“Eu lhes tenho dado a tua Palavra” (Jo 17.1-26) (40)


d) Mundo

“O qual Se entregou a si mesmo pelos nossos pecados para nos desarraigar[1] deste mundo perverso (ai)w=noj ponhrou=)”(Gl 1.4).

            Cristo morreu e ressuscitou para nos libertar definitivamente das garras de um mundo perverso, ou seja, dos valores deste mundo, de uma ética egoísta e terrena.

            Paulo fala de uma “era má, perversa”.Aos efésios, escreve: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus (h(me/rai ponhrai/)(Ef 5.15-16).

            A palavra “mundo” (ai)w/n) (Gl 1.4) significa as transformações pelas quais o nosso tempo passa, conduzindo-o à degradação constante e inflexível. Revela também os valores transitórios da sociedade que se corrompe. Pertencer ao mundo significa ter uma visão da realidade totalmente divorciada de Deus e de sua Palavra, sendo, portanto, governado pela perspectiva e valores do mundo onde vivemos.[2] O mundo tem os seus fascínios próprios que contribuem para as nossas sínteses pecaminosas e ilusórias que se nos mostram arrebatadoras. Nenhum de nós está imune a isso. É preciso que mantenhamos nossos olhos fixos em Deus, que nos mostra o que realmente importa agora e na eternidade.

            A igreja vive a condição de tensão existencial e profética. Ela vive no mundo, contudo, deve permanecer distinta do mundo nos seus valores e testemunho. Ambos os aspectos se completam nos conferindo integridade de vida e de proclamação.

            Uma das prisões mais sutis com a qual nos deparamos e, com frequência, sem perceber nela estamos, é a prisão de nossa mente: uma forma direcionada de pensar, cativa de determinados valores com os quais somos bombardeados diariamente e fortalecidos pelo próprio meio em que vivemos, sem que tenhamos necessariamente um filtro adequado para selecionar de modo crítico o que vemos e ouvimos. Assim, sem que nos demos conta, estamos assimilando valores que nos aprisionam, tornamo-nos “escravos” de uma maneira de pensar e consequentemente de agir

            Desse modo, determinamos o nosso modo de ver a realidade, nos relacionar, criar nossos filhos, tratar nossos irmãos, trabalhar, estudar, nos divertir e, no nosso caso específico, de pastorear e expor ou não a Palavra. De forma decorrente, sem que percebamos, temos, em nome da liberdade de pensamento, uma mente estruturalmente cativa.

            Lloyd-Jones coloca a questão nestes termos:

A maior tirania que temos que enfrentar nesta vida é a perspectiva mundana. Ela se insinua em nosso pensamento em toda parte, e nós a recebemos imediatamente após nascermos.[3] (…) O mundo tende a controlar o nosso pensamento, a nossa perspectiva e a nossa mentalidade.[4]

            No entanto, a libertação levada a efeito por Cristo, não é simplesmente futura, antes, tem o seu início agora, na presente vida. O ato completo de Cristo tem implicações para sempre: somos salvos para viver livres do domínio dos valores deste mundo até a consumação de nossa total liberdade na eternidade.

            Jesus Cristo veio para nos libertar definitivamente. Ele mesmo nos diz: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36). “O Filho do Homem veio (…) para servir e dar a sua vida em resgate (lu/tron)[5]por muitos”(Mt 20.28).     

A libertação do mundo engloba a libertação do domínio da vontade satânica sobre a nossa. Satanás também tem a sua vontade, o seu propósito para a nossa vida. O homem sem Cristo faz naturalmente a sua vontade já que o pecado o tornou eticamente filho do Diabo (Jo 8.44).

