A Pessoa e Obra do Espírito Santo (155)

6.3.2.2. O privilégio e a responsabilidade dos que pregam (continuação)

Paulo, consciente da procedência de sua mensagem e da sua honestidade para com a mensagem recebida, insiste no ponto de que rejeitar a mensagem por ele anunciada, é o mesmo que rejeitar a Deus, o seu Autor (1Ts 2.13-14; 4.8);[1] ela deve ser entendida como a Palavra de Deus para nós.[2]

          O pregador, portanto, leal ao seu Senhor, torna-se servo do texto, sem nada acrescentar ou diminuir. Não podemos tornar o texto em mero pretexto para expor nossas opiniões e conceitos, valendo-nos do texto apenas para conferir certa autoridade às nossas ideias.[3]

A convocação é de Deus, não nossa. A autoridade de quem prega é decorrente da Palavra de Deus. “Sendo verdadeiro para com a Palavra pura, ele [Ministro] é tudo; sem ela, é nada. Essa é a responsabilidade do pregador”, afirma Kuyper.[4]

          Lawson enfatiza:

É importante reconhecer que, em última análise, a resposta dos ouvintes a uma mensagem reflete a atitude deles para com aquele que enviou a mensagem e não para com o próprio mensageiro. Sob nenhuma circunstância, um arauto pode mudar a sua mensagem para conseguir uma resposta melhor. Ele também não pode negociar a mensagem para torná-la mais agradável.[5]

          A igreja é alimentada pela Palavra. As nossas teorias, por mais em moda que estejam e, por mais bem aceitas que sejam em nosso grupo social ou clube de amigos devotos, jamais poderão ocupar o lugar da Palavra. Esta prática, infelizmente não rara, denota com frequência, a perda de confiança na autoridade e suficiência bíblica.[6]

Quando um pregador deixa de pregar as Escrituras, perde sua autoridade. Já não confronta seus ouvintes com uma palavra da parte de Deus, mas meramente com outra palavra, da parte dos homens. Logo, a maior parte da pregação moderna evoca pouco mais do que bocejos profundos, Deus não está nela, interpreta Robinson.[7]

          Por isso, insistimos, nos valendo das palavras de Mohler: “Se somos servos da Palavra, nossa pregação deve ser verdadeiramente expositiva”.[8]

          O pregador proclama a Palavra de Deus. Para que isto seja feito com fidelidade, é necessária uma interpretação cuidadosa do texto Bíblico, considerando o seu contexto, uma exegese bem-feita, a fim de que ensinemos com fidelidade o que o texto diz.

O texto não pode ser um “passaporte” para as nossas ideias ou um estranho ao qual fomos apresentados e, que talvez, em algum momento nos encontremos durante a nossa pregação. Ao contrário disso, o sermão parte do texto. É preciso cultivar a honestidade para com o texto respeitando-o dentro do seu contexto.[9]

 Não pode haver fidelidade textual desconsiderando o contexto. Senão, no mínimo haverá o empobrecimento do texto. Como bem disse Calvino: “Quando passagens da Escritura são tomadas à revelia, e não se presta nenhuma atenção ao contexto, não nos admira que equívocos dessa natureza surjam com frequência”.[10]

Portanto, devemos permanecer fiéis a ele. Somos servos do texto,[11] “ministros da Palavra”,[12] não o seu senhor. Por mais brilhantes, emocionantes e persuasivos que sejam nossos discursos, eles continuam sendo palavra de homem. O critério de avaliação do que ensinamos deve ser sempre a poderosa e viva Palavra de Deus. Isso nos basta.

    Deus chama eficazmente e transforma pecadores por meio de sua Palavra, não por intermédio de nosso discurso. “O pregador deve servir ao texto, pois se a Palavra é a presença mediadora de Cristo, o serviço é devido”, comenta Chapell.[13] O pregador só será relevante para a igreja, sendo seu servo. Mas, só se pode ser servo da igreja, enquanto pregador, quando nos tornamos servos do texto.

          Na Reforma Protestante do Século XVI, a compreensão sobre a igreja foi enfatizada no sentido de “povo de Deus”, não simplesmente como um edifício ou uma organização institucional,[14] mas sim, como povo constituído por Deus que se reúne para adorar a Deus, sendo a Igreja caracterizada pela ministração correta da Palavra e dos Sacramentos.[15]

          A Reforma teve como um de seus marcos fundamentais o “reavivamento” da pregação da Palavra.[16] “A divulgação da Bíblia na língua vernácula dos povos foi o centro do movimento em todos os países da Europa”.[17] Ela foi caracterizada pela “emergência de uma nova pregação”.[18]

          Cito novamente o sumário de George:

Os reformadores queriam que a Bíblia lançasse raízes profundas na vida das pessoas que foram chamadas para servir. A Palavra de Deus não devia ser apenas lida, estudada, traduzida, memorizada e usada para meditação; ela também devia ser incorporada à vida e à adoração na igreja. A concretização da Bíblia foi muito claramente expressa no ministério de pregação, que recebeu nova preeminência na adoração e na teologia das tradições da Reforma.[19]

Maringá, 09 de abril de 2021;

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1] “Dessarte, quem rejeita (a)qete/w) estas coisas não rejeita (a)qete/w) o homem, e sim a Deus, que também vos dá o seu Espírito Santo” (1Ts 4.8).

