A Pessoa e Obra do Espírito Santo (25)

            6.1.5. O Espírito, a Reforma, a autoridade e a interpretação bíblica

Simplesmente ensinei, preguei, escrevi a Palavra de Deus; não fiz nada. E então, enquanto eu dormia, ou bebia (…) a Palavra enfraqueceu tão intensamente o papado que nenhum príncipe ou imperador jamais fez estrago assim. Não fiz nada. A Palavra fez tudo. − Martinho Lutero em 1522.[1]

Declaramos que pretendemos seguir somente a Escritura como regra de fé e religião, sem misturar com ela qualquer outra coisa que tenha sido inventada pela opinião dos homens à parte da Palavra de Deus, nem queremos aceitar para nosso governo espiritual nenhuma outra doutrina além do que nos é transmitido por essa mesma Palavra sem adição nem diminuição, de acordo com a ordem de nosso Senhor – Confissão de Genebra (1536).[2]

Humanismo e Reforma

            Como é amplamente sabido, a Reforma surgiu num contexto humanista e renascentista, tendo inclusive alguns pontos em comum;[3] como exemplo disto, citamos o fato de que a ênfase humanista no retorno às fontes primárias  estimulou os humanistas cristãos a se despertassem para o estudo dos originais da Bíblia,[4] o que ocasionou a verificação de uma evidência cada vez mais forte: as diferenças existentes entre os princípios do Novo Testamento e a teologia e prática da igreja romana.[5]

            A Reforma pôde se valer das traduções e edições de obras, inclusive cristãs, até então desconhecidas ou de pequeníssima circulação, feitas pelos humanistas.[6] A própria edição do Novo Testamento Grego feita por Erasmo (1516)[7] se constitui numa grande evidência do que estamos dizendo.

            Contudo as diferenças são mais profundas do que as semelhanças.[8]  É importante enfatizar que a Reforma também não foi sintética em termos de valores cristãos e pagãos, o que se tornara comum em algumas Academias, especialmente em Florença.[9]

            Lutero (1483-1546), e mais tarde todos os reformadores, não se deixaram limitar por uma visão puramente humanista, antes, pelo contrário, Lutero (1483-1546), Zuínglio (1484-1531)[10] e Calvino (1509-1564), apesar das divergências de compreensão,[11] de ênfase e de estilo,[12] estavam acordes quanto à centralidade da Palavra de Deus, na Escritura como sendo a fonte, para se pensar acerca de Deus.[13]

Maringá, 21 de outubro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Apud  T. George, A Teologia dos Reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 55.

[2] The Geneva Confession of 1536, Art. 1: In: Arthur C. Cochrane, ed., Reformed Confessions of the Sixteenth Century,  Louisville, Westminster John Knox Press, 2003, p. 120.

[3]Cf. E. Sichel, O Renascimento, p. 17; N. Abbagnano; A. Visalberghi, Historia de la Pedagogía, p. 253. “É possível que, sem os humanistas, os reformadores não tivessem conseguido abalar o poderoso edifício da ordem medieval e suscitar sentimentos de consternação humana e de busca ardente da graça (…) pode-se afirmar que os períodos de crise são mais propícios para a teologia do que os tempos de riqueza espiritual e moral” (Jacques de Senarclens, Herdeiros da Reforma, p. 103). Nunca é demais lembrar, que apesar da importância do Humanismo para a Reforma, esta seguiu um rumo diferente daquele, tendo obviamente pontos discordantes e objetivos diferentes (Vejam-se: Alister E. McGrath, Reformation Thought: An Introduction, 2. ed. Massachusetts: Blackwell Publishers, 1993, p. 62-65; Alister McGrath, Origens Intelectuais da Reforma, São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 43ss.; Roland H. Bainton, The Reformation of the Sixteenth Century, p. 3; F.A. Schaeffer, La Fe de los humanistas, p. 10; André Biéler, A Força Oculta dos Protestantes, p. 44-45).

[4] “O humanismo renascentista redescobriu e reafirmou os gregos, a Reforma redescobriu e reafirmou a Bíblia. Tanto o classicismo como o biblicismo renasceram de forma purificada” (Gene Edward Veith, Jr., Tempos Pós-Modernos, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 25).

[5]Veja-se: Earle E. Cairns, O Cristianismo Por meio dos séculos: Uma História da Igreja Cristã, p. 223.

[6]Ver: Paul Kristeller, Tradição Clássica e Pensamento do Renascimento, Lisboa: Edições 70, (1995), p. 85-86.

[7] Novum Instrumentum omne, Basiléia, Froben, 1516. A palavra Instrumentum mais do que um simples sinônimo de Testamentum, significa aqui “Pacto”. (Cf. T.H.L. Parker, Calvin´s New Testament Commentaries, 2. ed. Louisville, Kentucky: Wetminster; John Knox Press, 1993 p. 123). Esta  primeira edição que começou a ser impressa em 11/9/1515 foi concluída em 01/3/1516, sendo dedicada ao Papa Leão X, grande patrocinador das artes, com quem se encontrara em Roma em 1509, ainda como Giovanni de Medici (1475-1521). Ele só se tornaria Papa em 1513.

