Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (69) – Final

Considerações finais

 

O que sei é que ninguém conseguiu discorrer contra esta predestinação, que defendemos de acordo com as santas Escrituras, a não ser incorrendo em erro – Agostinho.[1]

 

Jamais haveremos de ser claramente persuadidos, como convém, que nossa salvação flui da fonte da graciosa misericórdia de Deus, até que se nos haja feito conhecida sua eterna eleição, que, mercê deste contraste, ilumina a graça de Deus: que à esperança da salvação não adota Ele a todos indiscriminadamente; pelo contrário, dá a uns o que nega a outros. – João Calvino.[2]

 

A realidade pertence a Deus, quem a criou, e lhe confere sentido. Quando, então nos referimos ao conhecimento que podemos ter do próprio Deus, do seu caráter e majestade, temos de reafirmar a verdade bíblica de que esse conhecimento provém do próprio Deus.

 

Portanto, Deus só pode ser conhecido por Ele mesmo. Daí a necessidade de revelação para que possamos conhecê-lo, e nos relacionarmos com Ele.[3] Deus em sua integridade se revela verdadeiramente como é em sua natureza essencial.[4] Este conhecimento resultante da graça é único, singular e pessoal.[5]

 

No entanto, não é demais enfatizar que o nosso conhecimento a respeito de Deus é um “conhecimento-de-servo” delimitado pelo próprio Senhor, considerando, inclusive, o pecado humano.

 

Em outras palavras, citando Frame: “É um conhecimento acerca de Deus como Senhor, e um conhecimento que está sujeito a Deus como Senhor”.[6]

 

O nosso conhecimento nunca é autorreferente com validade própria e por iniciativa nossa.[7] “Visto que somos seres finitos e não podemos enxergar o todo da realidade de uma vez, nossa perspectiva da realidade é necessariamente limitada por nossa finitude”.[8]

 

Como temos insistido, poder conhecer a Deus é sempre uma iniciativa da graça divina. O nosso conhecimento é um ato de fé, e esta é procedente da graça[9] que se manifesta no fato de Deus se revelar e de nos possibilitar conhecer. Mais: nunca somos ou seremos o padrão de verdade. Os nossos pensamentos e as nossas supostas experiências concretas não têm poder autorreferentes, antes, precisam sempre ser validados pela Palavra, que é a verdade (Jo 17.17).

 

Só pensamos verdadeiramente quando pensamos à luz da Palavra. Por isso, é que conhecer a Deus é algo singular porque somente Deus é soberano e, somente a partir dele podemos conhecê-lo. E tudo isso, por meio de Jesus Cristo, o Deus encarnado,[10] a revelação pessoal de Deus.[11]

 

Conhecer a Deus em sua soberania, portanto, é um dom da graça do soberano Deus. Este conhecimento, por sua vez, nos liberta para que possamos conhecer a nós mesmos e as demais coisas da realidade.[12] Somente a partir de um genuíno conhecimento de Deus poderemos nos conhecer verdadeiramente bem como toda a realidade. O conhecimento de Deus possibilita-nos enxergar a realidade em suas múltiplas facetas com os seus valores próprios conferidos pelo próprio Deus que a sustenta. A verdade nos liberta (Jo 8.32).

 

O homem é um ser paradoxal. Isso se evidencia no fato de sustentarmos posições diferentes e, até mesmo excludentes sobre o mesmo assunto. Isso em geral, depende das circunstâncias que, com frequência são de caráter passional.  Na realidade, tendemos a ser mais subjetivos do que imaginamos ou estaríamos dispostos a admitir.

 

Uma doutrina que facilmente é objeto de posicionamentos contraditórios é a soberania de Deus.[13] Gostamos de alardear a nossa liberdade, a nossa capacidade de escolha e persuasão. Quando assim fazemos, falar em soberania de Deus parece diminuir um pouco a nossa autoconfiança e suposta autonomia; portanto, consideramos ser melhor deixá-la guardada em alguma gaveta para onde empurramos os papéis que não estão sendo utilizados e não sabemos bem o que fazer com eles.

 

No entanto, quando nos vemos sem recursos, sem perspectivas favoráveis, sem saber o que fazer, podemos, sem talvez nos darmos conta, nos contentar com uma fé singela no cuidado de Deus e, podemos então dizer para nós mesmos: “Deus é soberano, Ele sabe o que faz”; “nada acontece por acaso…”.