Calvino (1509-1564) observa que os “incrédulos se encontram tão intoxicados por Satanás, que, em seu estupor, não têm consciência de sua miséria”.[6]

Paulo instruindo sobre a “didática” do ministro, alude a este tema:

Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e, sim, deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente; disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do Diabo, tendo sido feitos cativos[7]por ele, para cumprirem a sua vontade (Qe/lhma). (2Tm 2.24-26).

  e) Da Superstição

Nesta libertação do pecado, a Escritura nos mostra que fomos salvos da superstição:

Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. (Gl 4.8-10).(Ver: 1Co 10.23-31).

            O conhecimento de Cristo é definitivo, não necessitando de nossas invencionices pecaminosas, conforme escreve Calvino:

É propriedade da fé pôr diante de nós aquele conhecimento de Deus não confuso, mas distinto, o qual não nos deixa em suspenso e à deriva, como o fazem as superstições e seus adeptos, os quais, bem o sabemos, estão sempre introduzindo alguma nova divindade, todas falsas e intermináveis.[8]

            Com todo o avanço científico e tecnológico o homem sem Cristo continua o mesmo, preso às suas crendices e superstições, sendo dominado por um medo insano. Daí o seu prazer em ouvir mitos, entregando-se às fábulas (2Tm 4.3-4).[9] O homem é pródigo na fabricação de seus deuses,[10] em geral, criados à sua imagem e semelhança. Numa pesquisa feita na Inglaterra (talvez no final da década de 80), verificou-se que “o número de adultos que leem o seu horóscopo toda semana é o dobro dos que leem a Bíblia”.[11]

Maringá, 15 de março de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] A palavra “pressupõe que aqueles que são alcançados por seus benefícios estão correndo grande perigo, do qual são incapazes de livrar-se” (W. Hendriksen, Gálatas, São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 55).

[2]“Ser do mundo pode ser assim resumido – é vida, imaginada e vivida, separadamente de Deus. Noutras palavras, o que decide definitiva e especificamente se eu e vocês somos do mundo ou não, não é tanto o que podemos fazer em particular como a nossa atitude fundamental. É uma atitude para com todas as coisas, para com Deus, para com nós mesmos, e para com a vida neste mundo; em última análise, ser do mundo é ver todas estas coisas separadamente de Deus […]

            “Ser do mundo – e isso é repetido pelos apóstolos – significa que somos governados pela mente, pela perspectiva e pelos procedimentos deste mundo no qual vivemos” (D. Martyn Lloyd-Jones, Seguros mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (Certeza Espiritual, v. 2), 2005, p. 28-29).

[3]“A menos que Deus mude a maneira de pensarmos – o que Ele faz em alguns pelo milagre do novo nascimento – nossas mentes sempre nos dirão para nos virarmos contra Deus – o que é precisamente o que fazemos” (James M. Boice, O Evangelho da Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 111).

[4]D.M. Lloyd-Jones, Seguros mesmo no mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 28 e 29.

[5]Preço pago para libertar um escravo. (* Mt 20.28; Mc 10.45).

[6]João Calvino, As Pastorais, (2Tm 2.26), p. 247.

[7] Zwgrew, “capturar”, “feito prisioneiro”, “prender com vida” (* Lc 5.10; 2Tm 2.26).

[8]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 48.14), p. 368.

[9]“(A) fé saudável equivale à fé que não sofreu nenhuma corrupção proveniente de fábulas” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998 (Tt 1.14), p. 320). “Se porventura desejarmos conservar a fé em sua integridade, temos de aprender com toda prudência a refrear nossos sentidos para não nos entregarmos a invencionices estranhas. Pois assim que a pessoa passa a dar atenção às fábulas, ela perde também a integridade de sua fé” (João Calvino, As Pastorais, (Tt 1.14), p. 320).

[10]O historiador Braudel está correto em sua percepção: “A superstição popular é sempre capaz de minar, de comprometer a vida religiosa por dentro, deformando as próprias bases da fé. Tudo, então, deve ser refeito” (Fernand Braudel, Gramática das Civilizações, 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004, p. 312).

[11]John Stott, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo,São Paulo: ABU Editora, 1997, p. 56.

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