“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (7)

2.4. Jesus Cristo, fonte eficaz

Jesus Cristo alcança a satisfação de seu objetivo: Os que receberam o seu testemunho foram aqueles que o Pai os confiou; os seus escolhidos.

Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra. 7 Agora, eles reconhecem que todas as coisas que me tens dado provêm de ti; 8 Porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste. (Jo 17.6-8).

2.5. Jesus Cristo, fonte capacitante

 O apóstolo João no final de seus dias nos mostra que Jesus Cristo é quem nos dá um pensamento dirigido para Deus: “Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento  (diánoia)[1] para reconhecermos  (ginw/skw) o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1Jo 5.20).  

Notemos que o reconhecimento do Verdadeiro passa pelo entendimento, não simplesmente por uma emoção ou sensação. Jesus Cristo nos capacita em verdade a enxergar a revelação que estava diante de nós e não a conseguíamos discernir. Devido ao pecado, o instrumental (razão, sensação) de que dispomos, tornou-se totalmente ineficaz para conhecer a Deus.

Calvino (1509-1564) faz uma analogia: “O homem, com toda a sua astúcia, é tão estúpido para entender por si mesmo os mistérios de Deus, como um asno é incapaz de entender a harmonia musical”.[2] Portanto, o conhecimento de Deus é resultante de sua graça capacitante.[3] A consciência desse privilégio deve nos conduzir ao seu exercício em adoração.[4]

Maringá, 04 de janeiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] dia/noia, pensamento, disposição, entendimento, inteligência, a mente como o órgão do pensamento, de interpretação. No texto de Efésios, Calvino interpreta a palavra como sendo a própria capacidade de pensar (João Calvino, Efésios,(Ef 4.17), p. 134). (Deus deseja que O amemos com toda a nossa dia/noia (Mt 22.37; Mc 12.30; Lc 10.27). É Deus quem ilumina os olhos de nosso coração para que possamos ter a dia/noia (compreensão) espiritual (Ef 1.18/1Jo 5.20). Antes disso éramos inimigos de Deus em nossa dia/noia (Cl 1.21); no entanto, Deus imprimiu, conforme a profecia cumprida em Cristo, a sua lei em nossa dia/noia (Hb 8.10; 10.16). A nossa dia/noia, portanto, deve ser revestida com a Palavra a fim de permanecer esclarecida (2Pe 3.1/1Pe 1.13). Devemos tomar cuidado para que os nossos pensamentos não se tornem arrogantes (Lc 1.51)

[2]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios,São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 1.20), p. 60.

[3] “Conhecer a Deus é o dom supremo da graça de Deus” (J.I. Packer, Conhecendo Deus: o mundo e a Palavra. In: Gabriel N.E. Fluhrer, ed. Firme Fundamento: A inerrante Palavra de Deus em um mundo errante, Rio de Janeiro: Anno Domini, 2013, p. 16).

[4] “O conhecimento da grandiosidade de Deus deveria tanto nos humilhar (nos diminuir!) quanto nos elevar à adoração” (J.I. Packer, A Oração do Senhor, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 32).

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (6)

2.3. Jesus Cristo, a única fonte infalível e completa

1) A Criação como fonte de conhecimento de Deus

 Deus como causa primeira de todo o conhecimento, proporciona ao homem por intermédio da sua Criação, a natureza, a oportunidade e responsabilidade de conhecer a realidade do mundo físico.

2) Limites da natureza & limites do homem pecador

Devemos nos lembrar de que este conhecimento não é completo nem absolutamente claro, visto que o pecado pôs seu selo sobre a Criação, obscurecendo o entendimento do homem e, a própria natureza perdeu parte da sua eloquência primeva.[1]

Meeter (1886-1963) escreve:

Contudo, ainda hoje a natureza, é um espelho no qual se refletem as glórias de Deus. Sem embargo, por causa do pecado, pode-se dizer que este espelho está deformado. Como é bem sabido, um espelho côncavo reflete as coisas de uma forma grotesca e distinta de como realmente são”.[2]

Todavia, a História, a Natureza e o homem, como parte desta, refletem algo do seu Criador, “o homem, por haver sido criado à imagem de Deus, nos revela muito sobre o ser do Criador”, resume Meeter.[3] (Sl 139.14).

Deus expressa o seu pensamento e a sua vontade no mundo, na Criação, envolvendo o homem com a manifestação visível da sua glória que é proclamada, apesar do pecado, de forma fecunda nas obras da Criação (Sl 19.1; At 14.17). Por isso, os homens são indesculpáveis (Rm 1.19,20).[4]

Calvino (1509-1564) acentua que,

A aparência do céu e da terra compele até mesmo os ímpios a reconhecerem que algum criador existe (…). Certamente que a religião nem sempre teria florescido entre todos os povos, se porventura as mentes humanas não se persuadissem de que Deus é o Criador do mundo.[5]

Deus, o mundo e o homem são as três realidades com as quais toda a ciência e toda filosofia se ocupam.[6] Pois bem, se Deus não tivesse primeiramente, de forma livre e soberana se revelado (Sl 115.3; Rm 11.33-36) – concedendo ao homem o universo como meio externo de conhecimento que funciona com as suas leis próprias e regulares –, toda e qualquer ciência seria impossível. O mundo, inclusive o homem, é o grande laboratório de todas as ciências. Só que, quem “construiu” este laboratório foi Deus, e deixou ao homem a responsabilidade de estudá-lo, descobrindo os “enigmas” que estão por trás das leis que funcionam de acordo com as prescrições do seu Criador.

3) Deus continua a dar testemunho por meio da Criação

  Deus não criou o mundo apenas para satisfazer a curiosidade humana. Deus o fez como testemunho da sua glória: “A grande finalidade da criação foi a manifestação da glória de Deus”, instrui-nos Pink (1886-1952).[7]

Deus ainda hoje não deixou de dar testemunho da sua existência e bondoso cuidado para com o homem (At 14.17)[8].[9] Deus está ativo, preservando a sua criação para o fim proposto por ele mesmo.[10]     

 “Deus não é mero espectador do universo que Ele criou. Ele está presente e ativo em todas as partes, como o fundamento que sustenta tudo e o poder que governa tudo o que existe”, enfatiza Boettner (1901-1990).[11]

A Bíblia atesta este fato amplamente. (Vejam-se: Ne 9.6; At 17.28; Ef 4.6; Cl 1.17; Hb 1.3).[12] Deus faz todas as coisas “conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11/Sl 115.3).

O homem natural pode não saber disso, pode não aceitar e até combater tal “absurdo”, entretanto, o que o homem pode fazer contra a verdade? (2Co 13.8).

O que são os argumentos que tentam negar a existência de Deus, senão fruto de uma falsa interpretação da revelação Geral de Deus?!

Calvino (1509-1564), discorrendo sobre a revelação de Deus na natureza, diz:

Em toda a arquitetura de seu universo, Deus nos imprimiu uma clara evidência de sua eterna sabedoria, munificência e poder; e embora em sua própria natureza nos seja ele invisível, em certa medida se nos faz visível em suas obras. O mundo, portanto, é com razão chamado o espelho da divindade, não porque haja nele suficiente clareza para que os homens alcancem perfeito conhecimento de Deus, só pela contemplação do mundo, mas, porque ele se faz conhecer aos incrédulos de tal maneira que tira deles qualquer chance de justificarem sua ignorância. (…) O mundo foi fundado com esse propósito, a saber: para que servisse de palco à glória divina.[13]

Este mundo é semelhante a um teatro onde Senhor exibe diante de nós um surpreendente espetáculo de sua glória.[14]

Após o mundo ser criado, o homem foi nele posto como em um teatro, para que ele, contemplando acima e abaixo as maravilhosas obras de Deus, reverentemente adorasse seu Autor.[15]

4) Jesus Cristo como a Palavra final

Somente Jesus Cristo é a Revelação completa e infalível do Pai. Nele não há ambiguidade, confusão ou parcialidade. Tudo que Deus nos quer revelar, manifestou em Cristo. Ele é a medida da revelação de Deus. Nele temos a revelação e a única possibilidade concreta e definitiva de conhecimento real.

Sire (1933-2018) escreveu de modo esclarecedor:

Jesus Cristo é a revelação final e especial de Deus. Porque Jesus Cristo era verdadeiramente Deus Ele nos mostrou mais plenamente com quem Deus era semelhante do que qualquer outra forma de revelação. Porque Jesus foi também completamente homem, Ele falou mais claramente a nós do que pode fazê-lo qualquer outra forma de revelação.[16]

O Senhor declara: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (a)pokalu/ptw) (Mt 11.27).

