A Pessoa e Obra do Espírito Santo (17)

6.1.1. A Inspiração das Escrituras (Continuação)

   Deste modo, cremos que a Inspiração foi Plenária, Dinâmica, Verbal e Sobrenatural.[1] 

          1) Plenária: Porque toda a Escritura é plenamente expirada. De Gênesis ao Apocalipse, tudo o que foi registrado, o foi pela vontade de Deus (2Tm 3.16; 2Pe 1.20-21).

          Machen (1881-1937) apresenta um precioso resumo desse tema relacionando-o com o próximo tópico:

Esta doutrina [da inspiração] significa que a Bíblia não é apenas um relato de coisas importantes, mas que o próprio relato é verdadeiro, tendo os escritores sido preservados de erros, a despeito de uma manutenção total de seus hábitos de pensamentos e expressão, que o Livro resultante é a “regra infalível de fé e prática”.

Essa doutrina da “inspiração plena” tem sido assunto de deturpação persistente. Seus oponentes falam dela como se envolvesse uma teoria mecânica da atividade do Espírito Santo. O Espírito, diz-se, é representado nesta doutrina como se tivesse ditado a Bíblia aos escritores, considerados realmente pouco mais do que estenógrafos. Mas, naturalmente, todas estas caricaturas não têm base de fato, e é surpreendente que homens inteligentes sejam tão obscurecidos pelo preconceito a ponto de nem mesmo examinarem, por si mesmos, as investigações perfeitamente acessíveis nas quais a doutrina da inspiração plena é apresentada. Normalmente se considera como uma boa prática, examinar algo por si mesmo antes de ecoar o ridículo vulgar deste algo. Mas, em conexão com a Bíblia, estas restrições sábias são consideradas, de algum modo, fora de lugar. É muito mais fácil contentar uma pessoa com uns poucos adjetivos ultrajantes como “mecânico” ou semelhantes. Por que engajar-se em um criticismo sério quando o povo prefere o ridículo? Por que atacar um oponente real quando é mais fácil derrubar um espantalho?

Na realidade, a doutrina da inspiração plena não nega a individualidade dos escritores bíblicos; ela não ignora o uso que fizeram de meios ordinários para a aquisição de informação; ela não envolve qualquer falta de interesse nas situações históricas que deram origem aos livros bíblicos. O que ela nega é a presença de erros na Bíblia. Ela supõe que o Espírito Santo informou as mentes dos escritores bíblicos de tal forma que eles foram impedidos de cometerem os erros que danificam todos os outros livros. A Bíblia pode conter um relato de uma revelação genuína de Deus e, mesmo assim, não conter um relato verdadeiro. Mas, de acordo com a doutrina da inspiração, o relato é, na realidade, um relato verdadeiro; a Bíblia é uma “regra infalível de fé e prática”.[2]

          2) Dinâmica:[3] Porque Deus não anulou a personalidade dos escritores; por isso, inspirados por Deus, eles puderam usar de suas experiências, pesquisas, aptidões e manter o seu estilo (2Pe 3.15-16). Deus na realidade separou os seus servos antes deles nascerem e, os preparou para desempenharem esta função (Is 49.1,5; Jr 1.5; Gl 1.15-16).[4]

          3) Verbal: Porque Deus se revelou por meio de Palavras e, todas as palavras dos autógrafos originais são Palavra de Deus (2Sm 23.2; Jr 1.9; Mt 5.18; 1Co 2.13). Em Gl 3.16, é interessante observar, que Paulo baseia o seu argumento numa só palavra usada no original hebraico.[5] A inspiração se estende aos pensamentos bem como às palavras.[6]

          4) Sobrenatural: Por ter sido originada em Deus e produzir efeitos sobrenaturais, mediante a ação do Espírito Santo, em todos aqueles que creem em Cristo. (Jo 17.17; Rm 10.17; Cl 1.3-6; 1Pe 1.23; 2Pe 1.20-21). É por intermédio da Palavra que Deus gera os seus filhos espirituais.[7]

          A Bíblia não foi registrada apenas para a nossa satisfação espiritual; mas para que cumpramos os seus preceitos, dados pelo próprio Deus (Dt 29.29; Js 1.8; 2Tm 3.15,16; Tg 1.22). A Bíblia também não nos foi dada para satisfazer a nossa curiosidade pecaminosa (Dt 29.29), que em geral ocasiona especulações esdrúxulas e facções. Ela foi-nos concedida para que conheçamos o seu Autor e, O conhecendo O adoremos e, O adorando, mais O conheçamos (Os 6.3; 2Pe 3.18).[8]

Maringá, 12 de outubro de 2020.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] Para uma visão panorâmica comparativa de diversas escolas de interpretação quando à inspiração das Escrituras, veja-se: Gordon R. Lewis; Bruce A. Demarest,  Integrative Theology, Grand Rapids, Mi.: Zondervan, 1987, v. 1, p. 131-171 (Para os nossos propósitos, p. 131-138)

[2]J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 78-79.

[3]A inspiração é também chamada de “orgânica”, porque a Escritura pode ser comparada em certo sentido a um organismo, onde há uma interação harmoniosa de forças, havendo uma operação “concursiva” ou autoria confluente. Deus preparou os seus servos desde à eternidade, tornando-os “órgãos da inspiração”. “A interpretação adequada da inspiração bíblica é a orgânica, que salienta a forma servil da Escritura. A Bíblia é a Palavra de Deus em linguagem humana. A inspiração orgânica é inspiração ‘gráfica’, e é tolice distinguir pensamentos inspirados de palavras e letras inspiradas” (Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Prolegômena, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 389).  (Vejam-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 431ss.; Homer C. Hoeksema, The Doctrine of Scripture, Grand Rapids, Michigan: Reformed Free Publishing Association, 1990, p. 78ss.; Gordon R. Lewis; Bruce A. Demarest,  Integrative Theology, Grand Rapids, Mi.: Zondervan, 1987, v. 1, p. 135-138).

[4] Veja-se: L. Boettner, A Inspiração das Escrituras, Lisboa: Papelaria Fernandes, (s.d), p. 30; B.B. Warfield, The Inspiration of the Bible: In: The Works of Benjamin B. Warfield, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1981, v. 1, p. 101.

[5] Veja-se: L. Boettner. A Inspiração das Escrituras,Grand Rapids, Michigan: Reformed Free Publishing Association, 1990, p. 11

[6] Veja-se: Cornelius Van Til, An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg, New Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1974, p. 152.

[7] Veja-se: J.M. Boice, O Pregador e a Palavra de Deus: In: James M. Boice, ed. O Alicerce da Autoridade Bíblica,São Paulo: Vida Nova, 1982, p. 162.

[8]Veja-se: J. Calvino, As Institutas, I.5.10; Agostinho, Confissões, 9. ed. Porto: Livraria Apostolado da Imprensa, 1977, I.1.1. p. 27-28; J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, especialmente, p. 26-35.

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