A Pessoa e Obra do Espírito Santo (208)

4. A adoção e as nossas orações

Para invocarmos a Deus corretamente é mister que nos adornemos com o Espírito de adoção. – João Calvino.[1]

          Quando um dos discípulos de Jesus – possivelmente impressionado com a oração do próprio Jesus –, lhe pediu para que lhe ensinasse a orar (Lc 11.1), o Senhor ensinou aos discípulos a orarem assim: “Pai Nosso que estás nos céus….” (Mt 6.9).  Esta oração amada por toda Cristandade desde os seus primórdios,[2] tornou-se conhecida como a oração do Pai Nosso ou Oração do Senhor, neste caso devido ao fato de que foi o próprio Senhor Jesus Cristo quem a ensinou.

          É importante ressaltar que o Senhor Jesus, o nosso irmão mais velho nos ensina a orar nos dirigindo a Deus como Pai. Ele se vale deste conceito tão caro ao ser humano para ilustrar de forma antropomórfica a nossa relação com Deus: O pai gosta de ouvir seus filhos.[3]

          Esta se tornou a principal forma de todos os cristãos se dirigirem a Deus. O Deus eterno Todo-Poderoso fez-se nosso Pai em Cristo. Aqui temos um misto de reverência e intimidade: “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome”. Ele é o santo glorioso que está nos céus; é também o nosso Pai santo, glorioso e misericordioso (Jo 17.11). Falamos com o Deus que é nosso Pai; pai de todos nós que nascemos de novo, os que cremos em Cristo, fomos declarados justos e, por isso, estamos definitivamente unidos ao Senhor.

          Ao ensinar esta oração o Senhor já tinha diante de si a sua morte e ressurreição; a vitória sobre satanás, o mundo e o pecado. Esta oração só se tornaria possível a nós se o Senhor fosse o vencedor. Sem a sua morte e ressurreição jamais poderíamos orar assim. Aliás, só nos tornamos filhos por intermédio da fé em Cristo Jesus (Gl 3.26).[4]

          Analisemos preliminarmente alguns aspectos desta nossa aproximação como filhos de Deus e a sua relação com a nossa adoção.

A Paternidade de Deus entre os judeus

A paternidade de Deus sobre o povo de Israel é claramente reconhecida, estando bem firmada esta ideia nas páginas do Antigo Testamento (Dt 32.6; Sl 103.13,14; Jr 31.9,20; Ml 2.10).[5] Mesmo a palavra “pai” sendo usada mais de 1200 vezes ali,[6] só ocorre 14 vezes referindo-se a Deus; todavia, nestes casos, é sempre empregada de forma reveladora.[7]

Curiosamente, os sumerianos, cerca de três mil anos antes de Cristo, já se referiam ao seu deus como um pai.[8] Talvez este seja um dos motivos porque o Antigo Testamento use tão poucas vezes a expressão pai para Deus: o abuso de seu emprego nos cultos pagãos, especialmente nos cultos cananeus.[9]

          A paternidade de Deus descrita no Antigo Testamento é exclusiva: Deus é Pai de Israel (Dt 7.6-8; 14.1,2; Is 63.15,16; 64.8)[10] e esta paternidade encontra o seu fundamento num ato histórico e singular; o êxodo do Egito.

          Jeremias escreve sobre isto:

Associar a paternidade de Deus com um fato histórico implica uma profunda revisão do conceito de Deus como Pai. A certeza de que Deus é Pai e Israel seu filho não se funda no mito, mas em um ato único de salvação realizado por Deus, do qual Israel foi o alvo da história.[11]