 

A bem da verdade, nós mesmos, crentes em Cristo, com certa frequência tendemos a adotar atitude semelhante. Calvino (1509-1564) capta bem isso ao dizer: “Mesmo os santos precisam sentir-se ameaçados por um total colapso das forças humanas, a fim de aprenderem, de suas próprias fraquezas, a depender inteira e unicamente de Deus”.[14]

 

Parece que esta é uma das doutrinas mais repudiadas pelo homem natural e, ao mesmo tempo, é a doutrina mais consoladora para todos nós que cremos em Cristo Jesus.

 

No Antigo Testamento os judeus insensíveis aos seus próprios pecados, tomaram o aparente silêncio de Deus como uma aprovação tácita de seus erros, projetando em Deus o seu comportamento. Considerando que eles mesmos procediam deste modo, pensavam que Deus fosse igual a eles. No entanto, Deus, no momento próprio, exporia diante deles os seus delitos: “Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista” (Sl 50.21). Calvino diz que o homem pretende usurpar o lugar de Deus: “Cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente”.[15]

 

De fato, os homens estão dispostos a reconhecer espontaneamente diversas virtudes em Deus: o seu amor, sua graça, bondade, perdão, tolerância, provisão etc. Agora, a sua soberania, jamais.[16] Pink (1886-1952) entende que “negar a soberania de Deus é entrar em um caminho que, seguindo até à sua conclusão lógica, leva a manifesto ateísmo”.[17]

 

A nossa dificuldade está em reconhecer a Deus como o Senhor que reina. Aquele que é o criador e mantenedor de toda a realidade, em quem somente existe autoridade absoluta em sua essência e decisões.[18]

 

A Palavra, por sua vez, nos desafia a aprender com Ela a respeito de Deus. O nosso Deus, entre tantas perfeições, é o Deus soberano. Sem este atributo, Deus não seria Deus: “Verdadeiramente reconhecer a soberania de Deus é, portanto, contemplar o próprio Deus soberano”.[19] No entanto, Jó demonstra a dificuldade de nossa compreensão, ao indagar: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14).

 

Aplicando este princípio à doutrina da eleição, podemos dizer como Calvino: “Quando Deus seleciona dentre toda a raça humana um pequeno número ao qual abraça com Seu paternal amor, esta é uma inestimável bênção que Ele derrama sobre eles”.[20]

 

Portanto, a doutrina da eleição quando estudada dentro de uma perspectiva bíblica, com o coração desejoso de ouvir a voz de Deus, configura-se como um meio eficaz para o nosso fortalecimento na fé,[21] na certeza de que, apesar de nossas fraquezas, das nossas deficiências, Deus nos elegeu antes dos tempos eternos e nos confirmará até o fim em santidade. A nossa eleição repousa na promessa de Deus; e isto nos basta. Por isso, encontramos nesta doutrina “excelente fruto de consolação”.[22]

 

Quero concluir estas anotações, com as estimulantes e confortadoras palavras de algumas Confissões ao tratar sobre esta doutrina:

 

A todos os que sinceramente obedecem ao Evangelho, esta doutrina fornece motivo de louvor, reverência e admiração para com Deus, bem como de humildade, diligência e abundante consolação.[23]

Do sentimento interno e da certeza desta eleição tem os filhos de Deus maior motivo para humilhar-se diante dEle, adorar a profundidade da Sua misericórdia, purificar-se a si mesmos, e por sua parte amar-Lhe ardentemente, que de modo tão eminente lhes amou primeiro.[24]

A piedosa meditação da Predestinação e da nossa eleição em Cristo, está cheia de um suavíssimo, doce e inexplicável conforto para os piedosos, e aos que sentem em si mesmos a operação do Espírito de Cristo.[25]

 

            Exercitemos e colhamos, pois, os doces e suaves frutos deste ensino bíblico. Que Deus nos ajude a viver, por graça, em louvor, testemunho e alegre consolo desse inefável e misericordioso privilégio. A Deus toda glória. Amém!

 

São Paulo, 04 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 *Leia esta série completa aqui.