Jesus Cristo diz aos seus discípulos: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”(Jo 14.6). Na sequência, Filipe, seu discípulo, ainda não entendendo perfeitamente o que Ele dissera, suplica: “…. Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”(Jo 14.8).

Obtém, então, a resposta:

Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?  Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (Jo 14.9-10).

A maneira como Jesus Cristo mostrou o Pai é superior a todas as outras revelações. Ele O conhece perfeitamente. É eternamente o Seu Filho. Ele é o Deus encarnado. Jesus Cristo é o clímax da revelação de Deus. É a Palavra Final de Deus. Nele temos não uma metáfora ou um sinal, antes, temos o próprio Deus que se fez homem na história.

É o que nos diz de forma belíssima, o escritor de Hebreus:

Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.  Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. (Hb 1.1-4).

“No Filho temos a revelação última de Deus. Da mesma forma como é verdade que quem viu o Filho viu o Pai, também é verdade que quem não viu o Filho, não viu o Pai”, escreve Hendriksen (1900-1982).[17] Jesus Cristo, a plenitude da graça encarnada. É a medida da revelação; o seu padrão e apelo final!

Bavinck (1854-1921) exulta:

A plenitude do ser de Deus é revelada nEle. Ele não apenas nos apresenta o Pai e nos revela Seu nome, mas Ele nos mostra o Pai em Si mesmo e nos dá o Pai. Cristo é a expressão de Deus e a dádiva de Deus. Ele é Deus revelado a Si mesmo e Deus compartilhado a Si mesmo, e, portanto, Ele é cheio de verdade e também cheio de Graça.[18]

Não há nenhum outro modo de conhecer genuína e salvadoramente a Deus, senão por meio de Jesus Cristo, que é a imagem perfeita e radiante de Deus; é o Deus encarnado.

Maringá, 04 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Veja-se: C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação,São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 72.

[2] H.H. Meeter, La Iglesia y Estado,3. ed. Grand Rapids, Michigan: TELL., (s.d), p. 28.

[3]H.H. Meeter, La Iglesia y Estado,p. 26. Calvino comentou: “Por esta causa, alguns dos filósofos antigos chamaram, não sem razão, ao homem, microcosmos, que quer dizer mundo em miniatura; porque ele é uma rara e admirável amostra do grande poder, bondade e sabedoria de Deus, e contém em si milagres suficientes para ocupar nosso entendimento se não desdenharmos considerá-los” (J. Calvino, As Institutas,I.5.3). Comentando Gênesis 5.1, Calvino diz que Moisés repetiu o que ele havia dito antes, porque“a excelência e a dignidade desse favor não poderia ser suficientemente celebrada. Foi sempre uma grande coisa, que o principal lugar entre as criaturas foi dado ao homem” (John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis,Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (Reprinted), v. 1, p. 227. (Veja-se também:  J. Calvino, As Institutas,II.1.1).

[4] “Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis” (Rm 1.19-20).

[5]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.3), p. 299.Veja-se também: R.C. Sproul, Somos todos teólogos: uma introdução à Teologia Sistemática, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2017, p. 36-37. (Vejam-se: João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.3), p. 299;  R.C. Sproul, Estudos bíblicos expositivos em Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 31-40).

[6]Herman Bavinck, The Philosophy of Revelation,New York: Longmans, Green, and Company, 1909, p. 83.

[7] A.W. Pink, Deus é Soberano,São Paulo: Fiel, 1977, p. 84.

[8]“Contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria”(At 14.17).

[9] “A finalidade de conhecer a Deus através de sua criação é inerente à vocação do homem na terra” (Hendrik van Riessen, Enfoque Cristiano de la Ciencia, 2. ed. Países Bajos: FELIRE, 1990, p. 64).

[10]Preservação é o ato contínuo de Deus de sustentar a existência do que Ele mesmo criou. A própria efemeridade das coisas depende de Deus que as trouxe à existência. Sem a criação e preservação de Deus, nada existe. O que existe e enquanto existe é pelo poder de Deus.

            Isto significa que a Criação de Deus não tem poderes em si mesma para autoexistir. Se não fosse, a matéria seria autônoma, qualidade que pertence única e exclusivamente a Deus. Sem a sustentação do Senhor, o universo inteiro, tudo o que existe fora de Deus deixaria de existir. O escritor de Hebreus, registra: “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando (fe/rw) todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas” (Hb 1.3).

            A ideia de “sustentação” no texto (fe/rw = “levar”, “carregar”), além de preservação, é a de fazer com que as coisas sigam o seu rumo, o seu propósito determinado por Deus; “encerra a ideia de controle ativo e deliberado da coisa que se carrega de um lugar a outro” (Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 248. “Sustentar é usado no sentido de cuidar e de conservar toda a criação em seu próprio estado. Ele percebe que tudo se desintegraria instantaneamente se não fosse sustentado por sua munificência” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo:  Paracletos, (Hb 1.3), p. 36).

            Turretini (1623-1687) interpreta corretamente: “Se foi glorioso para Deus criá-las, não deve ser-lhe inconveniente velar por elas. Não só isso: como as criou, assim ele se obriga a conservá-las e continuamente, uma vez que jamais abandona sua obra, senão que está perpetuamente presente com ela, para que não mergulhe outra vez na nulidade” (François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 627). Para um estudo mais detalhado, veja-se: Hermisten M.P. Costa, O homem no Teatro de Deus: providência, tempo, história e circunstância,  Eusébio, CE.: Peregrino, 2019, p. 107-126.

[11]L. Boettner, La Predestinación,Grand Rapids, Michigan: TELL. (s.d.), p. 33.

[12]Veja-se: Confissão de Westminster,Cap. V.

[13] João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 11.3), p. 300-301.

[14]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 1.21), p. 63.

[15] John Calvin, Commentaries on The First Book of Moses Called Genesis,Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (Reprinted), v. 1, p. 64.

[16]James W. Sire, O Universo ao Lado, São Paulo: Hagnos, 2004, p. 40.

[17]William Hendriksen, O evangelho de João, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, (Jo 14.9) p. 657.

[18]Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 25-26.  

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (5)

2. Revela-nos a natureza de Deus (6-8)

Deus, livre e soberanamente, se dá a conhecer a nós. Por meio da Palavra podemos conhecer fidedignamente a Deus, os seus atos e as suas reivindicações.

A Palavra foi-nos concedida para que a recebamos. Deste modo, creiamos em Deus e nos relacionemos com Ele de modo pessoal e amoroso. Isso explica a tentativa constante por parte dos inimigos de Deus em destruir a Bíblia, lançando dúvidas, ridicularizando-a ou simplesmente a ignorando. No entanto, os discípulos de Cristo a recebem como Palavra de Deus (6,8). Este assunto será desenvolvido mais à frente.

2.1. O Sentido de “Manifestar”

Jesus Cristo em sua oração, diz:

Manifestei (fanero/w)[1] o teu nome (o)/noma) aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra. Agora, eles reconhecem que todas as coisas que me tens dado provêm de ti; porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste. (Jo 17.6-8).

Eu lhes fiz conhecer (gnwri/zw) o teu nome(o)/noma) e ainda o farei conhecer (gnwri/zw), a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja. (Jo 17.26).

Ele declara que trouxe à luz, proclamou, publicou o nome de Deus aos discípulos que lhe foram confiados.

2.2. Jesus Cristo como fonte autoritativa e fiel

Quando o Senhor Jesus nos mostra o Pai, não está inventando ou apresentando apenas uma versão alternativa fruto de um contexto específico. Não que uma versão seja mentirosa em si, mas, revela uma perspectiva, ainda que podendo ser verdadeira, porém, limitada do fato ou do objeto.

Jesus Cristo, no entanto, é a Palavra definitiva e final do Pai. É o próprio Deus encarnado.  No batismo de Jesus, o Pai após declarar seu amor pelo filho, diz: “A ele ouvi (a)kou/w) (Mt 17.5). Portanto, Ele é a fonte autoritativa. É o próprio Pai quem credencia publicamente o seu Filho como portador autêntico e completo de sua mensagem.

Os discípulos ouviram a palavra do Pai. Registra Mateus: “Ouvindo-a (a)kou/w) os discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo”(Mt 17.6).

A palavra autoritativa de Jesus gerava sentimentos e reações diferentes e contraditórias. Enquanto, por exemplo, fascinava o povo, era rejeitada com ódio pelos líderes religiosos:

Diariamente, Jesus ensinava no templo; mas os principais sacerdotes, os escribas e os maiorais do povo procuravam eliminá-lo (a)po/llumi) (= matar,[2] assassinar[3]); 48 contudo, não atinavam em como fazê-lo, porque todo o povo, ao ouvi-lo (a)kou/w), ficava dominado por ele. (Lc 19.47-48).

