai das luzes” (Tg 1.17).

            Assim, a nossa atitude deve ser de humildade diante de Deus e do nosso próximo, visto que tudo que temos e somos provêm da misericórdia de Deus (1Co 15.10; 2Co 3.5).

            Esse Senhor e Rei que preserva e mantém a criação, é o nosso Pastor que cuida pessoal e amorosamente de nós. Ele supre as nossas necessidades, muitas delas nem ainda percebidas. De fato, sendo assim, nada nos faltará.

            Maringá, 25 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Leland Ryken, Santos no mundo,São José dos Campos, SP.: FIEL, 1992, p. 178.

[2]Alister E. McGrath, A revolução Protestante, Brasília, DF.: Editora Palavra, 2012, p. 368. À frente, continua: “As novas estratégias hermenêuticas promovidas pelos primeiros protestantes foram de importância fundamental no estabelecimento das condições que tornaram possível o aparecimento da ciência moderna” (Alister E. McGrath, A revolução Protestante, p. 369).

[3]Gene Edward Veith, Jr., De todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 23. “A ciência moderna surgiu dentro de uma cultura impregnada pela fé cristã. Esse fato histórico, por si só, já é sugestivo. Foi a Europa cristianizada – e nenhum outro lugar – que se tornou o berço da ciência moderna” (Nancy R. Pearcey; Charles B. Thaxton, A alma da ciência, São Paulo: Cultura Cristã, 2005, p. 19). Vejam-se também: Nancy Pearcey, Verdade Absoluta: libertando o cristianismo de seu cativeiro cultural, Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, p. 39; Hermisten M.P. Costa, O Deus que fala: um estudo do Salmo 19, Goiânia, GO.: Edições Vila Nova, 2016.

[4]Paolo Rossi, O Nascimento da ciência moderna na Europa, Bauru, SP.: EDUSC, 2001, p. 9.

[5]Abraham Kuyper, Calvinismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 123. Vejam-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 623ss.; Alister E. McGrath, A revolução Protestante, Brasília, DF.: Editora Palavra, 2012, p. 368-369.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (31)

Total dependência

            Todos os homens por mais ricos que sejam, dependem, entre outras coisas, de solo, água, clima e saúde do corpo. Todos estão sujeitos ao estado geral da economia, juntamente com outros fatores sociais, políticos etc. Estes fatos indicam o quanto dependemos de Deus, o senhor do universo, daquele que tem o domínio sobre todas as coisas.

“Do alto de tua morada regas os montes; a terra farta-se do fruto de tuas obras. Fazes crescer a relva para os animais e as plantas para o serviço do homem, de sorte que da terra tire o seu pão”, diz o salmista (Sl 104.13-14).

            Como vimos, Paulo dá uma interpretação teológica a esta manifestação provedora de Deus, dizendo: “Contudo não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo os vossos corações de fartura e de alegria” (At 14.17).

            Dessa maneira, pedir a Deus que nos dê o pão significa recorrer à sua graça, para que nos sustente e não nos deixe perecer. Nesta oração, está implícita a certeza de que a vida pertence a Deus. O cientista pode fazer uma semente sintética, porém, ela não poderá crescer e frutificar, porque não tem vida. E mesmo que conseguisse, a origem da vida ainda estaria em Deus que lhe teria permitido chegar a esse invento condicionado ao poder do Criador.

            Tudo que temos e somos provém dele, por isso a ele oramos: “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”.

            Calvino (1509-1564), comentando essa passagem, escreveu:

Por esta petição nos entregamos a seu cuidado e nos confiamos à sua providência, para que nos dê alimento, sustente e preserve. Pois o Pai boníssimo não desdenha tomar sob sua proteção e guarda nem mesmo nosso corpo, para que a fé nos exercite nessas coisas diminutas, enquanto dele esperamos tudo, inclusive uma simples migalha de pão e uma gota de água.[1]  

Ordem na criação que reflete a Deus

            Destaco outro aspecto. No Salmo 19 o salmista escreve:

2Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. 3 Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; 4 no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol, 5 o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. 6 Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor. (Sl 19.2-6).