            Froben, no entanto, editara a obra sem maiores preparativos, ocasionando uma série de erros nessa edição, gerando, por isso, grandes constrangimentos a Erasmo. (Veja-se: Timothy George, Lendo as Escrituras com os reformadores: como a Bíblia assumiu o papel central na Reforma religiosa do século XVI, São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 69-74).

            Um aspecto muito positivo foi que Erasmo de Roterdã (1466-1536) demonstrou a sua preocupação em tornar a Palavra de Deus acessível ao povo. No prefácio da sua edição do Novo Testamento Grego (1516) e em outros lugares, escreveu: “Eu discordo veementemente daqueles que não permitem a particulares a leitura das Sagradas Escrituras, nem as permitem ser traduzidas em língua vulgar (…). Quero que todas as mulheres, mesmo meninas, leiam os Evangelhos e as epístolas de Paulo. Provera a Deus que a Bíblia fosse traduzida em todas as línguas de todos os povos, para que pudesse ser lida e conhecida, não só pelos escoceses e pelos irlandeses, mas também pelos turcos e pelos sarracenos. Porém o primeiro passo necessário é fazê-los inteligíveis ao leitor. Eu almejo o dia quando o lavrador recite para si mesmo porções das Escrituras enquanto vai acompanhando o arado, quando o tecelão as balbucie ao ritmo da sua lançadeira e o viajante repare o cansaço da sua viagem com as narrativas bíblicas; e que todas as conversas sejam sobre temas da Bíblia! Com efeito, nós somos aquilo que forem as nossas conversas quotidianas….”. Sobre as crianças: “Que a primeira palavra que se aprenda a balbuciar seja Cristo; e que, com os Seus Evangelhos, se forme a primeira infância: desejaria que estas coisas lhe fossem ensinadas entre as primeiras, para que fossem amadas pelas crianças. Dediquem-se, depois, as crianças aos estudos bíblicos, até que, com tácitos progressos, se transformem em homens robustos em Cristo. Feliz aquele que a morte encontra com a Bíblia na mão!” (Apud João Amós Coménio, Didáctica Magna, 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1985), XXIV. 20. p. 361-362).

            A tradução de Lutero do Novo Testamento (1522) foi baseada na 2. edição do Texto Grego de Erasmo (1466-1536), publicado em 1519 (Agora com o título: Novum Testamentum omne, Basiléia: Froben, 1519), que já havia corrigido muitíssimos erros, ainda que não todos, da primeira edição. (Cf. Timothy George, Lendo as Escrituras com os reformadores: como a Bíblia assumiu o papel central na Reforma religiosa do século XVI, São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 69-70).

            Erasmo é chamado por Westcott (1825-1901) de “o dirigente verdadeiro das escolas literárias e críticas da Reforma” (B.F. Westcott, El Canon de la Sagrada Escritura, Barcelona: CLIE., (s.d.), p. 293). O teólogo liberal alemão Johann S. Semler (1725-1791) considerou Erasmo “o verdadeiro fundador da teologia protestante” (Cf. E. Cassirer, A Filosofia do Iluminismo, Campinas, SP.: Editora da UNICAMP., 1992, p. 198). O historiador Gibbon (1737-1794) também o designou de “pai da teologia racional” (Edward Gibbon, “Decline and Fall of the Roman Empire,” The Master Christian Library, Volume 5 (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Sofware, 1998), p. 610). O fato é que com a publicação da edição grega do Novo Testamento, a autoridade de Erasmo cresceu em todos os grandes centros; como sintoma disso encontramos a sua correspondência pessoal passando por um aumento considerável atingindo diversos países. (Vejam-se: Johan Huizinga, Erasmus and the Age Reformation, New York and Evanston: Harper & Row, Publishers, 1957, p. 91; H.R. Trevor-Roper, Religião, Reforma e Transformação Social, Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, (1981), p. 153). Quanto a uma síntese das críticas de Erasmo à igreja romana e o seu desejo de purificá-la, ver: Sergio Paulo Rouanet, As Razões do Iluminismo, 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 283-284.

[8] Cf. Ernst Cassirer, A Filosofia do Iluminismo, Campinas, SP.: Editora da UNICAMP., 1992, p. 195. “A Reforma Protestante não apenas buscou purificar a igreja e livrá-la dos erros doutrinários, como também buscou a restauração da integralidade da vida. Isso acarretou a libertação da vida natural do homem e das várias esferas na sociedade do senhorio excessivo da igreja. Enquanto o Humanismo foi uma tentativa de proclamar a liberdade do homem em relação a Deus e a toda autoridade, reforçando a autonomia contra a heteronomia, os reformadores se uniram em sua paixão pela liberdade do homem cristão, o que significava a subserviência à Palavra do Senhor” (Henry R. Van Til, O conceito calvinista de cultura, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 20).