[2] Veja-se: J. Calvino, As Institutas, I.9.3. “Quando os homens falam, não o devem fazer em seus próprios nomes, nem formular nada que seja de sua vã imaginação e de seu cérebro, mas têm que fielmente apresentar aquilo que Deus lhes determinou e deu em incumbência. (…) Se alguém se introduz para falar no próprio nome, nada há nesse, senão precipitação, pois toma sobre si o que pertence a Deus somente” (João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 25).

[3] “Pregadores são chamados a pregar a Palavra de Deus sem filtrá-la por noções politicamente corretas, sem diluí-las às ideias do próprio pregador e sem adaptá-las ao espírito de uma geração” (John F. MacArthur Jr., Porque ainda prego a Bíblia após quarenta anos de ministério: In: Albert Mohler, et. al., A Pregação da Cruz, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 132).

[4]Abraham Kuyper, A Obra do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 357.

[5]Steven J. Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2013, p. 70.

[6] “Muitos pregadores comprometem a sua vocação e se voltam às expectativas da cultura, por causa da perda de confiança nas Escrituras, da preocupação com as batalhas erradas e uma horrível falta de modelos excelentes” (Alistair Begg, Pregando para a Glória de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2014, p. 25).

[7] Haddon W. Robinson, A pregação bíblica, São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 14-15.

[8] R. Albert Mohler, Jr., A Primazia da Pregação: In: R. Albert Mohler, Jr., et. al. Apascenta o meu rebanho: um apaixonado apelo em favor da pregação, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 31.

[9] Ver: D.M. LLoyd-Jones, Pregação & Pregadores, São Paulo: Fiel, 1984,p. 145-146.

[10] John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, (Calvin’s Commentaries), 1996, v. 7/1, (Is 14.12), p. 442.

[11] Ver: Walter L. Liefeld, Exposição do Novo Testamento: do texto ao sermão, São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 14.

[12]Sidney Greidanus, O pregador contemporâneo e o texto antigo: interpretando e pregando literatura bíblica, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 28.

[13]Bryan Chapell, Pregação Cristocêntrica, São Paulo: Editora Cultura Cristã,2002, p. 20.

[14]Lutero (1483-1546) enfatizou que, “nem trabalho em pedra, nem boa construção, nem ouro, nem prata tornam uma igreja formosa e santa, mas a Palavra de Deus e a sã pregação. Pois onde é recomendada a bondade de Deus e revelada aos homens, e almas são encorajadas para que possam depender de Deus e chamar pelo Senhor em tempos de perigo, aí está verdadeiramente uma santa igreja” (Jaroslav Pelikan, ed. Luther’s Works, Saint Louis: Concordia Publishing House, 1960, v. 2, (Gn 13.4), p. 332). O eminente teólogo puritano John Owen (1616-1683) em um sermão, disse: “Quão pouco pensam os homens sobre Deus e seus caminhos, se imaginarem que um pouco de tinta e de verniz fazem uma beleza aceitável!” (John Owen, Sermon IV.In:The Works of John Owen,Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, 1982,v. 9, p. 78). Veja-se João Calvino, As Institutas,Carta ao Rei Francisco I, p. 28. “Para mim sempre foi patético assistir a um culto nalguma grande igreja quando o que se busca é o efeito produzido por algum tipo particular de edifício” (D. Martyn Lloyd-Jones, A Vida de Paz, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2008, p. 31). É bastante ilustrativo o discurso de Lloyd-Jones por ocasião das comemorações dos 100 anos da Capela de Westminster em 1965. (Veja-se: D.M. Lloyd-Jones, Discernindo os tempos, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 238-261).

[15] Veja-se: John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, São Paulo: Pendão Real, 1997, p. 330ss.

[16] Vejam-se: John H, Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 125; Roland H. Bainton, Martin Lutero, 3. ed. México: Ediciones CUPSA., 1989, p. 391; W. Stanford Reid, A Propagação do Calvinismo no Século XVI: In: W. S. Reid, ed. Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 49. Podemos dizer que na Reforma houve uma revitalização da Pregação Bíblica. A Palavra de Deus passou a ser pregada com ênfase e, a pregação passou a ser estudada considerando-se a sua natureza e propósito, No período da Renascença e da Reforma houve diversas contribuições neste campo (Para uma amostragem destas, Veja-se: Vernon L. Stanfield, The History of Homiletics: In: Ralph G. Turnbull, ed. Baker’s Dictionary of Practical Theology, 7. ed. Michigan: Baker Book House, 1970, p. 52-53).

[17] Frans Leonard Schalkwijk, Igreja e Estado no Brasil Holandês (1630-1654), Recife, PE: Fundarte, (Coleção Pernambucana, 2ª Fase, v. 25), 1986, p. 22,23. Ver também, p. 227,228.

[18]Marc Lienhard, Martin Lutero: tempo, vida e mensagem, São Leopoldo: Editora Sinodal, 1998, p. 97.

[19]Timothy George, Lendo as Escrituras com os reformadores: como a Bíblia assumiu o papel central na Reforma religiosa do século XVI, São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 181.

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