Os eleitos de Deus e o seu caminhar no tempo e no teatro de Deus (31)

10.1.1. “Com toda humildade”: (Ef 4.2)

2) A Humildade em nossas relações fraternas

No capítulo 4 de Efésios Paulo dá os primeiros passos com vista ao seu assunto: a unidade da Igreja. Ele começa pela humildade, que de fato é o início da preservação de nossa unidade ideal. A arrogância por ser egoísta torna-se destrutiva, sendo o prenúncio da discórdia e divisão, onde cada um quer ter a primazia, julgando-se no direito de ter privilégios e concessões, justamente por ser alguém “especial”.

 

Calvino enfatiza:

A humildade é o primeiro passo para alcançá-la (a unidade). Ela também produz a mansidão, a qual nos faz pacientes. E ao sofrermos com nossos irmãos, conservamos a unidade que, de outra forma, seria quebrada mil vezes ao dia. Lembremo-nos, pois, que, ao cultivarmos a bondade fraternal, é mister que comecemos com a humildade. Donde procede a impudência, a soberba e as injúrias lançadas contra os irmãos? Donde procede as questiúnculas, os escárnios e as exprobrações, a não ser do fato de cada um amar excessivamente a si próprio e de querer agradar em demasia a si próprio? Aquele que se desfaz da arrogância e cessa de agradar a si próprio se tornará manso e acessível. E quem quer que persista em tal moderação ignorará e tolerará muitas coisas nos irmãos. (…) Será inútil ensinar a mansidão, a menos que tenhamos iniciado com a humildade.[1]

 

Daí Paulo orientar aos romanos dentro de um parâmetro totalmente diferente do secular: Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde (tapeino/j); não sejais sábios aos vossos próprios olhos” (Rm 12.16).

 

Calvino comentando essa passagem, diz:

 

O que ele tem em mente é que o cristão não deve desejar com obsessiva ambição aquelas realizações pelas quais ele exceda a outrem, nem alimentar sentimentos de superioridade; mas, ao contrário, deve ponderar com discrição e mansidão. E são estas que fazem a diferença na presença do Senhor, e não o espírito de soberba ou de desdém demonstrado contra os irmãos. (…) Nada é mais danoso para destruir a unidade cristã do que nos exaltarmos e aspirarmos uma posição mais elevada que a dos outros, sentindo-nos superiores aos demais. (…) A moderação é a principal virtude dos crentes; ou, antes, submissão, que sempre prefere atribuir honra a outrem a recebê-la para si próprio.[2] (Grifos meus).

 

Analisando outros textos bíblicos, aprendemos que todas as nossas atitudes e relações devem ser mantidas com humildade. Neste sentido, Paulo escreve aos filipenses: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade (tapeinofrosu/nh), considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3). Esta unidade, sobre a qual voltaremos a falar, deve ser cultivada diariamente para que não sejamos alvos fáceis de satanás, contribuindo, sem nos darmos conta, para que haja divisões e dissensões.

 

Calvino, em outro contexto oferece-nos alguns princípios práticos:

 

É indubitável que a nós compete cultivar a unidade da forma a mais séria, porque Satanás está bem alerta, seja para arrebatar-nos da Igreja, ou para desacostumar-nos dela de maneira furtiva. Esta unidade será um fato, caso ninguém procure agradar a si próprio mais do que lhe é direito; ao contrário disso, se todos tivermos um só e o mesmo alvo, a saber: estimularmo-nos uns aos outros ao amor, não permitiremos que a emulação floresça, exceto no campo das boas obras. Certamente que o menosprezo direcionado a algum irmão, a rabugice, a inveja, a supervalorização de nós mesmos, bem como outros impulsos nocivos, claramente demonstram, ou que o nosso amor é gélido ou que realmente não existe.[3]

Nunca chegaremos à verdadeira humildade de nenhum outro modo que não seja humilhando-nos e honrando nosso próximo do mais profundo dos nossos corações. (Rm 12.10; Fp 2.4; 1Co 4.7).[4]

 

A humildade juntamente com outras virtudes cristãs, deve caracterizar as nossas relações fraternas. Pedro orienta seus leitores: Finalmente, sede todos de igual ânimo, compadecidos, fraternalmente amigos, misericordiosos, humildes (tapeino/frwn), não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isto mesmo fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança” (1Pe 3.8-9).

 

Maringá, 21 de abril de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Leia esta série completa aqui.

 


[1]João Calvino, Efésios, São Paulo, Paracletos, 1998, (Ef 4.1), p. 108.

[2]João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 12.16), p. 452.

[3]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 10.25), p. 273.

[4]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 35.

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