A lenda do Corpus Christi e o significado real da Ceia do Senhor (4)

9. Nutrimo-nos de Cristo

 

“Grande mistério!” – Agostinho.[1]

 

A Confissão de Westminster, declara:

 

Os que comungam dignamente, participando exteriormente dos elementos visíveis deste sacramento, também recebem intimamente, pela fé, a Cristo crucificado e todos os benefícios da sua morte, e nele se alimentam, não carnal ou corporalmente, mas real, verdadeira e espiritualmente, não estando o corpo e o sangue de Cristo, corporal ou carnalmente nos elementos pão e vinho, nem com eles ou sob eles, mas espiritual e realmente presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como estão os próprios elementos aos seus sentidos corporais. (XXIX.7).

 

A Igreja está vital e indissoluvelmente unida a Cristo. Esta união implica em nos alimentarmos – simbólica e sacramentalmente – do Seu corpo e do Seu sangue (Jo 6.53).[2] Aliás, não há outro alimento para a Igreja que não provenha de Cristo, visto que Ele mesmo “é o único alimento que nutre nossas almas”.[3] Ou seja, somos alimentados pela fé, mediante as operações do Espírito Santo em nós.[4] A Ceia é o sacramento da maturação, do crescimento espiritual.[5]

 

Na Ceia não somos apenas testemunhas de um fato histórico, antes, somos participantes e beneficiários do milagre que se repete em nossa existência. Todas as vezes que comemos do pão e bebemos do cálice somos alimentados “pela boca da fé”.[6] Ao longo da história o Senhor tem nos alimentado com pão suficiente para nos conduzir até à consumação de Sua obra salvífica.[7]

 

A questão é: Quando vimos à Ceia, estamos de fato famintos de Deus e da Sua Palavra? Calvino diz que seria uma zombaria vir buscar o alimento sem este santo apetite. Porém, reconhece que esta disposição é operada pelo Espírito. “Daí segue-se que nossas almas devem estar famintas, e ter um desejo e zelo ardente de serem saciadas, para bem encontrar sua comida na Ceia do Senhor”.[8]

 

Jesus diz aos Seus discípulos: “…. Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai; também quem de mim se alimenta, por mim viverá” (Jo 6.53-57).

 

Assim como o pão e o vinho alimentam a nossa carne, o corpo e o sangue de Cristo, representados nos elementos da Ceia, nos alimentam espiritualmente.[9] A Santa Ceia, portanto, é um meio de graça por meio do qual Cristo nos alimenta, fortalecendo e vivificando a nossa fé,[10] sendo esta “única boca e estômago da alma”.[11]

 

Aqui há um indicativo de nossa condição de pecadores, ainda que não acomodados nesta situação pois, se fôssemos perfeitos, para que participar da Ceia? Certamente, Ela perderia em grande parte o seu sentido.

 

Portanto, a nossa participação aponta para a nossa imperfeição e, ao mesmo tempo, para o nosso desejo de nos alimentar de Cristo.[12] Na Ceia denunciamos que somos pecadores e, ao mesmo tempo, proclamamos o desejo e a esperança de não permanecer no pecado.

 

Ridderbos (1909-2007) faz um resumo esclarecedor:

 

Quando Jesus dá a Seus discípulos Seu corpo e Seu sangue, o milagre consiste no fato de que Ele está dando a Si próprio aos Seus, para que eles possam comer e beber e assim ser participantes no Seu sacrifício. Pois o fruto do sacrifício que Jesus oferece é comida e bebida sempre presentes, é a fonte da força e alegria para a Sua Igreja. Quando, na Sagrada Comunhão Jesus dá aos Seus o pão e o vinho como Seu corpo e Seu sangue, Ele os faz participantes destes benefícios de Sua morte.[13]

 

Considerações finais

 

Daqui, alguns devem ser enfatizados:

 

 1) A eficácia da Ceia não depende de quem a administra

 

Os benefícios espirituais da Ceia não estão restritos à fidelidade daqueles que a ministram. Deus pode abençoar-nos até mesmo por intermédio de um falso servo Seu. O que realmente faz, Se assim O quiser. Portanto, a eficácia da Ceia depende da ação abençoadora de Deus.[14]

 

     2) A eficácia reside no Espírito, não nos elementos da Ceia

 