Aqueles que ouviam a respeito de Jesus por intermédio de João Batista, seguiam a Jesus:

34 Pois eu, de fato, vi e tenho testificado que ele é o Filho de Deus. 35 No dia seguinte, estava João outra vez na companhia de dois dos seus discípulos 36 e, vendo Jesus passar, disse: Eis o Cordeiro de Deus! 37 Os dois discípulos, ouvindo-o (a)kou/w) dizer isto, seguiram Jesus. 38 E Jesus, voltando-se e vendo que o seguiam, disse-lhes: Que buscais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde assistes? 39 Respondeu-lhes: Vinde e vede. Foram, pois, e viram onde Jesus estava morando; e ficaram com ele aquele dia, sendo mais ou menos a hora décima. 40 Era André, o irmão de Simão Pedro, um dos dois que tinham ouvido (a)kou/w) o testemunho de João e seguido Jesus. (Jo 1.34-40).

O Senhor Jesus usou de sua autoridade para cumprir com fidelidade o seu ministério. Por isso mesmo, Ele é fiel em seu testemunho. Deste modo, pôde declarar de modo verdadeiro ao Pai esse aspecto fundamental de seu ministério: “Porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste” (Jo 17.8). “Eu lhes tenho dado a Tua palavra” (Jo 17.14).

No Apocalipse, fazendo eco à declaração de Jesus Cristo, Ele é identificado como a fiel testemunha”(Ap 1.5),[4] da parte de quem João fala.

Maringá, 04 de fevereiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]O verbo Fanero/w, palavra derivada de (fw=j = “luz”), significa revelar, tornar conhecido, mostrar, manifestar.

[2] Mt 2.13/Mc 11.18.

[3]Lc 11.51.

[4] “E da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados” (Ap 1.5).

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (4)

Algumas aplicações

1. Aprendamos de Cristo o seu senso de correta e verdadeira prioridade: “Tendo Jesus falado estas coisas, levantou os olhos ao céu e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti” (Jo 17.1). O seu grande e único propósito, ao qual todos os outros se adequavam, era glorificar o Pai (Jo 17.4).[1]

2. Nós que somos levados a ler a Bíblia apenas para encontrar conforto para os nossos corações cansados, devemos entender que, primeira e significativamente a Palavra nos conduz ao nosso encontro com Cristo; com a sua Pessoa Santa e Majestosa. Sei que o leitor estabelece um diálogo de ressignificação com o que lê.[2] No entanto, quando estamos diante da Palavra de Deus, devemos procurar entender em um primeiro momento, o propósito do Espírito naquele texto, propósito esse que, por vezes, ultrapassa e abrange o propósito do autor secundário que o registrou, o qual nem sempre tinha um alcance da mensagem que transmitia. Num segundo momento, extrair, por graça, as aplicações daquela mensagem para nós, especialmente, na situação concreta na qual nos encontramos. O caminho a ser seguido é o da leitura, meditação, oração e obediência.

3. No Catecismo de Genebra (1541/2), nas primeiras duas perguntas, lemos:

Mestre: Qual é o fim principal da vida humana?
Discípulo: Conhecer os homens a Deus Seu Criador”.
Mestre: Por que razão chamais este o principal fim?
Discípulo: Porque nos criou Deus e pôs neste mundo para ser glorificado em nós. E é coisa justa que nossa vida, da qual Ele é o começo, seja dedicada à Sua glória.[3]

4. O Catecismo Menor de Westminster, à pergunta nº 1, “Qual é o fim principal do homem?”, responde: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre” (Ver: Is 43.7; 60.21; 61.3; Rm 11.36; 14.7-8; 1Co 10.31; Ef 1.5-6).

5. A felicidade do homem está condicionada ao seu genuíno conhecimento de Deus. Ela está subordinada à Glória de Deus. Só obtemos uma visão adequada dos objetivos secundários quando conseguimos enxergar corretamente o fim principal. O homem só descobre o sentido da vida e da eternidade, quando, pelo Espírito, consegue compreender que o fim principal de todas as coisas é a Glória de Deus e, então, passa a viver para este fim (1Co 10.31; Cl 3.23).

Calvino (1509-1564), então, aconselha: “Não busquemos nossos próprios interesses, mas antes aquilo que compraz ao Senhor e contribui para promover sua glória”.[4]

6. A aceitação do testemunho de Cristo implica fé na sua Pessoa: “Porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram  que saí de ti, e creram que tu me enviaste”(Jo 17.8).

7. O único caminho para conduzir alguém a Cristo é por meio da Palavra: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra” (Jo 17.20).

8. Aprendamos de Jesus Cristo, a sua obediência perfeita: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer (Jo 17.4). O grande prazer de Jesus Cristo consistia em fazer a vontade do Pai: “Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.34).[5]

A igreja glorifica a Deus sendo-lhe obediente. “O propósito geral da minha salvação e da sua é que nós glorifiquemos o Pai. (…) O alvo, o objetivo supremo da nossa salvação é que glorifiquemos a Deus”, orienta-nos Lloyd-Jones.[6]

Fé é obediência oculta. A obediência é a fé manifestada. Obedecer é fé em exercício. Parte do fruto da obediência é obedecer.[7] Obedecer é gratidão proveniente da graça.[8] Dito de outro modo: Obedecer é graça que se manifesta em gratidão.

O Espírito dirige a Igreja na glorificação de Cristo, ensinando-lhe a obediência proveniente da fé.[9] A obediência é fruto da genuína fé. “Só o crente é obediente, e só o obediente é que crê”, afirma Bonhoeffer (1906-1945).[10] Nada que seja circunstancialmente bom e agradável pode ser essencialmente bom se consistir em atitudes e comportamentos que desobedeçam a Deus.

Na obediência a Cristo, a Igreja o glorifica. O Espírito que cumpre seu Ministério obedientemente (Jo 16.13-14),[11] conduz a Igreja a ser a glorificação de Cristo em sua obediência (Jo 17.9,10).[12]

Maringá, 28 de janeiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Ele veio para glorificar Seu Pai, e é isso que Ele quer fazer acima de tudo mais. E agora, quando vai deixar estas pessoas, além e acima da Sua preocupação com a morte está a Sua preocupação com a glória de Deus: é a única coisa que importa” (D.M. Lloyd-Jones, Seguros Mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 13).

[2] Entre tantas obras e autores que fazem essa abordagem, sugiro, pela brevidade,  Roger Chartier, A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII,  Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1999, p. 11ss. Para uma leitura mais densa, veja-se, entre outras de suas obras, Michel de Certeau, A invenção do Cotidiano: 1. Artes de fazer, 22. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 2019 (4ª reimpressão), p. 236ss. Para uma aplicação da questão da subjetividade na construção histórica, veja-se: Hermisten M.P. Costa, História e Método: uma relação complexa vista por um teólogo. In: Revista Ciências da Religião – História e Sociedade, São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, Jan./Jul. 2016, v. 14, n. 1, 179-216. (Disponível em: http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cr/article/view/10286).

[3]John Calvin, Catechism of the Church of Geneva, perguntas 1 e 2. In: John Calvin, Tracts and Treatises on the Doctrine and Worship of the Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1958, v. 2, p. 37. Em outro lugar, Calvino escreve: “A glória de Deus é a finalidade mais elevada, à qual a nossa santificação está subordinada” (João Calvino, Efésios,São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.4), p. 25).

[4]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã,São Paulo: Novo Século, 2000, p. 30. De forma semelhante: “Não busquemos as cousas que são nossas, mas aquelas que não somente sejam da vontade do Senhor, como também contribuam para promover-lhe a glória” (João Calvino, As Institutas, III.7.2).

[5] Ver também: Jo 5.30; 6.38. “Cristo é o exemplo de perfeita obediência, para que todos quantos são dele se esforcem zelosamente por imitá-lo, e juntos respondam ao chamado de Deus e confirmem sua vocação ao longo de toda a sua vida, pronunciando sempre estas palavras: ‘Eis aqui estou para fazer a tua vontade’.” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo:  Paracletos, (Hb 10.7), p. 259).

[6]D.M Lloyd-Jones, Salvos desde a Eternidade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 1), p. 47,48. “Ora, a vida eterna e imortal só pode ser encontrada em Deus. Portanto, é necessário que a principal preocupação e solicitude de nossa vida seja buscar a Deus, aspirá-lo com toda a afeição de nosso coração e descansar nele somente” (João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003,Cap. 1, p. 11).