            O salmista ainda que não saiba explicar a ordem da Criação, sabe que o Deus Criador, o majestoso Senhor estabeleceu uma ordem que se sucede porque foi assim que Ele a fez e preserve continuamente. Deste modo o escritor sagrado pode falar da sucessão de dia e dia; noite e noite (v. 2) e o sol que, percebido fenomenologicamente, percorre um caminho pré-estabelecido de uma extremidade a outra do céu mantendo o seu calor: há um testemunho constante e permanente (vs. 4-6).[2]

            A compreensão cristã de ordem na criação foi de fundamental importância para o desenvolvimento da ciência. Como sabemos, os pressupostos dos cientistas são de grande relevância na elaboração científica. Tentar negar a existência de pressupostos em nome de uma suposta “neutralidade” seria uma postura pueril e inútil.

            Francis A. Schaeffer (1912-1984), por exemplo, nos chama a atenção para o fato de que “a ciência moderna em seus primórdios foi o produto daqueles que viveram no consenso e cenário do Cristianismo”.[3] À frente, acrescenta: “A mentalidade bíblica é que deu origem à ciência”.[4]

            De fato, independentemente da fé professada pelo cientista, a sua formação, consciente ou não, era cristã. As suas pressuposições teístas – que obviamente orientavam as suas pesquisas – “já vinham no leite materno”.[5] O pressuposto da criação divina foi um incremento fundamental à ciência moderna.[6]

            Hooykaas (1906-1994) conclui o seu brilhante livro usando uma metáfora: “Podemos dizer (…) que, embora os ingredientes corporais da ciência possam ter sido gregos, suas vitaminas e hormônios foram bíblicos”.[7]

Maringá, 24 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]João Calvino, As Institutas, III.20.44.

[2] “O texto é claramente metafórico, e não mitológico: o sol não é uma divindade nem um espírito, mas é simplesmente comparado a alguém que mora em uma tenda. A literatura de Isaías também compara os céus a uma tenda (Is 40.22), uma vez mais enfatizando o poder de Deus, capaz de estender os céus como cortina” (Anthony Tomasino, Ohel: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 293).

[3]Francis A. Schaeffer, A morte da razão, São Paulo: ABU; FIEL, 1974, p. 29. Um dos grandes cientistas do século XX, W. Heisenberg (1901-1976), atesta a ligação da física moderna com Bacon, Galileu e Kepler: “A física moderna não é mais do que um elo na longa cadeia de acontecimentos que se iniciaram com a obra de Bacon, Galileu e Kepler e das aplicações práticas das ciências da natureza nos séculos XVII e XVIII” (Werner Heisenberg, Páginas de reflexão e auto-reflexão, Lisboa: Gradiva, 1990, p. 52). “O trabalho científico do presente século seguiu essencialmente o método descoberto e desenvolvido por Copérnico, Galileu e seus sucessores nos séculos XVI e XVII” (Werner Heisenberg, Páginas de reflexão e auto-reflexão, Lisboa: Gradiva, 1990, p. 80-81).

[4] Francis A. Schaeffer, A morte da razão, São Paulo: ABU; FIEL, 1974, p. 31. Trata desse assunto mais detalhadamente em alguns livros e artigos. Veja-se: Hermisten M.P. Costa, Introdução à cosmovisão Reformada: um desafio a se viver responsavelmente a fé professada, Goiânia, GO.: Cruz, 2017,  p. 376-390.

[5]James W. Sire, O universo ao lado, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 28.

[6]Veja-se: Eugene M. Klaaren, Religious origins of modern science, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1977.

[7]R. Hooykaas, A religião e o desenvolvimento da ciência moderna,Brasília, DF.: Universidade de Brasília, 1988, p. 196.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (30)

O Pão nosso

            Quando Deus nos fornece ordinariamente o sustento por meio de nosso trabalho, Ele está nos mantendo e preservando. Ao orarmos a Oração do Senhor estamos declarando essa confiança de que tudo provém de Deus.