Os elementos da Ceia permanecem o que são, pão e vinho. Eles não passam por nenhuma transformação metafísica: “A relação entre o pão e o vinho, e o corpo e o sangue, é puramente moral ou representativa”.[15]

 

Calvino comenta:

 

Deus usa o sinal como instrumento. Não que o poder de Deus esteja encarcerado no sinal, mas Ele no-lo distribui por meio destes expedientes, em virtude da fragilidade de nossa capacidade (…). Nada mais é atribuído ao sinal além de ser ele um instrumento, por si mesmo destituído de qualquer valor, exceto até onde ele deriva seu poder de outra fonte.[16]

 

Portanto, a graça que recebemos não é automática, como se os elementos tivessem poder em si mesmos. É o Espírito Quem nos abençoa por meio da Eucaristia. O sinal é ineficaz sem o Espírito.

 

 

3) É necessária fé daqueles que recebem os elementos

A efetividade do sacramento é o que é, porém, somente aqueles que creem em Cristo e participam condignamente da Ceia usufruem dos benefícios que o Espírito nos comunica.[17] “Os incrédulos podem receber os elementos externos, mas não recebem as coisas simbolizadas por eles”.[18] Recebem o sacramento, mas não o Cristo que dá sentido ao mesmo.[19] Por isso, a Ceia não é um meio indiscriminado de graça; ela o é para o povo eleito de Deus que participa condignamente deste sacramento.[20] Os elementos não operam por si mesmos (ex opera operato), independentemente de Deus.[21] O Espírito é Quem opera em nós “para que os ouvidos não percuta em vão a Palavra, para que aos olhos não verberem em vão os sacramentos”.[22] Continua o Reformador: “Deus assim age por meio do sinal, para que toda a eficácia dependa do Seu Espírito”.[23]

 

Deve ser enfatizado, que o valor dos sacramentos não está puramente no âmbito subjetivo da fé. Eles são o que são porque o Senhor estabeleceu esta relação abençoadora. Foi Ele Quem disse: “Tomai, comei; isto é o meu corpo” e “Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança”.[24]

 

Por intermédio da Ceia Deus comunica-nos bênçãos espirituais; no entanto, se participarmos “carnalmente” da Ceia, não diminuiremos o seu valor objetivo, no entanto, deixaremos de receber as bênçãos de Deus.[25] Na Ceia, portanto, há um valor objetivo, real e abençoador. E, também, um sentido subjetivo, que só se tornará concreto, para aqueles que se alimentam e se fortalecem de Cristo neste sacramento participando dele com fé.

 

Na questão 81 do Catecismo de Heidelberg (1563), lemos: “Quem deve aproximar-se da Mesa do Senhor?”:

R. Aqueles que estão descontentes consigo mesmos por causa dos seus pecados, e que contudo confiam que estes lhes foram perdoados e que a sua fraqueza remanescente é coberta pela paixão e morte de Cristo, e que também desejam mais e mais fortalecer sua fé e melhorar sua vida. Mas, os impenitentes e hipócritas comem e bebem para si mesmos julgamento.

 

A nossa participação na Ceia importa no nosso compromisso voluntário de nos dedicar inteiramente ao serviço do Senhor até que Ele venha. Maranata!

 

 

Maringá, 19 de junho de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

[1] Agostinho, On The Gospel of St. John: In: Philip Schaff, ed. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2. ed. (First series), Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 7, Tractate XXV.15, p. 165b.

[2] Aliás, pelas narrativas da instituição da Ceia (Mt 26.26-29; Mc 14.22-25; Lc 22.15-20), provavelmente Jesus Cristo não comeu do pão nem bebeu do vinho. “É difícil imaginar Jesus comendo simbolicamente seu próprio corpo” (Herman Ridderbos, A Vinda do Reino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 296).

[3] Juan Calvino, Breve Tratado Sobre La Santa Cena: In: Tratados Breves, Buenos Aires; México: La Aurora; Casa Unida de Publicaciones, 1959, p. 10.

[4]Veja-se: A.A. Hodge, Comentario de La Confesion de Fe de Westminster, Barcelona: CLIE., (1987), p. 336.

[5]Cf. Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 585.

[6] Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 574. Vejam-se também: Confissão Belga (1561), Art. 35; Thomas Watson, A Ceia do Senhor, Recife, Pe.: Os Puritanos, 2015, p. 55.

[7] Herman Ridderbos, A Vinda do Reino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 298.