[7]Veja-se: Matthew Henry, Comentário Bíblico de Matthew Henry, 5. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, (Sl 19), p. 411.

[8]“A glória da vida cristã reside em que Deus nos chama para a obediência e, então, efetua a obediência em nós”, exulta MacArthur. (John MacArthur, Jr., O Poder da Integridade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 114). À frente, continua: “O poder de Deus age dentro de nós para que queiramos uma vida de piedade, façamos e digamos o que é certo e justo, e andemos em integridade”. (John MacArthur, Jr.,  O Poder da Integridade, p. 115).

[9]“A principal obra do Espírito Santo é glorificar ao Senhor Jesus Cristo. Portanto, não haverá valor em nossas orações, se não crermos nEle, em Sua divindade singular, em Sua encarnação, nascimento virginal, milagres, morte expiatória, ressurreição e ascensão. O Espírito O glorifica e, portanto, devemos crer nEle e ser ‘unânimes’ em nossa doutrina” (D. Martyn Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 72).

[10] Dietrich Bonhoeffer, Discipulado,2. ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1984, p. 25.

[11]“Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. Ele me glorificará (doca/zw), porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.13-14).

[12]“É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus; ora, todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas; e, neles, eu sou glorificado (doca/zw) (Jo 17.9-10).

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (3)

1.2. Quem é Jesus Cristo

Cristo se fez conhecido e exibido à vista de todos, porém somente os eleitos são aqueles a cujos olhos Deus abre para que o busquem por meio da fé. Aqui também se exibe um prodigioso efeito da fé, pois por meio dela recebemos a Cristo como ele nos foi dado pelo Pai – ou seja, como aquele que nos libertou da condenação da morte eterna e nos fez herdeiros da vida eterna, porque, pelo sacrifício de sua morte, ele fez expiação por nossos pecados para que nada nos impeça de ser reconhecidos por Deus como seus filhos. Portanto, visto que a fé abraça a Cristo, com a eficácia de sua morte e o fruto de sua ressurreição, não carece surpresa se por meio dela obtivermos igualmente a vida de Cristo. – João Calvino.[1]

                      A pergunta que atravessa os séculos, e que continua hoje com a mesma relevância de quando foi feita por Jesus a seus discípulos, é: “Mas vós (…) quem dizeis que eu sou?” (Mt 16.15).

Ao longo da história, muitos homens têm tentado responder a esta questão sem um exame minucioso da Palavra de Deus, em submissão ao Espírito Santo e, por isso, têm gerado as opiniões mais absurdas a respeito do Senhor. O Espírito está empenhado no testemunho a respeito do Filho: “Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim”  (Jo 15.26).

O Espírito prometido já veio no Pentecostes e, continua dando testemunho de Cristo por intermédio da Palavra.

            a) A Palavra de Deus, transmitida por Cristo, fala-nos da sua procedência eterna (8,25). A  relação Trinitária foi compreendida pela Igreja da seguinte forma: Quando falamos do Filho em relação ao Pai, dizemos que aquele é gerado(gennhqe/nta) do Pai. Quando nos referimos ao Espírito, declaramos que Ele é procedente (e)kporeuo/menon)[2] do Pai e do Filho.[3] Ele é eternamente gerado do Pai: (8,25). Esta relação ocorre eternamente, sem princípio nem fim, jamais havendo qualquer tipo de mudança na essência (ou)si/a) divina,[4] nem qualquer tipo de subordinação essencial.[5]

Portanto, a subordinação não é ontológica (“imanente”)[6] mas sim existencial (econômica). Deste modo, a nomenclatura Pai, Filho e Espírito Santo, é apenas um designativo que implica uma correlação intertrinitária que é necessária e eterna, não uma primazia de essência, no que resultaria em diferenças de honra e glória.[7] Insisto: a relação Trinitária tem sido compreendida pela Igreja como uma procedência eterna e necessária, do Espírito da parte do Pai e do Filho.

Na condição de Filho, o Deus encarnado, Jesus Cristo é o apóstolo (a)poste/llw) do Pai. (8,25).

b) O envio denota uma missão específica, para a qual Ele recebeu autoridade: conceder salvação aos seus.  “Verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste (a)poste/llw) (Jo 17.8). “Estes compreenderam que tu me enviaste (a)poste/llw) (Jo 17.25).  “A fim de que Ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste” (Jo 17.2).

            Em favor do seu povo, Jesus Cristo, no seu estado de humilhação, se priva temporariamente da manifestação de sua glória.[8] É o que Paulo nos diz:

Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, 6pois ele, subsistindo em forma (morfh/)[9] de Deus, não julgou como usurpação o ser igual (i)/soj)[10] a Deus; 7antes, a si mesmo se esvaziou (ke/now),[11] assumindo a forma (morfh/)[12] de servo, tornando-se em semelhança (o(moi/wma)[13] de homens; e, reconhecido em figura humana, 8 a si mesmo se humilhou (tapeino/w), tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. (Fp 2.5-8).[14]

            Aqui não há nenhum docetismo. Jesus Cristo não é apenas um ser celestial com aparência exterior humana, antes, é verdadeira e plenamente humano, porém, sem pecado.[15] (Vejam-se também: Jo 1.18; Cl 1.13-22; Hb 1 e 2; 4.4-5.10; 7.1-10.18; 1Jo 1.1-2.2).

            Jesus Cristo encarnado é tão essencialmente Deus como essencialmente homem. Ele não pode deixar de ser Deus e, após a encarnação, não deixará de ser essencialmente homem (Mt 26.64; Jo 3.13; At 7.56).

            Deus não pode deixar de ser o Deus glorioso. Na encarnação Ele ocultou externamente a sua glória aos olhos dos homens.[16]

            Nosso Senhor privou-se também da alegria de estar diante do Pai, sem as limitações próprias da encarnação, com todos os agravantes resultantes do pecado humano: Fez-se pobre por amor a nós (2Co 8.9).[17]

Ele pagou o preço da coroa futura.[18] O escritor de Hebreus exorta os seus leitores:

Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma. (Hb 12.2-3).

A vida eterna é para aqueles que o Pai lhes confiou. Esta oração se reporta à eternidade, ao Pacto firmado entre a Trindade: “Assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste” (Jo 17.2). “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra” (Jo 17.6).

            A nossa relação com Deus não se inicia por uma simples experiência, antes por um conhecimento salvador, que se manifestará paulatinamente em nossa experiência de obediência e submissão: “E a vida eterna é esta: que te conheçam(ginw/skw) a ti, o único Deus  verdadeiro (a)lhqino/j), e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). A salvação começa por uma nova relação com Deus. Antes estávamos num estado de rebeldia; agora, em Cristo, fomos reconciliados mediante o conhecimento de Deus por meio de Jesus Cristo.[19]

Ele é intercessor de todo o seu povo: “É por eles que eu rogo….”(Jo 17.9). “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal”(Jo 17.15). “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim….”(Jo 17.20).

       Com grande alegria escreve Lloyd-Jones (1899-1981):

Que coisa maravilhosa é ir pela vida sabendo que a sua vida está nas mãos de Deus, sabendo que seu Pai está interessado dessa forma por vocês e que seu bendito Mediador, que orou por vocês na terra, continua intercedendo por vocês no céu.[20]

Amparado na obra de Cristo, Paulo exulta:Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Rm 8.34). (Hb 9.24; 7.25; 1Jo 2.1).

Portanto, meus irmãos, o que pensamos de Cristo terá sempre a ver com a sua obra: Diminuir a Glória de Cristo é o mesmo que desqualificá-Lo para a obra que realizou: Somente o Senhor Jesus Cristo poderia fazer o que fez! “O glorioso da Bíblia é que agora ela é a única forma tangível de nos ensinar sobre a glória de Cristo”, instrui-nos Owen (1616-1683).[21]

Portanto, devemos deixar de lado as especulações e seguir guiados pela Palavra de Deus na compreensão da Pessoa e Obra de Cristo!

Paulo nos diz que Satanás se propõe efetivamente a velar a nossa compreensão da majestosa glória de Cristo:

Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus. (2Co 4.3-4).

Owen resume: “Desde que começou a pregação do Evangelho, o grande objetivo do maligno tem sido o de cegar os olhos das pessoas para que não possam ver a glória de Cristo”.[22]

O nosso consolo é que quando somos guiados pela Palavra e assistidos pelo Espírito, podemos caminhar por uma trilha segura através da qual o Senhor glorioso se nos dá a conhecer fidedignamente.

