A Pessoa e Obra do Espírito Santo (275)

Ao longo da história, a igreja tem enfrentado os mais variados ataques, perseguições, heresias, tentações, esfriamento de sua fé. No entanto, Cristo supre a Igreja com tudo o que é necessário para a sua existência e crescimento. Ele a prepara para os momentos de paz, bonança e, também para as intempéries, guerras, perseguições e abatimentos. A igreja nunca viveu sem oposição e, paradoxalmente, essa costuma ser a sua melhor fase.[1]

          A Confissão de Westminster retrata com propriedade:

As igrejas mais puras debaixo do céu estão sujeitas à mistura e ao erro; algumas têm degenerado ao ponto de não serem mais igrejas de Cristo, mas sinagogas de Satanás; não obstante, haverá sempre sobre a terra uma igreja para adorar a Deus segundo a vontade dele mesmo. (XXV.5).

          No entanto, o Senhor, o único cabeça da igreja a tem preservado, mesmo quando, por vezes, tudo parece perdido, como foi no período que antecedeu à Reforma (1517), durante o Iluminismo na Europa (1650-1800) e mesmo, de forma muito mais sutil, com o ecumenismo nos anos de 1960 e na falta de sentido de verdade do homem contemporâneo e mesmo em determinados círculos evangélicos.[2] Deus, o Cabeça da Igreja evidencia de forma poderosa o seu governo por meio de uma volta às Escrituras.

O Senhor não abandona a sua Igreja a despeito dos mais violentos e sutis ataques de Satanás. Ele está no controle.       Portanto, a Igreja que pretende ter outro cabeça não pode ser a verdadeira Igreja de Cristo. Não temos outro chefe ou cabeça, senão a Cristo, o Senhor. Mais uma vez recorro à Confissão de Westminster:

Não há outro Cabeça da Igreja senão o Senhor Jesus Cristo; em sentido algum pode ser o Papa de Roma o cabeça dela, mas ele é aquele anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição que se exalta na Igreja contra Cristo e contra tudo o que se chama Deus. (XXV.6).

“A pregação expositiva exalta o senhorio de Cristo sobre a igreja dele”, enfatiza John MacArthur.[3] Ela cumpre perfeitamente esse papel, sendo fiel à Palavra e ao Senhor da Palavra que nos governa por meio dela. A pregação expositiva reconhece a glória de Deus, exalta a Cristo e a sua Palavra. Assim, a pregação que não exalta a Cristo está distante de seu alvo.[4] Somente a pregação expositiva da Escritura faz jus ao seu tema central que é Jesus Cristo para onde tudo converge. Enquanto não resgatarmos esta sincera compreensão bíblica e a sua prática ardorosa e sistemática, a igreja estará fadada a viver em uma profundidade meramente epidérmica do que nos foi dado conhecer e vivenciar.

É observável historicamente que os momentos de maior fortalecimento da igreja sempre estiveram associados à compreensão da natureza gloriosa de Jesus Cristo. Por outro lado, a igreja entra em profunda decadência espiritual, a sua pregação se desvia das Escrituras, quando ela perde a dimensão da glória, grandeza e singularidade de Jesus Cristo. Fica claro que a pregação expositiva e, por sua vez, o seu abandono, é um dos indicadores do lugar que Cristo ocupa na igreja. O nível espiritual da igreja nunca está acima de seu púlpito.

          Um historiador da pregação, afirma que:

O declínio da vida e da atividade espiritual nas igrejas é geralmente acompanhada por um tipo de pregação formal, sem vida e infrutífera, e isso parcialmente como causa e parcialmente como efeito. Por outro lado, os grandes reavivamentos da história cristã usualmente remontam à obra do púlpito, e, no decurso do seu progresso, têm desenvolvido e tornado possível um alto nível de pregação.[5]

          Por isso, como declara corretamente Stott, é que “o segredo essencial não é dominar certas técnicas, mas ser dominados por determinadas convicções. A teologia é mais importante do que a metodologia”.[6] Na mesma linha escreveu MacArthur:

Não é a engenhosidade de nossos métodos, nem as técnicas de nosso ministério, nem a perspicácia de nossos sermões que trazem poder ao nosso testemunho. É a obediência a um Deus santo e a fidelidade ao seu justo padrão em nosso viver diário.[7]

          Estamos convencidos de que a pregação, juntamente com a adoração congregacional se constituem em termômetro espiritual da igreja. Insistimos: A igreja nunca estará acima de seu púlpito, do que lhe é ensinada continuamente.

A Reforma espiritual da igreja começa pelo púlpito, por aquilo que é pregado e ensinado em nossas igrejas, acompanhado de oração, suplicando a misericórdia de Deus que ilumine as nossas mentes e aqueça os nossos corações nos conduzindo ao arrependimento e à obediência sincera ao Senhor. Essa transformação se estende à vida e família dos fiéis, e faz diferença em todos os seus relacionamentos.

Vale lembrar que o estudo e o ensino da doutrina não visam mostrar o quanto conhecemos a Palavra e, ao mesmo tempo, o quão distante estão os outros de conhecerem como conhecemos. Esse tipo de farisaísmo religioso, arrogante e satisfeito consigo mesmo, identificador prazeroso dos erros dos demais, colocando-se num patamar acima, deve estar totalmente distante de nós. Esse pensamento e comportamento é o que há de mais estranho ao verdadeiro conhecimento pessoal de Deus por meio de sua Palavra e, consequentemente, de nossa vivência com ele.

O conhecimento de Deus nunca é estéril, antes, é frutuoso em obediência e piedade. Portanto, não esperemos agradar a Deus sendo-lhe desobediente, desonrando o seu Filho.

Maringá, 21 de agosto de 2021. Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Veja-se: Gene Edward Veith, Jr., De Todo o Teu Entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 93.

[2]“Hoje vivemos numa igreja que se incomoda menos com a verdade que com qualquer artigo. O amor à verdade não é nem mesmo uma virtude: é um defeito, porque a verdade divide as pessoas. A verdade causa controvérsia. A verdade causa debate. A verdade causa transtorno aos relacionamentos. A verdade crucifica pessoas. Jesus afirmou: ‘Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz’ (Jo 18.37)” (R.C. Sproul, Oh! Como amo a tua lei. In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 19).

[3]John MacArthur, Por que ainda prego a Bíblia após quarenta anos de ministério: In: Mark Dever, ed., A Pregação da Cruz, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 141.

[4]Veja-se: Steven J. Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 25.

[5]Edwin C. Dargan, A History of Preaching, Grand Rapids, MI.: Baker Book House, 1954, v. 1, p. 13.

[6]John Stott, Eu Creio na Pregação, São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 97.

[7] John F. MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1997. p. 97.

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