          Apesar dos judeus não usarem com frequência o título pai para Deus, estavam convictos desta realidade: Deus é pai de Israel. Entretanto, o que mais nos chama a atenção, é o fato de não ser encontrado no judaísmo nenhum exemplo convincente da utilização da expressão “meu pai” para Deus.[12] Os judeus podiam dirigir-se a Deus, liturgicamente, como yiba) (‘abhi’) (“Meu Pai”), e, em suas orações tratarem-no como abinu, “Nosso Pai”; [13] mas nunca empregavam a forma familiar )fba) (’abhã’)[14] (grego: a)bba=) (abba), que soaria desrespeitoso e audacioso para se referir ao Senhor de todas as coisas.[15]

          Agostinho (354-430) resume a questão:

Quem quer que leia a Sagrada Escritura poderá encontrar tais louvores de modo variado e extenso. Entretanto, em parte alguma encontra-se algum preceito ordenando ao povo de Israel que se dirigisse a Deus como Pai e o invocasse como Pai nosso.[16]

          Portanto, o surpreendente para o judeu foi o fato de Jesus referir-se ao Pai de uma forma nunca vista, jamais praticada. Devemos notar que Jesus, em suas orações, não usava de um artifício para criar impacto ou para presumir, diante de seus ouvintes, ter uma relação inexistente com o Pai. Não. Jesus apenas revelou o fato do Seu relacionamento íntimo e especial com o Pai. Isto Ele fez, usando a expressão aramaica ’abba, que foi tomada por empréstimo do linguajar das crianças, equivalendo mais ou menos ao nosso “papai” ou “paizinho”.[17]

          O Talmud diz que “quando uma criança saboreia o trigo (isto é, quando é desmamada), aprende a dizer ‘abba’ e ‘imma’ (Papai e mamãe)”.[18] Com o passar do tempo o uso desta expressão também tornou-se comum entre os jovens e adultos para se referirem aos seus pais.[19]

          Por ser “Abba” um designativo tão familiar e íntimo, os discípulos impressionados com o emprego feito por Jesus, não ousaram traduzir a expressão para o grego. Com exceção da oração de Mt 27.46, que seguiu a forma do Sl 22.1, em todas as suas orações, Jesus dirigiu-se a Deus como Abba.[20]

           Jeremias pinta este quadro de forma singela:

Jesus dirigia-se a Deus como uma criancinha a seu pai, com a mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante (…). Jesus considerava este modo infantil de falar como a expressão do conheci­mento único de Deus que o Pai lhe dava, e de seus plenos poderes de Fi­lho.[21]

          Isto implica dizer que Jesus tinha plena consciência de ser, de modo único e singular, O Filho de Deus (Mt 11.27; Mc 13.32; 14.36). Quando a Igreja professou a sua fé na filiação divina de Jesus, o fez respaldada pelo próprio testemunho de Jesus, de ser o Filho de Deus. O que para os ouvintes foi uma novidade, a afirmação da Sua filiação divina por ocasião do batismo, para Ele foi apenas o testemunho público daquilo que Ele sempre soubera.

          O que nos enche de alegria e mostra a nossa relação íntima com Deus é o fato de em Cristo, pelo Espírito, podermos nos dirigir ao Pai, como filhos adotivos de Deus, usando da mesma expressão empregada por Cristo. Sem a permissão do Pai ensinada pelo Filho e, impulsionada pelo Espírito, jamais oraríamos ao Pai com tanta intimidade e reverência.

A adoção como fundamento de nossas orações

No Catecismo Maior de Westminster (1647), encontramos a relação estabelecida entre a necessidade de o Mediador ser homem e a nossa adoção. Na pergunta 39, lemos: “Por que era indispensável que o Mediador fosse homem?”

R: …. para poder soerguer a nossa natureza e possibilitar a obediência à lei, sofrer e interceder por nós em nossa natureza, e solidarizar-se com as nossas enfermidades, para que recebêssemos a adoção de filhos, e tivéssemos conforto e acesso, com confiança, ao trono da graça” (grifos meus).

          A adoção é, portanto, o fundamento de nossas orações. Temos ousadia em Cristo para nos dirigir a Deus suplicando-Lhe perdão em nome de Cristo, o nosso Mediador.