Maringá, 28 de janeiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 3.16), p. 133-134.

[2] gennhqe/nta e e)kporeuo/menon são expressões usadas no Credo Niceno-Constantinopolitano (381). Quanto à distinção das expressões, e o significado da “procedência”, confesso minha ignorância, juntamente com Agostinho (354-430) e João Damasceno (c. 675-749) (Vejam-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 402 J. Oliver Buswell, A Systematic Theology of the Christian Religion,Grand Rapids, Michigan:  Zondervan, © 1962, v. 1, p. 119-120).

[3]A expressão “e do Filho”em latim “Filioque”, foi acrescentada no Concílio local de Toledo (589).

[4]“O Pai é entendido como o primeiro princípio (archê) da Trindade e, por conseguinte, como o princípio unificador da hypostases (u/po/stasij). O Filho é gerado do Pai, e o Espírito procedente do Pai através do Filho” (Trinitas: In: Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms,4. ed. Grand Rapids, Michigan:  Baker Book House, 1993, p. 308). No entanto, a expressão do autor, “o Espírito procedente do Pai através do Filho”não corresponde à compreensão de Nicéia e Constantinopla, visto que esta fórmula, de certo modo, inspirada em Gregório de Nissa (c. 335-c.394) – que modelou a teologia oriental –, foi rejeitada por Agostinho (354-430), para evitar qualquer tipo de subordinação (Agostinho,  A Trindade, São Paulo: Paulus, 1994, V.14.15. p. 208-210). (J.N.D. Kelly, Doutrinas Centrais da Fé Cristã: origem e desenvolvimento,São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 198).

[5] “A subordinação pretendida consiste apenas naquilo que concerne ao modo de subsistência e operação, implícito nos fatos bíblicos de que o Filho procede do Pai, e o Espírito procede do Pai e do Filho, e de que o Pai opera através do Filho, e o Pai e o Filho operam através do Espírito” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos Editora, 2001, p. 346).

[6] Conforme expressão de Olson (Roger Olson, História das Controvérsias na Teologia Cristã: 2000 anos de unidade e diversidade, São Paulo: Vida, 2004, p. 196).

[7] “A propriedade peculiar e pessoal da terceira pessoa é expressa pelo título Espírito. Esse título não pode expressar sua essência, visto que sua essência é também a essência do Pai e do Filho. Ele deve expressar sua eterna relação pessoal com as outras pessoas divinas, visto ser ele uma pessoa constantemente designada como o Espírito do Pai e o Espírito do Filho” (Archibald A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A.A. Hodge,São Paulo: Editora os Puritanos, 1999,Capítulo II, p. 91). (Veja-se: também, A.A. Hodge, Esboços de Theologia,Lisboa: Barata & Sanches, 1895, p. 151-152).

[8] “Não estou dizendo que Ele pôs de lado a Sua Deidade, porque Ele não fez isso. O que Ele pôs de lado foi a glória da Sua deidade. Ele não deixou de ser Deus, mas deixou de manifestar a glória de Deus” (D.M Lloyd-Jones, Salvos desde a Eternidade, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 1), p. 75). “A encarnação – e o entendimento de seu propósito, a crucificação – é o clímax da graça condescendente de Deus”­(William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Cultura Cristã, 2004, (Jo 1.14), p. 117). “A majestade de Deus não foi aniquilada, ainda que estivesse circunscrita pela carne. Ela ficou, de fato, oculta pela vil condição da carne, mas de modo a não impedir a manifestação de sua glória” (João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.14),  p. 51).

[9]A palavra grega morfh/ (Mc 16.12; Fp 2,6,7) não indica algo externo (forma) em contraste com a essência interna. A aparência externa é a expressão visível, sensível, da sua natureza interna. Não há antítese. Portanto, a natureza essencial de Cristo era divina. A sua forma externa corresponde àquilo que Ele é em sua essência. (Vejam-se: G. Braumann, Forma: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 278-281; W. Pöhlmann, Morfh/: In: Horst Balz; G. Schneider, eds. Exegetical Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 1999 (Reprinted), v. 2, p. 442-443; J. Behm, Morfh/: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds.Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 4, p. 742-752 (especialmente); R.P. Martin, Filipenses: Introdução e Comentário, São Paulo: Mundo Cristão; Vida Nova, 1985, p. 107-109 (O autor faz uma breve revisão das interpretações mais significativas); João Calvino, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2010, p. 407-408 (em especial); Bruce Ware, Cristo Jesus: Reflexões teológicas sobre a humanidade de Cristo, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 25-30 (em especial). Hendriksen, preciso como sempre, conclui: “O que Paulo está dizendo […] é que Cristo Jesus sempre foi (e continuará sempre sendo) Deus por natureza, a expressa imagem da Deidade. O caráter específico da Divindade, segundo se manifesta em todos os atributos divinos, foi e é a sua eternidade. Cf. Cl 1.15,17 (também Jo 1.1; 8.58; 17.24)” (W. Hendriksen, Exposição de Filipenses, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, p. 139).

[10]A palavra denota uma igualdade qualitativa e quantitativa de tamanho, numérica, de valor ou força, sendo aplicada a quantias iguais, extensões de tempo, partes, pedaços etc. (Veja-se: G. Stählin, i)/soj: In: G. Kittel, ed.Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 3, p. 343-355). No NT. apresenta a ideia de consistência/coerência (Mc 14.56,59); igual/igualar (Mt 20.12; Jo 5.18; Ap 21.16); outro tanto (Lc 6.34); mesmo (At 11.17). O texto de Filipenses aponta para a preexistência do verbo e a sua igualdade com o Pai. Ou seja: Ele é eternamente Deus.

[11] Vejam-se: Colin Brown, et. al. Vazio: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 4, p. 690-692; A. Oepke, keno/j: In: G. Kittel, ed., Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 3 [p. 659-662] ,   p. 661-662 (especialmente); F. Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 381-382.

[12] Da mesma forma, a natureza essencial de Cristo tornou-se humana, na forma de servo.

[13] *Rm 1.23; 5.14; 6.5; 8.3; Fp 2.7; Ap 9.7. Uma palavra rara que significa “aquilo que é semelhante”, “cópia”. Para uma visão paralela destes textos, vejam-se: E. Beyreuther, et. al., Semelhante: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 4, [p. 403-425], p. 410-411 (em especial); J. Schneider, o(/moioj: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds.Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 5, p. 192-198; T. Holtz, o(moi/wsij: In: Horst Balz; G. Schneider, eds. Exegetical Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 1999 (Reprinted), v. 2, p. 512-513.

[14]Veja-se: B.B. Warfield, The Person of Christ. In: B.B. Warfield, The Works of Benjamin B. Warfield, Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 2000 (Reprinted), v. 2. p. 176ss.

[15]Veja-se: J. Schneider, o(/moioj: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds.Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 5, p. 196.

[16]Veja-se: F. Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 383-384.

[17]“Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (2Co 8.9).

[18] Cf. William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Cultura Cristã, 2004,(Jo 17.5), p. 756 (nota 366); Simon Kistemaker, Hebreus, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, (Hb 12.2), p. 516; F.F. Bruce, La Epistola a Los Hebreos, Grand Rapids; Buenos Aires: Nueva Creacion; Eerdmans, 1987, (Hb 12.2), p. 356 (nota 45). Para uma opinião diferente, ver: Calvino e Lenski.

[19] “Ser salvo não é primariamente ser feliz, não é primariamente ter uma experiência; a essência da salvação é que estamos na correta relação com Deus” (David M. Lloyd-Jones, Crescendo no Espírito, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2006, p. 8). “Pessoas que simplesmente andam na montanha russa da experiência emocional estão roubando de si mesmas uma fé cristã mais rica e profunda ao negligenciar o lado intelectual dessa fé” (William L. Craig, A Verdade da Fé Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 14).

[20]D.M. Lloyd-Jones, Seguros Mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 35. Veja-se também: D.M. Lloyd-Jones, Crescendo no Espírito.  São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2006 (Certeza Espiritual: v. 4), p. 171-174.

[21] John Owen, A Glória de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1989, p. 26.

[22] John Owen, A Glória de Cristo, p. 17.

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (2)

1. Testemunho Cristocêntrico (Jo 17.8,20)

1.1. Cristo como o cumprimento das promessas

“Porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste”, relata em oração o Senhor Jesus Cristo. (Jo 17.8).