Está implícita nesta oração a certeza da providência de Deus, bem como a necessidade de estarmos sempre atentos a este fato, certos de que o Senhor cuida de nós dia após dia (Sl 37.25).[1]

Calvino está correto ao dizer: “A maior de todas as misérias é o desconhecimento da providência de Deus; e a suprema bem-aventurança é conhecê-la”.[2]

Pão se refere a todas as nossas necessidades

            Como é óbvio, o “pão” aqui – que era a “comida principal de Israel”[3] – significa a nossa comida em geral (1Sm 20.34; Lc 15.17), bem como todas as nossas necessidades físicas (Dt 8.3/Mt 4.4/Lc 4.4).[4] Portanto, o “pão” deve ser entendido, neste contexto, como sendo tudo aquilo que é necessário à nossa vida: alimento, saúde, lar, esposa, filhos, bom governo, paz, vestuário, bom relacionamento social etc.[5] Aprendemos, de forma decorrente, que Deus não menospreza o nosso corpo. Ele não desconsidera as nossas necessidades vitais. Jesus nos ensina a orar também por elas. Deus cuida do homem inteiro; considera-nos como de fato somos, seres integrais, que têm carências próprias que precisam ser supridas. Portanto, corpo e alma são alvos do cuidado mantenedor de Deus.

Labor e confiança em Deus

O nosso labor cotidiano não nos deve levar a confiar nele, mas, em nosso Senhor. Por outro lado, a confiança no suprimento de Deus não deve nos inspirar à ociosidade e letargia supostamente como atestado de fé mas, que na realidade, consiste em tentação a Deus.

Calvino escreve com discernimento:

Os fiéis, em contrapartida, embora vivam uma vida laboriosa, seguem sua vocação com mentes serenas e tranquilas. Assim, as mãos dos fiéis não são ociosas, mas a sua mente descansa na quietude da fé, como se estivessem dormindo.[6]

            No deserto, Deus desafiou o povo a aprender essa lição por meio do maná que lhes era concedido diariamente. Antes mesmo de Deus promulgar o quarto mandamento, Ele ensinou o povo a utilizar bem o seu tempo e a confiar nele.[7] O texto Sagrado registra a instrução divina:

Eis que vos farei chover do céu pão, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu ponha à prova se anda na minha lei ou não. Dar-se-á que, ao sexto dia, prepararão o que colherem, e será dois tantos do que colhem cada dia. (Ex 16.4-5).

            Alguns homens, mais “previdentes”, tentaram ir além da ordem divina, guardaram o maná para o dia seguinte. Resultado: deu bicho, apodreceu e fedeu (Êx 16.20).[8] O desafio de Deus era para que o povo, manhã após manhã renovasse a sua confiança nele, aprendendo a descansar nas suas promessas, sabendo que Deus não falharia, como escreveu Pedro: “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (1Pe 5.7). Somos intimados a descansar em Deus, confiantes de que “assim como nosso Pai nos nutriu hoje, ele não falhará amanhã”.[9]

            O Catecismo de Heidelberg (1563), comenta esta petição em forma de oração:

Digna-te suprir todas as nossas necessidades corporais, a fim de que, por esse motivo reconheçamos que és a única fonte de tudo o que é bom, e que sem tua bênção nem nosso cuidado e trabalho, nem os teus dons podem proporcionar-nos qualquer bem. Consequentemente, que retiremos a nossa confiança de todas as demais criaturas e a ponhamos somente em ti.[10]

Maringá, 24 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão” (Sl 37.25).

[2] João Calvino, As Institutas, I.17.11.

[3] F. Merkel, Pão: In: Colin Brown, ed. ger.  O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 3, p. 444.

[4] Veja-se: a brilhante análise de Barth. (Karl Barth, La Oración, Buenos Aires: La Aurora, 1968, p. 68ss.).

