Mesmo no Antigo Testamento, os patriarcas, os profetas e o povo em geral foram perdoados, não porque ofereceram sacrifícios, mas sim, pela fé no Cristo que viria. As ofertas quando apresentadas como ato sincero de obediência a Deus eram aceitas como expressões de fé. A obra de Cristo envolve todos os crentes: todos os fiéis do passado, presente e futuro.[1] “A única maneira de alguém ser perdoado, antes de Cristo, depois de Cristo e em qualquer ocasião, é através de Cristo, e este crucificado”, enfatiza Lloyd-Jones.[2]

 

A obra de Cristo envolve todo o Seu povo, ninguém ficará de fora nem jamais houve ou haverá redenção fora do sacrifício único e vicário de Cristo: a obra de Cristo é completa e suficiente. No Calvário, o Senhor Jesus não verteu uma gota sequer de sangue que fosse em vão. Não houve desperdício, nem carência. Ele expiou os pecados de todo e exclusivamente de seu povo.

Escreve Calvino:

 

Em cada época, desde o princípio, houve pecados que necessitavam de expiação. Portanto, a menos que o sacrifício de Cristo fosse eficaz, nenhum dos [antigos] pais haveria obtido a salvação. Visto que se achavam sujeitos à ira divina, qualquer remédio para livrá-los teria resultado em nada, se Cristo, ao sofrer uma vez por todas, não sofresse o suficiente para reconciliar os homens com a graça de Deus, desde o princípio do mundo e até ao fim. A não ser que desejemos muitas mortes, contentemo-nos com um só sacrifício. (…) Não está no poder do homem inventar sacrifícios como lhe apraz. Eis aqui uma verdade expressa pelo Espírito Santo, a saber: que os pecados não são expiados por um sacrifício, a menos que haja derramamento de sangue. Por conseguinte, a ideia de que Cristo é sacrificado muitas vezes não passa de uma invenção diabólica.[3]

 

Paulo nos diz que o triunfo de Cristo em nos perdoar, concedendo-nos vida, foi manifesto na cruz do Calvário:

 

E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões, e pela incircuncisão da          vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz. (Cl 2.13-15).

 

Em Cristo obtivemos a justificação e o perdão. A justificação é um ato judicial onde Deus declara já não haver culpa em nós porque nossos pecados foram pagos. A Lei foi cumprida. O perdão é um ato soberano por meio do qual Deus livremente desiste de aplicar as sanções da Lei aos pecadores. Portanto, a justificação traz consigo o perdão e outros elementos tais como: reconciliação, paz, adoção, etc.[4]

 

Portanto, nunca é demais insistir no ponto de que o perdão que nos vem pela graça, custou um alto preço para o nosso Salvador: o Seu precioso sangue. A graça é o benefício das obras de Cristo. “Sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9.22). “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7).

 

Por isso, já não há condenação para todos aqueles que estão em Cristo (Rm 8.1). O perdão está associado de forma dependente à autoentrega graciosa de Deus em Cristo (Rm 8.32/2Co 5.21).

 

O perdão não torna Deus indiferente ao pecado, nem revela uma frouxidão ou atenuação no padrão de Deus (Ex 34.6-7); mas, sim, o seu amor ativo em Cristo que teve como trajetória eternamente definida a cruz, o sacrifício. A cruz revela a gravidade de nossa ofensa ao Deus santo e, também, a grandeza incomensurável e incompreensível de Seu amor.

 

Por isso, Paulo diz: “Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). “O perdão é obra exclusiva de Deus, é dom de Deus”.[5]

 

Jesus Cristo, nosso Mediador,[6] cumpriu de forma cabal e vicária as demandas da Lei em favor do Seu povo.[7] Se a Obra de Cristo não fosse plenamente satisfeita, não haveria “bênção” alguma a ser aplicada (Jo 17.4; 19.30; Hb 9.23-28; 1Pe 3.18). Isto nos conduz à historicidade da Sua ressurreição.

 

O Senhor Jesus limpou a nossa ignomínia, nos tirando do banco dos réus, tomou sobre Si a nossa vergonha e nos revestiu com a Sua honra e dignidade perfeita.[8]

 

Se para recebermos o perdão é necessário que nos arrependamos e confessemos os nossos pecados (Pv 28.13; Mq 1.4; Mc 1.15; Lc 24.47; At 2.38; 5.31; Hb 6.1; Tg 5.16; 1Jo 1.9), o arrependimento não nos dá o direito ao perdão; o arrependimento não é o gerador do perdão; Deus não é obrigado a nos perdoar. O arrependimento é condição essencial ao perdão, porém, insisto, não o torna obrigatório: Deus é soberano na concessão da Sua misericórdia perdoadora. Ele nos perdoa graciosamente, fundamentado nos merecimentos de Cristo Jesus.