            O Evangelho não é uma invenção de Jesus Cristo, antes é a boa mensagem de Deus, declarando que em Cristo Jesus temos o cumprimento de suas promessas a Israel, e que o caminho da salvação foi aberto a todos os povos. “(Evangelho) é a solene publicação da graça revelada em Cristo”, resume Calvino (1509-1564).[1]

            Deste modo, o Evangelho não deve ser colocado em contraposição ao Antigo Testamento, como se o Deus do Antigo Testamento fosse outro Deus[2] ou que Deus mesmo tivesse alterado sua maneira de tratar com o homem, mas antes, é o cumprimento da sua promessa (Mt 11.2-5)[3].[4] O ponto central para compreensão da unidade do Evangelho está na atitude de Jesus Cristo que, na Sinagoga, ao ler a profecia de Isaías, identificou-se como O que fora prometido: Ele é o Messias. Registra Lucas:

Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar (Eu)aggeli/zw) os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir (Lc 4.16-21).

            Jesus Cristo é o cumprimento das promessas e profecias do Antigo Testamento, [5] sendo o Senhor e Mediador único e definitivo da Aliança selada entre Deus e o seu Povo.

Na encarnação temos uma prova definitiva de que Deus leva a séria as suas promessas e que nada poderá impedi-lo de concretizar o que se dispôs a fazer. Podemos descansar na certeza de que tudo o que diz, mesmo que aos nossos olhos passem séculos e séculos, Ele o fará.[6]

            De passagem, devemos dizer que o fato mais importante concernente à adoração no Novo Testamento é a centralidade de Jesus Cristo, Aquele que é o cumprimento das promessas e profecias do Antigo Testamento, sendo o Senhor e Mediador único e definitivo da Aliança selada entre Deus e o seu Povo. A visão desta Aliança é a chave que abre as portas para a compreensão de toda teologia bíblica. A Pessoa de Cristo é o elo que une os dois Testamentos.[7] Em suma, Jesus Cristo é o fundamento da verdadeira adoração a Deus.

Ele é o sujeito do Evangelho, o seu conteúdo e, ao mesmo tempo, o seu proclamador. Aprendemos a anunciar o Evangelho com o Senhor Jesus e, encontramos o significado de sua mensagem em sua encarnação, vida e obra.

            “Porque eu lhes tenho transmitido as palavras que me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste” (Jo 17.8).

            Nós conhecemos a Palavra por meio de Cristo e a Palavra nos fala de Jesus Cristo. Jesus diz que manifestou a Palavra de Deus aos discípulos e eles a receberam, a guardaram e creram na procedência do Filho. A Palavra de Deus conduz o homem a crer na Pessoa e obra de Cristo: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra”   (Jo 17.20).

            O conhecimento mencionado no verso 8 envolve uma genuína experiência pessoal com Jesus Cristo, gerando forte confiança. Jesus Cristo testifica: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39). A mensagem da Bíblia é Cristocêntrica. Ela visa conduzir o homem a um encontro com Jesus Cristo e a sua obra.

Maringá, 28 de janeiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, p. 26.

[2] Conforme sustentava Márcion ( c. 165). A respeito de seus ensinamentos, vejam-se, entre outros: Tertulian, The Five Books Against Marcion. In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. Ante-Nicene Fathers, 2. ed.Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 3, p. 269-475; Irineu, Irineu de Lião, São Paulo: Paulus, 1995, I.27.2-4. p. 109-110; Justino de Roma, I Apologia, São Paulo: Paulus, 1995, 58, p. 73-74.

[3]“Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo, mandou por seus discípulos perguntar-lhe: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho (eu)aggeli/zw) (Mt 11.2-5).

[4]Cf. R.H. Mounce, Evangelho: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 1, p. 566.

[5]Ver: D.M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho,São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1997 (Grandes Doutrinas Bíblicas, v. 1), p. 317.

[6] Veja-se: D.M. Lloyd-Jones, Sermões Natalinos: Exposição do Magnificat, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2009, p. 78-79,82.

[7]Ver: Confissão de Westminster, VII.6.

“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (1)

Introdução – Testemunhos verdadeiros

     A mensagem de Cristo consistiu num testemunho fidedigno e eloquente a respeito de si mesmo e do Pai: Ele anunciava a Palavra de Deus, sem mistura, omissões ou acréscimos.

     João Batista assinala que Jesus Cristo “testifica o que tem visto e ouvido; contudo, ninguém aceita o seu testemunho”(Jo 3.32). O seu testemunho não soava falso, não era carente de sentido ou, distante da realidade. Contudo, não era aceito. Como explicar isso?

     Esta não aceitação era devido ao próprio pecado de seus ouvintes: “O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”(Jo 1.10-11).

     Mas, o fato é que quem não cria no testemunho do Filho, também não aceitava o testemunho do Pai a respeito de seu Filho, tornando-o mentiroso. Temos um problema muito sério aqui. É isso que nos diz João:

Se admitimos o testemunho (marturi/a) dos homens, o testemunho (marturi/a) de Deus é maior; ora, este é o testemunho (marturi/a) de Deus, que ele dá acerca de seu Filho. Aquele que crê no Filho de Deus tem, em si, o testemunho (marturi/a). Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso, porque não crê no testemunho (marturi/a)que Deus dá acerca do seu Filho. (1Jo 5.9-10).

            O próprio Jesus diante de Pilatos reivindicou a veracidade do seu testemunho: “Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade (a)lh/qeia). Todo aquele que é da verdade (a)lh/qeia) ouve a minha voz”(Jo 18.37).

            Tendo uma compreensão correta deste testemunho, no Apocalipse, Jesus é chamado de “a fiel testemunha” (Ap 1.5).[1] Portanto, o seu testemunho é verdadeiro.

            Quando dizemos que o testemunho de Jesus Cristo é verdadeiro, falamos do seu caráter, como sendo fiel e digno. Todavia, esta compreensão que por certo é de altíssima relevância, nada nos diz a respeito da sua mensagem, do significado dela. Alguém poderia chegar para nós neste momento e dizer:

  • “Você sabia que a Terra é redonda?” ou:
  • Você sabia que 2 + 2 é igual a 4?” ou ainda:
  • “Você sabia que fórmula da composição da água é H2o?”.

            Observem que todas estas afirmações são verdadeiras; a questão, entretanto, seria:

  • Qual a importância disso para nós agora, neste instante?
  • Qual o seu significado concreto?

            Teríamos de admitir, talvez um tanto constrangidos, que agora, neste momento, nada significam de relevante, embora sejam verdades em nada descartáveis.

Adentremos ao texto.

            Na véspera da sua autoentrega, Jesus Cristo se despede de seus discípulos, falando do Consolador e das tribulações pelas quais passariam (Jo 13-16).

Há aqui uma transição muito importante e significativa: O Senhor após falar de seu sofrimento, considera-o como algo vencido. Isso deve servir de estímulo aos seus discípulos: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33).

A cruz, símbolo de vergonha, humilhação, dor e aparente derrota, faz parte essencial de sua vitória. Sem a cruz, a encarnação e a ressurreição ficam fora de contexto. Aliás, todo o seu ministério, envolvendo o seu nascimento, ressurreição, ascensão e retorno glorioso, encontra o seu sentido na cruz.

A cruz revela a gravidade de nossa ofensa ao Deus santo, a santa majestade de Deus e, também, a grandeza incomensurável e incompreensível de seu amor.

A cruz não foi um acidente ou fatalidade. O seu ministério terreno caminhou para ela de forma irrevogável e contínua.

Stott (1921-2011) enfatiza: “Desde a infância de Jesus, deveras desde o Seu nascimento, a cruz lança sua sombra no Seu futuro. Sua morte se encontrava no centro de Sua missão. E a igreja sempre reconheceu essa realidade”.[2]

            Jesus agora faz esta oração intercessória por todos os seus discípulos; tanto por aqueles imediatos, como também por nós (Jo 17.20-21).

Esta oração está relacionada a todas as promessas anteriores. É, portanto, a conclusão natural de sua conversa com os discípulos.[3] João mesmo faz a transição: “Tendo Jesus falado estas cousas levantou os olhos ao céu” (Jo 17.1).[4] Aqui há um sentido espiritual. Ele ora ao Pai que está nos céus. Os discípulos são testemunhas desta oração extremamente pessoal e intransferível de seu Senhor.

Nesta oração, vemos de forma indelével a realidade da divindade e humanidade de Jesus Cristo. Ele tem a perfeita consciência disto. Ora ao Pai como qualquer ser humano pode fazer. No entanto, o que diz, somente Ele poderia de fato dizer. Jesus Cristo é perfeitamente o Deus Encarnado.  

            O nosso Senhor tinha diante de si a perfeita compreensão e domínio de sua missão e do tempo certo. Ele conhecia perfeitamente a sua agenda porque, na realidade, era o senhor dela. Sabia a sua hora: “Tendo Jesus falado estas coisas, levantou os olhos ao céu e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti” (Jo 17.1).