[5] “Aqui agora consideramos o pobre cesto de pão, as necessidades de nosso corpo e da vida temporal. É palavra breve e simples, mas também abrange muito. Pois quando mencionas e pedes ‘o pão de cada dia’, pedes tudo o que é necessário para que se tenha e saboreie o pão cotidiano, e, por outro lado, também pedes que seja eliminado tudo o que o impede. Deves, por conseguinte, abrir e dilatar bem os pensamentos, não só até o forno ou a caixa da farinha, mas até o vasto campo e a terra toda que produz e nos traz o pão de cada dia e toda sorte de alimentos. Porque se Deus não o fizesse crescer, não o abençoasse e conservasse no campo, jamais tiraríamos pão do forno e nenhum teríamos para pôr na mesa.

            “Para sumariá-lo em breves palavras: esta petição quer abranger quanto pertence a toda esta vida no mundo, porque apenas por isso necessitamos de pão cotidiano. Agora, à vida não pertence apenas que o corpo tenha alimento, vestuário e outras coisas necessárias, mas também que seja de tranquilidade e em diário comércio e trato e toda sorte de atividades; em suma, tudo o que se refere às relações domésticas e vizinhais, ou civis e políticas. Pois onde houver obstáculos quanto a essas duas partes, de forma que relativamente a elas as coisas não andem como deveriam andar, aí também está obstaculizado algo que é necessário à vida, de sorte que não se pode conservá-la por tempo dilatado” (M. Lutero, Catecismo Maior:In: Os Catecismos, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, §§ 72-73, p. 467). Veja-se também: John Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan: Baker, (Calvin’s Commentaries, v. 16/1), 1981, p. 323-324.

[6] João Calvino, Salmos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, v. 4, 2009, (Sl 127.2), p. 379.

[7] Gerard Van Groningen, O Sábado no Antigo Testamento: tempo para o Senhor, tempo de alegria Nele (II): In: Fides Reformata,4/1 (1999), p. 133-134.

[8]Eles, porém, não deram ouvidos a Moisés, e alguns deixaram do maná para a manhã seguinte; porém deu bichos e cheirava mal. E Moisés se indignou contra eles” (Êx 16.20).

[9]João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO.: Editora Logos, 2003, Cap. 24, p. 67.

[10] Catecismo de Heidelberg, Pergunta 125. Vejam-se também: Perguntas 26-28.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (29)

O que entendemos por preservação?

            Preservação (conservatio, sustentatio ou preservatio) é a contínua operação do poder de Deus, pela qual Ele sustenta e conserva todas as coisas contingentes – a Criação – a fim de que esta possa cumprir ordenadamente o propósito para o qual foi criada.

            Preservação é o ato contínuo de Deus de sustentar a existência do que Ele mesmo criou. A própria efemeridade das coisas depende de Deus que as trouxe à existência. Sem a criação e preservação de Deus, nada existe. O que existe e enquanto existe é pelo poder de Deus.

A matéria não é autônoma

            Isto significa que a Criação de Deus não tem poderes em si mesma para autoexistir. Se não fosse, a matéria seria autônoma, qualidade que pertence única e exclusivamente a Deus. Sem a sustentação do Senhor, o universo inteiro, tudo o que existe fora de Deus deixaria de existir.

            O escritor de Hebreus, registra:

Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando (fe/rw) todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas. (Hb 1.3).

A criação cumpre o seu propósito

            A ideia de “sustentação” no texto (fe/rw = “levar”, “carregar”), além de preservação, é a de fazer com que as coisas sigam o seu rumo, o seu propósito determinado por Deus;[1] “encerra a ideia de controle ativo e deliberado da coisa que se carrega de um lugar a outro”.[2]

            Turretini (1623-1687) interpreta corretamente:

Se foi glorioso para Deus criá-las, não deve ser-lhe inconveniente velar por elas. Não só isso: como as criou, assim ele se obriga a conservá-las e continuamente, uma vez que jamais abandona sua obra, senão que está perpetuamente presente com ela, para que não mergulhe outra vez na nulidade.[3]

O descanso em contentamento: transição da criação para preservação

            As Escrituras registram que Deus após ter criado todas as coisas: nos céus e na terra; no sétimo dia, descansou da obra da criação.[4] Deus completou o que iniciou.[5] Temos então, negativamente, a conclusão de sua obra criativa e, positivamente, a santificação do sétimo dia (Gn 2.2-3).[6] A palavra sábado não ocorre na narrativa de Gênesis, contudo, é-nos dito posteriormente em linguagem antropomórfica: “Porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado (tB’v;) (shãbbath) e o santificou” (Ex 20.11).Posteriormente, isto é reafirmado, dizendo que nesta ocasião Deus “descansou, e tomou alento” (Ex 31.17).