[1] S. Agostinho, A Graça (II), São Paulo: Paulus, 1999, p. 265.

[2] João Calvino, As Institutas, III.21.1.

[3]Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 287ss.

[4] “Deus se revela como ele verdadeiramente é. Seus atributos revelados verdadeiramente revelam sua natureza” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Deus e a Criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98).

[5] “Conhecer a Deus é uma coisa completamente única, singular, visto que Deus é único, é singular” (John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 25).

[6]John M. Frame, A Doutrina do conhecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 56.

[7]A respeito de um comportamento oposto, escreveu Lloyd-Jones: “Não há maior obra-prima do diabo do que seu sucesso em persuadir as pessoas de que é seu conhecimento superior que as leva a rejeitar o cristianismo. Mas exatamente o oposto é que é verdadeiro. O diabo as mantém na ignorância porque, enquanto permanecerem nela, elas farão o que ele manda. A partir do momento em que recebem a luz – o evangelho é chamado de ‘luz’ – elas veem o diabo e o abandonam” (David Martyn Lloyd-Jones, Uma Nação sob a Ira de Deus: estudos em Isaías 5, 2. ed. Rio de Janeiro: Textus, 2004, p. 68).

[8]Norman Geisler; Peter Bocchino, Fundamentos Inabaláveis: resposta aos maiores questionamentos contemporâneos sobre a fé cristã, São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 50.

[9] “Todo conhecimento é fé” (Gordon H. Clark, Uma visão cristã dos Homens e do Mundo, Brasília, DF.: Monergismo, 2013, p. 305).

[10] “Toda nossa luz e conhecimento consistem (…) em conhecer a Deus na pessoa de seu Filho unigênito. Com isso, digo eu, é que devemos nos contentar” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 146-147).

[11] “A plenitude do ser de Deus é revelada nEle. Ele não apenas nos apresenta o Pai e nos revela Seu nome, mas Ele nos mostra o Pai em Si mesmo e nos dá o Pai. Cristo é a expressão de Deus e a dádiva de Deus. Ele é Deus revelado a Si mesmo e Deus compartilhado a Si mesmo, e portanto Ele é cheio de verdade e também cheio de Graça” (Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara d’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 25-26). Veja-se: Emil Brunner, Dogmática, São Paulo: Novo Século, 2004, v. 1, p. 167.

[12] Veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Soberania de Deus e a responsabilidade humana, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2016.

[13]Para um estudo mais abrangente desse tema, veja-se: Hermisten M.P. Costa, A Soberania de Deus e a responsabilidade humana, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2016.

[14] João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 1.8), p. 22.

[15] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 100.1-3), p. 549. Veja-se também: João Calvino, Instrução na Fé, Goiânia, GO: Logos Editora, 2003, Caps. 1-3, p. 11-14.

[16]Kennedy diz precisamente isso: “O motivo por que tantas pessoas se opõem a essa doutrina [predestinação] é que elas querem um Deus que seja qualquer coisa, menos Deus. Talvez permitam-lhe ser algum psiquiatra cósmico, um pastor prestativo, um líder, um mestre, qualquer coisa, talvez… contanto que Ele não seja Deus. E isso por uma razão muito simples… elas mesmas querem ser Deus. Essa sempre foi a essência do pecado – o fato que o homem pretende ser Deus” (James Kennedy, Verdades que transformam, São Paulo: Editora Fiel, 1981, p. 31).

[17] A.W. Pink, Deus é Soberano, Atibaia, SP.: Editora Fiel, 1977, p. 21. Em outro lugar: “Os idólatras do lado de fora da cristandade fazem ‘deuses’ de madeira e de pedra, enquanto que os milhões de idólatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possível senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus” (A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 28). “Defender a crença num ‘poder do alto’ nebuloso é balançar entre o ateísmo e um cristianismo total com suas exigências pessoais” (R.C. Sproul, Razão para Crer, São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 48).

[18] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 235.

[19] A.W. Pink, Deus é Soberano, p. 138.

[20] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 48.1), p. 352.

[21] Veja-se: João Calvino, As Institutas, III.24.9.

[22] João Calvino, As Institutas, III.24.4.

[23]Confissão de Westminster, III.6.

[24]Cânones de Dort, I.13.

[25]Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, Capítulo XVII.

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