          Calvino interpreta: “Esse perdão que diariamente recebemos flui de nossa adoção, e nela se acham também fundadas todas as nossas orações”.[22] À frente: “Esta é uma forma pela qual nossa graciosa adoção se evidencia, a saber, que nos achegamos ao santuário sob a liderança do Espírito Santo”.[23]

O Espírito e as orações dos filhos

O Espírito que em nós habita, nos conduz à oração e testemunha em nós a nossa filiação. “O próprio Espírito testifica (summarture/w)com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).

          Comentando esta passagem, Calvino afirma que “Quando o Espírito nos testifica que somos filhos de Deus, ele, ao mesmo tempo, imprime esta confiança em nossos corações, para que ousemos invocar a Deus como nosso Pai”.[24]

          Podemos dizer, portanto, que o Pai Nosso é a “Oração dos Filhos”.[25]

          O Espírito, que procede do Pai e do Filho, é quem nos guia em nossas orações, fazendo-nos orar corretamente ao Pai. De fato, Deus propiciou para nós todos os elementos fundamentais para a nossa santificação (2Pe 1.3). A ação do Espírito aponta nesta direção, indicando também, que as nossas orações são “imperfeitas, imaturas, e insuficientes”. Por isso Ele nos auxilia, nos ensinando a orar como convém. 

          Paulo fala que nós, os crentes em Cristo, recebemos o Espírito de ousada confiança em Deus, que nos leva, na certeza de nossa filiação divina, a clamar ”Aba, Pai”. ”Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).

          O fato de Paulo usar a mesma expressão de Cristo para nós “significa que, quando Jesus deu a Oração Dominical aos seus discípulos, também lhes deu autoridade para segui-lo em se dirigirem a Deus como ‘abbã’, dando-lhes, assim, uma participação na sua condição de Filho, interpreta Hofius.[26] Somente pelo Espírito poderemos nos dirigir a Deus desta forma, como uma criança que se lança sem reservas nos braços do seu Pai amoroso. (Trataremos mais deste assunto mais abaixo).

Maringá, 7 de junho de 2021.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]João Calvino, As Pastorais,São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm 2.8), p. 69.

[2] No Didaquê(c. 150), encontramos a recomendação de que esta oração fosse feita três vezes ao dia (Didaquê, capítulo 8). Quanto ao seu uso litúrgico, não sabemos a partir de quando ela passou a ser empregada. Todavia, esta prática pode ser atestada como algo corrente em meados do 4º século, conforme evidencia Cirilo de Jerusalém (c. 315-386) na sua 23ª “Catequese Mistagógica” (c. 350). (Cirilo de Jerusalém, Catechetical Lectures,XXIII. In: P. Schaff; H. Wace, eds. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, (Second Series), Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1978, v. 7, p. 155-157. Veja-se comentário a respeito em J. Jeremias,O Pai-Nosso: A Oração do Senhor, São Paulo: Paulinas, 1976, p. 5-6.

[3] “Deus, afinal, quer que pensemos nEle como nosso Pai. É uma espécie de antropomorfismo; é Deus condescendendo com nossa fraqueza. O pai humano gosta de ouvir o filho dizer coisas e contar-lhe coisas que Ele já sabe; não se aborrece com elas, nem considera perda de tempo. Ele deriva delas grande prazer, e devemos aprender disso que o nosso Pai celestial deleita-Se em ver que nos aproximamos dele e Lhe apresentamos nossas petições e razões” (D.M. Lloyd-Jones, Seguros Mesmo no Mundo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: v. 2), p. 10).

[4]“Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus” (Gl 3.26).