            Van Dyke, escreve com precisão: “Deus não descansa da fadiga, mas em contentamento pela realização completada”.[7] De fato, Ele concluiu seus atos criativos que visam adornar o mundo em seu estado primeiro.[8] Aqui temos a transição da criação para a preservação divina.[9] Deus cria e preserva todas as coisas. Ele continuou preservando e sustentando a sua obra, como sempre o faz.[10] Do mesmo modo, o povo de Deus, juntamente com todos os seus, seguindo o seu Criador, deve tomar alento nesse dia (Ex 23.12)[11] e rememorar o que pôde fazer em suas múltiplas relações durante a semana, reconhecendo em suas conquistas e progressos a graça de Deus.

A Criação não pode ser considerada separadamente de Deus

A natureza como a criação em geral não pode ser considerada separadamente de Deus pois deste modo ou ela tornar-se-ia o centro de todas as coisas (idolatria) ou, sendo menosprezada, tornar-se-ia apenas um detalhe cósmico o qual o homem pode usar a seu bel-prazer com objetivos egoístas e, portanto, destruidores.

É impossível uma genuína ecologia divorciada da teologia bíblica. A questão “ecológica” é, antes de tudo, uma questão teológica.[12]

            Sem a preservação de Deus nada mais existiria; tudo teria voltado ao nada. Por isso, podemos afirmar sem nenhum constrangimento, que até mesmo Satanás e os seus anjos, são alvos da bondade mantenedora de Deus; sem a sustentação divina, eles voltariam ao nada, que é a ausência do ser.  Vejam-se: Dt 33.12, 25-28; 1Sm 2.9; Ne 9.6; Jó 33.4/Jó 34.14-15/Sl 104.29; 145.14,15; At 17.28; Cl 1.17; Hb 1.3.

            O socorro de Deus para com os seus servos, é uma forma de preservação: Gn 28.15; Ex 14.29,30; Dt 1.30,31; Sl 91.3,4,7,9,10,14;[13] 121.3,4,7,8; Is 40.11; 41.9-15; 43.2; Lc 21.18; 1Co 10.13; 1Pe 3.12; Ap 3.10.[14]

Maringá, 24 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Ele sustenta o universo, não como Atlas que suporta um peso morto sobre seus ombros, senão como aquele que leva todas as coisas até a meta prefixada” (F.F. Bruce, La Epistola a los Hebreos, Buenos Aires: Nueva Creacion, 1987, (Hb 1.3), p. 7).

[2] Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 248. “Sustentar é usado no sentido de cuidar e de conservar toda a criação em seu próprio estado. Ele percebe que tudo se desintegraria instantaneamente se não fosse sustentado por sua munificência” (João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 1.3), p. 36).

[3]François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 627.

[4] Notemos que Deus cessou a obra da criação, não de preservação (Jo 5.17). “O termo em si (descansou) não significa ociosidade, inatividade completa. Significa parar de fazer alguma coisa, ficar livre da mesma. Humanamente falando, isso pode ser dito de Deus em relação à sua obra criadora” (Gerard Van Groningen, O Sábado no Antigo Testamento: tempo para o Senhor, tempo de alegria nele (II): In: Fides Reformata, Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 4/1 (1999), p. 133). Ver também: Gerard Van Groningen, O Sábado no Antigo Testamento: tempo para o Senhor, tempo de alegria nele: In: Fides Reformata, Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 3/2 (1998), p. 156).

