O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e Confrontos – Alguns apontamentos (23)

5.1.3. A Sabedoria do Espírito em nossa cotidianidade

A sabedoria que procede de Deus tem virtudes próprias que não a confundem. Vejamos o tratamento instrutivo que apresenta Tiago:

13Quem entre vós é sábio (sofo/j) e inteligente (e)pisth/mwn)? Mostre em mansidão de sabedoria (sofi/a), mediante condigno proceder, as suas obras. 14 Se, pelo contrário, tendes em vosso coração inveja amargurada e sentimento faccioso, nem vos glorieis disso, nem mintais contra a verdade. 15 Esta não é a sabedoria (sofi/a) que desce lá do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. 16 Pois, onde há inveja e sentimento faccioso, aí há confusão e toda espécie de coisas ruins. 17 A sabedoria (sofi/a), porém, lá do alto é, primeiramente, pura (a(gno/j = santa, honesta);[1] depois, pacífica (ei)rhniko/j),[2]indulgente (e)pieikh/j[3] = moderada, cordata, tolerante, gentil), tratável (*eu)peiqh/j = simpática, razoável), plena de misericórdia (mesto/j e)/(leoj) e de bons frutos (karpo/j a)gaqo/j), imparcial (*a)dia/kritoj = inabalável, resoluta, isenta de duplicidade), sem fingimento (a)nupo/kritoj[4] = não hipócrita, real, verdadeira). 18 Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz. (Tg 3.13-18).

A sabedoria bíblica consiste não no acúmulo de conhecimento, antes, em um modo de vida que reflita a sabedoria de Deus revelada em Cristo Jesus, em quem temos o modelo encarnado da plenitude de sabedoria.

Ser sábio é aplicar o conhecimento adquirido à arte de viver em comunhão com Deus refletindo isso em todas as dimensões de nossa existência. Sabedoria é a associação teórica e prática entre conhecimento e santidade que se manifesta em piedade.

De acordo com a nossa nova natureza, devemos andar com sabedoria, de forma distinta de nossa antiga vida, procurando compreender a vontade de Deus, tendo o cuidado para não sermos enganados por falsos ensinamentos que cultivam uma mera e vazia aparência de verdade:

6Ninguém vos engane com palavras vãs; porque, por essas coisas, vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência. 7Portanto, não sejais participantes com eles. 8 Pois, outrora, éreis trevas, porém, agora, sois luz no Senhor; andai como filhos da luz 9 (porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e justiça, e verdade), 10provando sempre o que é agradável ao Senhor. 11E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as. 12 Porque o que eles fazem em oculto, o só referir é vergonha. 13Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz. 14Pelo que diz: Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará. 15Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios (*a)/sofoj), e sim como sábios (sofo/j), 16 remindo o tempo, porque os dias são maus. 17Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor. (Ef 5.6-17).

A Palavra, por nos revelar Jesus Cristo, o Deus Encarnado e, decorrentemente, por suas instruções, torna-nos sábios para a salvação preparada por Deus para nós desde a eternidade. As Escrituras nos capacitam a ter um padrão unificador da realidade, indo além da mera aparência ou de verdades fragmentadas. Deste modo, onde alguns ouvem um ruído, poderemos perceber uma sinfonia.[5] Em lugar de variadas cores, talvez desconexas para muitos, enxerguemos o arco-íris. Onde outros veem com admiração um céu estrelado, veremos a manifestação da glória de Deus (Sl 8.1; 19.1).[6]

Paulo exorta Timóteo a permanecer naquilo que aprendeu desde a infância. Como é um privilégio poder ter usufruído desde a mais tenra idade uma formação bíblica.[7] Por outro lado, os pais e avós nem sempre percebem de imediato os frutos de seus ensinamentos, porém, devemos perseverar em ensinar as Sagradas letras deixando com Deus os resultados que certamente aparecerão:

3Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com consciência pura, porque, sem cessar, me lembro de ti nas minhas orações, noite e dia. 4 Lembrado das tuas lágrimas, estou ansioso por ver-te, para que eu transborde de alegria 5 pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que, primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também, em ti. (2Tm 1.3-5).
14Tu, porém, permanece (me/nw = continuar, ficar, morar) naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste 15 e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio (sofi/zw) para a salvação pela fé em Cristo Jesus. (2Tm 3.14-15).

De passagem, devemos observar a responsabilidade dos que ensinam. A palavra é o conteúdo da mensagem do Ministro: A Escritura torna o homem sábio para a salvação. Por isso, ele precisa manejá-la bem visto que os falsos mestres também a empregam como pretexto para justificar os seus falsos ensinamentos.

Paulo exorta a Timóteo: “Procura (spouda/zw = “esforçar-se com zelo”, “apressar-se”) apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem (o)rqotome/w = “cortar em linha reta”, “endireitar”) a Palavra da verdade (a)lh/qeia)” (2Tm 2.15).

O sábio manejo da Escritura significa estudá-la, vivenciá-la e proclamá-la conforme o seu propósito. O manejo sábio da Escritura envolve, necessariamente, fidelidade ao Senhor da Escritura. A igreja, portanto, é chamada a ser serva e não senhora da Revelação.

Calvino instrui:

É uma recomendação por demais sublime das Escrituras dizer que a sabedoria suficiente para a salvação não pode ser encontrada em outra parte (…). Ao mesmo tempo, porém, ele nos diz o que devemos buscar na mesma Escritura, pois os falsos profetas também fazem uso dela em busca de pretexto para o seu ensino. Para que ela nos seja proveitosa para a salvação, temos que aprender a fazer dela um uso correto.[8]

Goiânia, 25 de novembro de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] *2Co 7.11; 2Co 11.2; Fp 4.8; 1Tm 5.22; Tt 2.5; Tg 3.17; 1Pe 3.2; 1Jo 3.3.

[2] *Hb 12.11; Tg 3.17.

[3] *Fp 4.5; 1Tm 3.3; Tt 3.2; Tg 3.17; 1Pe 2.18.

[4] *Rm 12.9; 2Co 6.6; 1Tm 1.5; 2Tm 1.5; Tg 3.17; 1Pe 1.22.

[5]Veja a figura em Polanyi, citada por McGrath (Alister E. McGrath, Surpreendido pelo sentido: ciência, fé e o sentido das coisas, São Paulo: Hagnos, 2015, p. 24).

[6]“Ó SENHOR, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade” (Sl 8.1). “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1).

[7]“Se porventura alguém tenha adquirido desde sua tenra juventude um sólido conhecimento das Escrituras, o mesmo deve considerar tal coisa como uma bênção especial da parte de Deus” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 3.15), p. 261).

[8] João Calvino, As Pastorais,(2Tm 3.15), p. 261.

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