[5]É assim que recompensas ao SENHOR, povo louco e ignorante? Não é ele teu pai, que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?” (Dt 32.6). 13 Como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece dos que o temem. 14 Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó” (Sl 103.13,14). 9Virão com choro, e com súplicas os levarei; guiá-los-ei aos ribeiros de águas, por caminho reto em que não tropeçarão; porque sou pai para Israel, e Efraim é o meu primogênito. 20 Não é Efraim meu precioso filho, filho das minhas delícias? Pois tantas vezes quantas falo contra ele, tantas vezes ternamente me lembro dele; comove-se por ele o meu coração, deveras me compadecerei dele, diz o SENHOR” (Jr 31.9,20). “Não temos nós todos o mesmo Pai? Não nos criou o mesmo Deus? Por que seremos desleais uns para com os outros, profanando a aliança de nossos pais?” (Ml 2.10).

[6]E. Jenni, Padre: In: Ernst Jenni; C. Westermann, eds. Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, v. 1, p. 36.

[7] J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento,2. ed. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 12ss.

[8] Vejam-se: J. Jeremias,A Mensagem Central do Novo Testamento,p. 11-12; J. Jeremias, O Pai-Nosso, p. 33-34. A referência ao seu deus como “Pai”, é um fenômeno comum na história das religiões, quer dos povos mais primitivos quer dos mais evoluídos culturalmente (Cf. G. Schrenk, pa/thr: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1983 (Reprinted), v. 5, p. 951).

[9] Veja-se: J. Barton Payne, ‘bh: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 6.

[10]6 Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra. 7 Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, 8 mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito” (Dt 7.6-8). “Filhos sois do SENHOR, vosso Deus; não vos dareis golpes, nem sobre a testa fareis calva por causa de algum morto. 2 Porque sois povo santo ao SENHOR, vosso Deus, e o SENHOR vos escolheu de todos os povos que há sobre a face da terra, para lhe serdes seu povo próprio” (Dt 14.1,2). 15 Atenta do céu e olha da tua santa e gloriosa habitação. Onde estão o teu zelo e as tuas obras poderosas? A ternura do teu coração e as tuas misericórdias se detêm para comigo! 16 Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó SENHOR, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antiguidade” (Is 63.15,16). Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai, nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos” (Is 64.8).

[11] J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento,p. 13.

[12] J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento,p. 20.

[13] Cf. Leon Morris, Lucas: Introdução e Comentário, São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1983, (Lc 11.2-3), p. 183.

[14] Cf. A. Richardson, Introdução à Teologia do Novo Testamento, São Paulo: ASTE., 1966, p. 149ss.

[15] Cf. Ralph P. Martin, Adoração na Igreja Primitiva, São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 40.

[16] Agostinho, O Sermão da Montanha,São Paulo: Paulinas, 1992, II.4. p. 115.

[17] “O emprego inteiramente novo, e, para os judeus, nunca imaginado, do termo infantil e familiar ‘abbã’ na oração é uma expressão de confiança e obediência para com o Pai (Mc 14.36), como também de Sua autoridade incomparável (Mt 11.25ss.)” (O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento,São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 3, p. 383).

[18] J. Jeremias,O Pai Nosso, p. 36,37; O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Vol. III, p. 382.

[19] Cf. O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger.O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Vol. III, p. 382.

[20] J. Jeremias, A Mensagem Central do Novo Testamento, p. 20ss.

[21] J. Jeremias, O Pai Nosso,p. 37. Veja-se também, G. Kittel, a)bba=: In: G. Kittel; G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament,v. 1, p. 6.

[22]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 65.4), p. 610.

[23]João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 65.4), p. 612.

[24]João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Edições Parakletos, 2001, (Rm 8.16), p. 288.

[25] Conforme expressão de Lloyd-Jones (1899-1981) (D.M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte,São Paulo: FIEL., 1984, p. 358).Veja-se a relação feita por Calvino entre a oração e a convicção de nossa filiação divina (João Calvino, Exposição de Romanos,(Rm 8.16), p. 279-280).

[26]O. Hofius, Pai: In: Colin Brown, ed. ger.O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 3, p. 383.

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