[5]“Deus está enfatizando nesta passagem que, sendo um Deus fiel, Ele completa o que começa” (Gerard Van Groningen, O Sábado no Antigo Testamento: tempo para o Senhor, tempo de alegria nele: In: Fides Reformata,3/2 (1998), p. 163). Do mesmo modo: Geerhardus Vos, Teologia Bíblica do Antigo e Novo Testamentos, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 174.

[6]Cf. C.F. Keil; F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament,Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, (s.d.), v. 1, (Gn 2.1-3), p. 68.

[7]Fred Van Dyke, et. al.,A Criação Redimida,São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 86. Do mesmo modo, Kidner: “É o repouso da realização cumprida, não da inatividade, pois Ele nutre o que cria” (Derek Kidner, Gênesis: introdução e Comentário,São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1979, (Gn 2.1-3), p. 50).

[8]“Deus sustenta o mundo por seu poder, governa-o por sua providência, nutre e propaga todas as criaturas, ele está sempre em atividade. (…) Se Deus apenas afastasse sua mão sequer um pouquinho, todas as coisas pereceriam imediatamente e se dissolveriam em nada. (…) Deus só é corretamente reconhecido como o Criador do céu e terra quando sua perpétua preservação lhe é atribuída” (John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis,Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin Commentarie’s) 1996 (Reprinted), v. 1, (Gn 2.2), p. 103-104). Vejam-se também: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 2002, v. 3, (Sl 104.29), p. 628-629; Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis, São Paulo: Paulus, 2005 (Coleção Patrística; 21), IV.12, p. 133-135; Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 604.

[9] “Seu poder não cessou, mesmo no sétimo dia, no governo do céu e da terra e de todas as coisas que criara, pois do contrário em seguida se desfariam. De fato, o poder do Criador e a virtude do Onipotente e do Mantenedor é causa da subsistência de toda a criatura” (Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis, São Paulo: Paulus, 2005 (Coleção Patrística; 21), IV.12, p. 133).

[10] “Deus não descansou literalmente, Ele simplesmente terminou a sua obra de Criação. Se Ele tivesse descansado, tudo o que Ele havia feito nos primeiros seis dias teria se desintegrado. Deus não se cansa; Ele esteve tão ativo no sétimo dia como estivera nos outros seis – sustentando tudo que Ele havia feito” (John F. MacArthur, Jr., Deus: face a face com sua Majestade, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 97).

[11]“Seis dias farás a tua obra, mas, ao sétimo dia, descansarás; para que descanse o teu boi e o teu jumento; e para que tome alento o filho da tua serva e o forasteiro” (Ex 23.12).

[12]Veja-se: Fred van Dyke, et. al. A Criação Redimida, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 90ss. Francis A. Schaeffer, Poluição e a Morte do Homem, passim. Sobre o panteísmo moderno, ver, em especial, o segundo capítulo, intitulado: “Panteísmo: O Homem é semelhante ao capim”, p. 17ss.

[13] “Neste Salmo (Salmo 91) somos ensinados que Deus vigia sobre a segurança de seu povo e jamais o abandona nos momentos de perigo.  São exortados a avançar pelo meio dos perigos na confiança de sua proteção. A verdade inculcada é de uma grande utilidade prática, pois embora muitos falem tanto da providência divina e confessem crer que Deus exerce uma vigilância especial sobre seus próprios filhos, poucos são aqueles que realmente se dispõem a confiar-lhe sua segurança” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 2002, v. 3, (Sl 91), p. 444).

[14] Esses assuntos relacionados à Criação e Preservação, discuto com mais vagar em meu livro, O homem no teatro de Deus: providência, tempo, história e circunstância, Eusébio, CE.: Peregrino, 2019,  p. 117-142.

Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (28)

3) Preserva a Criação

Pelo fato de Deus ser o Todo-Poderoso, Ele pode determinar livremente as suas ações, o que de fato faz, manifestando tal poder nos seus decretos.[1]

            Deus eternamente tem diante de si uma infinidade de possibilidades de “decisões” sobre todas as coisas. Entretanto, ele “decidiu”[2] fazer do modo como fez por seus próprios motivos, sem que haja a possibilidade de influência de ninguém, nem de anjos, nem de homens, visto que nenhum deles havia sido ainda criado e, também, porque Deus não necessita de conselhos (Is 40.13,14; Rm 11.33-36).[3] O plano de Deus é sempre o melhor, porque foi ele quem sábia e livremente o escolheu!