 

Deus nos perdoa não porque seja obrigado, mas porque Ele é misericordioso;[9] Ele olha para o nosso estado de miséria espiritual e livremente se compadece de nós e nos alivia, nos perdoando os pecados, apagando toda a nossa iniquidade. A misericórdia de Deus exclui qualquer mérito humano. Por meio dela, somos perdoados, reconciliados e recebemos vida.[10]

 

O salmista escreve: “Ele, porém, que é misericordioso, perdoa a iniquidade, e não destrói; antes muitas vezes desvia a sua ira, e não dá largas a toda a sua indignação” (Sl 78.38).

 

Daniel em sua oração tem a mesma percepção:

 

Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos, e olha para a nossa  desolação, e para a cidade que é chamada pelo teu nome, porque não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas justiças, mas em tuas muitas misericórdias. (Dn 9.18).

 

Deus nos perdoa porque nos ama. O seu amor não encontra motivo em nós para amar; todavia Deus que é amor, nos ama porque resolveu nos amar. Em outras palavras: “Deus jamais encontrará em nós algo digno de seu amor, senão que Ele nos ama porque é bondoso e misericordioso”.[11] (Jo 3.16; Rm 5.8; Cl 3.12-14).

 

O perdão de Deus jamais poderá ser compreendido sem a consideração devida do seu amor eterno e imutável.[12] Jesus mesmo nos ensinou que “Aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama” (Lc 7.47). O Seu perdão fundamenta-se no Seu amor, que é soberanamente livre e invencível.

 

Dessa forma, não há condições meritórias a serem cumpridas antes do perdão nos ser concedido. O arrependimento não torna o perdão compulsório; ele na realidade é uma concessão da graça de Deus.

 

“A fé e o arrependimento não devem ser reputados coisas meritórias mediante as quais merecemos o perdão. Pelo contrário, são os meios pelos quais nos apropriamos da graça de Deus”, escreve Leon Morris (1914-2006).[13]

 

O perdão de Deus não tem prazo de validade. Nem precisamos pagar por uma garantia estendida. O sangue de Cristo tem um valor eterno. As bênçãos comunicadas por sua obra têm um valor infinito e para sempre.

 

Deus nos diz na Sua Palavra:  “Pois, perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jr 31.34; Hb 8.12; 10.17).

 

“Jamais me lembrarei”. A promessa de Deus não é condicionada; é absoluta. Ela não pode ser revertida; não está determinada pelo nosso “bom comportamento”. Se assim fosse, o perdão de Deus não perduraria. Entretanto, Ele diz que jamais se lembrará dos nossos pecados… Jamais!. Esta é a sua promessa.

 

Notemos que não há um “esquecimento” em Deus, mas, sim, o seu propósito deliberado de não mais considerar as nossas faltas.

 

É Deus mesmo Quem nos declara justos.

 

Haverá alguém que possa apresentar novas provas contra nós que já tivessem sido expiadas por Cristo? “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (Rm 8.33).

 

Ora, se isso é assim, poderia alguém raciocinar: por que, então, os crentes oram constantemente pedindo perdão a Deus pelos seus pecados?

 

Creio que as palavras de A. Booth (1734-1806) são oportunas aqui:

 

O fato dos crentes orarem continuamente para que Deus lhes perdoe os pecados não significa que eles já não estejam perdoados. Eles buscam a consciência de que foram perdoados. Não vamos imaginar que toda vez que eles pecam, arrependem-se, confessam o seu pecado e pedem perdão, Deus realiza novos atos de perdão. Contudo, eles precisam conscientizar-se sempre de que o perdão já lhes pertence, por serem filhos de Deus. [14]

 

Portanto, quando arrependidos e sinceramente pedimos perdão a Deus, estamos dizendo: Senhor, dá-me consciência do Teu perdão, garantido de forma definitiva por meio da Pessoa e Obra de Cristo Jesus.

 

O salmista canta e ora a Deus nessa convicção:  “Pois tu, Senhor, és bom e compassivo (xl;s)’ (salach); abundante em benignidade para com todos os que te invocam” (Sl 86.5). “Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades; quem sara todas as tuas enfermidades” (Sl 103.3).

 

O Catecismo de Heidelberg (1563), na questão 56, lemos:

 

Que é o que crês sobre “a remissão dos pecados”?.

R. Que, por causa da obra reconciliadora de Cristo, Deus não se lembrará mais dos meus pecados ou da maneira pecaminosa contra a qual tenho de lutar durante toda a minha vida; mas que ele graciosamente imputa a mim a justiça de Cristo, de modo que eu jamais virei a ser condenado.

