A quem oramos? (Mt 6.6,9) (2)

Este artigo faz parte de uma série. Confira os demais textos:

A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

 


 

O que nos enche de alegria e mostra a nossa relação íntima com Deus é o fato de em Cristo, pelo Espírito, podermos nos dirigir ao Pai, como filhos adotivos de Deus, usando da mesma expressão empregada por Cristo.

 

Agostinho (354-430), comentando o Salmo 102.2 – quando o salmista diz: “… inclina-me os teus ouvidos; no dia em que eu clamar; dá-te pressa em acudir-me” –, faz uma paráfrase: “Escuta-me prontamente, pois peço aquilo que queres dar. Não peço como um homem terreno bens terrenos, mas já redimido do primeiro cativeiro, desejo o reino dos céus”.[1]

 

Paulo, discorrendo sobre a fraqueza humana, a exemplifica na vida cristã no fato de nem ao menos sabermos orar como convém (Rm 8.26-27). Por isso o Espírito que em nós habita nos auxilia em nossas orações, fazendo-nos pedir o que convém, capacitando-nos a rogar de acordo com a vontade de Deus. A oração eficaz é aquela que tem o Espírito como seu autor. Sem o auxílio do Espírito jamais oraríamos com discernimento.

 

Calvino (1509-1564), analisando o fato de que pedimos tantas coisas erradas a Deus e que, se Ele nos concedesse o que solicitamos, traria muitos males sobre nós, enfatiza: “Não podemos nem sequer abrir a boca diante de Deus sem grande perigo para nós, a não ser que o Espírito Santo nos guie à forma devida de orar”.[2] A oração genuína é sempre precedida do senso de necessidade e de uma fé autêntica nas promessas de Deus.[3]

 

Graças a Deus porque todos nós, em Cristo, temos o Espírito de oração (Zc 12.10), porque sem Ele jamais poderíamos orar de modo aceitável ao Pai. “A própria oração é uma forma de adoração”.[4]

 

Por outro lado, o auxílio do Espírito não deve servir de pretexto para a nossa indolência e irresponsabilidade espiritual. Interpreta Calvino:

 

Aqui não se diz que, lançando o ofício da oração sobre o Espírito de Deus, podemos adormecer negligentes ou displicentes, como alguns se acostumaram a blasfemar, dizendo: Devemos ficar à espera, sem nenhuma preocupação, até que o Espírito chame a atenção da nossa mente, até então ocupada e distraída com outras coisas. Muito ao contrário, aqui somos induzidos a desejar e a implorar tal auxílio, com aversão e desgosto por nossa preguiça e displicência.[5]

 

Em outro lugar, exorta-nos: “Quando nos sentirmos frios, e indispostos para orar, supliquemos logo ao Senhor que nos inflame com o fogo de seu Espírito, pelo qual sejamos dispostos e suficientes para orar como convém”.[6]

 

Muitas vezes estamos tão confusos diante das opções que temos, que não sabemos nem mesmo como apresentar os nossos desejos e as nossas dúvidas diante de Deus. Todavia o Espírito nos socorre. Ele “ora a nosso favor quando nós mesmos deveríamos ter orado, porém não sabíamos para que orar”.[7]

 

Comentando o Salmo 91.12, Calvino nos adverte: “Nunca podemos aquilatar os sérios obstáculos que Satanás poria contra nossas orações não nos sustentasse Deus da maneira aqui descrita”.[8]

 

Ele ilustra a sua tese:

 

Chamo tentação espiritual quando não somente somos açoitados e afligidos em nossos corpos; senão quando o diabo opera de tal modo em nossos pensamentos que Deus se nos converte em inimigo mortal, ao que já não podemos ter acesso, convencidos de que nunca mais terá misericórdia de nós.[9]

 

 

Maringá, 02 de janeiro de 2019.

Rev, Hermisten Maia Pereira da Costa

 

Leia também: A quem oramos? (Mt 6.6,9) (1)

 


 

[1] Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/3), 1998, v. 3, p. 12.

[2]J. Calvino, Institución, III.20.34. Comentando o texto de Romanos 8.26, Calvino diz: “O Espírito, portanto, é Quem deve prescrever a forma de nossas orações” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.26), p. 291). Ver também, J. Calvino, O Catecismo de Genebra, Perg. 254.

[3] Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, p. 34.

[4] R.C. Sproul, O Ministério do Espírito Santo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 187.

[5]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 95.

[6]J. Calvino, Catecismo de Genebra, Perg. 245.

[7] Edwin H. Palmer, El Espiritu Santo, , Edinburgh: El Estandarte de la Verdad, (s.d.), Edição Revista, p. 190.

[8] João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 2002, v. 3, (Sl 91.12), p. 454.

[9]Juan Calvino, El Carácter de Job, Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 1), p. 28.

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