            Desse modo, podemos dizer que as coisas que são, existem por decisão de Deus. Somente Ele como Criador que é, pode também preservar todas as coisas. Bavinck (1854-1921), de forma sumária afirma: “Sem Ele, não há existência nem propriedade. Somente Ele tem autoridade absoluta. Sempre e em toda parte Ele decide”.[4]

            Deus não somente criou o universo e, portanto, é o seu dono, mas, também o sustenta. Deus é o Senhor criador e preservador, conduzindo a realidade de forma teleológica de maneira que os fins estabelecidos por Ele mesmo se consumem por meio das causas secundárias conforme as suas propriedades e, no caso do ser humano, de acordo com o uso de sua livre agência.

Portanto, o Senhor não abriu mão de sua criação, antes, a mantém sob o seu cuidado. É no exercício contínuo de seu poder, por exemplo, que as leis que regulam o universo foram criadas e são preservadas. 

 Desse modo, não há autonomia em nenhuma criatura fora de Deus. Diversos salmos revelam essa compreensão:

Tu, SENHOR, preservas os homens e os animais. (Sl 36.6).

Reina o SENHOR. (…) Firmou o mundo, que não vacila. (Sl 93.1).

Dizei entre as nações: Reina o SENHOR. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga os povos com equidade. (Sl 96.10).

         No Salmo 65 lemos que Deus mantém a Criação (Sl 65.6) e o controle sobre as estações,[5] a natureza e os povos (Sl 65.7). Duas possíveis ameaças para o homem estão sob o controle de Deus: O mar bravio e o tumulto das gentes:

6 que por tua força consolidas os montes, cingido de poder;    7 que aplacas o rugir dos mares, o ruído das suas ondas e o tumulto das gentes. 8 Os que habitam nos confins da terra temem os teus sinais; os que vêm do Oriente e do Ocidente, tu os fazes exultar de júbilo. 9 Tu visitas a terra e a regas; tu a enriqueces copiosamente; os ribeiros de Deus são abundantes de água; preparas o cereal, porque para isso a dispões, 10 regando-lhe os sulcos, aplanando-lhe as leivas. Tu a amoleces com chuviscos e lhe abençoas a produção.11 Coroas o ano da tua bondade; as tuas pegadas destilam fartura, 12 destilam sobre as pastagens do deserto, e de júbilo se revestem os outeiros. 13 Os campos cobrem-se de rebanhos, e os vales vestem-se de espigas; exultam de alegria e cantam. (Sl 65.6-13). (Destaques meus)

            Deus cumpriu a sua promessa que fizera no deserto:

A terra que passais a possuir é terra de montes e de vales; da chuva dos céus beberá as águas; terra de que cuida o SENHOR, vosso Deus; os olhos do SENHOR, vosso Deus, estão sobre ela continuamente, desde o princípio até ao fim do ano. (Dt 11.11-12).

            Além do poder de Deus manifesto, todos esses sinais são entendidos como manifestações da bondade de Deus (Sl 65.11).

Semelhante interpretação é dada por Paulo pregando em Listra: “Não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo os vossos corações de fartura e de alegria”(At 14.17).

Maringá, 20 de setembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Veja-se: Confissão de Westminster(1647), Capítulo III.

[2] Reconheço que a palavra decisão não é a melhor, pois, pressupõe a ideia de algo anterior à decisão; no entanto, não disponho de outra melhor. A ideia é que eternamente Deus sempre teve diante de si as escolhas e eternamente as fez livre e soberanamente. (Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 246).

[3]33Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! 34 Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? 35 Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? 36 Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.33-36).

[4] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 235.

[5]“Cada primavera é como uma visita divina” (F.B. Meyer, Joyas De Los Salmos, 2. ed. Buenos Aires: Casa Bautista de Publicaciones, v. 1, (Sl 65.9), p. 68).