O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (24)

A Palavra de Deus deve habitar em nós e nós nela, perseverando inabalavelmente em seus ensinamentos. Permanecer na Palavra significa permanecer em Deus, no seu amor e Deus em nós. Observem a relação estabelecida por Cristo entre o permanecer nele, a Palavra permanecer em nós, a obediência e o amor de Deus em nós:

4 permanecei (me/nw) em mim, e eu permanecerei[1] em vós. Como não pode o ramo produzir fruto de si mesmo, se não permanecer (me/nw) na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes (me/nw) em mim. 5 Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece (me/nw) em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. 6 Se alguém não permanecer (me/nw) em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam. 7 Se permanecerdes (me/nw) em mim, e as minhas palavras permanecerem (me/nw) em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. 8 Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tornareis meus discípulos. 9Como o Pai me amou, também eu vos amei; permanecei (me/nw) no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis (me/nw) no meu amor; assim como também eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e no seu amor permaneço (me/nw).(Jo 15.4-10).

     Esta Palavra nos torna sábios para a salvação. Ela nos conduz à compreensão do propósito de Deus por meio de sua verdade revelada, não para a elaboração do mal ou invencionices vazias (2Pe 1.16),[2] antes, para nos instruir naquilo que edifica. A sabedoria concedida por Deus deve nos tornar sábios para o bem, como indica Paulo:

Pois a vossa obediência é conhecida por todos; por isso, me alegro a vosso respeito; e quero que sejais sábios (sofo/j) para o bem e símplices (a)ke/raioj[3] = puro, sem mistura, sem mescla, não adulterado, intacto)[4] para o mal. (Rm 16.19).

     A palavra (a)ke/raioj) é aplicada ao leite e ao vinho que não foram misturados com água; à pureza do metal e à muralha de uma fortaleza que se manteve intacta. Portanto, a sabedoria do Espírito é pura, sem dissimulação nem segundas intenções. 

Jesus Cristo nos instrui: “Eis que vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices(a)ke/raioj) como as pombas” (Mt 10.16).

A sabedoria cristã dos filhos de Deus se revela no seu uso para o bem. A sabedoria que procede de Deus (Tg 1.17) não é empregada para o mal, para destruir ou satisfazer os nossos desejos egoístas.

     Deus, descrevendo a insensibilidade espiritual de Judá, diz: “…. o meu povo está louco, já não me conhece; são filhos néscios, e não entendidos; são sábios para o mal, e não sabem fazer o bem” (Jr 4.22).

A sabedoria cristã é o oposto disso. Ela se dispõe a ajudar, socorrer, edificar. O seu planejamento é para o bem, nunca para o mal.

Judá estava tão distante de Deus que desaprendera a fazer o bem, os seus pensamentos eram ligeiros, ágeis para o mal. No entanto, o desafio de Deus para nós é para que nos exercitemos na prática do que é justo. E quanto ao mal? Que sejamos puros quanto a ele, não tendo ideias para executá-lo. No entanto, quando nos desafiarem a fazer o bem, que sejamos argutos, prontos, tendo uma visão perspicaz e penetrante. Até para fazer o bem precisamos ter discernimento.

Há, por exemplo, um tipo de assistencialismo que longe de ajudar, cria um espírito de dependência que não se configura como ajuda. Ser sábio para o bem não significa conceder tudo o que nos pede, mas, saber administrar com discernimento os recursos disponíveis, de forma criativa e fraterna visando uma contribuição individual e social. Assim, Deus será glorificado.

Portanto, devemos utilizar a inteligência que Deus nos deu, para edificar, construir, socorrer, nunca para destruir, lucrar desonestamente: isto seria esperteza, que nada tem a ver com o Cristianismo e a pureza que deve caracterizar os filhos de Deus.

     Deus, por intermédio da sua Palavra, nos dá sabedoria espiritual e discernimento para que possamos reconhecer nos seus testemunhos a palavra de vida eterna, a fim de que vejamos com clareza os sinais dos tempos, sem nos deixar levar por falsas doutrinas engenhosamente criadas pelos homens, seguindo, assim, sabiamente o caminho de Deus.

     Um exemplo prático desta sabedoria está na orientação de Paulo no que se refere, ainda que não exclusivamente, à evangelização. Devemos aproveitar as oportunidades, falando com graça e com o sal que Deus nos deu, fruto de nossa transformação espiritual e evidência de nosso discipulado,[5] para que não sejamos insípidos: 5Portai-vos (peripate/w) com sabedoria (sofi/a) para com os que são de fora; aproveitai as oportunidades (kairo/j). 6A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal [com graça e integridade], para saberdes como deveis responder a cada um” (Cl 4.5-6).

     A oração de Paulo é no sentido de que Deus, pelo Espírito, nos dê sabedoria, nos conduzindo à maturidade espiritual (1Co 2.6) para que entendamos a sua revelação em Jesus Cristo mediante o conhecimento intenso de sua Pessoa. Somente pela Sabedoria do Espírito (1Co 2.6-16),[6] tendo como padrão a cruz de Cristo, podemos avaliar toda a realidade, envolvendo a grandeza e a miséria, a sabedoria e a loucura, e, o que de fato é relevante.

     A sabedoria do Espírito nos concede discernimento e um critério absoluto para enxergar todas as coisas. Dizendo de outro modo, Paulo roga a Deus para que os efésios fossem cheios do Espírito Santo.

     A profundidade da sabedoria de Deus revelada na Criação e em seus atos (Rm 11.33-36) não é para ser alvo de especulações, antes, de contemplação adoradora e de nossa vivência na história como povo de Deus.

     Sem o Espírito de sabedoria jamais entenderíamos as maravilhas do Evangelho que consistem no conhecimento não de uma doutrina, mas de uma Pessoa (Jo 17.3).[7]

     Aqui nesta oração temos uma súplica retroalimentadora: pela sabedoria concedida por Deus podemos entender a revelação. Na compreensão progressiva desta revelação vamos adquirindo, por graça, maior sabedoria. O conhecimento de Deus não se esgota. Devemos prosseguir e nos desenvolver neste conhecimento.

     Esta oração se torna concreta em nós na medida em que sinceramente desejamos a sabedoria do alto. A nossa súplica sincera por sabedoria (Tg 1.5)[8] deve vir acompanhada pela leitura e meditação da Escritura.

Goiânia, 25 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Esta palavra não consta no original, é apenas dito: “E eu em vós”.

[2]“Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas (sofi/zw), mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade” (2Pe 1.16).

[3] *Mt 10.16; Rm 16.19; Fp 2.15.

[4] Tem o sentido figurado de pureza, inocência, integridade.

[5]“Bom é o sal; mas, se o sal vier a tornar-se insípido, como lhe restaurar o sabor? Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros” (Mc 9.50/Mt 5.13).

[6]6 Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; 7 mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; 8 sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória; 9 mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. 10 Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus. 11 Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. 12 Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. 13 Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. 14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 15 Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. 16 Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo” (1Co 2.6-16).

[7]“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

[8]Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida” (Tg 1.5).

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