Nas Bodas de Caná, dissera a Maria: “Ainda não é chegada a minha hora”(Jo 2.4).

Em outros contextos, demonstrara a mesma percepção. Depois da entrada triunfal em Jerusalém: “É chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem”(Jo 12.23).

Em seguida: “Agora, está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora” (Jo 12.27).

Próximo à Páscoa, “Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”(Jo 13.1).

            Em João 17.14 relata ao Pai: “Eu lhes tenho dado a Tua Palavra”. A Palavra que Cristo transmitira era fiel; isto nós sabemos. O que pretendemos analisar neste texto, é o significado desta Palavra ensinada.

Maringá, 28 de janeiro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa



[1] “E da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra. Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados” (Ap 1.5).

[2] John R.W. Stott, A Cruz de Cristo, Miami: Editora Vida, 1991, p. 11.

[3] Ver: Marcus Dods, John: In: W. Robertson Nicoll, ed. The Expositor’s Bible, [CD-ROM], (Albany, OR: Ages Software, 2000), Parte 2, Capítulo 16.

[4] “A oração pode ser vista como a consumação dos discursos. Ela mostra que a base sólida e firme de todos os fundamentos de conforto, admoestação e predições está no céu. Ela liga todas as promessas ao trono de Deus. Aqui tudo é garantido. O capítulo não contém nenhuma sentença condicional” (William Hendriksen, O Evangelho de João, São Paulo: Cultura Cristã, 2004,(Jo 17), p. 751).

Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (41) – Final

Considerações finais (Continuação)

     Não podemos perder a dimensão de que todo o saber pertence a Deus. Ele rege a história e os acontecimentos aparentemente fortuitos. Se, como vimos, toda verdade pertence a Deus, como esboçou Justino, elaborou este pensamento mais tarde Agostinho, e o plenificou Calvino, podemos nos valer das contribuições que não por acaso, ocorreram no mundo “pagão”, porque se elas forem verdadeiras provieram de Deus. O pensamento cristão nos liberta do exclusivismo de guetos, quer acadêmicos, quer religiosos (conservadores ou liberais), que inibem a pesquisa e nos impede de uma visão mais plena da verdade de Deus, esteja onde estiver, surja onde surgir. Cristo e a sua Palavra se constituem nos aferidores de toda verdade. Jesus Cristo é o verdadeiro e absoluto cânon da verdade!

     A mensagem cristã parte do princípio da soberania de Deus sobre todas as coisas, por isso, nada existe nesse mundo que não pertença a Deus. A igreja como instituição missionária avança em todas as direções levando o Evangelho porque o mundo pertence a Deus.

     As “extremidades da terra” (Sl 2.8) são possessões do Senhor. Não há quem possa dizer-lhe: isto não lhe pertence. Não há um centímetro sequer de toda a criação que não seja abrangido pela totalidade do poder governativo de Deus.[1] Tudo pertence a Deus. Nenhum rei “governa senão pela vontade de Deus”.[2] Portanto, reivindicar qualquer autonomia ou qualquer forma de exclusão do poder de Deus. Mantendo-o alheio, consiste em um atentado à sua soberania.[3]

     Kuiper (1886-1966), observa que a declaração do Cristo ressurreto: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18), prefacia o mandamento evangelístico. “Isso torna a Grande Comissão uma afirmação da soberania mediatária de Cristo”.[4]

     Aqui vemos estampada parte da esfera do domínio de Cristo. Ele manda a Igreja evangelizar todo o mundo, porque o mundo todo lhe pertence. Ele é o Senhor! A Boa Nova do Evangelho envolve a mensagem de ambos os testamentos: Deus é o Senhor de toda realidade e de toda verdade.

     O senso de urgência da Igreja deve ser derivado do senso de urgência de Deus. A Missão é de Deus que se agencia por meio da Igreja.[5] A eleição do povo de Deus é para o serviço de Deus na sociedade. 

     A doutrina da vocação é o fundamento da teologia da vida cristã. Deus em seu amor eterno urgencia com a igreja a que compartilhe com todos, de forma “centrífuga” esta mensagem.[6]  A Pessoa de Cristo tem em si mesma e consequentemente em sua obra a força centrípeta que nos atrai e, num processo natural desta atração transformadora, exerce a sua força centrífuga que nos conduz a anunciar a Sua pessoa e os seus feitos gloriosos e redentores entre todos os povos.

     No Novo Testamento, Paulo instrui a Timóteo: “Prega a palavra (…) Pois haverá tempo (kairo/j)[7] em que não suportarão a sã doutrina” (2Tm 4.2,3). Hoje ainda temos ouvintes; mas, até quando? Hoje temos aqueles ouvintes; mas por quanto tempo? Pois haverá tempo (kairo/j) em que não suportarão a sã doutrina”.

     Aquelas pessoas que hoje ouvem a Palavra com interesse e avidez poderão não ouvir em outras épocas ou circunstâncias, daí a nossa responsabilidade de anunciar hoje a Palavra de Deus. “A Escritura nos adverte que, na perspectiva de Deus, o tempo é curto, a necessidade é grande e a tarefa é urgente”, alerta-nos Stott (1921-2011).[8]

     O senso de urgência deve nos levar a falar como se aquela fosse a última vez. A mensagem cristã deve ter sempre uma conotação de apelo ao homem para que assuma, pela graça de Deus, uma posição favorável e submissa à Sua Palavra. Contudo, devemos nos lembrar, conforme ensina-nos Kuiper (1886-1966), de que “o motivo da urgência da evangelização jaz em Deus. Porque Ele é quem é, insiste urgentemente com os pecadores para que se convertam a Ele”.[9]

Maringá, 13 de dezembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]É bastante conhecida a declaração de Kuyper, quando, realizando um antigo sonho, falou na Aula Inaugural na Universidade Livre de Amsterdã em 20 de outubro1880, expressando a sua cosmovisão que caracterizaria aquela Instituição: Nenhuma única parte do nosso universo mental deve ser hermeticamente fechado do restante. (…) Não existe um centímetro quadrado no domínio inteiro de nossa existência humana sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre tudo, não reivindique: ‘É meu!’” (Abraham Kuyper, Sphere Sovereignty: In: James D. Bratt, ed. Abraham Kuyper: A centennial reader, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1998, p. 488).

[2]João Calvino, O Profeta Daniel: Capítulos 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 2.36-39), p. 148.

[3] Veja-se: Vern S. Poythress, O Senhorio de Cristo: servindo o nosso Senhor o tempo todo, com toda a vida e de todo o nosso coração, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 13-14.

[4]R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 46. Do mesmo modo: John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo,São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 408-409.

[5] “Todos nós deveríamos concordar que a missão surge primariamente da natureza de Deus e não da natureza da Igreja” (John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, Viçosa, MG.: Ultimato, 2010, p. 24). “A missão primordial é a de Deus, pois foi Ele quem mandou seus profetas, seu Filho, seu Espírito” (John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, p. 25).

[6] Vejam-se: J. Blauw, A Natureza Missionária da Igreja, São Paulo: ASTE., 1966, p. 34ss.; John R.W. Stott, A Missão Cristã no Mundo Moderno, p. 24ss.

[7]A ideia da palavra é de “oportunidade”, “tempo certo”, “tempo favorável”, etc. (Vejam-se: Mt 24.45; Mc 12.2; Lc 20.10; Jo 7.6,8; At 24.25; Gl 6.10; Cl 4.5; Hb 11.15). Ela enfatiza mais o conteúdo do tempo. Este termo que ocorre 85 vezes no NT. é mais comumente traduzido por “tempo”, surgindo, então, algumas variantes, indicando a ideia de oportunidade. Assim temos (Almeida Revista e Atualizada): Tempo e tempos: Mt 8.29; 11.25; 12.1; 13.30; 14.1; Lc 21.24; At 3.20; 17.26; “Devidos tempos”: Mt 21.41; “Tempo determinado”: Ap 11.18; “Momento oportuno”: Lc 4.13; “Tempo oportuno”: Hb 9.10; 1Pe 5.6; Oportunidade: Lc 19.44; Gl 6.10; Cl 4.5; Hb 11.15; Devido tempo: Lc 20.10; Presente: Mc 10.30; Lc 18.30; “Circunstâncias oportunas”: 1Pe 1.11; Algum tempo: Lc 8.13; Hora: Lc 8.13; 21.8; Época: Lc 12.56; At 1.7; 1Ts 5.1 (Xro/nwn kai\ tw=n kairw=n); 1Tm 6.15; Hb 9.9; Ocasião: Lc 13.1; 2Ts 2.6; 1Pe 4.17; Estações: At 14.17; Vagar: At 24.25; Avançado: Hb 11.11.