[9]Comentando a respeito da Academia Platônica de Florença, Hirschberger (1900-1990) diz: “O que nela se pretendia era uma síntese da Filosofia grega e do Cristianismo. Mas uma síntese na qual uma concepção otimista e ébria da beleza diria ‘sim’ ao mundo, e de modo mais desenvolto do que podia ousá-lo o Cristianismo, mais previdente, com a sua ciência da natureza humana enfraquecida pelas paixões e necessitada da graça. Já havia uma síntese no platonismo dos Padres: era o platonismo penetrado de Cristianismo. Na síntese da Renascença há penetração do paganismo. Nem sempre deliberada e consciente, mas este se fazia presente, e os adversários dos homens de Florença sempre lho lançavam em rosto” (Johannes Hirschberger, História da Filosofia Moderna, História da Filosofia Moderna, 2. ed. cor. e aum. São Paulo: Herder, 1967, p. 27-28).

[10] Zuínglio que era um admirador dos clássicos, na juventude, seguiu as ideias de Erasmo – quem conhecera em 1516 –; posteriormente, 1519-1520, abandonou as suas concepções, descrendo parcialmente do programa humanista e da visão pelagiana de Erasmo; passou a sustentar a total depravação do homem e que este só teria salvação se fosse transformado por Cristo. (Cf. Bengt Hägglund, História da Teologia, Porto Alegre, RS.: Casa Publicadora Concórdia, 1973, p. 219; Roger Olson, História da Teologia Cristã, São Paulo: Editora Vida, 2001, p. 409). George falando sobre o jovem Zuínglio, assim o descreve: “O desenvolvimento inicial de Zuínglio foi moldado por dois fatores que continuaram a influenciar seu pensamento por toda a sua carreira: o patriotismo suíço e o humanismo erasmiano” (Timothy George, Teologia dos reformadores, p. 111). Hägglund  (1920-2015) observa que “Apesar de sua perspectiva reformada, Zuínglio nunca abandonou seu ponto de vista humanista” (B. Hägglund, História da Teologia, p. 220).

[11] Ver: Mark A. Noll, Momentos Decisivos na História do Cristianismo, São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 198ss.

[12] Lucas (1889-1961) apresenta a seguinte distinção entre alguns reformadores: “O sistema teológico de Calvino foi o mais elaborado e científico corpo de dogma produzido no campo Protestante. Lutero foi um poderoso revolucionário com uma profunda intuitiva sensibilidade religiosa que, no entanto, nunca conseguiu reduzir a um sistema. Melanchthon foi um discípulo e nunca o proclamador pioneiro de uma teologia. Zuínglio foi o produto de diversas influências e atuou somente sob o impulso de eventos específicos; ele não foi um teólogo sistemático” (Henry S. Lucas, The Renaissance and the Reformation, New York: Harper & Brothers Publishers, 1934, p. 579). Vejam-se também, Philip Schaff, History of the Christian Church, v. 8, p. 257-260; Justo L. Gonzalez, A Era dos reformadores, São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 107; L. Berkhof, Introduccion a la Teologia Sistematica, Grand Rapids, Michigan: The Evangelical Literature League, © 1932, p. 79-80. Sobre Zuínglio, Schaff diz que a sua importância foi mais histórica que doutrinária. (Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. Revised and Enlarged, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (1931), v. 1, p. 360). No entanto devemos ter em mente que Zuínglio escreveu seus trabalhos em menos de dez anos e, raramente teve tempo de revisar alguns de seus sermões para serem publicados. (Veja-se: Timothy George, Teologia dos reformadores, p. 119ss.). Contudo ele, possivelmente influenciado por Erasmo, conhecia muito bem o grego, tendo copiado com suas próprias mãos, de modo destro, as Epístolas de Paulo e a Epístola aos Hebreus, baseando-se na edição do Novo Testamento Grego de Erasmo (1516). (Cf. Philip Schaff, History of the Christian Church, v. 8, p. 31). Bullinger diz que Zuínglio memorizou em grego todas as Epístolas de Paulo (Cf. Timothy George, Teologia dos reformadores, p. 113).

[13]Timothy George observa corretamente que os reformadores, “Embora acolhessem entusiasticamente os esforços dos eruditos humanistas, tais como Erasmo, por recuperar o primeiro texto bíblico e submetê-lo a uma rigorosa análise filológica, eles não viam a Bíblia meramente como um livro entre muitos outros. Eles eram irrestritos em sua aceitação da Bíblia como a única e divinamente inspirada Palavra do Senhor” (Timothy George, Teologia dos reformadores, p. 312). Dentro de outro prisma afirma Harrison: “A importância da Reforma para a crítica bíblica, não esteve tanto na preocupação com os processos históricos ou literários envolvidos na formulação do cânon bíblico, senão em sua insistência contínua na primazia do singelo sentido gramatical do texto por direito próprio, independente de toda interpretação feita pela autoridade eclesiástica” (R.K. Harrison, Introduccion al Antiguo Testamento, Jenison, Michigan: TELL., 1990, v. 1, p. 7-8). Ainda dentro de outra ótica, afirma o historiador francês Boisset: “A preocupação do humanista, em suma, é afirmar e demonstrar a grandeza do homem; a do reformador, segundo a expressão de Calvino, é dar testemunho da ‘honra de Deus’” (Jean Boisset, História do Protestantismo, São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1971, (Coleção “Saber Atual”), p. 17).

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