[8]João Calvino,  Pequeno tratado da Santa Ceia (1541): In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 157.

[9]Veja-se: Juan Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra, Perg. 341.

[10] “Os sacramentos verdadeiramente se chamam testemunhos da graça de Deus e como dir-se-ão selos da benevolência de que foi possuído para conosco, os quais, em no-la selando, deste modo nos sustêm, nutrem, firmam, aumentam a fé” (João Calvino, As Institutas, IV.14.7). Veja-se: Segunda Confissão Helvética (1566), 21.6,8

[11] João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 6.56), p. 290.

[12] “Em vão seria instituída a Ceia se ninguém fosse capaz de recebê-la senão o que de todo fosse perfeito. (…) Se fôssemos perfeitos, nenhuma necessidade teríamos da Ceia, porque nos é dada para socorro de nossa imperfeição, e para ajuda e alívio de nossa fraqueza” (Juan Calvino, Catecismo de la Iglesia de Ginebra, Pergs. 360-361). Vejam-se: João Calvino, Pequeno tratado da Santa Ceia (1541): In: Eduardo Galasso Faria, ed. João Calvino: Textos Escolhidos, São Paulo: Pendão Real, 2008, p. 158-160; João Calvino, As Institutas, IV.17.10; João Calvino, Confissão Gaulesa, (1559), Arts. 36-37.

[13]H.N. Ridderbos, O Testemunho de Mateus Acerca de Jesus Cristo, Patrocínio, MG.: CEIBEL, 1980, p. 85.

[14] Vejam-se: J. Calvino, As Institutas, IV.14.17; Catecismo Menor de Westminster, Perg. 91.

[15] A.A. Hodge, Comentario de La Confesion de Fe de Westminster, Barcelona: CLIE., (1987), p. 336.

[16]J. Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef. 5.26), p. 169.

[17] Veja-se: Herman Bavinck, Dogmática Reformada: Espírito Santo, igreja e nova criação, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 584. “Quando o sacramento é recebido com fé, a graça de Deus o acompanha” (L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 623).

[18] L. Berkhof, Teologia Sistemática, p. 662. “Ainda que os ignorantes e os ímpios recebam os elementos visíveis deste sacramento, não recebem a coisa por eles significada, mas, pela sua indigna participação, tornam-se réus do corpo e do sangue do Senhor para a sua própria condenação; portanto eles como são indignos de gozar comunhão com o Senhor, são também indignos da sua mesa, e não podem, sem grande pecado contra Cristo, participar destes santos mistérios nem a eles ser admitidos, enquanto permanecerem nesse estado” (Confissão de Westminster, 29.8). A.A. Hodge, comenta: “Este (o incrédulo) recebe o sinal externo com sua boca, porém não recebe a graça interna em sua alma, e só aumenta sua própria condenação e endurece seu coração por fazê-lo indignamente” (A.A. Hodge, Comentario de La Confesion de Fe de Westminster, Barcelona: CLIE., (1987), p. 336). Do mesmo modo: Consensus Tigurinus, Art. 17; Joel R. Beeke; Mark Jones, orgs. Teologia Puritana: Doutrina para a vida.  São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1057.

[19] Veja-se: Confissão Belga, Art. 35.

[20] Cf. Consensus Tigurinus, Art. 16. Vejam-se: Charles Hodge, Systematic Theology, v. 3, p. 632; Philip Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. (Revised and Enlarged), Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1998 (Reprinted), v. 1, p. 472.

[21] Veja-se: Joel R. Beeke; Mark Jones, orgs. Teologia Puritana: Doutrina para a vida.  São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 1056.

[22] João. Calvino, As Institutas, IV.14.10. Veja-se também: As Institutas, IV.14.17.

[23] João Calvino, Efésios, (Ef 5.26), p. 169. Ver também: As Institutas, IV.14.8-10.

[24]Em outras palavras: “O sacramento, com respeito a Deus, é um sacramento mesmo sem a fé, mas, com respeito a nós, sem a fé ele é um sinal vazio” (François Turretini, Compêndio de Teologia, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 3, p. 619). Veja-se: Herman Ridderbos, A Vinda do Reino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 314.

[25]Veja-se: Agostinho, On The Gospel of St. John: In: Philip Schaff, ed. Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, 2. ed. (First series), Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1995, v. 7, Tractate XXVII.7, p. 175-176.

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