O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (29)

5.1.4. Deus nos concede sabedoria por meio da Palavra (Continuação)

Necessidade de meditação

A palavra “meditar”, em sua origem latina, significa, entre outras coisas, “preparar para a ação”. Desta forma, a meditação não tem um fim em si mesma, mas, sim, visa conduzir o nosso agir e o nosso realizar.[1]

A prática do meditar na Palavra nos confere maior discernimento, nos estimula ao prazer de obedecer a Deus e de partilhar de seus ensinamentos.

Vejam os testemunhos inspirados descritos por servos de Deus:

Meditarei  (x;yfi) (Siha) nos teus preceitos, e às tuas veredas terei respeito. (Sl 119.15/Sl 119.27,48,78,148).
97Quanto amo a tua lei! É a minha meditação (hx’yf)(sihãh) (considerar, perscrutar, cogitar), todo o dia! 98 Os teus mandamentos me fazem mais sábio (~k;x’)(chakam)que os meus inimigos; porque, aqueles, eu os tenho sempre comigo. 99 Compreendo mais do que todos os meus mestres, porque medito (hx’yf)(sihãh) nos teus testemunhos (tWd[e) (`eduth).[2] 100Sou mais prudente (!yBi) (biyn) que os idosos, porque guardo os teus preceitos. 101 De todo mau caminho desvio os pés, para observar a tua palavra. 102 Não me aparto dos teus juízos (jP’v.mi) (mishpat),[3] pois tu me ensinas (hr’y”) (yarah).[4] (Sl 119.97-102).

Aquilo sobre o que meditamos, normalmente, molda a nossa perspectiva da realidade e o nosso comportamento.[5] O salmista meditava na Palavra de Deus.

Este é o contraste estabelecido pelo salmista entre o ímpio e aquele que teme ao Senhor: “Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2).

Enquanto o ímpio persegue freneticamente o conselho e caminho dos ímpios, o fiel, que tem na Palavra o seu prazer, ocupa a sua mente com a Lei do Senhor; de dia e de noite. A ênfase é no objeto da meditação (A Lei) e a sua constância. A meditação é centrada em Deus e sua Palavra; não é uma mera meditação introspectiva ou transcendental, mas, centrada em Deus e dirigida por Deus.[6]   Portanto, todo momento e cada circunstância é oportuno para tomar a Palavra como alvo de nossas cogitações.

Curiosamente, no Salmo 2.1, o verbo “imaginar”(hg’h’) (hãgãh) é o mesmo de “meditar” no Salmo1.2. O verbo que é usado de forma negativa e positiva na Escritura, tem o sentido de murmurar, gemer, meditar, planejar, imaginar.É possível que a Palavra fosse “murmurada”, lida a meia voz durante a sua contínua meditação.[7] Este meditar tinha como objetivo de, por meio da aprendizagem dos mandamentos de Deus,[8] adequar a sua vida aos ensinamentos ali contidos, não apenas um exercício intelectual e sensorial (Js 1.8).

A questão então, está no que ocupa a nossa mente: em meditar na Palavra ou em imaginar cousas vãs?. Quando a nossa imaginação navega sem rumo pode se alimentar de coisas fúteis, tornando-se instrumento de destruição como, por exemplo, para maquinar planos de vingança e calúnia. A nossa imaginação mal utilizada poderá criar estruturas mentais que se constituem em pressupostos concretos para o novo elaborar intelectual, nos conduzindo a um comportamento totalmente distante da realidade, cujo fundamento está em nossa imaginação pecaminosa que se alimentou de si mesma construindo um mundo fictício e, pior, destrutivo. Esta “petição de princípio” imaginativa certamente acarretará muita dor e ansiedade e, pior, sem nenhum fundamento concreto.

Salomão nos instrui quanto ao perigo de invejarmos o ímpio e de desejarmos conviver com ele. Este homem é contagiante em suas maquinações para a violência as quais são verbalizadas para persuadir: “Não tenhas inveja dos homens malignos, nem queiras estar com eles,  2 porque o seu coração maquina (hg’h’) (hãgãh) violência, e os seus lábios falam para o mal” (Pv 24.1-2).

Davi descrevendo seus inimigos que  se aproveitam de sua fragilidade circunstancial, escreve: “Armam ciladas contra mim os que tramam tirar-me a vida; os que me procuram fazer o mal dizem coisas perniciosas e imaginam (hg’h’) (hãgãh) engano todo o dia” (Sl 38.12).

A imaginação pode ser algo extremamente produtiva e útil quando a colocamos à disposição do serviço de Deus, na realização de projetos condizentes com a Palavra. Isto é válido para qualquer atividade, quer seja na arte, na visão missionária – quer próxima, quer distante –, na elaboração de um livro, no planejamento de nosso mês, na preparação de uma festa etc. Podemos usar a nossa imaginação para visualizar o que pretendemos fazer e nos alegrar na consecução desses projetos.

Maringá, 29 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 


[1]Packer assim define: “Meditação é o ato de trazer à mente as várias coisas que se conhecem sobre as atividades, os modos, os propósitos e as promessas de Deus; pensar em tudo isso, refletir sobre essas coisas e aplicá-las à própria vida”(J.I. Packer, O Conhecimento de Deus,  São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 15).

[2] De modo pactual confirma e adverte quanto à natureza de Deus, à veracidade e seriedade das exigências da Lei de Deus enfatizando a Aliança. Deus dá testemunho de si mesmo (Ex 25.16-22).

[3]Enfatizam a suprema autoridade de Deus em nos prescrever as leis que devem regular as nossas relações e exigir que as cumpramos (Dt 4.1,5,8,14; 5.1; 6.1).

[4]Figuradamente tem o sentido de mostrar, indicar, “apontar o dedo”. Encaminhar (Gn 46.28); disparar (Sl 11.2; 64.4); apontar (Sl 25.8); atingir (Sl 64.4); desferir (Sl 64.7). No hifil, conforme o texto citado, tem o sentido de “ensinar”. (Do mesmo modo: Sl 86.11; 119.33; Pv 4.4; 4.11, etc.).

[5]“Todos nós meditamos e somos moldados pelo objeto de nossa meditação” (Randy Alcorn, Decisões diárias cumulativas, coragem em uma causa e uma vida de perseverança: In: John Piper; Justin Taylor, eds. Firmes: um chamado à perseverança dos santos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2010, p. 99).

[6] Veja-se: Bruce K. Waltke; James M. Houston; Erica Moore, The Psalms as Christian Worship: A Historical Commentary, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 2010, (Sl 1.2), p. 139.

[7] Vejam-se: Mark D. Futato, Interpretação dos Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 55-56; Hebert Wolf, Hagâ: In:  R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 337; Willem A. VanGemeren,  Psalms. In: Frank E. Gaebelein, ed. ger., The Expositor’s Bible Commentary, Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 1991, v.  5, (Sl 1), p. 55; M.V. Van Pelt; W.C. Kaiser, Jr., Hgh: In: Willem A. VanGemeren, org., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v.  1, p. 981-982; Helmer Ringgren; A. Negoitã, Haghah: In: G. Johannes Botterweck; Helmer Ringgren; Heinz-Josef Fabry, eds., Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdamans, 1978, v. 3, p. 321-324.

[8]“A aprendizagem é o processo mediante o qual a experiência passada do amor de Deus é traduzida, pelos aprendizes, em obediência à Torá de Deus” (D. Müller, Discípulo: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 662).

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