A Pessoa e Obra do Espírito Santo (287)

6.4.7.3.3. Requisitos para o ofício de Presbítero

1) Negativamente considerando

          Encontramos no Novo Testamento, especialmente nos escritos de Paulo, as características que os presbíteros devem ter e, também, aquelas que não devem fazer parte da sua vida.

          Paulo escrevia para jovens igrejas de culturas variadas, sendo constituídas por pessoas que vieram de ambientes diferentes, por isso, possivelmente algumas recomendações que parecem a nós tão óbvias. Contudo, eram de extrema pertinência naquele contexto e, os princípios continuam sendo os mesmos em todas as épocas.

          Comecemos pelas características que devem estar ausentes no seu caráter e distantes de seu comportamento.

          1) Não arrogante: (mh\ au)qa/dhj) Tt 1.7. Obstinado e arbitrário em sua própria opinião, teimoso, arrogante, pretensioso. Descreve o homem que se recusa a ouvir os outros, mantendo-se irredutível nas suas “verdades” que privilegiam os seus interesses, em detrimento dos direitos, sentimentos e necessidades dos outros (*2Pe 2.10; LXX: Pv 21.24).[1]

          O arrogante, como mestre de si mesmo, se basta. A vã confiança é um antecedente causativo da arrogância.[2]

          Calvino comenta que os presbíteros que agem deste modo, afastam as pessoas de si, sendo eles próprios cismáticos,

Porque o companheirismo e a amizade não podem ser cultivados quando cada um busca agradar-se a si mesmo e se recusa a ceder ou a acomodar-se aos outros. E de fato todos os au)qa/dhj (obstinados), quando se lhes divisa alguma oportunidade, imediatamente se transformam em cismáticos.[3]

          É lamentável constatar historicamente, que os cismas promovidos dentro das igrejas – quer pela parte que supostamente permaneceu fiel, quer pela parte que saiu, julgando-se fiel –, são, em geral, iniciados pelos líderes locais. Muitas vezes isso ocorre pela presunção de entender que a sua percepção é de todo suficiente. Todos estão equivocados. Somente ele tem a visão e prática corretas.

          O que em geral não percebemos, é que tardará acontecer de outros assim pensarem dentro desse novo grupo. Isso costuma ser infindável ao longo dos anos.

          O presbítero, de fato, não pode se arrogar como proprietário único e absoluto da verdade. No entanto, como trataremos posteriormente, isso não deve significar frouxidão e contemporização com o pecado em nome de uma suposta paz.

          2) Não dado ao vinho: (mh\ ta/poinoj). *1Tm 3.3; Tt 1.7. A afirmativa indica alguém que se detém frequente e continuamente com a bebida: bêbado, viciado em vinho, cujo bar é a sua segunda casa.

          A orientação de Paulo é para que o presbítero não seja assim. A embriaguez traz consigo uma série de consequências danosas para a vida de qualquer pessoa, ainda mais para aquelas que precisam de toda sensatez e firmeza para conduzir o povo de Deus.

          Calvino comenta nesse e em outro contexto:

Beber com excesso não é só indecoroso num pastor, mas geralmente resulta em muitas coisas ainda piores, tais como rixas, atitudes néscias, ausência de castidade e outras que não carecem de menção.[4]
[Paulo] quer dizer, pois, que os beberrões logo perdem a modéstia e não mais conseguem conter-se pelo pudor: que onde o vinho reina, o desregramento prevalecerá: e, consequentemente, que todos aqueles que cultivam algum respeito pela moderação ou decência, devem fugir e abominar a bebedice.[5]

          3) Não violento: (mh\ plh/kthj). *1Tm 3.3; Tt 1.7. “Não dado à violência”, “briguento”, “espancador”. A palavra pode ser literal: “não pronto a bater em seu oponente”. O presbítero deve se conduzir com educação e calma mesmo quando trata de assuntos difíceis. A violência física não deve ser um instrumento de solução das dificuldades sob qualquer hipótese.

          4) Não irascível: (mh\ o)rgi/lon). *Tt 1.7.[6] Inclinado à ira, de temperamento “quente” e “explosivo”. Esta palavra indica algo habitual. O presbítero não deve ser “famoso” pela sua disposição à ira. Esta predisposição tende a aumentar o problema ao invés de contribuir para resolvê-lo. Quando vamos tratar com pessoas assim, a possível angústia da reunião, justamente por sua densidade, é antecipada e agravada em muito, justamente pela perspectiva de que a “coisa vai esquentar”. O fato, é que independentemente dons talentos que uma pessoa tenha, se ela é de difícil relacionamento, os seus talentos se perdem e não contribuem para a edificação da igreja.

Maringá, 08 de setembro de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Ver: Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament,7. ed. London: Macmillan and Co. 1871, § xciii, p. 329-332.

[2]Veja-se: João Calvino, As Pastorais,  São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 6.17), p. 181. “A crueldade é sempre arrogante, sim, pior ainda, a arrogância é mãe de todos os males; pois se alguém, através da soberba, não magnificar a si próprio acima do próximo, e através de um arrogante conceito de si próprio o despreza, mesmo o espírito humano mais corriqueiro deve ensinar-nos com que humildade e justiça devemos conduzir-nos na relação uns com os outros” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 10.2), p. 207).

[3]João Calvino, As Pastorais, (Tt 1.7), p. 312.

[4]João Calvino, As Pastorais, (1Tm 3.3), p. 88.

[5]João Calvino, Efésios,(Ef 5.18), p. 164.

[6]Vejam-se: Pv 21.19; 22.24; 29.22.

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