Eu lhes tenho dado a tua Palavra (Jo 17.1-26) (90)

2) A santificação envolve um combate confiante

A regeneração é a condição essencial para a santificação. A regeneração consiste na renovação integral de nossa natureza (1Ts 5.23). Como o pecado atingiu e afetou a inteireza do seu humano, o novo nascimento requer uma transformação em nossa natureza essencial e vivencial.[1]

A conversão, o ato de voltar-se para Deus com fé e obediência, é o primeiro exercício da regeneração [2] A santificação, portanto, é a demonstração prática da regeneração. A justificação, não nos conduz à letargia ou indiferença espiritual, antes nos motiva ao progredir em santidade.[3] A justificação e a regeneração são meios conducentes à santificação e, por fim, à glorificação.

Contudo, os crentes, mesmo com uma nova natureza, tendo sido regenerados e declarados justos pela justiça de Cristo, terão que combater o pecado enquanto viverem. Deus já realizou a sua obra justificadora (já não há condenação para nós) e regeneradora (tivemos a nossa natureza transformada); agora, o Espírito opera esta santificação em nós por meio da verdade, nos libertando da corrupção do pecado. “A regeneração é a ação de Deus, e tão-somente de Deus. É responsabilidade nossa viver o que a regeneração efetua. É responsabilidade nossa ser santos”, adverte-nos Murray.[4]

Este combate será árduo; a Bíblia não poupa figuras para descrever esta luta com cores vivas; todavia, a Palavra de Deus nos garante, com ênfase maior, a vitória que temos em Cristo. Daí a nossa certeza de que devemos lutar contra o pecado, sabedores que Deus é por nós nesta luta.

Este é o bom combate da fé. Bom por causa de sua necessidade e objetivo. Paulo exorta a Timóteo:Combate (a)gwni/zomai) o bom combate (a)gw/n) da fé” (1Tm 6.12).

Este combate (a)gwni/zomai)muitas vezes se manifestará de forma angustiante devido à sua intensidade e gravidade. Daí a ideia embutida de esforço extremo (Lc 13.24; Cl 1.29; 4.12; 1Tm 4.10), empenho (Jo 18.36), fadiga (Cl 1.29) e, figuradamente, é ilustrada com o esforço de um atleta que compete (1Co 9.25).

Paulo orienta os gálatas evidenciando as duas forças operantes em nós, os regenerados: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer”(Gl 5.17).

A Confissão de Westminster diz:

Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável – a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne (XIII.2).[5] (Rm 7.19,23; Gl 5.17; Fp 3.12; 1Ts 5.23; 1Pe 2.11; 1Jo 1.10).

Paulo escreve aos coríntios atestando a realidade da tentação, mas, ao mesmo tempo, indicando que ela não é vitoriosa sobre nós: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1Co 10.13).

Notemos que a promessa de Jesus se refere ao seu socorro que nos conduz à vitória. Todavia, isto não exclui a gravidade da tentação, da luta contra a carne, o mundo e o diabo. Em nosso desejo renovado de agradar a Deus, encontraremos sempre no pendor de nossa carne uma luta contra este propósito, para que façamos a vontade do velho homem, surgindo daí, um combate renhido.

Todavia, a nossa nova natureza triunfará pelo Espírito de Deus que em nós habita, cuja presença nos identifica como filhos de Deus (Rm 8.9,14,16).

O escritor de Hebreus, tendo em vista o combate cristão, toma o sofrimento de Cristo como um exemplo e estímulo para a Igreja: “Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis desmaiando em vossas almas” (Hb 12.3). No momento seguinte, indicando a intensidade deste combate, adverte os seus ouvintes: “Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue….”(Hb 12.4).

A Bíblia não deixa dúvida, escreve Packer, de que”qualquer santidade verdadeira em nós estará debaixo de fogo hostil o tempo todo, da mesma forma como nosso Senhor esteve”.[6]

Paulo, com intenso vigor, mostra a gravidade do nosso confronto:“A nossa luta não é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”(Ef 6.12).

O apóstolo está descrevendo a nossa luta contra satanás, que está empenhado em nos afastar de Deus, em nos tornar alvos do entristecimento do Espírito que nos selou para “o dia da redenção”, quando se efetuará o resgate final da propriedade de Deus, que somos nós (Ef 1.12-13; 4.30).

Contudo, apesar deste combate real – e não devemos minimizá-lo – a Palavra de Deus nos mostra a segurança que temos em Cristo Jesus: “Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Deus livre, soberana e graciosamente concluirá todo o seu propósito na vida de seu povo. É nesta confiança que Pedro consola a igreja perseguida e provada:“Sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe 1.5). Continua: “Nisto exultais” (1Pe 1.6).

Meus irmãos, a Palavra de Deus nos diz que apesar de uma luta intensa, do combate atroz contra o mundo, a carne e o diabo, podemos já, nesta vida, exultar, na certeza do cuidado de Deus, que nos garante a vitória final. Neste mesmo espírito escreveu Judas: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante  da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém” (Jd 24-25).

A Confissão de Westminster(1647)conclui o capítulo XIII dizendo:

Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que restam (Rm 7.23), contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte regenerada vence (Rm 6.14; Ef 4.15,16; 1Jo 5.4), e assim os santos crescem em graça (2Pe 3.18), aperfeiçoando a sua santidade no temor de Deus (2Co 7.1) (XIII.3).

Jesus morreu pelo seu povo, e nenhum de nós será arrebatado de suas mãos (Jo 6.37-40,44,65; 10.18-29/Rm 6.14; Fp 1.6; 1Jo 3.9; 5.4,18). A nossa chamada é para combater o bom combate da fé, a seguirmos “O caminho” com perseverança, confiantes unicamente na graça de Deus.

Spurgeon (1834-1892), amparado nas Escrituras, exulta confiante:

O Senhor Jesus tem poder para nos levar lá! Ele lutará contra nossos inimigos para nós. Jesus nos guardará de cair no pecado, e levará todos aqueles pelos quais Ele morreu para a terra celestial. Ninguém será deixado para trás. Estaremos seguros e felizes com Ele para sempre. O Senhor Jesus nos apresentará a Deus e estaremos com aqueles que alcançaram o céu antes de nós.[7]

Maringá, 04 de julho de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Pelo termo nascer de novo ele tem em mente não a reparação de uma parte, mas a renovação da natureza inteira. Daqui se deduz que não há em nós absolutamente nada que não seja defectivo, pois se a reforma é necessária na totalidade e em cada parte, então a corrupção deve ter se expandido por toda parte” (João Calvino, O evangelho segundo João. São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 3.3), p. 116). Veja-se: François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 2, p. 824.

[2] Veja-se: A.A. Hodge,  Esboços de Theologia,Lisboa: Barata & Sanches, 1895, p. 489.

[3] Veja-se:  Joel Beeke; Mark Jones, Teologia Puritana: Doutrina para a vida, São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1191ss.

[4]John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 126.

[5] Veja-se: Catecismo Maior de Westminster,  Pergunta 78.

[6] J.I. Packer, Na Dinâmica do Espírito,São Paulo: Vida Nova, 1991, p. 108.

[7]C.H. Spurgeon, Sermões Sobre a Salvação, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas,  1992, p. 12.

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