 

Curitiba, 6 de março de 2019.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

 

*Este post faz parte de uma série. Acesse aqui a série completa

 


 

[1]“Quando o Filho de Deus sofreu e morreu, Ele assim expiou os pecados de todos os que o aceitaram ou iriam aceitá-lo por meio de uma fé viva, ou seja, por todos os crentes de ambas as dispensações. Os méritos da cruz estendem-se tanto para trás como para adiante” (W. Hendriksen, Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, (Rm 3.25-26), p. 178).

[2] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: FIEL., 1984, p. 359. “Ninguém pode dizer, nem por um momento, que pessoas como Davi, Abraão, Isaque e Jacó não foram perdoadas. Mas não o foram por causa daqueles sacrifícios que ofereceram. Eles foram perdoados porque olhavam para Cristo. Não percebiam isso claramente, mas criam no ensinamento e faziam essas ofertas pela fé. Criam na Palavra de Deus, que Ele um dia no porvir, proveria um sacrifício, e pela fé se mantiveram firmes nisso. Foi a fé em Cristo que os salvou, exatamente como é a fé em Cristo que salva agora” (D.M. Lloyd-Jones, A Cruz: A Justificação de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (s.d.), p. 9-10).

[3]João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 9.26), p. 245-246. “A razão pela qual Deus ordenara que se oferecessem vítimas como expressão de ações de graça foi, como é bem notório, para ensinar ao povo que seus louvores eram contaminados pelo pecado, e que necessitavam de ser santificados exteriormente. Por mais que proponhamos a nós mesmos louvar o nome de Deus, outra coisa não fazemos senão profaná-lo com nossos lábios impuros, não houvera Cristo se oferecido em sacrifício com o propósito de santificar a nós e às nossas atividades sagradas (Hb 10.7). É através dele, como aprendemos do apóstolo, que nossos louvores são aceitos” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Edições Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 66.15), p. 631).

[4]Veja-se: A.A. Hodge, Esboços de Teologia, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 201, p. 706.

[5] G. Aulén, A Fé Cristã, São Paulo: ASTE, 1965, p. 258.

[6] “Falando de modo geral, Messias é o termo do Velho Testamento para o Redentor, e Mediador é o termo no Novo Testamento” (W.G.T. Shedd, Dogmatic Theology, 2. ed. Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1980, v. 2, p. 353-354).

[7]Vejam-se: Confissão de Westminster, (1647), VIII.1,5,8; Catecismo Maior de Westminster, Questões: 36, 37 e 59; J. Calvino, As Institutas, II.17.1ss.

[8] Veja-se: Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, 2. ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1984, p. 61.

[9] “A misericórdia não é um direito ao qual o homem faz jus. A misericórdia é aquele atributo adorável de Deus, pelo qual tem dó dos miseráveis e os alivia” (A.W. Pink, Deus é Soberano, p. 23).          

[10]Veja-se: João Calvino, O evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 3.16), p. 131-132.

[11]João Calvino,  As Pastorais,  São Paulo: Paracletos, 1998, (Tt 3.4), p. 347.  “Não devemos ignorar a antítese entre o nome de Deus e os méritos dos homens, visto que Deus, levando em conta sua própria glória, não pode achar em nós nenhuma causa pela qual ele fosse movido a salvar-nos” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 106.8), p. 674).

[12] John Murray (1898-1974) observou acertadamente que, “nenhum estudo da expiação pode ser devidamente desenvolvido sem reconhecer em primeiro lugar o livre e soberano amor de Deus (…). Este amor é a causa ou a fonte da expiação” (John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 11, 13).

[13] Leon Morris, Perdão: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 3, p. 1268a.

[14] A. Booth, Somente pela Graça, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 32.  Do mesmo modo escreveu L. Berkhof: “Esta consciência do perdão e de um renovado relacionamento filial muitas vezes é perturbada e obscurecida pelo pecado, e de novo é despertada e fortalecida pela confissão e oração, e por um renovado exercício da fé” (L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 519).


1 comentário

A riqueza da fecunda graça de Deus e a frutuosidade de uma fé obediente e perseverante (24) por Rev. Hermisten Maia | CFNEWS · 14 de março de 2019 às 17:56

[…] Mesmo no Antigo Testamento, os patriarcas, os profetas e o povo em geral foram perdoados, não porque ofereceram sacrifícios, mas sim, pela fé no Cristo que viria. As ofertas quando apresentadas como ato sincero de obediência a Deus eram aceitas como expressões de fé. A obra de Cristo envolve todos os crentes: todos os fiéis do passado, presente e futuro.[1] “A única maneira de alguém ser perdoado, antes de Cristo, depois de Cristo e em qualquer ocasião, é através de Cristo, e este crucificado”, enfatiza Lloyd-Jones.[2] […]

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