[8] John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo,São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 417.

[9]R.B. Kuiper, Evangelização Teocêntrica, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1976, p. 71.

Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (40)

Considerações finais

A verdade é o melhor que o homem pode obter; a verdade é o mais augusto que a divindade pode conceder. Deus cede todos os bens aos homens para suprir suas necessidades; mas, ao comunicar-lhes a inteligência e sabedoria, permite-lhes que sejam partícipes dos atributos que lhe são próprios e de que faz constante uso. Não é a prata, nem o ouro, o que constitui a divina felicidade; o que estabelece seu poder não é o trovão, nem o raio, senão a ciência e a sabedoria. – Plutarco (46-120 AD.).[1]

A linguagem é um meio de identificação,[2] difusão da cultura e, ao mesmo tempo, de seu fortalecimento. A linguagem carrega consigo significados e valores, já que a linguagem e a comunidade mantêm uma relação de interdependência.[3]

Uma questão extremamente difícil é o processo de ressignificação da linguagem de uma cultura. Uso aqui a expressão em sentido bastante restrito: Como fazer as pessoas ouvirem e assimilarem determinadas palavras dentro de uma perspectiva diferente e, até mesmo conflitante, em relação aos significados aprendidos e dominantes?

As palavras carregam consigo significados próprios de uma cultura. A transposição deste conceito nem sempre é possível porque a realidade descrita carece de termos naquela língua para expressá-la. Deste modo, trabalhamos com um conceito analógico[4] que se propõe a fazer uma ponte, nem sempre no mesmo nível, de dois pontos por vezes bastante distantes.

Jaeger (1888-1961) ressaltando a influência da língua grega, afirma que “com a língua grega, todo um mundo de conceitos, categorias de pensamento, metáforas herdadas e sutis conotações de sentido entra no pensamento grego”.[5]

Aqui podemos ter um vislumbre do problema dos escritores do Novo Testamento. Eles esbararam repetidas vezes nessa questão: apresentar a mensagem cristã com termos já conhecidos, mas, ao mesmo tempo, que ganharam um novo significado a partir da própria essencialidade do evangelho. Assim, os escritores sagrados, inspirados por Deus, valeram-se, por vezes, de palavras amplamente conceituadas e assimiladas, porém, conferindo-lhes um sentido distinto, que, muitas vezes, só poderia ser compreendido a partir do Antigo Testamento. Com frequência é frustrante estudar as palavras do Novo Testamento sem a perspectiva teológica de seu conteúdo já estabelecido no Antigo Testamento.[6] O Novo Testamento foi escrito em grego, contudo a sua teologia encontra o seu fundamento na revelação veterotestamentária.

O apóstolo João foi quem mais se deparou com essas questões do conhecimento, justamente por escrever no final do primeiro século, quando o Cristianismo havia se expandido e, ao mesmo tempo, novas heresias surgiam com um conteúdo sincrético.

     Quando os pregadores cristãos empregaram, por exemplo, palavras tais como “igreja”, “logos”, “justiça”, “conhecimento”, “regeneração”, “sabedoria”, entre outras, era natural que os seus ouvintes, prematuramente, associassem estes termos aos conteúdos já conhecidos. Uma barreira a ser transposta era mostrar que o Cristianismo tinha uma mensagem diferente e, por isso mesmo, relevante para os seus ouvintes.

     Como exemplo, cito que as raízes do uso da palavra “Evangelho” no Novo Testamento, devem ser buscadas não no grego secular, mas sim no Antigo Testamento.[7] Ou seja, mesmo a palavra tendo um emprego comum no grego clássico, o seu conteúdo encontra-se nas páginas do Antigo Testamento. O recipiente é grego, contudo, o conteúdo é judaico. Muitas vezes a língua grega é apenas a taça de prata, mas, o conteúdo de ouro está na terminologia veterotestamentária.

Maringá, 13 de dezembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1] Plutarco, Os mistérios de Ísis e Osíris, São Paulo: Nova Acrópole do Brasil, 1981, 1, p. 15.

[2] “Se realmente queremos entender uma cultura, muitas vezes diz-se necessário que compreendamos a sua língua” (Tim Chester, Conhecendo o Deus Trino: porque Pai, Filho e Espírito Santo são boas novas, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2016, p. 18).

[3]  “Uma língua é inconcebível sem uma comunidade linguística que a suporte, assim como essa comunidade só existe em virtude de uma língua determinada, que lhe dá ao mesmo tempo sua forma e seu contorno. Desde que uma língua existe, existe também uma comunidade linguística. Há, em suma, entre as duas, uma dependência recíproca” (Walther Von Wartburg; Stephen Ullmann, Problemas e métodos da linguística, São Paulo: Difel, 1975, p. 205). À frente: “Tudo o que podemos dizer é que o nascimento da língua ou de uma determinada língua, ou o nascimento da comunidade que a suporta, o desenvolvimento do espírito, e a origem do gênero humano, representam fenômenos geneticamente conexos” (Ibidem., p. 206-207).

[4]  Devo esta expressão às observações de Collingwood (R.G. Collingwood, Los principios del arte, México: Fondo de Cultura Econômica, © 1960, 3. reimpressão, 1993, p. 18-20).

[5] Werner Jaeger, Cristianismo Primitivo e Paideia Grega, Lisboa: Edições 70, 1991, p. 17.

[6]  Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 39-40.

[7]Vejam-se: Gerhard Friedrich, Eu)agge/lion: In: Gerhard Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, v. 2, p. 725; P. Bläser, Evangelho: In: Heinrich Fries, dir., Dicionário de Teologia, 2. ed. São Paulo: Loyola, 1983, v. 2, p. 153; Donatien Mollat, Evangelho: In: Xavier Léon-Dufour, dir. Vocabulário de Teologia Bíblica, 3. ed. Petrópolis, RJ.: Vozes, 1984, p. 319; U. Becker, Evangelho: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 2, p. 169.

Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (39)

5.2.3. O Temor de Deus e o Culto

 O escritor de Hebreus instrui aos cristãos da nova Aliança a aproximarem-se de Deus com confiança em Cristo. Acrescenta:

28 Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável (* eu)are/stwj“de modo aceitável”), com reverência (ai)dw/j) (= modéstia) e santo temor  (eu)la/beia) (= reverentemente, piedosamente);  29 porque o nosso Deus é fogo consumidor. (Hb 12.28-29).

     Nós cultuamos a Deus, a quem conhecemos, tendo uma visão clara, ainda que não exaustiva, de sua majestade e santidade. Devemos ter diante de nossos olhos esses aspectos em nosso culto solene a Deus.

     Outro ponto que quero destacar, é que devemos ter prazer em compartilhar entre os santos os feitos de Deus em nossa vida: o seu perdão, a sua misericórdia, proteção e paz. Esse é o convite do salmista aos seus ouvintes: “Vinde, ouvi, todos vós que temeis (arey) (yare’) a Deus, e vos contarei o que tem ele feito por minha alma” (Sl 66.16).

     Sentimos prazer da companhia de nossos irmãos no culto a Deus. É o que declara o salmista:

A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação; 23 vós que temeis (arey) (yare’) o SENHOR, louvai-o; glorificai-o, vós todos, descendência de Jacó; reverenciai-o, vós todos, posteridade de Israel. 24 Pois não desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro. 25 De ti vem o meu louvor na grande congregação; cumprirei os meus votos na presença dos que o temem (arey) (yare’).(Sl 22.22-25).

     O nosso cântico deve ser um testemunho dos atos de Deus a fim de que outros possam também aprender a temer e confiar no Senhor: 

Esperei confiantemente pelo SENHOR; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. 2Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos. 3E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão essas coisas, temerão (arey) (yare’) e confiarão no SENHOR. (Sl 40.1-3).

     No Apocalipse encontramos cantos angelicais de louvor considerando a majestade de Deus como digna de temor:

Temei (fobe/w) a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas. (Ap 14.7).

Quem não temerá (fobe/w) e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo; por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos. (Ap 15.4).

Saiu uma voz do trono, exclamando: Dai louvores ao nosso Deus, todos os seus servos, os que o temeis (fobe/w), os pequenos e os grandes. (Ap 19.5).

     O temor a Deus além de orientador de nossa conduta, deve nos mover a louvar a Deus em comunhão com nossos irmãos.

Maringá, 13 de dezembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa