Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (18)

3.3. É o Senhor mesmo quem cuida de seus servos

 

No primeiro dia de 1553, período turbulento, Calvino escreve a sua carta dedicatória dos comentários do Evangelho de João aos síndicos de Genebra. A certa altura diz:

 

Espontaneamente reconheço diante do mundo que mui longe estou de possuir a cuidadosa diligência e outras virtudes que a grandeza e a excelência do ofício requer de um bom pastor, e como continuamente lamento diante de Deus os numerosos pecados que obstruem meu progresso, assim me aventuro declarar que não estou destituído de honestidade e sinceridade na realização de meu dever.[1]

 

De fato, o Senhor que vocaciona os seus ministros também os capacita concedendo graça para realizarem a sua obra. Aliás, Deus sempre age assim. Ele não chama pessoas supostamente capacitadas. Quem de nós é suficiente? Também, não nos veste com fantasias com faixas e títulos que para nada mais servem senão para exibir a nossa vaidosa fragilidade. Não. A nossa suficiência vem de Deus. Isso é graça abundante (2Co 3.5/1Co 3.5; 4.7). Em síntese, Deus torna os seus escolhidos em pessoas competentes para realizarem a obra por Ele designada. Isso não significa perfeição ou a impossibilidade de quedas e evidente fragilidade durante o processo.

 

Calvino sabia disso. Por volta de 1556, escreveria: “É Deus quem nos equipa com o Espírito de poder. Pois aqueles que, por outro lado, revelam grande força, caem quando não são sustentados pelo poder do Espírito de Deus”.[2]

 

Tornemos às Escrituras.

 

Paulo durante a sua Primeira Viagem Missionária já se ocupava em fortalecer as igrejas, inclusive, constituindo as lideranças, rogando a Deus o discernimento para isso. Assim, mesmo correndo risco de morte, corajosamente voltou à região onde sofrera grande perseguição,[3] para fortalecer os irmãos. Parece que em Atos a pregação do Evangelho e a difusão do Reino, envolviam ser alvo de perseguição e morte. Os “heróis” de Atos tinham a cruz como companheira constante. A glória pressupõe a cruz. Esta pavimenta por vezes o caminho do cristão (At 14.22; Rm 8.17/2Tm 2.10-12[4]).[5]

 

Dentro do propósito apostólico de fortalecer e consolidar as igrejas a fim de que o Evangelho não caísse no esquecimento e as igrejas seguissem estruturadas com seus ofícios ordinários,[6] a sua agenda envolvia a eleição de presbíteros para que continuassem o ensino na igreja.[7] A rapidez do processo descrito pode ser explicada pela conversão de muitos judeus que, certamente, estavam familiarizados com as Escrituras do Antigo Testamento e, também, pelo trabalho missionário judaico entre os pagãos.[8] Lucas narra:

 

19 Sobrevieram, porém, judeus de Antioquia e Icônio e, instigando as multidões e apedrejando a Paulo, arrastaram-no para fora da cidade, dando-o por morto. 20 Rodeando-o, porém, os discípulos, levantou-se e entrou na cidade. No dia seguinte, partiu, com Barnabé, para Derbe. 21 E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia, 22 fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus. 23 E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição[9] de presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram (parati/qhmi = confiar, entregar) ao Senhor (ku/rioj) em quem haviam crido. (At 14.19-23).

 

Notemos que os presbíteros que foram eleitos eram entre os crentes; os que criam no Senhor (At 14.23). E mais: eles, como todos os demais crentes, foram confiados ao Senhor da Igreja. Os presbíteros terão responsabilidades espirituais maiores (At 20.28), contudo, por graça, não são autônomos; continuam sendo do Senhor. Somente o Senhor pode nos confirmar em nosso trabalho e ofício. É Ele quem dirige e preserva a Igreja. A igreja deve orar por seus presbíteros. Os presbíteros devem orar pela igreja, reconhecendo a sua total incapacidade em conduzir o povo de Deus sem a bênção do Senhor. Orar é expressar a convicção de nossa total incapacidade e, ao mesmo tempo, total confiança no Senhor. Portanto, os presbíteros devem buscar instrução, discernimento e amparo no Senhor, à quem foram confiados.

 

Calvino comentando o texto, fala dos motivos da oração por parte de igreja:

 

O primeiro era que Deus os dirigisse com o Espírito de sabedoria e discrição a fim de que todos escolhessem os homens melhores e mais aptos. Pois bem sabiam que não eram dotados com tão grande sabedoria, que fossem isentos de engano, nem pusessem demasiada confiança em sua diligência pessoal, que não soubessem que a ênfase primordial é posta na bênção divina. Assim vemos diariamente que os critérios dos homens erram onde não se manifesta nenhuma diretriz celestial, e que em todos os labores nada resulta se a mão divina não estiver com eles. Estes são os genuínos auspícios dos santos: invocar o Espírito de Deus para que presida seus conselhos. E se esta é a regra a observar-se em todas as nossas atividades, então, no que diz respeito ao governo da Igreja, o qual depende inteiramente de sua vontade, devemos tomar todo cuidado para nada tentarmos senão tendo-o por Líder e Presidente.

Ora, seu segundo propósito em orar era para que Deus dotasse com os necessários dons àqueles que eram eleitos pastores. Pois o cumprimento deste ofício, tão fielmente quanto se deve, é uma atividade mais árdua do que a força humana é capaz de suportar. Portanto, imploram o auxílio divino também nesta conexão, com Paulo e Barnabé assumindo a liderança.[10]

 

Em outro lugar, acrescenta:

 

Como compreendessem estarem a fazer cousa de todas a mais séria, nada ousavam tentar senão com suma reverência e solicitude. Mais do que tudo, porém, aplicaram-se às preces, nas quais a Deus pedissem o Espírito de conselho e discernimento.[11]

 

Aqui está um grande conforto para a igreja e, em especial para os presbíteros e líderes em geral. Permaneçamos no âmbito de nossa vocação. A nossa esfera é anunciar a Palavra, alimentar e cuidar do rebanho. No entanto, não temos autoridade para ultrapassar a Palavra, nem dispomos de poderes para converter ninguém. Não queiramos ir além do que nos foi proposto e confiado. Somos pregadores e testemunhas. O sobrenatural desta missão pertence a Deus que revela já de início o seu misericordioso poder ao transformar pecadores em pregadores. Sem esta compreensão, corremos o sério risco de nos esgotarmos terrivelmente em nossas ansiedades criadas pela falta de compreensão do Evangelho de Deus, do que somos e de nossa missão.[12] A Grande Comissão não falhará; ela está totalmente sob a autoridade e poder do Deus Triúno.[13]

 

Um dos graves problemas com os quais nos deparamos em todas as esferas em nosso país, ainda que não exclusivamente, é a falta de autoridade moral.[14] Quando ativa ou passivamente, o desleixo, a corrupção e os abusos são cometidos em todas as esferas, num primeiro momento podemos ter uma justa indignação. Com o passar do tempo e o agravamento da situação, esta indignação inicial tende a assumir a postura de revolta individual e coletiva ou, ainda que não necessariamente de modo excludente, a ironia e o deboche. Neste processo, quer de forma coletiva e pública, quer mais sutilmente, de modo velado, o desrespeito às autoridades constituídas se torna comum.

 

Na questão eclesiástica local, pelo fato de estarmos muito próximos de nossos irmãos, onde a sua vulnerabilidade se torna mais evidente, podemos perder a dimensão da grandeza e responsabilidade de seu ofício, nos tornando críticos e levianos, pouco ou em nada nos lembrando de orar por eles. Paulo promoveu a eleição de presbíteros em cada igreja. A igreja deveria votar com apurado senso de reverência, confiando estes homens ao Senhor, conscientes de sua responsabilidade na condução da igreja. A vocação para um ofício eclesiástico não significa a deificação de alguém, antes a graça do chamado na vida de um pecador que, como os demais irmãos, está em busca de uma maior obediência a Deus.

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, p. 23.

[2] João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 1.7), p. 204.

[3] “A popularidade universal está para os falsos profetas, assim como a perseguição para os verdadeiros” (John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte, 3. ed. São Paulo: ABU, 1985, p. 44).

[4]“Fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (At 14.22). “Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coherdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17). 10 Por esta razão, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com eterna glória. 11 Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele; 12 se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele, por sua vez, nos negará” (2Tm 2.10-12).

[5]“Sofrimento, aflição, tribulações e testes – estes são dons que Deus nos dá para nosso crescimento, as pedras de pavimentação necessárias no caminho que conduz à plenitude de caráter e de alegria” (Bruce Ware, Cristo Jesus homem: Reflexões teológicas sobre a humanidade de Jesus Cristo, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 108).

[6] “O programa missionário, para ser completo, há de visar à fundação de igrejas que a si mesmas governem, sustentem e promovam os meios de sua propagação. Foi sempre este o propósito e a prática do apóstolo Paulo”, escreveu em 1919 Erdman (1866-1960), antigo professor de Princeton (Charles R. Erdman, Atos dos Apóstolos, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1960, p. 112).

[7]Veja-se: John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.23), p. 27.

[8] “Duvido que, em poucos meses, Paulo pudesse indicar presbíteros numa congregação inteiramente composta de ex-pagãos e ex-idólatras. Nesse caso, é quase certo que teria havido um período de transição de missão para igreja, enquanto os presbíteros estariam sendo ensinados e treinados” (John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: Até os confins da terra, São Paulo: ABU, (A Bíblia Fala Hoje),1994, (At 14.21-28), p. 267).

[9] A eleição aqui descrita parece ter sido feita pelo levantar das mãos (Xeirotone/w = xei/r = “mão” & tei/nw = “estender”), ainda que não necessariamente (* At 14.23; 2Co 8.19). Aliás, este costume não era estranho na Antiguidade. A votação era normalmente feita pelo ato de levantar as mãos; em Atenas por aclamação, ou por folhas de votantes ou pedras; em caso de desterro, o voto era secreto. (Veja-se o enriquecedor artigo de Sir Ernest Barker, Eleições no Mundo Antigo: In: Diógenes (Antologia), Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1982, n° 2, p. 27-36). Vejam-se também: William F. Arndt; F. Wilbur Gingrich A Greek-English Lexicon of the New Testament, Chicago: The University of Chicago Press, 1957, p. 889; E. Lohse, xeirotone/w: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 9, p. 437; Horst Balz; G. Schneider, eds. Exegetical Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 1999 (Reprinted), v. 3, p. 465; Simon J. Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (At 14.23-24), p. 43-46; R.C.H. Lenski, The Interpretation of the Acts of the Apostles, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, (Commentary on the New Testament), 1998, (At 14.23), p. 585-588. Quanto à disputa entre presbiterianos e episcopais concernente à interpretação do texto, veja-se o presbiteriano: J.A. Alexander, A Commentary on The Acts of the Apostles, Edinburgh: The Banner of Truth Trust, © 1857, 1991 (Reprinted), v. 2, (At 14.23), p. 65-66. Calvino tem uma palavra equilibrada sobre a “eleição” dos presbíteros: “Daí, ao ordenar pastores, o povo tinha uma eleição soberana; mas, no caso de haver alguma desordem, Paulo e Barnabé presidem como moderadores. Esta é a maneira como devemos entender a decisão do Concílio de Laodicéia, que proíbe que a eleição seja entregue ao povo comum” (John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.23), p. 28).

[10]John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (Calvin’s Commentaries), 1996 (Reprinted), v. 19, (At 14.23), p. 28.

[11]J. Calvino, As Institutas, IV.3.12.

[12]“As pessoas ansiosas são cativadas por toda e qualquer forma de certezas que se lhe ofereçam, não importando quão irracionais sejam elas. Tais pessoas tornam-se vulneráveis a influências estranhas, e fazem coisas tolas” (J.I. Packer, O Plano de Deus para Você, 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005, p. 102).

[13] Veja-se: Michael Horton, A Grande Comissão, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 27-39.

[14]“O problema básico do mundo de hoje é problema de autoridade. O caos no mundo se deve ao fato de que, em todas as áreas da vida, as pessoas perderam todo o respeito pela autoridade, quer entre as nações ou entre regiões, quer na indústria, quer em casa, quer nas escolas, ou em toda e qualquer parte. A perda da autoridade! E, em minha opinião, tudo começa realmente no lar e na relação matrimonial” (D.M. Lloyd-Jones, Vida No Espírito: No Casamento, no Lar e no Trabalho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 87).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (17)

3.2.  A Igreja é guiada por meio de seus escolhidos

 

Quando Paulo se despede dos presbíteros de Éfeso lhe diz: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28).

 

A Igreja é um organismo e uma organização. Como organismo enfatizamos a sua eternidade dentro do propósito de Deus. Essa é a igreja invisível, santa e pura que se concretiza na história por meio da igreja como organização, identificada pela fiel proclamação da Palavra, a administração correta dos sacramentos e o exercício fiel da disciplina. Ambos os aspectos da mesma igreja são constituídos pelo Espírito. O organismo acentua a sua eternidade, espiritualidade e vitalidade. A organização demonstra a necessidade de esse organismo ser organizado materialmente por meio do seu modus operandi que envolve as suas estruturas, leis e ação na história. Por isso, a igreja precisará sempre ter uma estrutura administrativa, normas, liderança, etc. (Rm 12.8).

 

Bavinck escreve de forma esclarecedora:

O governo é indispensável para a igreja como ajuntamento dos crentes. Assim como um templo precisa de um arquiteto, o campo, de um semeador, uma vinha, de um tratador, uma rede, de um pescador, um rebanho de um pastor, um corpo, de uma cabeça, uma família, de um pai, um reino, de um rei, assim também a igreja é inconcebível sem uma autoridade que a sustente, oriente, cuide e proteja. Em certo sentido, ainda mais especial que no caso do campo político, essa autoridade se baseia em Deus. (…) Assim como no campo civil ele concedeu soberania ao governo, assim também na igreja ele designou Cristo para ser rei. (…) No entanto, (…) aprouve a ele, sem de forma nenhuma transferir sua soberania às pessoas, usar o serviço delas no exercício de sua soberania e pregar o evangelho por meio delas a todas as criaturas. Também nesse sentido, a igreja nunca ficou sem governo. Ela sempre foi organizada e institucionalizada de algum modo.[1]

 

Keller assim descreve a igreja mais propriamente como organização:

 

Para ser exercidos, esses dons têm de ser reconhecidos publicamente pela igreja, o que requer certa organização. Não há como exercitar o dom de liderança (Rm 12.8) sem que haja uma estrutura institucional: eleições, estatutos, ordenação e padrões de credenciamento. Ninguém consegue governar sem algum tipo de acordo feito pela igreja toda sobre os poderes conferidos aos governantes e como esses poderes serão exercitados legitimamente.[2]

 

O organismo vivencia a sua realidade por meio da igreja como instituição e como povo no exercício de sua vocação na sociedade. O problema é quando a sua estrutura organizacional nega em sua prática a espiritualidade de sua essência. Desse modo, um dos indícios dessa inversão é quando a estrutura eclesiástica passa a ser o grande e único foco da igreja à qual todas as demais coisas passam a estar subordinadas. Assim, o grande elemento identificador do sucesso profético dessa igreja é a sua riqueza, templos requintados, reconhecimentos e membresia. Junto com isso vêm o desejo de perpetuação no poder, o fascínio por cargos e comissões, os quais devem ser bem distribuídos para acalmar os corações sedentos por servir a Deus com mais conforto e visibilidade.

 

A expressão material de nossa fé não pode ser dissociada da essência da fé que brota e fundamenta-se na Palavra, caso contrário, será uma expressão de algo falso, apenas para ser professada, não para ser vivenciada. A vida manifesta a nossa fé.[3] Não há alternativa: Ou a nossa vida expressa de forma coerente a fé professada ou a nossa vida nega a nossa fé, revelando uma outra fé. Sem fé não vivemos!

 

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] Herman Bavinck, Dogmática Reformada − Espírito Santo, Igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 333.

[2]Timothy Keller, Igreja centrada, São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 409.

[3] “A fé, sem a evidência de boas obras, é inutilmente pretendida, porque o fruto sempre provém da raiz viva de uma boa árvore” (John Calvin, Commentaries on the Epistle of James, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996, (Calvin’s Commentaries, v. 22/2), (Tg 2.18), p. 312).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (16)

3.1. O Senhor que vocaciona e confere autoridade aos seus servos

 

É somente pela vocação divina que os ministros da Igreja se tornam legalmente efetivados. Quem quer que se apresente sem ser convidado, seja qual for a erudição ou eloquência que o mesmo possua, esse não recebe autoridade alguma, porquanto não veio da parte de Deus. −João Calvino.[1]

 

Quando escolhemos os líderes de nossa igreja, estamos simplesmente reconhecendo o chamado e dos dons do Senhor. − Timothy Keller.[2]

 

Seja qual for a autoridade que eu possa ter como pregador, não é resultado de qualquer decisão da minha parte. Foi a mão de Deus que me tomou, me tirou e me separou para esta obra. Sou o que sou pela graça de Deus; e a Ele dou toda a glória − D.M. Lloyd-Jones.[3]

 

Uma das formas pelas quais Deus se vale para cuidar de sua Igreja, é vocacionando e habilitando seus servos para, por meio deles, alimentar e cuidar de seu rebanho. A vocação ministerial, por exemplo, é para o serviço, não para o domínio (1Pe 5.1-2). Lucas descreve de forma sucinta e reverente a vocação do Apóstolo Paulo e a comissão de Ananias:

 

15 Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; 16 pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome. 17 Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo. (At 9.15-17).

 

Mais tarde, Paulo pôde escrever a Timóteo: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério” (1Tm 1.12).

 

No seu chamado, Paulo reconhecia a autoridade apostólica conferida pelo Senhor para a edificação da Igreja: “Porque, se eu me gloriar um pouco mais a respeito da nossa autoridade, a qual o Senhor nos conferiu para edificação e não para destruição vossa, não me envergonharei” (2Co 10.8/2Co 13.10;1Co 5.1-5).

 

Calvino acentuou a responsabilidade do presbítero. Entende que Deus se dignou em consagrar a si mesmo “as bocas e línguas dos homens, para que neles faça ressoar própria voz”.[4] Deste modo, os pastores não estão a seu próprio serviço, mas de Cristo; “são ministros de Cristo que servem à sua igreja”.[5] A igreja é a razão da existência desses ofícios (1Co 3.22; Ef 4.12). Eles buscam discípulos para Cristo, não seguidores para suas ideias e concepções pessoais.

 

Calvino mais uma vez nos instrui:

 

A fé não admite glorificação senão exclusivamente em Cristo. Segue-se que aqueles que exaltam excessivamente a homens, os privam de sua genuína grandeza. Pois a coisa mais importante de todas é que eles são ministros da fé, ou seja: conquistam seguidores, sim, mas não para eles mesmos, e, sim, para Cristo.[6]

 

É preciso que tenhamos esta consciência derivada do ensino bíblico. Deus é o Senhor da Igreja. É Ele quem constitui seus oficiais.

 

Deus manifesta a sua vontade por intermédio da eleição realizada pela assembleia da igreja conforme a sua forma de governo. Deus sabe sempre o que é melhor para a sua igreja ainda que nem sempre tenhamos a visão imediata do seu propósito, o que, diga-se de passagem, é mais do que natural.

 

Deus na condução de sua Igreja utiliza-se de seus servos a quem Ele mesmo escolhe e chama, sendo a Igreja o instrumento de Deus para a execução de parte desse processo.

 

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.31), p. 71.

[2] Timothy Keller, Igreja centrada, São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 409.

[3] D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 90.

[4]João Calvino, As Institutas, IV.1.5.

[5] Herman Bavinck, Dogmática Reformada − Espírito Santo, Igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 332.

[6]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 3.5), p. 101-102.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (15)

A Confissão de Westminster retrata com propriedade:

 

As igrejas mais puras debaixo do céu estão sujeitas à mistura e ao erro; algumas têm degenerado ao ponto de não serem mais igrejas de Cristo, mas sinagogas de Satanás; não obstante, haverá sempre sobre a terra uma igreja para adorar a Deus segundo a vontade dele mesmo. (XXV.5).

 

No entanto, o Senhor, o único cabeça da igreja a tem preservado, mesmo quando, por vezes, tudo parece perdido, como foi no período que antecedeu à Reforma (1517), durante o Iluminismo na Europa (1650-1800) e mesmo, de forma muito mais sutil, com o ecumenismo nos anos de 1960 e na falta de sentido de verdade do homem contemporâneo e mesmo em determinados círculos evangélicos.[1] Deus, o Cabeça da Igreja evidencia de forma poderosa o seu governo por meio de uma volta às Escrituras.

 

O Senhor não abandona a sua Igreja a despeito dos mais violentos e sutis ataques de Satanás. Ele está no controle.  Portanto, a Igreja que pretende ter outro cabeça não pode ser a verdadeira Igreja de Cristo. Não temos outro chefe ou cabeça, senão a Cristo, o Senhor. Mais uma vez recorro à Confissão de Westminster:

 

Não há outro Cabeça da Igreja senão o Senhor Jesus Cristo; em sentido algum pode ser o Papa de Roma o cabeça dela, mas ele é aquele anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição que se exalta na Igreja contra Cristo e contra tudo o que se chama Deus. (XXV.6).

 

Isso significa que os momentos de maior fortalecimento da igreja na história sempre estiveram associados à compreensão da natureza gloriosa de Jesus Cristo. Por outro lado, a igreja entra em profunda decadência espiritual, a sua pregação se desvia das Escrituras, quando ela perde a dimensão da glória, grandeza e singularidade de Jesus Cristo.

 

É observável historicamente que os momentos de maior fortalecimento da igreja sempre estiveram associados à compreensão da natureza gloriosa de Jesus Cristo. Por outro lado, a igreja entra em profunda decadência espiritual, a sua pregação se desvia das Escrituras, quando ela perde a dimensão da glória, grandeza e singularidade de Jesus Cristo. Fica claro que a pregação expositiva e, por sua vez, o seu abandono, é um dos indicadores do lugar que Cristo ocupa na igreja. O nível espiritual da igreja nunca está acima de seu púlpito.

 

A Reforma espiritual da igreja começa pelo púlpito, por aquilo que é pregado e ensinado em nossas igrejas, acompanhado de oração, suplicando a misericórdia de Deus que ilumine as nossas mentes e aqueça os nossos corações nos conduzindo ao arrependimento e à obediência sincera ao Senhor. Essa transformação se estende à vida e família dos fiéis, e faz diferença em todos os seus relacionamentos.

 

Vale lembrar que o estudo e o ensino da doutrina não visam mostrar o quanto conhecemos a Palavra e, ao mesmo tempo, o quão distante estão os outros de conhecerem como conhecemos. Esse tipo de farisaísmo religioso, arrogante e satisfeito consigo mesmo, identificador prazeroso dos erros dos demais, colocando-se num patamar acima, deve estar totalmente distante de nós. Este tipo de pensamento e comportamento é o que há de mais estranho ao verdadeiro conhecimento pessoal de Deus por meio de sua Palavra e, consequentemente, de nossa vivência com ele.

 

O conhecimento de Deus nunca é estéril, antes, é frutuoso em obediência e piedade. Portanto, não esperemos agradar a Deus sendo-lhe desobediente, desonrando o seu Filho.

 

Um dos pontos cruciais da Reforma, herdado dos pré-reformadores, foi a supremacia de Cristo sobre a Igreja. A Igreja não pertence a homens. Ela deve ser governada por Cristo que o faz por meio de sua Palavra. A igreja como Corpo de Cristo deve ser seu agente na história, evidenciando a supremacia dele em sua fé, ensinamentos e atitudes. O pré-reformador João Huss (c. 1369-1415)[2] morreu por esta verdade, sendo queimado vivo em 1415.

 

A igreja como Corpo de Cristo tem sido fortalecida na força de seu poder e, é por isso que ela ultrapassa em muito a nossa capacidade de compreensão e explicação. Ela é o povo de Deus, os ramos da videira, o edifício fundamentado em Cristo, as ovelhas, sob a direção e cuidado do Sumo Pastor.[3] Somos o povo de Deus, propriedade exclusiva dele (1Pe 2.9-10). Ninguém poderá nos destruir. O Senhor reina sobre todas as coisas e a Igreja é o seu corpo presente na história que está sendo formado e aperfeiçoado até a consumação vitoriosa de sua obra.

 

Em Ef 1.16-23 o apóstolo ora para que a igreja, mesmo nos momentos de abatimento e fraqueza tenha os seus olhos iluminados para saber esta verdade revelada, compreendendo-a pelo Espírito de sabedoria que nos foi concedido.

 

A cosmovisão cristã obviamente não se aplica apenas a esta vida, antes, tem um sentido escatológico, aponta para o fim, quando Cristo será plenamente glorificado, consumando a sua obra na criação. A escatologia é a consumação natural do plano de Deus na sua historificação temporal.

 

A Escatologia é precedida de uma história realizada – vivemos a agimos em correspondência à nossa fé e vocação. A história aponta para uma escatologia decisiva. Desta forma, olhando pelo prisma da escatologia, podemos dizer que a história é escatológica, visto que para lá ela caminha de forma progressiva e realizante: A história se consumará na não história, no atemporal e eterno. Por outro lado, a escatologia confere sentido à história.

 

A fé da Igreja respalda-se em um fato histórico, e nutre-se da esperança que emana da promessa de Deus: “A esperança é o alimento e a força da fé”.[4] E, quanto ao tempo, devemos ter em mente esta certeza: “Os tempos estão nas mãos e à disposição de Deus, de modo que devemos crer que tudo é feito na ordem prefixada e no tempo predeterminado”.[5]

 

O Senhor Jesus também anela pela conclusão de sua obra quando ele estará completo como cabeça, tendo o seu corpo completado e perfeito, totalmente enchido por ele (Ef 1.23). Já nesse estado de existência, a Igreja pode declarar com fé em alto e bom som:

 

31Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? 32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? 33 Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. 34 Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. 35 Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? 36 Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro. 37 Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. 38 Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, 39 nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8.31-39).

 

 

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1] “Hoje vivemos numa igreja que se incomoda menos com a verdade que com qualquer artigo. O amor à verdade não é nem mesmo uma virtude: é um defeito, porque a verdade divide as pessoas. A verdade causa controvérsia. A verdade causa debate. A verdade causa transtorno aos relacionamentos. A verdade crucifica pessoas. Jesus afirmou: ‘Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz’ (Jo 18.37)” (R.C. Sproul, Oh! Como amo a tua lei. In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 19).

[2]Huss, pregador da Capela de Belém e professor e Reitor da Universidade de Praga, fora excomungado em 1412 por ter aderido às ideias de Wycliff, tendo pregado contra as indulgências, desafiado a autoridade do papa e enfatizado a autoridade das Escrituras. Em 1415 compareceu no Concílio de Constança (1414-1418), na Alemanha, sendo supostamente protegido por um salvo-conduto do Imperador, que terminou por ser suspenso pelo papa, sob a alegação de “não era necessário manter a palavra dada a um herege” e de que “ele jamais concedera qualquer salvo-conduto, e que não estava obrigado a seguir aquele que fora emitido pelo imperador alemão”. Foi queimado vivo. Fox narra as suas palavras ditas ao carrasco: “Vais assar um ganso (pois o nome Huss significa ganso na língua Boêmia), porém dentro de um século surgirá um cisne que não poderão nem assar e nem ferver”. Fox interpreta: “Se Huss neste momento disse uma profecia, deve ter se referido a Martinho Lutero, que apareceu ao final de aproximadamente cem anos, e em cujo escudo de armas tinha a figura de um cisne” (John Fox, O Livro dos Mártires, 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD., 2002, p. 166). (Ver: Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000, p. 192; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 39; Robert G. Clouse, Richard V. Pierard e Edwin M. Yamauchi, Dois Reinos – A Igreja e a Cultura interagindo ao longo dos séculos, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 216; John Fox, O Livro dos Mártires, p. 162-166; John MacArthur, Por que ainda prego a Bíblia após quarenta anos de ministério: In: Mark Dever, ed., A Pregação da Cruz, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 142-143; John MacArthur, Escravo: A verdade escondida sobre nossa identidade em Cristo, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2012, p. 65-75.

[3] “Ele não pode ser nossa Cabeça a não ser que também seja simultaneamente nosso Pastor, tendo sobre nós toda autoridade” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 183).

[4]J. Calvino, As Institutas, III.2.43.

[5]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 1.3), p. 303.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (14)

3. Cristo como Senhor e cabeça da Igreja[1]

 

22E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, 23 a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23).

 

Estes versos aludem a algumas verdades que queremos destacar, me concentrando em uma delas:

 

 1) É-nos dito que Cristo é o Senhor de todas as coisas. Tudo está debaixo de seus pés. Toda a realidade está sob o seu domínio.  Ele governa todas as coisas, conhecidas e ignoradas por nós, visíveis e invisíveis. O seu domínio não está limitado à nossa compreensão e abrangências do real: “E pôs todas as coisas debaixo dos pés” (Ef 1.22). Deste modo, o universo, as incontáveis galáxias, a história, os governantes, os pássaros e os fios de cabelo que caem, aquilo que ocupa a sua mente neste momento e inquieta o seu coração, nada escapa ao seu poder e controle. Nada lhe é indiferente. Nada lhe é estranho.

 

A abrangência de seu domínio não exclui a particularidade de seu poder e controle. Isso também envolve a Satanás e os seus anjos. Não há poderes neste mundo, nem no porvir que estejam fora da esfera de domínio do Senhor ressurreto.

 

2) Ele é Senhor do universo. No entanto, a sua providência é especialíssima,[2] se manifestando no seu cuidado amoroso para com a Igreja, que é o seu corpo. A Igreja como Israel de Deus é a menina dos seus olhos (Zc 2.8/Dt 32.10). Esta certeza faz parte essencial da fé cristã.

 

Deus preserva a Igreja em todas as circunstâncias. Mesmo nas noites mais trevosas de nossas angústias, podemos ter a certeza de que ninguém pode nos separar de Cristo (Rm 8.31-39). Estamos guardados e protegidos em suas poderosas mãos (Jo 10.28-30).[3] Esta convicção é um antídoto poderoso e eficaz contra a nossa angústia e depressão, nos capacitando resistir às tentações que procuram produzir em nós a sensação de solidão, fraqueza e desamparo. Isso é motivo de grande estímulo, conforto e alegria para todos nós.

 

Turretini (1623-1687) escreve de modo penetrante:

 

Da confiança na providência provém a mais profunda consolação e incrível tranquilidade mental para os santos. Ela os leva a repousar serenamente no seio de Deus e a encomendar-se inteiramente ao seu paternal cuidado, esperando sempre dele o bem no futuro, não duvidando de que Ele sempre cumprirá o ofício de um Pai para com eles, conferindo o bem e afastando os males; exemplos disso temos em Davi (1Sm 17.37; Sl 23.1,4,6) e em Paulo (2Tm 4.17,18). Sentem eles que sob a proteção de Deus (o qual tem todas as criaturas em seu poder), não negligenciando indolentemente os meios, nem preocupadamente pondo neles a confiança, usando-os, porém, prudentemente segundo o seu mandamento, lançam todos os seus cuidados sobre o Senhor (1Pe 5.7) e, em todas as suas perplexidades, sempre exclamam com o pai dos fiéis: “O Senhor proverá”.[4]

 

3) A glória de Cristo se tornará plena e completa por meio da Igreja, quando Ele mesmo consumar a obra, enchendo a igreja e sendo cheio por ela em alegria e amor (Ef 1.23).

 

Paulo diz que Jesus Cristo ressurreto, evidencia a supremacia do poder do Pai e do Filho, sendo constituído o cabeça sobre todas as coisas e, como evidência disso, o Pai o deu à Igreja. Do mesmo modo, escrevendo aos Colossenes, afirmou: 9porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade. 10Também, nele, estais aperfeiçoados. Ele é o cabeça de todo principado e potestade” (Cl 2.9-10).

 

A Igreja é comandada por Cristo como o cabeça e, ao mesmo tempo tem a sua vitalidade em Cristo como a cabeça. Ele é que é o cabeça, quem comanda e dirige a Igreja e, é a cabeça quem a completa em um único Corpo. Aqui temos um sentido escatológico visto que “Cristo não pode ser perfeito como um Cristo místico, a menos que seus membros sejam ressuscitados com ele”, escreve Watson (c. 1620-1686).[5]

 

Paulo quando usa a metáfora da Igreja como Corpo, aplica a singularidade do nome de Cristo: “Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo” (1Co 12.12).

 

A força e vitalidade da Igreja estão na cabeça que é Cristo. Paulo não trata da glória da Igreja divorciada da glória de Cristo porque isso seria impossível. Por isso é que antes de falar da igreja ele já tratou da Pessoa de Cristo (Ef 1.3-13). Sem esta compreensão, a Igreja se perderá em seus descaminhos fruto de uma compreensão errada de sua natureza e propósito. A Igreja está unida a Cristo em uma santa e perpétua união.[6] Por isso, nos adverte Calvino: “toda teologia, quando alienada de Cristo, é não só vã e confusa, mas também nociva, enganosa e espúria”.[7]

 

Não podemos falar do corpo em detrimento de sua cabeça.[8] Fazer esta separação significa dilacerar, esquartejar o Corpo de Cristo e, consequentemente a Cabeça. Sem Cristo a igreja está morta. Todos os nervos, veias e músculos estão conectados à cabeça, que lhes comanda. Não há vida real fora do cérebro. Do mesmo modo, na Igreja, não há vida fora de Cristo. Não há independência. Tratar da igreja à revelia de Cristo é fazer uma autópsia de um corpo morto. A nossa união não é mecânica, nem artificial, antes, é orgânica e vital. Somos unidos e guiados pelo mesmo Espírito, em um só corpo, cuja cabeça é Cristo.[9]

 

Todas as bênçãos, todos os privilégios da vida cristã, emanam do fato de que estamos unidos a Cristo. Jesus Cristo não é uma peça decorativa, ou simbólica, antes, dele provém toda glória, poder e autoridade. A criação foi estabelecida nele e para Ele.

 

16 pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. 17 Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. 18Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia (Cl 1.16-18).

 

Com o pecado, a condição de Cabeça da Criação assume aspecto redentivo. O Senhor que comprou a Igreja com o seu próprio sangue, nos conduz de volta a Deus. Ele mesmo nos comunica as bênçãos adquiridas para nós por meio de sua morte e ressurreição.[10] Todos os servos de Deus, por mais proeminentes que sejam ou tenham sido, não têm vida em si mesmos.[11] Independência é morte (Jo 15.1-8).[12]

 

“Nossa verdadeira plenitude e perfeição consiste em estarmos unidos no Corpo de Cristo”, exulta Calvino.[13] Portanto, não podemos separar o que Deus prazerosamente uniu desde a eternidade.

 

A visão correta a respeito da Igreja passa, necessariamente, pela correta compreensão de quem é o Cristo, o Filho de Deus. Por isso, uma Cristologia defeituosa, anencéfala – justamente por não corresponder à plenitude da revelação bíblica – gera necessariamente uma eclesiologia distante das Escrituras, tão adequável a manipulações e interesses estranhos a elas. E, ao mesmo tempo, produz uma visão míope da realidade e de nosso papel na sociedade como povo de Deus. Considerar a Igreja fora de Cristo é um exercício de necropsia não de teologia.

 

Bavinck acentua com precisão:

 

A doutrina de Cristo não é o ponto de partida, mas certamente é o ponto central de todo o sistema dogmático. Todos os outros dogmas ou preparam para ela ou são inferidos dela. Nela, que é o coração da dogmática, pulsa toda a vida eticorreligiosa do Cristianismo.[14]

 

Ao longo da história, a igreja tem enfrentado os mais variados ataques, perseguições, heresias, tentações, esfriamento de sua fé. No entanto, Cristo supre a Igreja com tudo o que é necessário para a sua existência e crescimento. Ele a prepara para os momentos de paz, bonança e, também para as intempéries, guerras, perseguições e abatimentos. A igreja nunca viveu sem oposição e, paradoxalmente, essa costuma ser a sua melhor fase.[15]

 

 

Maringá, 21 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

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[1]Sobre este capítulo, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Introdução à Cosmovisão Reformada, Goiânia, GO.: Editora Cruz, 2017.

[2]Veja-se: J. Calvino, As Institutas, I.17.6.

[3] É muito sugestiva a análise do uso bíblica da expressão “mão de Deus”, demonstrando como o Deus pessoal cuida de seu povo dentro das categorias tempo e espaço, bem como além e depois (Veja-se: Francis A. Schaeffer, Não Há Gente Sem Importância, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 31-41).

[4]François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 676.

[5]Thomas Watson, A Fé Cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 351.

[6] “Pensar em Cristo sem a igreja é separar o que Deus uniu em santa união” (Joel Beeke, Coisas Gloriosas são ditas sobre Ti. In: John MacArthur, et. al. Avante, Soldados de Cristo: uma reafirmação bíblica da Igreja, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 33).

[7]João Calvino, Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 2, (Jo 14.6), p. 93.

[8] Vejam-se as pertinentes observações de Jacques de Senarclens, Herdeiros da Reforma, São Paulo: ASTE., 1970, p. 330-331.

[9] “É-nos suficiente saber que Cristo e seu povo são realmente um. São tão verdadeiramente um como a cabeça e os membros do mesmo corpo, e pela mesma razão; são envolvidos e animados pelo mesmo Espírito. Não se trata meramente de uma união de sentimentos, ideias e interesses. Esta é só a consequência da união vital na qual as Escrituras põem tanta ênfase” (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 1004).

[10]Veja-se: João Calvino, evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2015, v. 2, (Jo 17.21), p. 200-201.

[11]Veja-se: João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 182-183.

[12]Veja-se: D. M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus: Exposição sobre Efésios 1.1-23, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 410-411.

[13]João Calvino, Efésios, (Ef 4.12), p. 124.

[14]Herman Bavinck, Dogmática Reformada: O pecado e a salvação em Cristo, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 3, p. 279. Vejam-se: Wolfhart Pannenberg, Fundamentos de Cristologia, Barcelona: Ediciones Sígueme, 1973, p. 27-28; Donald M. Baillie, Deus Estava em Cristo, São Paulo: ASTE., 1964, p. 51; Carl E. Braaten, A Pessoa de Jesus Cristo: In: Carl E. Braaten; Robert W. Jenson, eds. Dogmática Cristã, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1990, v. 1, p. 459; Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 275.

[15]Veja-se: Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 93.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (13)

A Igreja e o ministério universal dos crentes

 

Observemos que estes ofícios (Ef 4.11) foram instituídos para o aperfeiçoamento dos santos a fim de que estes cumpram o seu serviço na Igreja. Dito de outro modo: o trabalho não é apenas pastoral ou dos presbíteros regentes e diáconos, é também e fundamentalmente comunitário. Toda a Igreja é responsável. Lutero falou do Sacerdócio Universal dos Crentes; pois bem, este texto nos fala do ministério universal dos crentes. O carisma traz implicações de responsabilidade com a edificação de nossos irmãos.

 

Na Igreja de Cristo não pode haver a divisão entre aqueles que trabalham e os que apenas ouvem comodamente. Todos somos chamados e capacitados ao trabalho cristão. Uma igreja não pode prosperar espiritual e numericamente quando há uma rígida divisão ainda que não institucionalizada entre os poucos que trabalham e uma grande parte que apenas assiste passivamente.[1]

 

Notemos também, que Paulo diz que todos os membros da Igreja são santos. Isso aponta para o nosso privilégio (somos santificados em Cristo Jesus) e nossa responsabilidade (devemos progredir em santidade). Neste ponto, a Igreja sofre tremendamente, porque ela abandonou a sua realidade e a sua meta de santidade (separação) e cada vez mais intensamente se parece com o mundo: na sua forma de pensar, de planejar, de falar, de sentir, de vestir e de fazer. Por vezes, a nossa estrutura de pensamento e consequentemente, de ação, é totalmente mundana. Nesse acaso, ao invés desse comportamento aprendido por osmose sugerir maturidade, é, na verdade, um sintoma de infantilidade crônica: temos de modo demasiado, falado, sentido e pensado como meninos; enquanto que o propósito de Deus para o seu povo é o inverso: que pensemos, sintamos e falemos como pessoas maduras na fé (1Co 13.11/1Co 3.1-2; Hb 5.11-14; 2Pe 3.18).[2] Paulo contrasta aqui os “meninos” (nh/pioj = “bebê”, “imaturo”, “criança pequena”) (Ef 4.14) com a “perfeição” (te/leioj = “maduro”) (Ef 4.13). Valendo-nos das categorias de Fromm (1900-1980),[3] podemos dizer, que temos com frequência analisado a Igreja, os fiéis, os seus serviços dentro de um critério puramente pragmático do “ter”, enquanto que as Escrituras nos desafiam a “ser” uma nova criatura conforme a nossa origem genética – o novo nascimento – e, a viver em consonância com esses ideais.

 

Calvino comenta:

 

Crianças são aqueles que ainda não deram um passo no caminho do Senhor, senão que hesitam, que não determinaram ainda que rumo devem tomar, mas que se movem às vezes numa direção e às vezes noutra, sempre duvidosos, sempre ziguezagueando.[4]

 

As crianças devido a sua ingenuidade, são mais influenciáveis, dadas à instabilidade. Os pagãos, por questão de uma necrose espiritual, apresentam este comportamento, sendo conduzidos por qualquer nova doutrina. Em Listra, conduzidos por suas lendas,[5] pensaram que Paulo e Barnabé fossem Júpiter e Mercúrio, querendo a todo custo oferecer-lhes sacrifícios. Pouco depois, influenciados pelos judaizantes, apedrejaram a Paulo, deixando-o morto aos seus olhos (At 14.8-20). Aqui vemos os extremos representados: ou Paulo é uma divindade e por isso deve ser adorado, ou é um ser vil que não deve permanecer vivo, deve ser extirpado da face da terra.  Foi com dificuldade que o apóstolo os impediu de adorarem-no (At 15.14-18). Contudo, foi fácil aos judeus que vieram de fora instigarem as multidões ao apedrejamento de Paulo (At 14.19).

 

Na realidade, o apedrejamento de Paulo foi uma expressão de indignação contra suas próprias fantasias criadas espontaneamente por uma mente doentia. É mais fácil demonizar o outro do que buscar a cura santificadora de nossa mente que nos leva a pensar com clareza.

 

O cristianismo nos propõe a maturidade. “O progresso da igreja é marcado por um crescimento da infância até a maturidade, na medida que ela assume o caráter de sua cabeça, Cristo”, pontua Martin (1925-2013).[6]

 

Paulo para descrever esta inconstância infantil, usa um termo náutico que se refere a uma pequena embarcação que, em mar aberto não consegue manter o curso certo (kludwni/zomai = “ser arrastado, levado pelas ondas”) (Ef 4.14). Metaforicamente tem o sentido de “ser agitado mentalmente”. A ideia é a de andar em círculos, diante da variedade de ensinamentos. “Ele os compara com as palhas ou outros elementos leves, os quais são rodopiados pela força do vento a soprar em círculo ou em direções opostas”, aplica Calvino.[7]

 

Tomando as figuras usadas por Paulo, podemos observar que a criança gosta de entretenimento, novidade e indisciplina. Se não tivermos firmeza doutrinária, se não estivermos ancorados na Palavra, seremos arrastados de forma constante, sem direção e propósito.

 

As igrejas da Galácia ilustram essa insegurança. Paulo as recrimina por isso: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho” (Gl 1.6). “Vós corríeis bem; quem vos impediu (e)gko/ptw)[8] de continuardes a obedecer à verdade?” (Gl 5.7). Este impedimento pode ser proveniente do diabo por meio de seus agentes (1Ts 2.14-18) ou do próprio coração humano, onde reside a raiz de nossos pecados.[9]

 

Calvino comentando a facilidade com que quase todos se curvaram diante do decreto idólatra de Nabucodonosor (Dn 3.2-7), sustenta que a base de nossa firmeza doutrinária está no apego irrestrito à Palavra:

 

Nada é firme, nada é estável entre os gentios; indivíduos que não foram instruídos na escola de Deus o que significa a verdadeira religião. Pois oscilam a todo instante ao sabor de qualquer brisa. Assim como as folhas se movem quando o vento sopra por entre as árvores, assim também todos os que não estão enraizados na verdade de Deus oscilarão e serão lançados para frente e para trás quando algum vento começa a soprar. O decreto régio não constitui uma brisa leve, e, sim, uma violenta tempestade. Pois ninguém pode opor-se impunemente aos reis e a seus editos. Por isso, sucede que os que não se acham plantados na Palavra de Deus, e não entendem absolutamente nada do que é verdadeira piedade, são arrastados pela investida de tal pé-de-vento.[10]

 

Em nossa imaturidade espiritual, já não separamos as coisas; antes dizíamos que tudo era sagrado, agora vivemos como se tudo fosse profano… e o pior é que estamos perfeitamente acomodados a isso, estamos bem à vontade, estamos em casa. A acomodação no pecado não indica a paz de Deus, antes, a morte de uma consciência supostamente cristã! A maturidade cristã impede-nos de cometer “macaquices espirituais”, de ficar pulando de um lado para o outro em uma insensatez pecaminosa.

 

Retornando ao nosso objetivo, devemos enfatizar que a Igreja é uma comunidade carismática porque é constituída pelo povo redimido pela graça de Deus e, também, porque atua comunitariamente com os carismas concedidos por Deus para a edificação do Corpo de Cristo. (Vejam-se: Ef 4.13-16).

 

São Paulo, 18 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos dessa série aqui.

 


[1] “Não há crescimento em igrejas que dependem de algumas poucas pessoas e os demais membros são espectadores. Sempre existe progresso e multiplicação em igrejas cujos membros são vibrantes e intentam servir a Cristo” (Iain Murray, A Igreja: Crescimento e Sucesso: In: Fé para Hoje, São José dos Campos, SP.: Fiel, nº 6, 2000, p. 20).

[2] “Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais” (1Co 3.1-2). “A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. 12 Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. 13 Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. 14 Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal” (Hb 5.11-14/2Pe 3.18). (Grifos meus).

[3] Valho-me das categorias de Fromm apenas enquanto nomes não em termos de conteúdo, visto que a sua visão é puramente humanista. Concordo com ele em sua compreensão de que a sociedade moderna reflete os seus valores por meio da ênfase no “ter” ao invés do “ser”. Assim, as pessoas valem pelo que possuem, não pelo que são; ou melhor, elas passam a ser justamente pelo que têm. A categorização dele é a seguinte:

“A diferença entre ter e ser é (…) uma diferença entre uma sociedade centrada em torno de pessoas e outra centrada em torno das coisas. A orientação no sentido do ter é característica da sociedade industrial, na qual a avidez por dinheiro, fama, e poder tornou-se o tema dominante da vida” (Erich Fromm, Ter ou Ser? 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 38-39).

“Consumir é uma forma de ter, e talvez a mais importante da atual sociedade abastada e industrial. Consumir apresenta qualidades ambíguas: alivia ansiedade, porque o que se tem não pode ser tirado; mas exige que se consuma cada vez mais, porque o consumo anterior logo perde a sua característica de satisfazer. Os consumidores modernos podem identificar-se pela fórmula: eu sou = o que tenho e o que consumo” (Erich Fromm, Ter ou Ser? 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 45).

[4] João Calvino, Efésios, (Ef 4.14), p. 127.

[5]Ovídio (42 aC-18 d.C.), em sua obra principal, Metamorfoses, narra que o pobre casal, Filemon e Báucis, hospedou em sua humilde casa Júpiter e Hermes (= Mercúrio), que vieram à sua cidade disfarçados de mortais a procura de uma hospedagem, e que não conseguiram pousada em nenhuma das mil casas da região, exceto na do casal. Filemon e Báucis, por este ato de hospitalidade, conta-nos Ovídio, foram recompensados, sendo poupados do dilúvio que destruiu as casas de seus vizinhos não hospitaleiros; tendo, inclusive, num ato simultâneo, a sua pequena casa transformada num templo e, a pedido, receberam a incumbência de serem sacerdotes e guardiães do santuário de Júpiter e, conforme solicitaram, Filemon e Báucis, morreram juntos. (Ovídio, As Metamorfoses, Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint, 1983, Livro VIII, p. 214-216).

Esta lenda, que já era bem conhecida nos tempos de Paulo e Barnabé, esclarece por que tão prontamente o povo os identificou com tais divindades após o milagre realizado por Deus através deles. Stott relata que “duas inscrições e um altar de pedra foram encontrados perto de Listra, e eles indicam que Zeus e Hermes eram adorados juntos, como divindades padroeiras locais” (John R.W. Stott, A Mensagem de Atos: até os confins da terra, São Paulo: ABU., 1994, (At 14.11-15a), p. 258).

[6] Ralph P. Martin, Efésios: In: Comentário Bíblico Broadman, Rio de Janeiro: JUERP., 1985, v. 11, p. 190.

[7] João Calvino, Efésios, (Ef 4.14), p. 128.

[8]No seu emprego militar esta palavra tinha o sentido de cortar uma árvore para causar um impedimento ou, abrir uma vala que obstaculizasse temporariamente o caminho do inimigo, daí a palavra tomar o sentido de “impedimento”, “empecilho”, “obstáculo”, “cansar”, “sobrecarregar”. (Vejam-se: G. Stählin, Kopeto/j, etc.: In: G. Kittel, ed., Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1981 (Reprinted), v. 3, p. 855-860; C.H. Peisker, Impedir: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 417-418; William F. Arndt; F.W. Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, Chicago: University Press, 1957, p. 215; F.F. Bruce, Hechos de los Apóstoles: Introducción, comentarios y notas, Michigan: Libros Desafío, 2007, (At 24.4), p. 513-514).

[9]Cf. G. Stählin, Kopeto/j, etc.: In: G. Kittel, ed. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 3, p. 856-857.

[10] João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.2-7), p. 190.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (12)

Comunidade em maturação: uma boa ansiedade

Assim, é Deus mesmo e não outro, quem nos concede talentos para servi-lo (Ef 4.7,11/1Co 12.11,18). A consciência dessa realidade, como temos enfatizado, deve nos conduzir à uma atitude de gratidão, real humildade e serviço (1Co 4.7; 1Co 15.10),[1] visto que Deus nos concedeu os talentos para o serviço do Reino: “A manifestação do Espírito é concedida a cada um, visando a um fim proveitoso” (1Co 12.7).

 

Paulo continua: “Para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado (merimna/w = “preocupação”),[2] em favor uns dos outros” (1Co 12.25).

 

Escreve Calvino:

 

O Senhor nos colocou juntos na Igreja, e destinou cada um ao seu posto, de tal maneira que, sob a única Cabeça, venhamos a nos auxiliar uns aos outros. Lembremo-nos também de que tão diferentes dons nos têm sido concedidos para podermos servir ao Senhor humilde e despretensiosamente, e aplicar-nos ao avanço da glória daquele que nos tem dado tudo quanto temos.[3]

 

Deste modo, os talentos recebidos, foram-nos concedidos para que os usássemos para a edificação da Igreja, não para a disseminação de discórdias, ou para usar de nossa influência para dividir, denegrir, solapar ou mesmo para promover e solidificar a nossa projeção pessoal amparada em valores totalmente seculares: Deus não desperdiça os dons “por nada e nem os destina para que sirvam de espetáculo”, enfatiza Calvino.[4] O objetivo é claro, visando sempre à maturidade e fortalecimento: “Com vistas ao aperfeiçoamento (katartismo/j[5] = “preparar”, “equipar para o serviço”) dos santos” (Ef 4.12).

 

Ainda que de passagem, deve ser acentuado que o Deus que nos chama, também nos capacita. Deus não vocaciona pessoas supostamente capacitadas, mas, Ele mesmo, ao longo da história, vai nos munindo e preservando com talentos necessários para desempenharmos o nosso ofício.

 

Calvino resume:

 

Sempre que os homens são chamados por Deus, os dons são necessariamente conectados com os ofícios. Pois Deus não veste homens com máscara ao designá-los apóstolos ou pastores, e, sim, os supre com dons, sem os quais não têm eles como desincumbir-se adequadamente de seu ofício.[6]

 

São Paulo, 17 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

 

 


 

[1]“Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?” (1Co 4.7). “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Co 15.10).

[2]A palavra tem o sentido de solicitude, preocupação e inquietação. Ela ocorre 18 vezes no NT. O seu uso no Novo Testamento não tem um sentido apenas negativo; Paulo a emprega positivamente, como por exemplo no texto citado (1Co 12.25). Do mesmo modo, quando se refere a Timóteo: “Porque a ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente cuide (Merimnh/sei) dos vossos interesses” (Fp 2.20) e, também quando descreve as suas lutas em favor da Igreja: “Além das cousas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação (Me/rimna) com todas as Igrejas” (2Co 11.28).

            O termo também é usado negativamente: Jesus, o emprega duas vezes neste sentido: “Não andeis ansiosos (merimna=te) pela vossa vida” (Mt 6.25). À Marta, inquieta com os seus afazeres e diante da aparente inércia de Maria, diz: “Marta! Marta! andas inquieta (Merima=j) e te preocupas com muitas coisas” (Lc 10.41).

Paulo, também trata dessa questão, dizendo aos filipenses: “Não andeis ansiosos (Merimna/w) de cousa alguma” (Fp 4.6). No entanto, esta exortação pode parecer inócua sem a indicação de um caminho eficaz para a canalização de nossas ansiedades existentes. Paulo então, propõe a solução para o problema: “Em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça” (Fp 4.6).

[3] João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 4.7), p. 134.

[4]João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 12.7), p. 376.

[5]A ideia da palavra é de preparar de forma adequada e própria (espiritual, intelectual e moral) para a execução de determinada tarefa. O seu sentido é mais funcional do que qualitativo (Cf. R. Schippers, R. Retidão: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 4, p. 215). O verbo katarti/zw tem um amplo sentido de restauração: consertar as redes (Mt 4.21; Mc 1.19); boa instrução (Lc 6.40); perfeita união (1Co 1.10); aperfeiçoar/equipar (2Co 13.11; Hb 13.21; 1Pe 5.10; 2Co 13.9 (kata/rtisij); correção (Gl 6.1); reparo (1Ts 3.10), formar (Hb 10.5; 11.3). O termo grego utilizado por Paulo, no campo cirúrgico, era usado para “consertar um osso quebrado”. “Ajustar em conjunto num só corpo” (David M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 172). “A ideia fundamental do termo é de pôr nas condições em que devem estar já uma coisa ou uma pessoa” (William Barclay, Efésios, Buenos Aires: La Aurora, 1973, p.156). Calvino diz que o termo grego “significa literalmente a mútua adaptação (= coaptitionem) de coisas que devem ter simetria e proporção; assim como, no corpo humano, há uma combinação apropriada e regular dos membros; de modo que o termo é também usado para ‘perfeição’. Mas como a intenção de Paulo aqui é expressar um arranjo simétrico e metódico, prefiro o termo constituição (= constitutio]. Pois, estritamente falando, o latim indica uma comunidade, ou reino, ou província, como constituída, quando a confusão dá lugar ao estado regular e legítimo” (João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.12), p. 124).

[6] João Calvino, Efésios, (Ef 4.11), p. 119.

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (11)

A graça da fé e do serviço

 

A Igreja é a comunidade formada pelo próprio Deus, sendo constituída por pessoas que tiveram e têm, pela graça de Deus, a fé salvadora depositada unicamente em Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, a igreja é constituída pelo povo que foi chamado para servir.

 

Na Igreja vemos a graça da salvação e a graciosidade do serviço. Servir é graça (2Co 8.4).[1] A resposta cristã à graça de Deus, é uma fé Cristocêntrica, que se concretiza em gratidão e serviço.

 

O mistério maravilhoso e insondável, é que a nossa resposta também é graça. Por isso, podemos afirmar que o lema da Reforma Somente pela Graça, significa dizer que toda honra e glória pertencem a Deus.[2] Esta é uma das maravilhosas doutrinas das Escrituras.[3]

 

“No Novo Testamento, ninguém vinha à Igreja simplesmente para ser salvo e feliz, mas para ter o privilégio de servir ao Senhor. E nós deveríamos ter diante de nós, o benefício que recebemos de servir e trabalhar na Igreja”, acentua com precisão Karl Barth (1886-1968).[4]

 

Todos os crentes recebem do Senhor talentos para servir nessa igreja. À luz do Novo Testamento, é inconcebível a existência de um cristão sem algum dom da graça.[5]Por sua vez, os dons recebidos têm muito a ver com as habilidades com as quais nascemos, mas, que na realidade, foram dadas também por Deus.  Portanto, ensina Calvino, “Sejam quais forem os dons que possuamos, não devemos ensoberbecer-nos por causa deles, visto que eles nos põem sob as mais profundas obrigações para com Deus”.[6]

 

O que quero enfatizar, é que a raiz da palavra graça, é a mesma da palavra dom, no grego xa/rij, daí podermos falar da Igreja, como uma comunidade carismática, visto ser ela constituída daqueles que receberam a graça da fé e o dom para servir.

 

Mas, o que significa graça?[7] Graça, de forma mais ampla, incluído o conceito de misericórdia, pode ser definida como um favor imerecido, manifestado livre e continuamente por Deus aos pecadores que se encontravam em um estado de depravação e miséria espirituais, merecendo o justo castigo pelos seus pecados.[8] (Rm 4.4/Rm 11.6; Ef 2.8,9).[9]

 

No capítulo 4 da Epístola aos Efésios, Paulo trata de modo especial da unidade da Igreja dentro da variedade de funções. Assim, está implícita a figura tão cara a Paulo, a da Igreja como Corpo de Cristo, mostrando que o segredo do bom funcionamento do corpo é a utilização adequada de todas as suas partes.

 

Organicamente, cada membro, por mais insignificante que nos possa parecer, tem um papel importante a desempenhar dentro do equilíbrio do todo. Certamente, existem diferenças de beleza e elegância entre nossos órgãos, todavia, todos são essenciais.

 

Do mesmo modo, na Igreja de Cristo, ainda que haja diferenças entre nós, e não sejamos considerados pelos homens como dignos de algum valor, o fato é que todos somos essenciais no serviço do Reino: Devemos frisar, no entanto, que não somos ontologicamente essenciais; antes, Deus, por graça nos tornou essenciais no seu Reino e, por isso, agora o somos.

 

Maringá, 15 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

*Acesse todos os textos dessa série aqui.


[1]“Pedindo-nos, com muitos rogos, a graça (xa/rij) de participarem da assistência aos santos” (2Co 8.4).

[2] Vejam-se: James M. Boice, Fundamentos da Fé Cristã: Um manual de teologia ao alcance de todos,  Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2011, p. 449; D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 125, 127.

[3] Veja-se: C.H. Spurgeon, El Tesoro de David, Barcelona: Libros CLIE, 1989, v. 1, (Sl 3.8), p. 27.

[4] Karl Barth, The Faith of the Church: A commentary on the Apostle’s Creed according to Calvin’s Catechism, Great Britain: Fontana Books, 1960, p. 116.

[5] Veja-se: H.-H. Esser, Graça: In:  Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 322.

[6] João Calvino, Efésios, (Ef 4.7), p. 113.

[7] Trato desse assunto de forma mais abrangente em meu livro: A Soberania de Deus e a Responsabilidade humana, Goiânia, GO.: Cruz, 2016.

[8] Vejam-se outras definições em: A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 69; Idem., Deus é Soberano, São Paulo: Fiel, 1977, p. 24; A. Booth, Somente pela Graça, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 31; João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 5.15), p. 193; R.P. Shedd, Andai Nele, São Paulo: ABU., 1979, p. 15; W. Hendriksen, 1 y 2 TimoteoTito, Grand Rapids, Michigan: S.L.C., 1979, (Tt 2.11), p. 419; L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 74; W. Barclay, El Pensamiento de San Pablo, Buenos Aires: La Aurora, 1978, p. 154; L. Boettner, Predestinación, Grand Rapids, Michigan: S.L.C., (s.d.), p. 258; D.M. Lloyd-Jones, Por que Prosperam os Ímpios, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1983, p. 103; J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 120; Tom Wells, Fé: Dom de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 101; Samuel Falcão, Predestinação, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981, p.100-101; James Moffatt, Grace in the New Testament, New York: Ray Long & Richard R. Smith. Ind., 1932, p. 5; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 146, 147; John Gill, “A Complete Body of Doctrinal and Practical Divinity,The Collected Writings of: John Gill, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Software, 2000), I.13, p. 195-196; John MacArthur, O Evangelho Segundo os Apóstolos, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2011, p. 72.

[9]“Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida” (Rm 4.4). “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11.6). 8Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; 9não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (10)

Comunidade carismática

 

Os cristãos não só professam crer no Espírito Santo, mas são também os receptores de Seus dons. – Charles Hodge.[1]

 

A igreja envolve variedade e unidade. Somos pessoas diferentes, com personalidades distintas, porém, fomos também criados à imagem de Deus. Somos a imagem de Deus, a despeito da queda. Fomos recriados em Cristo.  Temos a responsabilidade de viver como reflexo dessa imagem que nos caracteriza e nos aproxima grandemente de Deus. O Espírito Santo é o unificador da Igreja, aplicando em nossos corações o fruto da obra de Cristo, nos regenerando, transformando o nosso coração, nos possibilitando viver, por graça, em comunhão com o Senhor.

 

Stott (1921-2011) explica:

 

A igreja é uma, porque o Espírito habita em todos os crentes. A igreja é multifacetada, porque o Espírito distribui diferentes dons aos crentes. De forma que o dom do Espírito (que Deus nos dá) cria a unidade da igreja, e os dons do Espírito (que o Espírito dá) diversifica o ministério da igreja.[2]

 

A Igreja é uma comunidade carismática porque todos os seus membros receberam dons (xa/risma) (= “resultado de uma ação”, “prova de favor”, “benefício” ou “dádiva”)[3] para o serviço de Deus na Igreja. Os dons concedidos pelo Espírito, longe de servirem para confusão ou vanglória, devem ser utilizados com humildade (1Co 4.7/2Co 5.18),[4] para a edificação e aperfeiçoamento dos santos (1Co 12.1-31/Ef 4.11-14/Rm 12.3-8).[5]

 

Calvino acertadamente diz que “se a igreja é edificada por Cristo, prescrever o modo como ela deve ser edificada é também prerrogativa dele”.[6]

 

Do mesmo modo acentua Kuyper (1837-1920): “Os carismata ou dons espirituais são os meios e o poder divinamente ordenados pelos quais o Rei habilita a sua Igreja a realizar sua tarefa na terra”.[7]

 

O Carisma tem sempre um fim social: a Igreja; a comunhão dos santos.[8] E também, como elemento de ajuda na proclamação do Evangelho (Hb 2.3-4).[9]

 

Calvino trabalha insistentemente com este princípio:

 

As Escrituras exigem de nós e nos advertem a considerarmos que qualquer favor que obtenhamos do Senhor, o temos recebido com a condição de que o apliquemos em benefício comum da Igreja.

Temos de compartilhar liberalmente e agradavelmente todos e cada um dos favores do Senhor com os demais, pois isto é a única coisa que os legitima.

Todas as bênçãos de que gozamos são depósitos divinos que temos recebido com a condição de distribuí-los aos demais.[10]

 

O Espírito é soberano na distribuição dos dons. Eles não podem ser reivindicados (1Co 12.11,18), antes, devem ser recebidos como manifestação da graça de Deus e utilizados para a glória de Deus. Devemos cultivar os dons que recebemos (1Co 12.31), provavelmente no uso que fazemos dele em amor para a glória de Deus no serviço da igreja.

 

Maringá, 15 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos dessa série aqui.


[1] Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Editora Hagnos, 2001, p. 391.

[2] John Stott. Batismo e Plenitude do Espírito Santo, 2. ed. (ampliada), São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 64.

[3] H. Conzelmann,  xa/risma: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 9, p. 403.

[4] “Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portanto, quem quer que se ponha num nível mais elevado não passa de imbecil e impertinente. A genuína base da humildade cristã consiste, de um lado, em não ser presumido, porque sabemos que nada possuímos de bom em nós mesmos; e, de outro, se Deus implantou algum bem em nós, que o mesmo seja, por esta razão, totalmente debitado à conta da divina graça” (João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 4.7), São Paulo: Paracletos, 1996, p. 134-135).

[5] Obviamente, não estamos trabalhando aqui com as categorias de Max Weber (1864-1920), que define Carisma como “Uma qualidade pessoal considerada extracotidiana (…) e em virtude da qual se atribuem a uma pessoa poderes ou qualidades sobrenaturais, sobre-humanos ou, pelo menos, extracotidianos específicos ou então se a toma como enviada por Deus, como exemplar e, portanto, como ‘líder’” (Max Weber, Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva, Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1991, v. 1, p. 158-159). Como o próprio Weber explica, “O conceito de ‘carisma’ (‘graça’) foi tomado da terminologia do cristianismo primitivo” (Ibidem., p. 141). Weber tomou a palavra emprestada em Rudolph Sohm (1841-1917), da sua obra Direito Eclesiástico para a Antiga Comunidade Cristã (Cf. Ibidem., p. 141). A análise das questões relativas ao domínio carismático, “estão no centro das reflexões de Weber” (Julien Freund, A Sociologia de Max Weber, Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 184).

[6] J. Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.12), p. 125.

[7] Abraham Kuyper, The Work of the Holy Spirit, Chaattanooga: AMG. Publishers, 1995, p. 196.

[8] Veja-se: Frederick D. Bruner, Teologia do Espírito Santo, São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 229.

[9]3 Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? A qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram;  4 dando Deus testemunho juntamente com eles, por sinais, prodígios e vários milagres e por distribuições do Espírito Santo, segundo a sua vontade” (Hb 2.3-4). Veja-se: João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 2.4), p. 56.

[10]João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 36. “Qualquer habilidade que um fiel cristão tenha, deve dedicá-la ao serviço de seus companheiros crentes, como também submeter, com toda sinceridade, seus próprios interesses ao bem-estar comum da Igreja” (João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, p. 36).

Diáconos e Presbíteros: Servos de Deus no Corpo de Cristo (9)

Herança gloriosa

 

Considerando que Deus já iluminara os olhos do coração dos efésios, Paulo ora no sentido de que eles pudessem entender a extensão da riqueza da glória de sua herança que nos foi outorgada definitivamente em Cristo, estando esta glória associada ao propósito final do seu chamamento.

 

Percebam então, que não há nenhum mal em pensar, ocupar a nossa mente com a herança graciosa que nos aguarda.  Se entendermos que a “celestialidade” e glória do céu estão não em um lugar, mas, em uma Pessoa, Jesus Cristo, devemos, sem dúvida, ambicionar ardentemente o céu.[1]

 

Aqui (Ef 1.18) Paulo retoma o que falara no verso 14, dizendo ser o Espírito Santo “o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória” (Ef 1.14).[2]

 

Calvino está correto ao afirmar que “o conhecimento dos santos nunca é suficientemente puro, senão que alguns problemas turvam seus olhos, e a obscuridade os impede a que vejam com clareza”.[3] A dificuldade, portanto, não está na revelação de Deus, nos seus atos na história e no testemunho do Espírito, mas, em nossa incapacidade, fruto, por vezes, de nossa incredulidade, em enxergar o que Deus tem nos concedido.

 

No Novo Testamento além da associação natural do verbo herdar (klhronome/w), do substantivo herança (klhronomi/a) e do adjetivo herdeiro (klhrono/moj)[4] com o recebimento de posses da parte dos pais (Mt 21.37-38; Lc 12.13; Gl 4.30), encontramos, com maior ênfase, a conotação espiritual.

 

À luz do Novo Testamento podemos dizer que a oração de Paulo envolve a consciência de:

a) Vida eterna (Mt 19.29; Mc 10.17; Lc 10.25; 18.18; Tt 3.7; Hb 9.15),

b) Salvação (Ef 1.14,18; Cl 3.24; 1Pe 1.4; Hb 1.14/Hb 6.12/At 20.32),

c) Glória futura (Rm 8.17-18) e

d) Bênção escatológica (1Pe 3.9/Hb 12.17/Ap 21.7).

 

Devemos observar que todas estas heranças advêm de Cristo, visto que Ele é o herdeiro único e pleno de todas as coisas.

 

O escritor de Hebreus descrevendo aspectos da Revelação progressiva de Deus, pontifica com Jesus Cristo, a Palavra final de Deus:   “Nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro (klhrono/moj) de todas as coisas, pelo qual também fez o universo” (Hb 1.2).

 

Quando Paulo se despede dos presbíteros de Éfeso reunidos em Mileto, fala sobre os lobos ferozes que surgiriam na Igreja e que não poupariam o rebanho. No entanto, em sua advertência há uma palavra de grande consolo:

 

29 Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. 30 E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. 31 Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um. 32Agora, pois, encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos edificar e dar herança (klhronomi/a) entre todos os que são santificados. (At 20.29-32).

 

Paulo confia os presbíteros à Palavra da graça de Deus. Por meio da Palavra Deus nos edifica e nos conduz à herança entre os que são santificados. Os presbíteros não poderiam perder este alto privilégio, especialmente quando estivessem em dificuldades, lutando pela fé em meio à presença de lobos vorazes – falsos mestres – que, certamente com o apoio de muitas ovelhas ingênuas ou mal-intencionadas, seriam ouvidos, admirados e seguidos. Eles deveriam persistir no ensino da Palavra. Somente por meio dela a igreja.

 

Aqui há algo de excelsa magnitude: Somos herança de Deus e, ao mesmo tempo, feitura dele (Ef 2.10).[5] A igreja é o reflexo dos atos da Trindade. O Deus Trino atua de tal forma que a Sua igreja foi constituída e é preservada até a consumação definitiva da obra de Cristo, quando Ele será glorificado na Igreja e a Igreja nele:

 

Quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho). Por isso, também não cessamos de orar por vós, para que o nosso Deus vos torne dignos da sua vocação e cumpra com poder todo propósito de bondade e obra de fé, a fim de que o nome de nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós, e vós, nele, segundo a graça do nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo. (2Ts 1.10-12).

 

Sem dúvida, a Igreja de Deus é a herança de Cristo confiada pelo Seu Pai.

 

 

Maringá, 13 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Acesse todos os textos da série aqui

 


[1] “Livremo-nos, pois, da espiritualidade que se orgulha de que é extraordinariamente pura porque não está interessada nem no céu nem no inferno. (…) Não hesito em asseverar que quanto mais perto estivermos de Cristo, mais meditaremos na glória que Ele preparou para nós. Esta é uma invariável e infalível prova da verdadeira espiritualidade” (D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 369).

[2]Sobre a herança dos filhos e o Espírito como penhor de nossa salvação, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Efésios – O Deus bendito, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 86-89; 113-116.

[3]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.16), p. 40.

[4] Quanto à origem e emprego da palavra, vejam-se: W. Foerster; J. Herrmann, klh=roj, etc.: In: G. Kittel, ed. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982 (Reprinted), v. 3, p. 758-785; J. Eichler, Herança: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 2, p. 364-371; G. Giacumakis Jr., Herança (Palavras): In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 3, p. 77; E.M. Blaiklock, Herança (Conceito): In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 3, p. 77-80; W. Barabas, Herdeiro: In: Merrill C. Tenney, org. ger., Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 3, p. 80-81; J.H. Friedrich, klhrono/moj: In: Horst Balz; G. Schneider, eds. Exegetical Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, MI.: Eerdmans, 1999 (Reprinted), v. 2, p. 298-299.

[5]Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10).